Por Dora Estevam
Depois do caso Galliano, a semana de moda de Paris não poderia esperar mais nenhuma surpresa. Engano seu ! Sempre é possível ir além.
E quem virou notícia (de novo) foi Kate Moss, que desfilou para Louis Vuitton em coleção que marca o inverno 2011-2012 da grife.
Mais do que a entrada espetacular da moça, o que realmente marcou e acabou na boca das comadres foi a celulite dela. Isso mesmo, ce-lu-li-te com todas as sílabas e marcas. A modelo, que já passou dos 30, enfrentou os holofotes da moda sem pudor. O que ela não poderia imaginar é que a comparação seria instantânea. Num momento pós-Gisele isso jamais deveria acontecer. É encarado como uma depreciação do modelo feminino.
Kate Moss não foi á única veterana na passarela, mas foi a que marcou. Afinal, é uma iconoclasta polêmica.
Além de tudo, a moça desfilou fumando em contraponto ao Dia Sem Fumo. Dizem que até aplaudiram. Não sei se apoio à ideia ou gosto pelo arrojo. De qualquer forma, o look casaco de pele, luvas pretas e botas fetichistas faziam parte do tema da marca.
Tema que o diretor de criação Marc Jacobs desenvolveu após uma conversa com Bernard Arnault do grupo LVMH sobre a “inexplicável” obsessão que as mulheres têm por bolsas.
O fetiche às fetichistas.
A produção do cenário, realmente, estava maravilhosa, com quatro elevadores antigos, porteiros de uniforme e tudo mais. As modelos entraram na passarela com fortes referências a bellboys, copeiras e arrumadeiras. Uma delas, a italiana Mariacarla Boscono, tinha em mãos um enorme espanador de penas de avestruz … e nos pés uma sandália de salto fininho entrelaçada quase até o joelho.
Casacos também fizeram parte da coleção, foram 65 looks de todos os tipos: casacos-vestidos estruturados, mangas volumosas, botões grandes; colarinhos tipo Peter Pan e calças jodhpur. Radicais foram os comprimentos, com modelos que terminavam logo abaixo do joelho.
De todas as coleções que vi nesta temporada, sem dúvida, a que mais marcou foi a Louis Vuitton. Usar o tema fetiche foi uma grande sacada. Nós mulheres temos um desejo irracional em conquistar bolsas e acessórios, não poderia ser diferente. Ainda que nem falei das peles dos casacos. São detalhes que não decepcionam o público feminino. Só precisamos encher os bolsos e as bolsas de dinheiro para ter tudo isso.
Nada como um pouco de fetiche para agradar as retinas das editoras de moda. Marc Jacobs provou ser um artista brilhante, fez tudo terminar em triunfo com um grande show, magistralmente orquestrado por ele, que está na sua melhor forma.
A sensação de rigor que conseguiu criar, o desejo, obsessão, fetiche tudo inspirado na coleção, estavam alinhados. O casting que escolheu foi apenas o creme do bolo. Modelos veteranas e muitas brasileiras: Naomi Campbell, Raquel Zimmermman, Izabel Goulart, Aline Weber, Isabeli Fontana e Bruna Tenório.
De volta a celulite.
O caso bastou para a editora do site Tendances de Mode, Coco, relembrar que, depois de criticar a perda de peso do Crystal Renn no documentário “Picture Me” de Sarah Ziff, o mundo da moda nos mostra, mais uma vez, a sua atitude com o corpo da mulher que pode ser esquizofrênico. E que além de tolerar as ideias duvidosas, seria melhor ficar em casa do que enviar uma mensagem negativa às mulheres geneticamente programadas para desenvolver celulite.
Sara Ziff disse ainda que, ao invés de se perderem em discursos grandiosos sobre anorexia na moda urbana, seria melhor apontar o dedo para a deficiência das supermodelos que já passaram dos 30 e querem continuar no pódio.
A quem interessar possa, cenas de “Picture Me” de Sarah Ziff:
Nada disso compromete o desfile: a coleção e a produção estão deslumbrantes, KateMoss foi e sempre será polêmica. Mas se cabe uma sugestão: só não podemos imitá-la nem com cigarrinho, nem com celulite.
Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung





















