Nós amamos sapatos

 

Por Dora Estevam

Que as mulheres amam sapatos mais que tudo nesta vida não é nenhuma novidade, mas convenhamos, hoje em dia, tem cada modelo de sapato que não dá para se apaixonar. Não é porque é de marca que temos de comprá-los ou aceitá-los.

Vou dar um exemplo: tem um modelão do estilista Christian Louboutin que é tão grosseiro que não dá para entender como saiu do forno.

Mas eu posso interpretar à minha maneira: Sr. Louboutin, assim como nós, também tem seus dias de pouca inspiração, aquele em que se erra a mão. Todas nós erramos. Sir Louboutin, na maioria das vezes, faz as mulheres se apaixonarem pelas suas criações, uma mais linda e mais cara que a outra. As vitrines são um verdadeiro paraíso para as endinheiradas. São os sapatos mais desejados do mundo, creio.

 

 

Voltando aos modelos, tenho visto nas fotos de moda de rua de Paris, Londres e Milão algumas sandálias com saltos tão diferentes. Elas usam no dia-a-dia sem a menor culpa, ou dor nas costas, aparentemente. Eu sei que tem mulher que não gosta de sair de casa sem salto, mas têm muitas outras que não usam mais salto, só sapatilhas ou chinelos, por vários motivos: dor nas costas, depois de ter filhos e conforto, entre outros.

Agora, o bacana de tudo isso é acompanhar os desfiles e ver o que os estilistas estão propondo e se for do seu agrado aproveitá-los. No desfile de verão Yves Saint Laurent, para 2012, foram lançados sapatos com umas placas de metais em cima do peito do pé, são chiquérrimos. São bonitos e têm uma cara de confortável.

Por aqui as vitrines estão todas recheadas de sandálias de verão: muito coloridas como laranja, amarelo e turquesa. Os bichos continuam nesta temporada, prints em cobra ou leopardo, são maravilhosas. Os scarpins em camurça também estão com a corda toda, e eu, particularmente, adoro, cai bem com calça, shorts ou saias. Como os estilistas brasileiros são criativos não faltam modelos e estilos de saltos. Das sapatilhas às sandálias, as brasileiras vão passar o verão muito bem assessoradas no quesito moda.


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda, ao sábados, no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: Mulheres no trajeto

 

Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

Ouça aqui este texto que foi sonorizado por João Amaral

O valoroso biarticulado e reprogramado 5362-10 Praça da Sé.

A reprogramação, com substituições, seccionamentos e implantações, era para contemplar o aumento de 27% na oferta de lugares. Mas os 27 metros do autocarro sai apinhado desde o ponto inicial.

No percurso da Av. Atlântica até a Igreja de Moema, conversas entrecortadas por paradas, primeira e segunda.

-“Dormir no emprego não aceito mais não”. Nem eu, respondeu a outra.

– “Elas escravizam a gente. Não tem hora pra acabar. Falam que é pra gente trabalhar até as 18h e, até nove da noite ainda tem louça pra lavar”.

– “A minha, queria cobrar a travessa que eu quebrei. Muita vez, eu escondo, ou então, levo o que quebra pra casa”.

– “Já eu, a pior coisa que fiz, foi prender o rabo do cachorro dela. Foi no elevador. Quando vi era só sangue. Ficou só o cotôco. Deu dó. Liguei no serviço dela e contei. Foi um Deus nos acuda. Agora tô fazendo um curso de artesanato. Quero trabalhar em casa, por conta própria. Não agüento mais não”.

– E eu, quero achar serviço numa empresa de limpeza. Preciso do registro por causa das crianças e do INSS”.

– “O trabalho é muito e o ganho é pouco. Criar filhos, sozinha e ainda cuidar dos filhos dos outros, não é fácil não”.

– “Morar em lugar debilitado. Debilitada é a saúde. Vida débil de desejos Chuvarada enchentes, desmoronamentos”.

– “Preciso muito de uma porta-comporta. Sabe o que é? É uma porta que tem borracha embaixo para a água não entrar. Custa caro e o que eu ganho, mal dá para pagar água, luz e comida”.

– “O gás sempre acaba antes do mês. Faço trempe com tijolo no quintal. Cato lenha e assim vou cozinhando até o dia de receber o pagamento”.

– “Vida cinzenta, cobrança de toda cor e tamanho. TV quebrada, divertimento esfolado”.

– “Serviço dobrado, faxina que não acaba. O corpo esgarçado. Vida besta”.

– “No dia em que perdi tudo, eu chorei. Perdi tudo só não perdi a fé”.

Domésticos no Brasil são 7.223.000, ou, 7,8% dos trabalhadores (dados do PNAD 2009 e Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE). Na grande SP, o número é 766 mil. Hoje, muitas estão migrando para outras áreas.

A versão moderna da Casa Grande e Senzala são os famosos DCE’s (Dependência Completa de Empregada). Entenda-se um cubículo claustrofóbico, onde mal cabem a cama e o radinho. Acordar com o pé no tanque.

A tecnologia possibilitou muitas facilidades e a educação inseriu a mulher no mercado de trabalho. Mulheres, mães, trabalhadoras com jornadas duplas, triplas até. E quem depende de empregada pra sobreviver, acaba trazendo um problema social pra dentro de casa.

Bem em frente à Igreja de Moema, elas descem para a realização das tarefas de reprodução da vida. Tarefas fundamentais e tão pouco reconhecidas.