Celulares e smartphones, as drogas contemporâneas

Por Carlos Magno Gibrail

 


Campanha de vídeo da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego

 

Estes engenhos eletrônicos têm propiciado aos usuários benefícios e vícios. Tais quais as drogas proibidas, sensações e emoções com sequencias de auto-dependência e interferência danosa a terceiros.

 

Como novos elementos a fazer parte da vida atual, são embalados pela utilidade e pelo prazer que fornecem. Entretanto, a certeza futura do aumento de usuários e da intensidade de uso é preocupante. É hora de estabelecer algum ordenamento jurídico e social para que possam conviver civilizadamente em nosso meio.

 

Os fabricantes preveem que até o ano 2020 não existirão mais celulares. Eles serão substituídos pelos smartphones. Portanto, desconsideremos os inofensivos efeitos dos celulares, embora produzindo irritantes incômodos em salas de espera, aeroportos, elevadores e demais locais em que somos obrigados a ouvir intimidades de toda espécie, avançando em nosso direito de pensar, ler ou mesmo de não fazer nada. Vamos aceitar até mesmo a ilegal e perigosa fala ao dirigir veículos.

 

Os smartphones, estes sim, trazem um perigo multiplicado. De acordo com matéria publicada na revista Época sobre o tema, um estudo da Universidade Tecnológica da Virginia, EUA, dirigir falando ao telefone duplica a possibilidade de acidente. Entretanto ao teclar, o potencial de risco é multiplicado por 23. Além disso, diante de um simulador para medir a reação do motorista em diversos estados de atenção, constatou que ao digitar em redes sociais no smartphone o pesquisado teve a reação reduzida em 38%, enquanto quem fumava maconha ficou mais lento em 21% e quem bebeu de 2 a 3 latas de cerveja respondeu 12% mais demoradamente ao estímulo. Portanto, o Smartphone é 100% mais perigoso que o álcool, e 40% mais danoso que a maconha. Descoberta e tanta, digna do Freakconomics quando alertou que piscina mata mais criança do que revólver em casa.

 

Se considerarmos que o Smartphone além de prazer fornece utilidade e a imagem operacional não causa reprovação, seu potencial de uso comparativo com álcool e maconha é bem maior. Principalmente no trânsito caótico que vivemos.

 

É hora de cuidarmos do Smartphone. Antes talvez que nossa ultima frase esteja digitada no próprio, como o da garota americana de 18 anos. Taylor Sauer teclou: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no Facebook não é seguro! Haha”. Bateu no veículo à frente que andava a 25km/h.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Preservem os ciclistas

 

Ciclovia na Radial Leste

 

A morte de mais uma ciclista na avenida Paulista, sexta-feira, ocorreu no dia seguinte a reportagem publicada no Jornal Nacional a qual mostrava que a bicicleta ganhava espaço na cidade. Ao assisti-la na noite de quinta-feira, além da satisfação de ver meu incentivador Andre Pasqualini como personagem, pensei como esta poderia influenciar a visão das pessoas e, principalmente, atenuar o medo que meu pai sente sempre que tem notícias de que irei pedalar na cidade. Ele, por mais de uma vez, escreveu nos posts de quinta-feira aqui no Blog, às muitas restrições que tem ao uso da bicicleta em ruas tomadas por automóveis, e defendeu a ideia de que o comportamento dos motoristas e a diferença de forças entre os dois modos de locomoção são um risco a vida de quem pedala. Importante ressaltar que meu pai, aos 76 anos, gosta de dar suas pedaladas aos fins de semana e aproveita a proximidade para exercitar as pernas de casa até as margens da praia de Ipanema, no Rio Guaíba, na zona sul de Porto Alegre. Em seus textos já confessou, porém, que prefere usar as calçadas e faz questão de descer da bicicleta toda vez que precisa atravessar a rua até chegar a ciclofaixa disponível ao longo do rio. Ao ler as notícias que chegam de São Paulo, seu temor de que serei vítima de acidente vai se acentuar, não tenho dúvidas. Quase consigo ouvi-lo: “não te avisei ?”

 

O fato é que ciclistas morrem todas as semanas na cidade de São Paulo – um por semana, dizem as estatísticas oficiais. Quando esta se registra em avenida tão conhecida ganha caráter simbólico, provoca protestos, mensagens indignadas e pedidos de punição exemplar. Em Porto Alegre, não é diferente, foi lá que um tresloucado acelerou seu carro e atropelou vários ciclistas durante uma bicicletada. Lembra? Fez um ano há poucos dias. Precisamos, porém, perceber que além de ciclistas, morrem pedestres, também. E muitos. Assim como motociclistas e motoristas de carros – estes últimos em menor número. Nem por isso, defendemos o fim dos passeios a pé – apesar de que este parece ser o sonho de alguns governos de tanto que incentivam o uso do transporte motorizado individual.

 

Onde quero chegar com este texto, é mostrar a você que me acompanha no Blog que não adianta deixarmos as bicicletas em casa sob a alegação de que do jeito que as coisas estão é praticamente um suicídio encarar o trânsito pesado. Sei que esta é a primeira reação da maioria, eu mesmo pensei duas vezes antes de sair pedalando no fim de semana, em São Paulo. Meu temor havia aumentado. Mas isto é o que desejam aqueles que seguem acreditando que os carros são os donos das ruas. Nós precisamos é ocupar, cada vez mais, as cidades com bicicletas, pois enquanto pedalar for um fator surpresa no trânsito, muitas mortes vão ocorrer. Precisamos transformá-la em lugar comum, abrir espaço e tomar as vias públicas, ganhar o respeito dos demais que a utilizam a bordo de um automóvel, ônibus ou caminhão – e, também, respeitá-los, seguindo as regras de boa convivência e de trânsito. Ao menos assim, quando souber que fui andar de bicicleta, meu pai, em lugar de medo, terá orgulho. E eu, também, da cidade que escolhi viver.

Uma lágrima por Daniel Piza

 

Daniel era amigo à distância. Falávamos muito mais por telefone e e-mail do que ao vivo. Nos últimos tempos, dúvidas profissionais pautavam nossas raras conversas, tendo o rádio como cenário central. Infelizmente, não tivemos tempo para o almoço programado desde que nos encontramos pela última vez na Cidade do Cabo, durante cobertura da Copa do Mundo da África do Sul. Na sexta-feira passada, Daniel Piza teve um AVC e morreu na cidade de Gonçalves, interior de Minas, com apenas 41 anos. Em vida, assim como na morte, tudo parece ter acontecido rápido demais para ele. Tinha pressa para aprender e uma capacidade de ler e escrever impressionantes. Assim como lia quantidade enorme de livros, conseguia absorver o conhecimento e traduzir para o público. Seu talento se revelou ainda jovem nas redações do Estadão e da Folha, na primeira metade da década de 90, trabalhos que o levaram a editar o que já foi considerado o melhor caderno de cultura do jornalismo impresso, o Fim de Semana da extinta Gazeta Mercantil.

Tive a oportunidade de dividir com ele o programa Leitura Dinâmica, na estreia da Rede TV!, em 1999. Além de crônicas e comentários do cotidiano, tinha um desafio que poucos profissionais seriam capazes de fazer com a personalidade e perfil que ele deu ao quadro: criticar a edição das revistas Veja, Isto É e Época. Desde que saiu da TV, o Leitura perdeu a graça. Fomos colegas, também, na CBN quando trabalhou como comentarista de esporte. Corintiano convicto, era capaz de falar do futebol driblando o lugar comum. Nem sempre seu estilo era compreendido pelos “especialistas”. Registre-se: conseguia falar de qualquer assunto sempre com olhar diferenciado e extrema capacidade. Era em busca deste conhecimento que eu fazia questão de abrir a leitura dominical dos jornais pela coluna Sinopse que escrevia no Estadão. Fui apresentado a obras e artistas, conheci músicos e músicas, e tive acesso a um mundo que desconhecia graças a inteligência de Daniel.

A morte precoce deste amigo mexe com os nossos sentimentos pois sempre temos a ilusão de que as pessoas que estão em nosso entorno serão eternas, principalmente as geniais como ele. Daniel nunca acreditou nisso, assim como não acreditava em vida eterna – talvez por isso tenha sido tão intenso como jornalista, marido e pai. Mesmo morrendo, ele tinha algo a me ensinar.

Morte na linha do trem da CPTM

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Morte na linha do trem CPTM

Três funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), foram mortos por um trem da companhia por volta das 4h30 na madrugada deste domingo (27), próximo ao Metrô Belém, na Zona Leste de São Paulo. Segundo um agente da CPTM, os quatros funcionários caminhavam no leito da via quando em momento de descuido foram abalroados pelo trem que ia no sentido Brás. Um homem conseguiu escapar sem ferimentos.

A Polícia Científica compareceu ao local às 9h55. Curiosos se aglomeraram na estação do Metrô Belém.

Leon Cakoff foi genial e pautou São Paulo

 

A morte de Leon Cakoff incomoda muito. Não era amigo nem parente. Nunca devo ter conversado com ele ao vivo e em cores. Fiz, porém, algumas entrevistas obrigatórias. Não impostas, como podem entender alguns ao ler a frase anterior. Mas por mérito. Impossível pensar e discutir São Paulo sem ser pautado por ele. Cakoff foi genial em seu propósito e fez da cidade um circuito internacional de cinema trazendo para cá criações que jamais teríamos oportunidade de assistir nas telas comerciais. Nos proporcionou parte dos prazeres que teve na época de menino em que morou no bairro do Tremembé, zona norte da capital. Foi lá que viu seus primeiros filmes projetados em 16 milímetros em um lençol esticado na rua por um dos vizinhos, na paróquia da Igreja de São Pedro em sessões organizadas pelo Padre Bruno ou nas poltronas do Cine Ipê, que visitava acompanhado pela mãe. Em depoimento ao Conte Sua História de São Paulo, que apresento na CBN, Leon Cakoff lembrou que o Tremembé era um bairro distante do centro onde respirava os ares do interior: “sentia-me um pequeno índio em uma aldeia sendo nutrido por esta curiosidade pelo cinema”.

Ouça o depoimento de Leon Cakoff ao Conte Sua História de São Paulo, em 2007

Leon Cakoff morreu nesta sexta-feira, aos 63 anos, vítima de câncer. Uma notícia que incomoda demais por revelar como somos frágeis e dependemos de homens como ele. São Paulo sentirá muita falta deste gênio.

A morte de Escurinho

 

Por Airton Gontow

Eu não lembro bem em que Gre-Nal foi. Mas o Grêmio ganhava por 1 a 0 e parecia que dessa vez tinha tudo para quebrar a terrível e torturante hegemonia colorada no futebol gaúcho. A torcida gremista, em maioria no estádio Olímpico, festejava o resultado e a ampla supremacia do time na partida. Até que faltando poucos minutos, 15 talvez, o treinador colorado mandou Escurinho aquecer.

Um murmúrio tomou conta do lado azul. No canto do estádio, os colorados se agitaram. Até que ele, negro, alto e esguio, entrou em campo. Parecia que já estava escrito. Ao primeiro cruzamento, os até então inexpugnáveis zagueiros gremistas sentiram as pernas pesadas. A torcida tricolor sentiu a espinha gelada, como se um vento minuano tivesse rapidamente passado pelo estádio. Escurinho subiu alto, muito alto, mais alto ainda do que você, leitor, imagina e, de cabeça marcou o gol de empate do Inter.

Como poucos, Escurinho personificou o jogador “Camisa 12”, aquele que entra no segundo tempo e resolve o jogo. Aquele herói que nunca consegue conquistar um lugar na equipe titular, mas que é decisivo ao entrar para salvar a Pátria, fundamental nas partidas difíceis, essencial para a conquista de títulos. Nunca vi alguém cabecear como ele.

Chego a dizer que daquele time colorado que foi octa gaúcho e tricampeão brasileiro (Escurinho participou de sete conquistas estaduais e de duas nacionais), eu não temia os craques, mas sim o Escuro, que tinha o poder de tornar meus domingos menos azuis.

Nos últimos anos, o ídolo colorado teve uma vida muito difícil. Com diabetes e insuficiência renal passou longos períodos hospitalizado. Chegou a ter amputadas ambas as pernas, triste ironia da vida para quem saltava tão alto nos tempos de jogador. A direita em 2009. A esquerda este ano. Felizmente, encontrou a solidariedade e o reconhecimento dos antigos colegas, da torcida vermelha e da diretoria colorada, que doou para ele a bilheteria do filme “Nada vai nos Separar”, que narra os 100 anos do time gaúcho.

Na última terça-feira, 27 de setembro, recebi ao final da tarde de um lindo dia a notícia de que Luís Carlos Machado, o Escurinho, morreu, de parada cardíaca, aos 61 anos. Olhei para o céu. Nuvens vermelhas começavam a tornar meu dia menos azul. Imaginei o Escuro subindo, subindo, subindo…Um frio congelou minha espinha. Mas logo abri um sorriso. “Escurinho finalmente pode voltar a saltar, a voar sobre todos nós”, pensei, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto. Olhei novamente para cima. Agora não havia nem azul, nem vermelho. O céu estava quase escuro. Estava Escurinho…

-Descanse em paz, meu querido e inesquecível rival…


Airton Gontow, 49 anos, é cronista, jornalista e gremista

Médicos pedem rigor para carteira de motociclista

 

Cidade das motos

Em dez anos, os atendimentos pré-hospitalares a vítimas de acidentes com motos aumentaram 148,6% na cidade de São Paulo, de acordo com números divulgados pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Em 2010 foram 18.081 ocorrências contra 7.271 atendimentos em 2001. O mais preocupante nos dados divulgados neste início de semana é que os acidentes costumam aumentar em mais de 50% no segundo semestre do ano.

Na tentativa de mudar este cenário, o I Fórum Saúde e Trânsito, realizado em junho, sugeriu a formação de direção defensiva e exame de habilitação adequado às condições de trânsito que serão enfrentadas pelos motociclistas, com maios rigor na primeira habilitação. Outra sugestão é criar categorias na habilitação de motociclistas e especificar a velocidade máxima de circulação das motocicletas de acordo com as características de cada via.

A discussão, por enquanto, é teórica pois são poucas as medidas efetivas que tenham sido adotadas no País com o objetivo de acabar com o extermínio de motociclistas que assistimos nas grandes cidades brasileiras. Em São Paulo, capital em que o problema se agrava, conforme os números expressos no trabalho desenvolvido pelo HC, houve alguns ensaios sem nenhum convicção por parte da prefeitura na tentativa de reduzir o número de acidentes e mortes de motociclistas.

Um mau sinal para as bicicletas

 

Ciclovia na Radial Leste

No mesmo dia em que publico post entusiasmado com a apresentação da primeira ciclorrota organizada pela CET na cidade de São Paulo (“Um bom sinal para as bicicletas”), leio no Diário do São Paulo sobre o precário estado da ciclofaixa ciclovia na Radial Leste. Os ciclistas que a utilizam reclamam de rachaduras, falta de pintura, acúmulo de lixo entre outros problemas em seus poucos mais de 12 quilômetros de extensão. As mesmas dificuldades já haviam sido apontadas neste blog pelo ouvinte-internauta Samuel Oliveira, a partir de imagem feita por ele, em 25 de abril do ano passado (foto acima).

A ciclofaixa ciclovia foi construída pelo Metrô de São Paulo e liga a estação Corinthians-Itaquera a do Tatuapé. Este, aliás, é outro problema apontado pelos especialistas no tema. Como não segue até o centro da cidade, destino da maioria dos ciclistas da região, a faixa na Radial acaba subutilizada. O Metrô – foi o que disse ao jornal – vai começar obras de manutenção no dia 25 próximo.


Para ler a reportagem do Diário de São Paulo clique aqui


Morte de ciclista em BH

Pior mesmo foi em Belo Horizonte, onde mais um ciclista foi morto no trânsito, desta vez atropelado por um motoristas que estava bêbado, conforme conta o jornal O Estado de Minas. Rubens Vieira tinha 53 anos e pedalava no domingo pela Via Expressa, Bairro Camargos, Região Nordeste da capital mineira. Temunhas informaram à polícia que o motorista, Rogério Valério de Jesus, não parou de acelerar o carro mesmo após atingir o ciclista e percorreu com a vítima em cima do capô por mais de dez metros. Ele não tinha condições sequer de assoprar no bafômetro. A imagem acima foi publicada na edição eletrônica do Estado de Minas.


Leia a reportagem completa  sobre a morte do ciclista aqui

EUA usam violência como política contra o terrorismo

 

A morte de Osama Bin Laden levou americanos às ruas, com bandeiras, buzinas, gritos de vitória, banho em fontes públicas e cartazes que destacavam o resultado da ação com o placar de um jogo de futebol: “Obama 1 x 0 Osama”. Uma festa marcada pela vingança ao assassinato de cerca de 3 mil pessoas no 11 de Setembro de 2001 e milhares de outros em uma série de batalhas e confrontos promovidos sob o título de Guerra ao Terror.

Os Estados Unidos não costumam ser felizes nestas tentativas. Tendem a aumentar o ódio e o pensamento anti-imperialista que movem estes alucinados em todo o mundo. Foi esta política, incentivada pela família Bush, a mãe de todos os homens-bomba que explodiram – e os muitos outros que ainda serão detonados, lamentavelmente.

Obama, prêmio de Nobel da Paz, comemorou a morte do inimigo com um grito de justiça. “Uma justiça medieval, a do dente por dente e olho por olho”, disse logo cedo o professor Arthur Bernardes, de Relações Internacionais da PUC do Rio de janeiro.

O presidente americano após as declarações iniciais na qual assumiu o papel de vingador tentou ficar mais próximo da imagem que construiu para a opinião pública, a de um humanista. E, através do esforço de sua assessoria na Casa Branca, tentou mostrar que não tinha dado licença para matar. Teria sido a reação violenta e o uso de escudos humanos (com mulheres) de Osama que levaram a necessidade de abater a presa.

Os depoimentos de americanos que desfilaram nas televisões nessa segunda-feira, muitos falando com o Grau Zero ao fundo, ponto antes ocupado pelas Torres Gêmeas, são emocionantes. Tristes muitas vezes, pois conviver há dez anos com a injustiça dos ataques covardes dos terroristas deixou marcas profundas na alma e coração daquele povo. Fica-se sensibilizado diante da dor e a tendência é apoiar medidas drásticas e assassinas contra Osama e qualquer outra pessoa suspeita de fazer parte do mesmo ideal.

Mesmo diante de tudo isso, ainda sou favorável a comportamentos civilizados como melhor arma contra os que promovem o terror. Atacar com violência os violentos me parece, às vezes, apenas fazer o jogo destes e reforçar o discurso doente que os incentiva.

Por isso, não me surpreendo ao encontrar em texto de Walter Maeirovitch, no Blog Sem Fronteira, a análise que mais se aproxima a minha ideia sobre o tema:

“… a incivilidade não é a regra no Ocidente que tanto incomodava o terrorista. O respeito à pessoa humana é a regra e entre nós existem, com jurisdição internacional, as cortes de direitos humanos”

Para dizer e escrever isso, porém, é preciso coragem diante da pressão popular e, algumas vezes, da própria opinião dos mais próximos.

O legado do Doutor das Águas, Aldo Rebouças

 

Como a água é um bem fundamental para a vida do ser humano e todo o seu ambiente, temos que criar a consciência de que é um bem finito e que tem que se usado com inteligência e responsabilidade” – Aldo Rebouças (1937-2011)

Coluna publicada no Blog Adote São Paulo da revista Época São Paulo

As cinzas serão mergulhadas nas águas do mar para onde correm todos os rios. Uma nobre homenagem ao professor Aldo Rebouças, que morreu dia 18 de abril, segunda-feira, aos 73 anos, em São Paulo, cidade na qual vivia desde o convite para trazer seu conhecimento à USP, na década de 1970.

Cearense de Peixe Gordo, se formou em geologia pela Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, em 1962. Fez mestrado e doutorado pela Universite de Strasbourg, na França. E pós-doutorado pela Stanford University, nos Estados Unidos.

Muito antes de as preocupações sobre a escassez e tratamento das águas chegarem às autoridades e aos meios de comunicação, Aldo Rebouças já usava sua voz firme e discurso sincero para alertar o mundo sobre como estas questões afetariam a qualidade da oferta do produto.

Criticava duramente a ideia de que a água era abundante, inesgotável e gratuita. Uma falácia que, sabia bem, acabaria por levar ao uso desregrado e impróprio deste recurso que, atualmente, falta para ao menos um bilhão de pessoas e causa a morte de mais alguns milhares pelo Planeta.

Rebouças, este sim, era uma fonte abundante, inesgotável e gratuita de informação.

Entrevistei-o pela primeira vez na época em que trabalhei na TV Cultura, nos anos 90, quando o assunto ganhava espaço na agenda jornalística. Sempre se apresentava no estúdio com documentos e registros que respaldavam suas teses.

Nunca mais perdi seu contato e sempre explorei da capacidade – e paciência – dele para explicar ao público como era possível, por exemplo, a cidade de São Paulo ficar embaixo d’água no verão e sofrer com sua escassez no inverno.

Ensinava que o problema daqui – assim como do restante do Brasil – era a má gestão dos recursos hídricos.

A cidade é contemplada com dois grandes rios, Tietê e Pinheiros, mais uma centena de rios menores e córregos que cortam nossa geografia. Temos, ainda, duas enormes represas, Billings e Guarapiranga. Por outro lado, decidimos ocupar suas várzeas, retificamos seus leitos, encobrimos seus vãos e os transformamos em impressionantes latas de lixo.

Não bastasse isso, consumimos mais do que o recomendado. Hoje, somos perto de 15 milhões de pessoas morando neste ambiente urbano consumindo, em média, 80 litros de água para as necessidades domésticas, todos os dias. Apesar da aparente oferta, somos obrigados a “importar” o recurso de Minas Gerais, pois nossos mananciais não dão mais conta do recado. Também se perde parte da água tratada no caminho das casas, por falta de manutenção das redes públicas.

Professor Rebouças sempre denunciou este cenário. Mas fez muito mais.

Ele próprio diz que sua maior contribuição foi descrever o aquífero Guarani, um manancial de água doce subterrânea que se estende por 1,2 milhão de km2 pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Até seus estudos, a hidrografia reconhecia apenas uma parcela desta água, no aquífero Botucatu.

Colocaria em seu legado, também, o ensinamento que transmitiu a uma legião de jornalistas que o procurava na busca do seu conhecimento. Aldo Rebouças nos atendia sempre e falava de forma didática, sem meias palavras, com linguajar próximo do público. Às vezes, se estendia nas respostas, além do que o tempo do rádio permitia, pois não queria perder a oportunidade de catequizar o cidadão sobre a questão das águas. Respeitosamente, o ouvia até a última palavra.

Há alguns anos, ao procurá-lo fiquei sabendo que sofria de Parkison e estava com dificuldade para falar. Nesta semana, com muita tristeza, recebi a notícia da morte dele por falência respiratória.

A missão de Aldo Rebouças, porém, não se encerrou. Seus ensinamentos contaminaram uma quantidade enorme de pesquisadores, estudiosos e cidadãos. Cabe a estes, agora, levar a frente a ideia da proteção dos recursos hídricos – nesta que seria a mais significativa de todas as homenagens ao Doutor das Águas.