De fim do mundo

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Tenho vergonha de postar notícias escabrosas do nosso desgoverno federal. Tenho vergonha de postar frases ininteligíveis de gentinha sem a mínima formação moral e cultural, informação e vergonha na cara, mas não consigo me conter.

 

Nunca, em nenhuma fase da minha incrível vida, vi e ouvi o que tenho visto e ouvido. Talvez por falta de costume, de prática, e de traquejo na convivência com o crime, a mentira, a ignorância, o terrorismo e com a sem vergonhice desbragada.

 

Na linguagem “social e integradora” do pedaço de carne humana mais vil que já brotou no Brasil, os pronomes pessoais nós e eles se transformaram em arma preconceituosa contra os que, como meu avô, meu pai e eu, ralamos, estudamos, trabalhamos e escolhemos um caminho honrado e digno de admiração.

 

Meu avô veio da Europa com seus pais, e não puderam trazer nada consigo, porque saíram fugidos da guerra, da escassez, da violência da degradação do ser humano. Vieram em busca das promessas da nova terra, onde plantando tudo dava e onde o céu era mais azul.

 

Vô Pedro, meu amado vovô, inimigos da paz vêm pintando o Brasil de vermelho com o nosso sangue e a cor da nossa vergonha, e eu ando aqui desacorçoada com a bandalheira que tomou conta do país escolhido pelo teu pai, para vivermos.

 

Meu avô não encontrou facilidade alguma. Imigrantes que eram, não tinham condições de conseguir emprego tão bom quanto os locais, mas não recusaram trabalho. Minha bisavó Maria da Luz arregaçou as mangas, prendeu os longos cabelos numa trança, e foi para o fogão. Com suas panelas, sustentou filha, genro, netos e nos abrigou a todos em sua casa. Genro e netos também arregaçaram as mangas e foram à luta. Meu pai começou a vida de trabalhador honrado, aos quatorze anos, o que hoje é considerado crime. Hoje, o jovem que precisa ajudar em casa procura trabalho escuso, que o aceita com muito prazer. E a mesma sociedade que o alija, corre atrás dele para prendê-lo ou matá-lo.

 

Mas voltando ao meu pai, o seu Solla teve seu primeiro emprego na Fábrica de Pincéis Tigre, com o seu Nicolau Jacob Filho. Foi o seu Nicolau quem lhe deu o primeiro par de sapatos novos e o incentivou a aprender, aprender, aprender. E ele aprendeu e trabalhou por mais de sessenta anos na mesma empresa, que passou de pai para filho, o seu Nicolau Jacob Neto. Eram empresários (hoje demonizados) ricos e cultos, e nós frequentávamos a sua casa, como se fôssemos da família.

 

Meu pai, de origem humilde, foi crescendo dentro dos padrões de retidão, esforço e dignidade. Aprendia com quem sabia mais do que ele e era respeitado porque respeitava todos. Não tinha rua em que ele passava, que não se ouvia: Solla! e ele abanava. Solla! e ele corria para atender. Solla! e ele parava para escutar. Tinha eu, menina, a impressão de que ele era o homem mais conhecido e importante do mundo. Meu coração inchava de orgulho. Ele abanava para quem o saudava, e eu, me sentindo importante, com meus olhos mal alcançando o nível da janela do carro, esticava o pescoço, orgulhosa, e abanava também.

 

O objetivo dele foi sempre o de dar à família o que ele não tivera a chance de ter. Cuidou sempre para que eu tivesse a melhor educação formal possível, e em casa a formação social. E era duro: eu pedia sua bênção e a de minha mãe e avós, não falava à mesa de refeições e respeitava todos, sem distinção de raça, credo ou situação financeira. Ofereceu-me o impossível, mudava de bairro e de casa, sempre que minha prima Cirley, a primeira da família a seguir uma formação universitária, o orientava sobre a melhor escola.

 

E é gente como a minha família e eu, que um boçal ignorante qualquer se atreve a chamar de coxinha?

 

O mundo acabou!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

10 comentários sobre “De fim do mundo

  1. Maria Lucia e eu que pensava no momento do julgamento do mensalão, que estávamos virando esta página, qual, a prática usurpadora ainda prosseguia e estamos nós vivendo um momento pior.
    E a luta continua, não vamos nos dispersar.

  2. Parabéns Lu. Bela trajetória de vida, de valores morais e humanos. As ci ilizaçoes superam os momentos nefastos como estamos passando. Como tu mesmo disseste nossos antepassados fugiram destas mesmas situações! Há de melhorar! Talvez seja o fim do mundo para nossa geração mas não para os jovens. Grande e fraterno abraço, Anna Luz

    • Anninha, é verdade, nós vivemos muito e fizemos tanto, não é? Mas e os nossos netos? Que país é este? Uma guerra vergonhosa e invejosa contra quem lutou e conseguiu, o ódio sempre distilado e contagiante por aqueles que se esforçam e levam a vida dentro da legalidade. O barco do nosso país está desgovernado, vilipendiado… e chega. Bom domingo e boa semana pra você, minha cunhada/irmã. Quem tem amigos não morre pagão, diziam os mais velhos. Beijo

  3. Amei. Me senti muito muito representado. Também comecei trabalhar com 14 anos, morava em rua de terra batida que virava lama nos dias de chuva. Trabalhei, estudei (escola pública), e fiz faculdade de matemática, Trabalhando e estudando todo tempo. Também aprendi com meu pai o que ele chamava de “brio”, de ter honra e vergonha na cara. E também morro de raiva de ser chamado de coxinha.

  4. Obrigada, Sergio Cardoso, também estudei em escola pública (Fernão Dias Paes), que era excelente naquela época. Tem muita gente como nós, que ainda sabe o que quer dizer “brio”. Vamos nos unir por um Brasil melhor. E se não der certo, vamos continuar no caminho que nossos pais indicaram. Até hoje, apesar de muita luta, nunca me arrependi.
    Abraço e boa semana

  5. MARIA LUCIA,

    O BRASIL É SEMPRE SERÁ DE QUEM LUTOU POR ALGO,NOSSA DIGNIDADE,FILHODS DE IMIGRANTES QUE SOMOS.

    ESTUDAMOS,VENCEMOS.

    ABÇO

    FARININHA

  6. É verdade, Farina. Há alguns anos, oito ratos armados invadiram meu apartamento, e ali ficaram por duas horas. Antes eu estivesse sozinha, mas estavam meus filhos e amigos. Levaram tudo o que eu tinha de material. Tudo! E aqui estou eu. E você sabe que me recuperei SOZINHA, e que sempre mostrei a meus filhos que o que temos, realmente de valor, não pode nunca ser tirado de nós. Quem é rico no recheio se ergue novamente e vai à luta. O tempo dirá! Beijo na Vivi, e excelente semana

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