Avalanche Tricolor: Seu Petry, um Imortal

 

 

Juventude 3 x 2 Grêmio
Gaúcho – Olímpico Monumental

“Muito bom dia, em especial a torcida do Grêmio !”

Com esta frase Rudi Armin Petry costumava iniciar todas as entrevistas que concedeu em seus 91 anos de vida. Marcava assim uma posição clara em relação ao clube para o qual dedicou boa parte de seu tempo. Há quem credite a ele o início de um símbolo que o Grêmio construiu em sua história centenária: o da Imortalidade

Nem de longe sugeria desrespeito ao tradicional adversário. Foi ele quem ensinou o Rio Grande do Sul de que não havia Grêmio grande, sem Inter grande. Apenas um dos exemplos deixados por Seu Petry que comandou o clube em algumas de suas maiores conquistas.

Já era diretor de futebol em 1963, ano em que o Grêmio venceu o segundo dos sete títulos gaúchos em sequência. Foi presidente nos anos de 66 e 67 ganhando mais dois campeonatos. Seu Petry também participou como dirigente do time campeão da América e do Mundo, em 1983 ao lado de Tulio Macedo.

Sua presença no estádio Olímpico era sempre motivo de orgulho. Eu o via passando pela Tribuna de Honra ou passeando no pátio externo sempre com muito respeito. Aprendi sobre ele ouvindo as conversas de Seu Petry com meu pai ou de histórias contadas por outros gremistas ilustres.

Grandes nomes do Imortal estiveram sob o comando dele: Airton, Alcindo, Juarez, Ortunho e Vieira são apenas alguns que lembro neste instante. Jogadores que sabiam a importância de vestir o azul, preto e branco, que jamais subestimavam o adversário. Boa parte, gente que nasceu com o coração tricolor.

Disseram que Seu Petry morreu nessa terça-feira, aos 91 anos. Morreu, não. Seu Petry é genuinamente Imortal e, portanto, estará sempre vivo, e que sirva de inspiração para estes que aí estão.

(Diante deste fato, as coisas mundanas do futebol jogado nesta noite são muito pequenas)

Uma realidade quase apocalíptica

 

São Paulo é cenário de histórias construídas pelo poeta Alceu Sebastião Costa, ouvinte-internauta do CBN SP. O texto enviado ao programa foi ponto de partida para outros escritos “focados na figura simpática dos catadores de rua, pelos quais tenhos grande carinho e respeito” – conforme contou em e-mail. De nossa parte, o agradecimento pela gentileza de compartilhar com os leitores do Blog uma dessas histórias:

Por Alceu Sebastião Costa
Poeta-parkinsoniano Feliz

No cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, jazia o anônimo cidadão. Só a matéria estava ali presente, pois a alma embarcara apressada no trem para o infinito. Premida, talvez, pelas contingências da próxima escala.

Segundo as testemunhas, o atropelamento se dera por volta de 11horas da noite de garoa fina, que lembrava a nostálgica São Paulo de antigamente.

As horas seguintes caminharam preguiçosas. Desfizeram-se rodas e rondas de curiosos. Muita cachaça rolou, enquanto o hoje virava ontem, dando vez a um novo amanhã.

Apesar de solitário, ao morto não faltaram preces colhidas, pelos misteriosos anjos da noite, do acervo de uma piedosa e insone mãe, moradora em Jaçanã.

Quando os gorjeios melancólicos do sabiá-laranjeira, oculto no arvoredo da Praça da República, anunciaram a alvorada, o agito diurno começava a dominar a cena na esquina famosa, imortalizada por Caetano nos versos boêmios de “Sampa”.

Pouco a pouco, o local foi sendo ocupado por figuras maltrapilhas e silenciosas. Ordeiras chegavam, ordeiras estacionavam as suas carrocinhas, de forma a não atulharem o leito da via pública.

Logo, mais de meia centena ali estava para o resgate do companheiro, fazendo por solidariedade o que a autoridade por dever não fazia.

Quatro deles, no devido tempo, tomaram a dianteira e colocaram aquele corpo inerte e enrijecido sobre o que restara da respectiva e bem cuidada carrocinha. Então, respeitosamente beijaram e depositaram sobre o seu peito a surrada bandeirola verde-amarela, que algum desajeitado torcedor lançara ao vento e ele recolhera, guardando-a como se um troféu sagrado.

Circundando o cadáver, o estranho grupo ouviu atentamente o pronunciamento emocionado do líder Adoniran:

“Minha querida São Paulo, fria, vela o corpo de mais um humilde e anônimo colaborador, tombado pelo desvario do corre-corre diário. O falecido passa agora a figurar, com louvor, do honroso quadro estatístico de acidentes fatais no trânsito da Paulicéia. O momento é de profundo pesar e oportuniza séria reflexão. Não chore por mim nem por ele nem por você, São Paulo!

A época ainda é boa para o plantio. Temos que amolecer a terra com o suor. Deixemos as lágrimas para as alegrias das colheitas. O pouco de dignidade que nos resta é a garantia da nossa crença na melhoria do porvir. Palavra dos “Catadores de Rua”.

Todos os companheiros presentes ergueram as mãos para os céus e se curvaram em reverência. Ato contínuo, como chegaram, ordeiros se retiraram, levando o defunto, sob a teimosa garoa dos bons idos paulistanos.

Uma suave brisa beijava e balançava o surrado pendão da esperança, agora desfraldado, encimando a carrocinha que abrigava o corpo, à frente do cortejo. Pena não ter o inocente catador de rua consolidado o seu anseio de ver o lábaro ostentando o fulgor estelar dos Demônios da Garoa, seus devotados ídolos, cujos autógrafos almejara um dia obter.

Curiosamente, a chuva fina e o canto triste do sabiá marcavam presença solene naquela manhã cinzenta, como que buscando exorcizar a cidade grande dos seus demônios.

As enchentes e o Exterminador do Presente

 

Enchente em Camburiu - SC

Por Carlos Magno Gibrail

Topos de morros, encostas e beiradas de rios, são áreas que hoje, os brasileiros minimamente informados sabem tratar-se de zonas de risco.

Aldo Rebelo, é maximamente informado, mas aparenta não saber.

Problema e tanto para o Brasil, pois além de ser ex-presidente da Câmara, Rebelo atualmente é o relator e defensor intransigente do novo Código Florestal em tramitação na Câmara Federal, que deixa de considerar os topos como área de preservação, libera construção nas encostas e reduz as margens de rios.

Diante da catástrofe que ora perturba os nossos brios, nada tão oportuno quanto interrogar e questionar o representante desta proposta de interferência no meio ambiente, nos pontos que geraram as enchentes. Foi o que fez o jornalismo da Folha, que, surpreendentemente, ouviu que o proposto para o Código Florestal não envolve áreas urbanas. Como se áreas rurais tivessem seus topos e encostas com solidez para chuvas e trovoadas, e não fossem habitadas. E, pior, como se fosse verdadeira a separação entre campo e cidade.

Certamente não foi á toa que a SOS Mata Atlântica no ano passado chamou-o de Exterminador do Futuro. Não exagerou.

Quem exagerou foram os governos municipais, estaduais e federal, pois tiveram incompetência de prever e reverter as intempéries da natureza, a ponto da ONU cifrar o Brasil como incapaz de administrar oscilações naturais incomparavelmente menores do que erupções, terremotos, tornados, maremotos, etc.

Pela contundência dos estragos humanos causados pelas enchentes de hoje, pela repercussão extensa e intensa, acreditamos que haverá mudanças na votação no Código Florestal. E, que as mortes não evitadas possam se tornar alerta para votos manipulados por interesses menores e individuais.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

A chuva é natural, a tragédia é humana

 

Texto de abertura do CBN São Paulo desta terça-feira, dia 11.01, mais um dia de verão na capital paulista obrigada a encarar a ironia de comemorar sua fundação no mês de janeiro, quando costuma enfrentar seus dias mais difíceis:

… em que mais uma vez São Paulo sofre pela falta de planejamento e dinheiro desperdiçado; em que o paulistano fica parado em enormes congestionamentos e em meio a uma enchente que sequer é novidade; em que a imprensa soma números de mortos nas manchetes, são 9 apenas nesta madrugada, em uma matemática sem graça resultado do desrespeito com o ambiente urbano – entupido de obras, prédios, cimento, falta de cidadania e incompetência administrativa.

Somos todos responsáveis pelo que assistimos nesta terça-feira. Seja porque não cuidamos do nosso entorno; seja porque não cobramos de quem tem nas mãos dinheiro – o dinheiro dos nossos impostos – e equipamentos, também.

O rodízio de carros foi suspenso; mas o lixo que entope os bueiros, impede o escoamento da água, este continua circulando por toda a cidade, jogado indevidamente e esquecido pela prefeitura que se não tem capacidade para recolher é porque também não teve para educar.
As pessoas seguem despencando dos morros, embaixo de suas casas, construídas indevidamente, mas permitidas pela falta de opção oferecida pela prefeitura – a mesma prefeitura que entrega todo o ano a conta do IPTU para estes moradores.

Aqui no CBN São Paulo, os repórteres estarão na rua – como sempre – atualizando as informações, sobrevoando a cidade e monitorando os pontos de alagamento, porque a chuva de verão não tem como evitar, é da natureza. O que não é natural é a maneira como ainda aceitamos esta tragédia urbana sempre que o verão chega.

Jornalismo pragmático esquece o ser humano

 

Joseíldo acabara de chegar da casa da mãe no Nordeste – este ‘país’ que teimamos em não reconhecer e discriminamos. Não teve tempo pra contar aos parentes as notícias da terra natal. Chegou, era noite, talvez tenha beijado a mulher e abraçado os filhos. E morreu. Morreram todos embaixo da lama e dos tijolos do abrigo que haviam conseguido construir com o dinheiro que juntou no trabalho de pedreiro.

Das crianças sobraram fotos gravadas no celular de um dos tios. Havia uma mochila escolar, também. Da família, tristeza, desolação e resignação.

A tragédia foi em Jundiaí, interior de São Paulo, e havia sido descrita pelos repórteres durante o dia. Chamou-me atenção, porém, o relato feito pela jornalista Abigail Costa, que você lê, esporadicamente, neste blog, e reporta as notícias no Jornal da Record (mulher deste blogueiro, também). Foi lá, conversou com amigos e parentes da família, fez questão de conhecer a história de cada uma daquelas pessoas que para maioria de nós é apenas uma estatística, no máximo a garantia de uma manchete no noticiário da noite.

Por tempos fui repórter, também. E, muitas vezes, tive de desenterrar o pé do barro para fechar reportagens no rádio e na TV. Sempre me intrigou a história privada de cada uma daquelas vítimas. Nem sempre tive sensibilidade para descrevê-la. Por isso, valorizo o repórter capaz de entender que há momentos em que a pauta tem de ser cumprida com o coração.

Na reportagem que assisti hoje, não faltou racionalidade na condução da história. Mas o destaque ficou a cargo daquilo que foi percebido pela alma, sem o sensacionalismo comum nestes momentos.

A forma com que a notícia foi contada não impediu, porém, que colegas de profissão reclamassem da cor da bota, do tamanho do anel e da estampa do lenço que encobria o pescoço da repórter. Confesso, as lágrimas não me permitiram ver estes detalhes. Eles viram.

Pensei em silêncio – que se transforma em palavras neste post: o que nos torna tão frio diante de uma tragédia humana a ponto de nos permitir perceber a superficialidade na imagem ?

Preocupa-me o fato de estarmos construindo redações pragmáticas, nas quais a forma se sobrepõe ao conteúdo. Feita de pessoas que buscam a notícia a qualquer preço. Profissionais que transformam a arte de contar histórias em um exercício burocrático. Que escrevem seus textos como se batessem ponto em uma repartição pública caquética.

Aos repórteres ainda dispostos a ouvir sugestões: não se iludam com a falsa ideia da imparcialidade; jamais transformem a isenção em insensibilidade; e nunca deixem de exercer o direito sagrado de se emocionar diante da realidade humana .

O barulho também mata !

 

Nelson Valente
Professor universitário, jornalista e escritor

Na antiguidade, os gregos indignados puseram os barulhentos ferreiros para fora das cidades. Hoje, qualquer um tem seu aparelho portátil ou estrondoso som.

O barulho também mata. Embora não pareça, o barulho é uma das principais causas de morte no mundo todo, segundo OMS. Calcula-se que milhares de pessoas morrem anualmente vítimas deste problema. A música, a palavra e a voz consomem grande parte de nossas vidas. Um mundo sem som seria triste, mas seu excesso também não é agradável.

Tudo deve estar na medida certa: assim é o que determina a Organização Mundial da Saúde (OMS), que acaba de elaborar um relatório sobre a poluição acústica denunciando o aumento no número de mortes provocadas pelo barulho ao longo do planeta.

Mas o barulho também nos traz toda uma série de males à nossa vida cotidiana, entre os quais se destacam a perda de capacidade auditiva, insônia, estresse, falta de concentração, problemas cardiovasculares, depressão e até impotência sexual ou problemas no feto das mulheres grávidas.

A OMS adverte que a América Latina está cada vez mais exposta ao barulho. Os altos níveis de barulho também são um problema para as grandes metrópoles no Brasil.

Segundo o Médico Neurofisiologista, Fernando Pimentel Souza, membro do Instituto de Pesquisa do Cérebro, UNESCO, Paris, anualmente são perdidos mais de 600.000 anos potenciais de vida sadia por culpa de doenças envolvendo o excesso de barulho.Além disso, a mania dos brasileiros mais jovens de ouvir música alta faz com que quase 2% dos habitantes entre sete e 19 anos já tenham perdido parte de sua capacidade auditiva. Mas o barulho também está por trás dos graves distúrbios do sono que afetam 2% dos paulistanos e de 3% dos casos de tinnitus – um fenômeno de personalidade perceptiva caracterizado por contínuos assobios nos ouvidos – que afetam aos cidadãos brasileiros que vivem nas grandes cidades.

Com isso, é preciso tomar consciência sobre o assunto e denunciar todos aqueles que infringem a lei e colocam em risco a nossa saúde. Em São Paulo, a poluição sonora e o estresse auditivo são a terceira causa de maior incidência de doenças do trabalho, só atrás das devido a agrotóxicos e doenças articulares. Inúmeros trabalhadores vêm-se prejudicados no sono e às voltas com fadiga, redução de produtividade, aumento dos acidentes e de consultas médicas, falta ao trabalho e problemas de relacionamento social e familiar. A poluição química do ar, da água e da terra deixa muitos traços visíveis de contaminação. Muitas doenças e mortes devido a alterações do meio podem ser identificadas por qualquer pessoa. Mas, a poluição sonora, mesmo em níveis exagerados, produz efeitos imediatos moderados. Seus efeitos mais graves vão se implantando com o tempo, como a surdez, que não tarda a se acompanhar às vezes de desesperadores desequilíbrios psíquicos e de doenças físicas degenerativas.

Pelo nível de ruído das nossas cidades e casas, a maioria dos habitantes deve estar sob estresse prolongado, surgindo ou agravando arterioscleroses, problemas de coração e de doenças infecciosas, fazendo inúteis dietas e acabando precocemente com suas vidas. A ativação permanente do sistema nervoso simpático do morador da metrópole pode condicionar negativamente a sua atuação com as agressões. Estamos no limite.

Muitas pessoas procuram se livrar dessa reação, por tornar-se desagradável, (por exemplo duma palpitação), usando drogas (tranquilizantes ou cigarro) para bloqueá-la.O nível de ruído em nosso ambiente urbano está quase sempre acima dos limites do equilibrio, e abre caminho para estresses crônicos.

Certas áreas do cérebro acabam perdendo a sensibilidade a neurotransmissores, rompendo o delicado mecanismo de controle hormonal. Esse processo aparece também no envelhecimento normal e ataca os mais jovens, que se tornam prematuramente velhos num ambiente estressante.

Os efeitos no sono não são menos importantes pela sua nobre função.Os países avançados, ao contrário, mantém o controle da poluição sonora para não prejudicar as atividades psicológicas, mental e física, e seus habitantes, beneficiados, atingiram um nível mais refinado. Mesmo assim esse tipo de poluição subiu para a terceira prioridade ecológica para a próxima década, pela Organização Mundial de Saúde.

O Brasil não deveria permitir tantos danos da poluição sonora nos insuficientes esforços na educação e saúde. Alguma coisa deveria ser feita nas nossas cidades excessivamente barulhentas, hoje com quase 80% da população. As providências seriam: seguir a lei e melhorá-la, diminuir poluição das fontes ruidoras (veículos automotores, aparelhos industriais e eletrodomésticos,etc.) É necessário reeducar as pessoas a viver em comunidade, porque, a nação, se não é capaz de reparar os danos da poluição sonora, poderia pelo menos preveni-los.

No Brasil, apesar de ter normas para evitar o barulho prejudicial, sejam elas severas ou não, quase ninguém as cumpre, e o problema persiste na maioria dos espaços públicos das metrópoles. Música alta, construções, tráfego de veículos, ofertas de produtos de lojas através de alto-falantes e até a pregação religiosa – que costuma contar com potentes equipamentos de som- fazem parte do panorama em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo. Brasília, Blumenau, Curitiba, etc.

de morte e vida

Por Maria Lucia Solla

que joão permita
e perdoe a ousadia
de falar de morte e vida
do prosaico dia a dia
de quem nem é severina
mas simplesmente maria

vida e morte
nada a ver com sorte
morte e vida
a ver
com chegada e partida

apenas duas pontas
de linha
sem começo
de caminho
sem fim

apenas bons motivos
para falar de você
e de mim
de encontro
e desencontro

vida é ausência de morte
sendo morte a cada dia
início da carne
da alma o transporte

e serve de pano pra manga
da vã e nem tão vã filosofia

vida é quadro mutante
de olhares arfares
chegares partires
sonhos
e reveses medonhos

morte ganha sempre
mas
finda com a vida um caso
vence numa jogada
de carta marcada
e
determina da vida o ocaso

morte do corpo vida da alma
diz quem diz conhecer
da morte a morada

mas que não venha depressa
seja ela o que for
que chegue com muita calma
dançando
rodopiando
sapateando
pra que eu tenha tempo de arrematar da vida
todos os fios
até então tecidos
outros tecer
e resgatar os esquecidos

porque só a vida
vai chegando de mansinho
e a morte chega assim
de supetão
quando se sente que a vida
ainda nem começou

se ela se anunciasse
se viesse sibilando
em vez de chegar chispando
e desse tempo para que o olhar
mergulhasse e visse mais fundo na alma

a morte entrega de si uma amostra
na sonolência da tarde fria
na chegada da noite
na partida do dia
dá uma provinha
do que seja
quando a vida
de cansada arqueja

morte
na incerteza da vida
é na vida
a única

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Se inspirem em Lumumba

 

Ceará 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Fortaleza

8822911Azul de tão negro, assim se definia Paulo Lumumba, que conheci quando ainda era menino e visitava quase que diariamente o estádio Olímpico com meu pai. “Meu irmão” era como chamava seus interlocutores mais próximos, com um cumprimento recheado do sotaque sergipano que manteve apesar de tantos anos vivendo longe de seu Estado.

O orgulho por sua própria história e raça estava não apenas no andar altivo, com peito cheio e cabeça em pé, mas na voz e forma de conversar. Tinha condição física invejável, e lembro-me razoavelmente dele batendo a mão sobre o músculo do antebraço para mostrar suas resistência. Se não me falha a memória, ensaiava discursos para enaltecer a força daqueles que foram escravos.

Tive o prazer de passar às mãos dele, no Pórtico dos Campeões, a tocha carregada em maratona para comemorar os 80 anos do Grêmio. Dela participei pois ainda era jogador de basquete no clube. Quando a recebeu, o rosto de pele lisa – e azul – não escondia a emoção pela homenagem. A conduziu até a parte interna do estádio Olímpico com a certeza de que ali havia o reconhecimento a tudo que ele representou ao Tricolor.

Não o assisti jogando, pois quando vestiu a camisa gremista eu estava para nascer. Diziam ter sido um atacante e tanto. Formou uma das melhores equipes que o Grêmio teve em sua história com Marino, Milton Kuelle, Gessy, Juarez e Vieira, nos anos de 1960.

Fui saber recentemente que também havia jogado no São Paulo, onde fez ao menos uma boa temporada, antes de ser vendido para o Sul. A transferência foi definitiva. Depois de encerrar carreira como jogador, permaneceu no clube onde chegou a treinar a equipe principal, antes de Telê Santana assumir como técnico. Trabalhou no auxílio de treinadores e foi responsável pelas categorias de base. Nunca mais deixou o Rio Grande do Sul.

Antes de a partida de sábado à noite se iniciar, o árbitro pediu um minuto de silêncio em homenagem a Paulo Lumumba, que havia morrido aos 74 anos. Provavelmente a maioria daqueles jogadores que vestiram a camisa do Grêmio contra o Ceará não tinham a menor ideia do que ele significou para o clube. É bem provável, também, que eles não tenham a menor ideia do que o Grêmio significa para nós.

A delicadeza de Armando Nogueira, por Juca Kfouri

 

A morte de Armando Nogueira, na manhã desta segunda-feira, vítima de câncer, aos 83 anos, foi lembrada por Juca Kfouri, amigo, aluno e fã do jornalista que criou o Jornal Nacional e foi dos mais talentosos cronistas esportivos que o país teve. Juca considera a “delicadeza” a marca principal do trabalho deixado por Armando. Foi assim que se manteve diante do principal telejornal do País em um dos momentos mais difíceis da política brasileira. “Ele foi, por isso, vítima de muita injustiça”, falou em conversa que tivemos no CBN São Paulo.

Armando Nogueira também era um frasista de mão cheia. Fazia com as palavras o que os craques que ele admirava em campo eram capazes de fazer com a bola. Algumas dessas frases foram citadas por Juca Kfouri, na entrevista que você acompanha aqui.