E as ciclovias!? Vão bem, obrigado (por enquanto)!

 

Ciclofaixa Moema

 

Esses dias, publiquei aqui no Blog texto no qual me referia ao esforço que devemos fazer para mudar nossos hábitos. Falava da atividade física e do mau costume que temos de voltarmos ao sedentarismo duas semanas depois de feita a inscrição na academia mais próxima de casa. Pesquisas provam que precisamos de 66 dias para transformar uma ação em rotina. Lembrei-me disso ao ler e publicar o texto do colega de blog Julio Tannus no qual critica as ciclovias implantadas em São Paulo e a falta de planejamento na cidade.

 

Por anos nos acostumamos a usar o automóvel, meio de transporte privilegiado tanto pela forma como a cidade se espraiou sem que o sistema público conseguisse alcançar as franjas da capital quanto pelo incentivo à indústria automobilística. De maneira geral, nossas cidades transformaram-se em grandes aglomerados urbanos sem que suas administrações encontrassem formas de financiar a expansão necessária do transporte coletivo – e São Paulo é o exemplo mais bem acabado deste modelo (ou seria, mal acabado?). O resultado é o drama diário de paulistanos que passam parte do dia emperrados no trânsito enquanto tentam se deslocar de casa para o trabalho, do trabalho para a escola, e vice-versa.

 

Desconstruir essa lógica da cidade, convidando as pessoas a deixarem o carro em casa e em troca oferecendo sistema de ônibus e metrô mais eficiente e espaço para bicicleta, é tarefa para muito mais do que uma gestão. Um costume que exigirá investimento e envolvimento em ações conjuntas do poder público e privado. Imagino que ninguém têm a ilusão de que as faixas pintadas nas ruas e avenidas, seja para ônibus seja para bicicletas, resolverão esse problema. Porém, e aí começo a me distanciar do que pensa meu colega de blog, havia a necessidade de alguém disposto a dar a “pincelada” inicial.

 

A atual administração decidiu tomar para si a responsabilidade de implantar ciclovias como já havia feito com as faixas nem tão exclusivas de ônibus. Aposta que o número de ciclistas aumentará – como já se percebe em algumas vias – tanto quanto cresceu a velocidade dos coletivos. É verdade que se esqueceu de conversar com os cidadãos, o que poderia ter amenizado a reclamação inicial e evitado alguns atropelos e rotas impróprias. As faixas vermelhas, porém, servem de alerta aos motoristas de carro para algo que o próprio Código Nacional de Trânsito já prevê, mas nunca foi respeitado: o compartilhamento da via pública entre carros, caminhões, ônibus, motos e bicicletas. Em nenhum momento é exigida identificação dos ciclistas e da bicicleta, mas lhe é cobrado o respeito às leis de trânsito – mesmo porque a condução imprópria deste veículo tende a ser muito mais arriscada ao seu condutor do que a terceiros.

 

As dimensões e geografia de São Paulo devem servir muito mais de incentivo do que restrição para o uso da bicicleta. Com uma cidade deste tamanho (e altura) pode-se, por exemplo, pedalar em trechos menores e medianos, reduzindo a frequência com que usamos o carro, ou integrá-la ao transporte coletivo, como ocorre em algumas estações.

 

O que mais prejudica a implantação das faixas de ônibus e de bicicleta é a falta de confiança do cidadão no poder público. Poucos creem que as medidas persistirão e apostam que assim que a tinta começar a desbotar as boas intenções permanecerão apenas na propaganda de governo. Prevêem que as faixas de ônibus nunca se transformarão em corredores exclusivos, e as de bicicleta logo estarão tomadas por todo tipo de obstrução. E têm motivos para isso: nossa história, como o próprio Tannus, descrente, descreve em seu texto, está cheia de bons planos nunca executados e execuções mal planejadas.

 


Não deixe de ler o texto do nosso colunista Julio Tannus que gosta muito de bicicleta, mas não de como estão nossas ciclovias

8 comentários sobre “E as ciclovias!? Vão bem, obrigado (por enquanto)!

  1. Meu caro Milton, talvez não tenha deixado claro o suficiente a minha posição sobre as ciclovias. Não sou contrário a mudança de hábitos no sentido de melhorar nossa possibilidade de locomoção na cidade. Critico a forma como foi implantada. Sem qualquer estudo/pesquisa sobre a disposição da população em aderir a essa novidade. Além disto, vejo a cidade totalmente entregue a falta de fiscalização, sem um plano adequado para sua ocupação, ou seja, edifícios imensos são erguidos em ruas estreitas e com trânsito já totalmente estrangulado. Sem falar na condição de nossas pavimentações – haja suspensão dos veículos para aguentar tantos buracos!

    • Julio, disto não tive dúvida: seu alvo foi o planejamento, como, aliás, destaco na frase final do meu post; nesta área nem dividiria bola com você, pois sua experiência no tema é muito maior, basta ler o currículo exposto na abertura do seu post ou na apresentação que faço no pé do post (não é para qualquer um). Sei, inclusive, que você é ciclista. O que faço questão, porém, é que nossas críticas não interrompam iniciativas favoráveis às bicicletas, ao contrário, que sirvam para melhorá-las. Como você mesmo foi obrigado a experimentar em sua carreira, boas ideias podem se perder por má execução ou falta de vontade política.

  2. Carlos – por isso, o uso não é indiscriminado. pode ser calculado. agora, independentemente dos problemas que existam, impostos pela geografia, toda madrugada, a caminho da rádio, passo por ciclistas que têm no pedal não a alternativa, mas a única saída para chegar ao trabalho. Eles encaram as subidas da Giovanni e da avenida Morumbi, apenas para citar meu trajeto, e, provavelmente, não encontrarão no local do trabalho o conforto esperado. Aí entra outra questão: as empresas (“poder privado”) oferecerem vestiário para os funcionários/ciclistas. A propósito, isto já acontece na CBN. Dr Saldiva, dos maiores pneumologista do país, aderiu a bicicleta há muitos anos e impôs a colocação de chuveiro nos dois locais em que trabalha: no consultório e na universidade.

    A bicicleta não é a única solução do trânsito em São Paulo. Mas deve ser uma opção. Não pode ser eliminada do viário como foi por muitos anos. Eu, você e todos os caros e raros leitores têm de ter direito a escolha: carro, ônibus, trem, moto ou bicicleta. Mas para que este direito exista será preciso, ainda, muito investimento do poder público e privado no transporte coletivo. Com a demora nos trajetos, a superlotação e o não investimento na ampliação do metrô e na construção de corredores exclusivos, estes meios de transporte não são opção, são castigo para trabalhadores e estudantes que precisam se deslocar nas cidades.

    Minha bicicleta está em casa, enquanto ando de carro a maior parte do tempo ao seguir para o trabalho de madrugada e em distância e relevo que não me são convidativos. Mas quero ter o direito de fazer esta escolha e não que isto seja uma obrigação. Conheço pessoas que deixam a região onde moro para fazer todos seus trajetos, mesmo distantes, no pedal porque acostumaram-se a andar de bicicleta. A eles temos de oferecer este direito. Não podemos, com estruturas parcas cassar esta possibilidade.

  3. Querem um exemplo de que pode dar certo? No Jardim Helena zona leste de São Paulo. Percursos pequenos e área plana. Agora pintar faixa vermelha de Itaquera até o Tatuapé ou pintar a Av Assis Ribeiro é chamar o paulistano de adjetivos pejorativos. Idem as da Pompéia. As do centro da cidade passa um ciclista a cada uma hora e olhe lá. O problema é o discurso político que faz com que essas faixas sejam a oitava maravilha e elas se tornam um engodo como sendo a solução para o transporte público em SP. Hoje eu passei pelo “aerotrem” lá na Vila Prudente. Paulistano gosta desse tipo de transporte só que São Paulo tem que andar com as próprias pernas porque o governo federal só arrecada aqui e não investe nada na sua maior fonte arrecadadora…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s