Campanha contra armas ganha força após tiroteio em Newtown

 

 

Havia uma lágrima no olho de Barack Obama logo que desembarquei nos Estados Unidos. Ainda na fila da imigração, interminável, demorada e cansativa, a televisão mostrava o discurso do presidente dos Estados Unidos com voz triste pela morte de pequenos estudantes de uma escola em Newtown, em Connecticut. Naquele momento ainda não se tinha a dimensão final do ataque cometido por Adam Lanza que, soube-se depois, havia matado 20 crianças e seis adultos, além da própria mãe e ter cometido suicídio. Tinha-se ideia, porém, da repercussão dos fatos e da comoção visível em todos os que me acompanhavam na fila a espera para entrar nos Estados Unidos.

 

Desde o acontecido, os canais de notícia na televisão dedicam parte de sua programação a debates sobre a necessidade de se restringir a venda de armas no país. No Congresso, o tiroteio já começou de todos os lados. Artistas e personaldades se engajam na campanha lembrando outros ataques semelhantes. Obama sabe que avançará pouco na discussão, pois o lobby da indústria de armamento é rico – literalmente -, intenso e sem escrúpulo, além de contar com o respaldo da constituição americana escrita em uma época na qual não havia garantias da lei para o cidadão.

 

Nas ruas percebe-se mudança de pensamento em parcela das pessoas, especialmente as que vivem próximas da região do ataque. Aqui em Ridgefield, meia hora de distância de Newtown, havia coleta de dinheiro para a construção de uma escola que substituirá Sandy Hook, cenário do ataque. As bandeiras estavam a meio mastro, sinalizando luto. Armas eram entregues em postos de polícia em troca de dinheiro – US$ 200 para pistolas e revólveres e US$ 75 para rifles – como parte de programa lançado após os assassinatos.

 

A cena mais significativa: o magazine Dick, especializado em artigos esportivos, lotado de consumidores em busca de presentes para o Natal, esvaziou por completo seu departamento de armas. A dúvida é se a medida é pontual ou definitiva. Em um estado que admira o uso de armas, imagino que, passado o impacto das mortes, a venda voltará ao normal. Espero que os muitos apelos que tenham surgido nos últimos dias tenham algum efeito e a minha descrença seja frustrada.

A tragédia de Newtown

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sou a pessoa mais indicada, confesso, para falar de certos gostos dos americanos. Só estive nos Estados Unidos de passagem para o México, em 1986, escalado que fui para narrar a Copa do Mundo. Como quem de direito esqueceu de solicitar o visto no consulado dos EUA em Porto Alegre, talvez por imaginar que meus companheiros e eu apenas desceríamos em solo americano e embarcaríamos imediatamente para a capital mexicana, ficamos quarando horas e horas (não me lembro quantas, mas foram muitas) nas dependências do aeroporto de Miami. Nesse longo período, estivemos sempre acompanhados por um policial. A PF deles pôs somente agentes oriundos de Cuba e outros países de língua espanhola para ficar de olho em nós. Com esses conseguimos, pelo menos, conversar. Somente o Dante Andreis, representante da Rádio Caxias, saiu do aeroporto e deu uma banda em Miami.

 

Não deixa de ser uma terrível coincidência que a da última sexta-feira tenha sido a quarta tragédia do mesmo tipo acontecida durante o primeiro e ao iniciante segundo mandato de Barak Obama. A primeira foi a de 2009, em Fort Hood, no Texas, na qual morreram 13; a segunda, dois anos depois, em Tucson, no Arizona, em que as vítimas fatais foram 6; a terceira, que resultou em 12 mortes, enlutou Aurora, no Colorado. A de Newtown se tratou, entretanto da mais chocante, porque envolveu crianças, aluninhas da Sandy Hook Elementary School. Claro que não vou descrever aqui os detalhes do morticínio, porque dificilmente existe alguém que não tenha conhecimento do que ocorreu.

 

Não chega a causar espanto que, em um país no qual as armas são vendidas até em supermercados, como me lembrou o Mílton, meu filho, psicopatas de toda espécie tenham acesso fácil a elas. Para usarem-nas, sem dó nem piedade, quando lhes dá na telha, basta que sofram um ataque de loucura, o que não é incomum em gente com as faculdades mentais prejudicadas. Obama, a meu ver, tem de criar coragem para enfrentar os patrícios que adoram armas de todos os calibres. Chorar e solidarizar-se com os familiares das vítimas, como voltou a fazer agora em Newtown, não serve mais de consolo para quem sofre as consequências dos repetidos massacres. O Presidente precisa agir e enfrentar maníacos por armas como, por exemplo, esses caras da National Rifle Association que, diante da última tragédia, não fizeram qualquer manifestação. Seria por terem participado de inúmeras guerras que muitos americanos não conseguem viver desarmados?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)