A hora em que o jornalismo profissional se diferencia da rede social

 

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Esta quinta-feira transformou-se em mais um daqueles dias que devem servir de referência para nossas conversas com estudantes de jornalismo —- especialmente estudantes de jornalismo, apesar de que não custa nada estender o tema a todos que confundem mensagens publicadas em rede social com notícia. E não é pouca gente que faz isso.

 

Aliás, tem gente graúda que mistura essas coisas.

 

Alain de Botton, filósofo pop, nascido na Suíça e erradicado na Inglaterra, autor do livro “Notícia: um guia de sobrevivência” (Intrínseca), é um deles —- e que isso não seja visto como forma de desmerecer seu trabalho. Longe de mim ter essa pretensão. Respeito muito o que escreveu e tenho sua publicação não apenas guardada em lugar especial em minha biblioteca como cito o autor em todas as minhas palestras sobre comunicação.

 

Botton ao descrever um fenômeno típico da sociedade contemporânea que é a busca incessante por informação, provocada principalmente pela facilidade proporcionada pelas redes sociais, diagnosticou que somos viciados em notícia — o que justificaria, segundo ele, o engajamento do público diante de fatos que podem estar relacionados tanto a um desastre humanitário quanto ao relacionamento amoroso de celebridades.

 

Discordo do diagnóstico feito pelo filósofo.

 

Primeiro, porque se é verdade que o público é viciado em notícia e quem fornece essa “droga” é o jornalista, deixo de sê-lo para me transformar em traficante. Minha mãezinha querida que está lá no céu mas ainda conseguiu me aplaudir recebendo o diploma de graduação na faculdade de comunicação social da PUC, em Porto Alegre, certamente ficaria muito incomodada com o resultado do investimento que fez em minha carreira …. profissional.

 

Segundo, porque nem tudo que as pessoas consomem como se notícia fosse é notícia. Precisamos entender que informação não é sinônimo de notícia. O recado que seu filho mandou por WhatsApp para dizer que vai chegar mais tarde em casa é uma informação, mas não é notícia. A mensagem do amigo que está feliz com a promoção que recebeu no trabalho é informação mas não é notícia. O desaforo da namorada publicado em vídeo no Twitter porque você a desrespeitou é informação mas não é notícia.

 

Para ser notícia alguns requisitos são necessários, a começar por ser de interesse púbico ou afetar o público, direta ou indiretamente, ter relevância no meio em que circula, estar relacionado a um acontecimento novo ou esclarecimento de fatos, ter acontecido recentemente ou estar por acontecer.

 

Existem outros atributos fundamentais para que uma informação possa ser caracterizada como notícia. Tem de ter sua veracidade comprovada, estar baseada em fatos reais e ser devidamente apurada antes de ser apresentada ao público. Notícia é produto do jornalismo que precisa respeitar a hierarquia do saber, como me ensinou Zuenir Ventura, em entrevista que me concedeu, no Jornal da CBN, há alguns anos.

 

O jornalismo é a busca constante da verdade possível e isto exige apuração, construção de uma rede confiável de fontes, curiosidade para descobrir os fatos que estão encobertos e a precisão em seu relato.

 

O que mais recebemos ao longo do dia não é notícia, é apenas informação —- na maior parte das vezes de interesse privado e não publico. E essa diferença é fundamental para entendermos a doença que a sociedade contemporânea vem sofrendo. Por isso, em lugar de dizer que somos viciados por notícia prefiro dizer que sofremos de ansiedade informacional —- esse é nosso grande mal, que se expressa na pressa que temos em receber uma resposta a um WhatsApp enviado, assim como a enxergamos o “like” dos amigos na foto publicada no Instagram.

 

Essa ansiedade que é minha, é sua, é de todos nós jamais pode impactar a qualidade do serviço realizado por jornalistas profissionais. Se assim formos influenciados, deixaremos de cumprir a função para a qual nos dedicamos e desvalorizaremos o papel que exercemos na sociedade.

 

Lembro-me da campanha eleitoral de 2014 quando lamentavelmente o avião do candidato e ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos caiu em Santos, no litoral paulista. A informação do acidente chegou durante evento no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, e fez com que o então governador Geraldo Alckmin se retirasse de forma precoce da solenidade oficial. Os indícios da tragédia passaram a circular em alta velocidade. As redes sociais —- ocupadas por alguns colegas de profissão, inclusive —- já anunciavam a possibilidade da morte do político. Sim, a possibilidade porque a confirmação ainda não existia. As redações eram pressionadas pelo tempo, pelos chefes, pelo público e pela nossa própria ansiedade a transformar o rumor em notícia. Alguns se precipitaram, outros preferiram esperar. Infelizmente, todos acabamos noticiando a morte de Campos, porém em tempos diferentes. O tempo da prudência e da responsabilidade.

 

É isso que diferencia o jornalismo profissional dos protagonistas em rede social — estes não têm compromisso com a verdade, nós jornalistas somos reféns dela. Se entendemos nossa função diante da sociedade, temos de respeitá-la e buscarmos incansavelmente a verdade, com a agilidade que os novos tempos exigem e com a responsabilidade que a profissão demanda. Se ao público interessa a informação em primeira mão, ao jornalista cabe informar a notícia certa em primeira mão.

 

A ansiedade em ser o primeiro a dar as últimas, levou profissionais e outras pessoas a se precipitarem nessa quinta-feira, divulgando informações em rede social e em sites que não tinham sido confirmadas, causando constrangimento àqueles que eram afetados diretamente pelos rumores que circulavam e antecipando uma comoção de maneira irresponsável no público. Pode até ser que esses fatos se confirmem ao longo das próximas horas, mas nenhum jornalista profissional deve se orgulhar de tê-los publicado antes de se certificar da verdade. Principalmente quando esses rumores se referem à vida humana.

 

É nesta hora que o jornalismo profissional se difere — ou deveria — das redes sociais.

Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas; quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas

 

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Texto publicado pelo colega Lourival Sant’Anna

Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas. Quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas. Quanto mais estrada, mais humildade e silêncio. Quanto mais ideologia, mais arrogância e estridência. O prazer do repórter está em ser surpreendido todos os dias pela realidade, em ver o mundo desmentir suas pautas, suposições e planos.

 

O jornalismo habita o mundo do ser, não do dever ser. Sem pretensão de objetividade, porque temos uma dimensão simbólica, subjetiva; nem de imparcialidade, porque é impossível ver o todo. Mas tendo a isenção como desejo, tarefa, ideia reguladora, consciente de que não a alcançará. Como escrevi em 2008, no “Destino do Jornal”: quem acredita que alcançou a isenção se torna ingênuo; quem desiste dela se torna cínico.

 

A reportagem é uma estrada. Nela, o percurso importa tanto quanto o destino. O fim, a verdade, inatingível, serve de rumo. Essa analogia entre a reportagem e a vida é parte de seu encanto. Jornalismo e doutrina vivem em campos opostos.

 

Nosso princípio é a honestidade; nosso negócio, a credibilidade. Precisamos mudar o recorte do jornalismo brasileiro. As pessoas não reconhecem a realidade no que consideramos notícia. Ao redor do crime, há também segurança. De trás das declarações absurdas e fantasiosas, há decisões e medidas reais. Fora do extraordinário, há o comum, o cotidiano. É preciso contemplar o entorno, contextualizar. A campanha de descrédito do jornalismo é parte de um plano para proteger os que vivem da mentira, da manipulação. O jornalismo é o seu grande obstáculo, sua permanente frustração. Daí o empenho em destruí-lo ou substituí-lo por “jornalistas” de aluguel.

 

Esse ambiente torna o jornalismo mais importante e mais difícil. É preciso lucidez, humildade e amor à reportagem. Quem tem auto-estima e dignidade não precisa de vaidade e prepotência. #minhaguerracontraomedo

Quando a manchete vira notícia

 

O Guilherme Caetano, repórter de O Globo e revista Época, conversou com seus leitores pelo Twitter sobre a reação do público a uma manchete que ele escreveu em reportagem que tratou das declarações do presidente Jair Bolsonaro idolatrando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Diante das críticas que recebeu, Caetano reavaliou o trabalho que havia feito e refez a manchete para ser mais preciso e justo com os fatos na abordagem.

 

Caetano aproveitou a oportunidade para mostrar como funciona a construção de uma manchete e o risco que corremos sempre que precisamos traduzir uma informação em espaços mais curtos —- especialmente em um cenário no qual a maior parte dos consumidores de informação leem apenas o título ou a chamada, não se aprofundam no caso (e isso sou eu quem estou dizendo, não o Caetano).

 

Reproduzo o texto dele no Twitter por considerar uma boa aula sobre o trabalho que realizamos diariamente, os cuidados que devemos ter e a obrigação de estarmos sempre reavaliando nossas palavras, observações e opiniões — manchetes, também.

 

No passado, havia mais filtros entre a informação apurada e a notícia publicada. No jornal impresso, por exemplo, o texto passava pelas mãos do repórter, do editor e do corretor. A manchete ficava a cargo de uma pessoa que não havia se envolvido diretamente na reportagem — e todos esses olhares sempre ajudavam o repórter que pela proximidade com os fatos relatados talvez não tivesse percebido sutilezas de uma frase, uma expressão ou um título.

 

A humildade em admitir erros é uma marca necessária para quem faz jornalismo profissional — é um dos pontos que nos diferenciam daqueles que investem na criação de “fake news” para manipular a opinião pública.

 

Reproduzo a seguir, o que escreveu Guilherme Caetano:

 

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O gancho da matéria foi a visita da viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, um dos mais conhecidos centros de repressão na ditadura militar, onde houve crimes, violações dos direitos humanos, tortura, ao presidente Jair Bolsonaro.

 

A ideia da pauta era falar com pessoas das Forças Armadas e dos grupos de direita e descobrir o que eles pensam do Ustra, sabendo que o coronel é visto como ídolo pelo presidente. E também responder à dúvida: por que só vemos a esquerda, de uma forma geral, bater no Ustra?

 

Conversei com generais e lideranças da direita. Apuração feita, constatei que muitos segmentos da direita poupam Ustra, que já foi condenado por tortura, de críticas. E aí redigi o título de uma forma muito questionável. Na correria da redação, essas coisas acontecem.

 

Depois de ver que a matéria estava sendo massacrada, fui reler e também reparei no erro. Alterei-o para “Condenado por tortura na ditadura militar, Ustra segue poupado por segmentos da direita”. Conceitualmente mais correta, sem atenuar a gravidade do personagem.

 

Nesta mesma semana, o New York Times foi criticado por uma frase também mal feita. A manchete da terça-feira, após a tragédia no Texas e em Ohio, era “Trump urges unity vs. racism”. E gerou uma repercussão bem negativa.

 

O maior jornal do mundo foi massacrado e mudou a manchete na segunda edição para “Assailing Hate but Not Guns”. O Nelson de Sá escreveu na Folha uma coluna sobre o caso: “NYT alivia para Trump e é forçado a recuar após revolta“.

 

Tom Jones escreveu sobre: É fácil criticar a manchete do Times, mas é preciso parar por um segundo e pensar como é difícil redigir manchetes. Essa história do Trump, por exemplo. Você tem tiroteios que mataram 31 em duas cidades. Então, Trump discursa por 10 minutos sobre (…)

 

(…) uma epidemia que ninguém concorda e ninguém pode resolver. E alguém, em um deadline curto, precisa juntar tudo isso em sete palavras cuja soma precisa ter um número exato de caracteres.

 

Muita gente criticou O Globo pelo meu péssimo título. Queria dizer que muito do que as pessoas acham que é manipulação, mau caratismo e parcialidade da imprensa muitas vezes é só pressa, inexperiência e descuido de um jornalista atarefado. Mas isso não nos exime da culpa.

Adivinha em quem os brasileiros mais confiam quando querem notícia de verdade?

 

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Em conversa com executivos de empresa de tecnologia, no início desta semana, fui provocado a apresentar uma solução para a enxurrada de falsas informações que circulam pelas redes sociais, assim como para o diálogo tóxico que assistimos nas diferentes plataformas. Os questionamentos também não deixaram de fora o trabalho dos veículos de comunicação tradicionais —- nesse caso, eles queriam saber qual seria o futuro das redações jornalísticas. Como todo tema complexo, não existe resposta simples nem solução fácil. Mas tendo a acreditar na ideia de que vivemos um processo de amadurecimento nessas relações. 

 

Os meios de comunicação que conhecíamos perderam o monopólio da informação —- ainda bem. Hoje, cada cidadão tem a capacidade de produzir e divulgar conteúdo. O alcance dessa mensagem dependerá da estratégia usada, mas os recursos estão em suas mãos. O cidadão conquistou esse direito e tem usufruído dele dizendo o que quer, agindo da maneira que lhe convier e transmitindo mensagens doa a quem doer —- com forte poder de construir ou prejudicar a reputação de pessoas e instituições. Por outro lado, não percebeu, ao menos não a maioria de nós, que também passa a responder pelo poder que exerce. Ao emitir opinião, é responsável pelo que essa possa causar. Ao compartilhar informação, é autor ou coautor dos seus efeitos. 

 

À preocupação dos executivos, reforcei meu discurso de que a  sociedade contemporânea está em estágio de aprendizado, diante das transformações digitais que impactam nossos comportamentos. O tempo nos ensinará a usar de maneira mais responsável os meios modernos de comunicação. E o jornalismo profissional tenderá a prevalecer como principal antídoto aos que publicam falcatruas sob o apelido de “fake news”. 

 

Ao falar do tema ainda não tinha em mãos o resultado de pesquisa sobre a confiança dos brasileiros,  encomendada pela XP Investimentos ao Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). A consulta tinha como uma das intenções saber o que os brasileiros pensam neste momento do presidente Jair Bolsonaro, mas vou me ater ao tema central desta nossa conversa: os meios de comunicação — os tradicionais e os digitais. 

 

Atente-se para o que responderam os mil brasileiros ouvidos pelo Ipespe quando os pesquisadores fizeram a seguinte pergunta:

“Na sua opinião, as informações e notícias veiculadas nesses meios que vou ler são, na sua maioria, verdadeiras ou são falsas?”

As piores avaliações foram do Facebook, com apenas 11%, e do WhatsApp, com apenas 12%, respondendo que as notícias veiculadas são verdadeiras. Twitter e Instagram também ficaram na parte de baixo deste ranking. A percepção sobre veracidade de informações para blogs e sites de notícia, assim como jornais de notícias na internet, foi de 28% e 32%, respectivamente.

 

A mídia tradicional, tão bombardeada em redes sociais e com comentários frequentes que colocam em xeque a credibilidade do conteúdo produzido, aparece mais bem posicionada e com índices de confiança bem superiores às novas mídias. Por exemplo, as  notícias publicadas em jornais e televisão são verdadeiras para 61% dos entrevistados.

No topo desta tabela —- e aí você logo vai pensar, eu sabia que o Mílton queria chegar a algum lugar — aparece o rádio:  64% dos brasileiros pesquisados responderam que acreditam no que ouvem no noticiário.

E com isso, esse veículo que me tira da cama todos os dias, às 4 da matina, e me impõe uma série de desafios  no cotidiano —- tais como a apuração dos fatos, a busca constante da verdade, o respeito ao contraditório e o reconhecimento de nossos erros sempre que estes são identificados —- , a partir da opinião dos nossos ouvintes, me dá a certeza de que o esforço diário dos jornalistas de rádio está sendo recompensado.

 

 

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Do outro lado da corrupção tem a ética

 

 

“Fala-se muito de corrupção no noticiário. Do outro lado da corrupção está a ética” — foi assim que Heródoto Barbeiro introduziu a entrevista que fez comigo sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, no jornal que apresenta na Record News. Falamos de comportamentos que devemos ter nas diversas situações do cotidiano, desde a relação com colegas de trabalho até a convivência na sala de aula.

Avalanche Tricolor: festa para o Campeão!

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

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Fãs, admiradores, colegas e amigos na festa para o nosso Campeão!

 

Estou no caminho de volta a São Paulo, onde consta há um campeão brasileiro comemorando seu título. Daqui de onde saio, havia outra festa: a vitória na Arena garantiu a vaga na Libertadores do ano que vem, o que para quem é obcecado por esta competição não é coisa pouca. 

 

Assisti pouco da partida, especialmente do primeiro tempo quando saiu o gol, resultado de uma jogada da qual fez parte nosso setor defensivo: Edílson, Geromel e Kannemann, que empurrou a bola para dentro e marcou o único e necessário gol da partida.

 

Daqui pra frente, convenhamos, quem se importa com o Brasileiro: somos todos Libertadores!

 

Vi pouco do jogo na Arena, apesar de estar em Porto Alegre desde cedo, porque o feriado foi dedicado a outro campeão. Estivemos em família durante toda tarde e início da noite, na Feira do Livro de Porto Alegre, na praça da Alfândega, centro da cidade. Foi lá, no Pavilhão de Autógrafos, que meu pai recebeu seus amigos e admiradores ao lado da jornalista Katia Hoffman, autora do livro “Milton Ferretti Jung: Gol gol gol um grito inesquecível na voz do rádio”.

 

O livro, sobre o qual já escrevi neste blog, Katia conta várias passagens da vida do pai desde sua infância. Estão lá alguns acontecimentos da adolescência e pós-adolescência que levaram o editor, professor Paulo Ledur, a descrevê-lo como tendo sido um jovem transviado. Achei curioso, pois apesar de conhecer boa parte das artes feitas pelo pai, sempre contadas pela ótica dele, nunca as identifiquei desta maneira. Gostei de saber que o pai foi transviado, diminui a culpa de muitas das coisas que aprontei na minha juventude.

 

A versão mais conhecida dele – a de jornalista – também é relatada com detalhes interessantes.

 

Das transmissões de futebol, há histórias das viagens ao exterior, das trapalhadas que a precariedade técnica proporcionava aos profissionais da época, da paixão que sempre cultivou – e jamais escondeu – pelo Grêmio. Diante da insistência dos gestores da rádio Guaíba para que seguisse narrando futebol, em uma época em que já revelava cansaço da rotina esportiva, negociou com a emissora: só transmitiria jogos do Grêmio e no Olímpico. Proposta imediatamente aceita.

 

Do locutor de notícias, a autora destaca a maneira com que exigia dos redatores – dela inclusive – precisão no relato dos fatos e nas informações divulgadas. Os exageros na pronúncia de palavras estrangeiras, que chegaram a ser cobrados pelo então dono da Companhia Jornalística Caldas Junior, Breno Caldas. E o dia em que apesar de estar sofrendo um AVC, insistiu em ler o Correspondente até o fim. 

 

Na fila que se estendeu para fora da área coberta do pavilhão da Feira do Livro, encontramos outros pedaços e lembranças desses 60 anos dedicados ao rádio. Estiveram lá vários dos amigos que dividiam redação, estúdio e cabines de estádio de futebol com ele. Vozes que fizeram parte da minha infância, que visitavam minha casa presencialmente ou através do rádio. Como tive o prazer de compartilhar alguns momentos de minha carreira com o pai, nos amigos dele encontrei colegas de trabalho que foram importantes na minha formação.

 

Havia muitos amigos e muitos fãs, também. Ouvintes que faziam questão de lembrar alguma passagem ainda viva na memória. Um gol inesquecível descrito pelo voz do pai. Uma notícia que marcou. E todos queriam uma foto para eternizar aquele instante. Alguns vestindo a camisa do Grêmio.

 

Para cada um deles, o pai dedicou um olhar, um sorriso e uma assinatura, sempre sob supervisão da Katia, que carinhosamente cuidou dele nas muitas horas dedicadas a sessão de autógrafo. Nós, os filhos, netos, noras, assistimos a tudo de perto, orgulhosos. Emocionados. Frequentemente o pai nos procurava com os olhos como se quisesse entender por que tantas pessoas, por que tanto carinho …

 

Porque, pai, você é um Campeão!

O impacto da tecnologia e do populismo na produção jornalística

 

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Dia desses, convocado pela CBN para ancorar programa que comemorava os 26 anos da emissora, tive a oportunidade de conversar com algumas figuras que admiro muito no jornalismo. Reunimos no estúdio em São Paulo e Rio de Janeiro, e colocamos por telefone, comentaristas da rádio além de convidados. Sejam os da casa, sejam os de fora, todos foram motivados a falar sobre o rádio e o jornalismo, momento em que tratamos do impacto que a tecnologia e o populismo têm provocado no desenvolvimento do nosso trabalho.

 

Se você visitar os links que ofereço ao fim deste texto, terá a chance de ouvir o bate-papo com Arthur Xexeo, Renata Loprete, Luis Gustavo Medina, Pedro Doria, Zuenir Ventura, Eugênio Bucci e Thiago Barbosa. Cada um a seu tipo contou histórias relacionadas ao rádio, tenha este a forma do radinho de pilha, que acompanha o Xexeo em suas tarefas caseiras, tenha o desenho das caixas de sons mais modernas com capacidade de conectar todos os equipamentos, usadas pelo Doria.

 

Quero, porém, dedicar esta nossa conversa, caro e raro leitor deste blog, para tema que tem preocupado jornalistas e deveria estar na pauta de todo o cidadão interessado no fortalecimento da democracia: a profusão de notícias falsas, estas que correm mais rápido do que rastilho de pólvora, como dizíamos antigamente. Consta que muito mais rápido do que notícia verdadeira, como nos explicou Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

 

Embrulhado em nome novo – fake news -, a velha prática de inventar histórias para prejudicar desafeto ou promover amigo se potencializa nas redes sociais pela agilidade que esta nos proporciona, permitindo sua multiplicação apenas com um clique no botão de compartilhar ou com o acionamento de robôs que espalham o fato para computadores e celulares em todo o mundo – ou para regiões previamente estabelecidas, onde se pretende impactar a opinião pública.

 

Para dar o nome certo a esse fenômeno, Bucci recorre a outro mestre da comunicação e, tanto quanto ele, preocupado com a ética nas relações humanas: o professor Carlos Eduardo Lins da Silva. Para que ninguém tenha dúvida do que estamos falando, eles preferem transgredir a tradução natural do temo em inglês fake news. Em lugar de notícia falsa, usam notícia fraudulenta. E isso faz uma baita diferença.

 

 

A notícia errada é como uma peça estragada na linha de produção que surge de uma falha na sua execução. Pode ocorrer pela qualidade do material usado, pela manufatura, pelo descuido ou irresponsabilidade do profissional que realiza o trabalho. Causa prejuízos a quem consome e a quem fabrica.

 

A notícia fraudulenta é a peça que foi estragada com a intenção de boicotar alguém. É ato proposital. Erro baseado na má-fé de quem o executa. Que surge de autor desconhecido, escondido por mecanismos automáticos e uso de tecnologia e, por isso, prejudica apenas seu alvo.

 

Como jornalista, e jornalista de rádio, veículo que pressupõe a agilidade e velocidade na informação, o risco de publicarmos uma informação errada é imenso. Já aconteceu e, infelizmente, acontecerá outras vezes. Está lá no meu livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), publicado em 2004, que nosso desafio é equilibrar agilidade e precisão na apuração dos fatos. Todas as vezes que abrimos mão da precisão em nome da agilidade, pagamos com o que há de mais caro na carreira do jornalista (e do jornalismo): a credibilidade. Por longo tempo, o rádio, pressionado pela ascensão da televisão, trabalhava com a ideia que o ouvinte queria a notícia em primeira mão. Demorou para perceber que o desejo dele era ter a notícia certa em primeira mão.

 

Reduzir os riscos de erro na cobertura jornalística é o desafio que se impõe e para tal é preciso respeitar a hierarquia do saber – conceito trabalhado por Zuenir Ventura em conversa que já havíamos tido há cerca de um ano na CBN. O jornalista é aquele que procura ouvir quem sabe mais do que ele, que sabe usar o saber do outro para esclarecer os fatos e apurar a verdade. Nossa busca constante é pela verdade possível, a verdade que somos capazes de construir naquele instante em que o caso é relatado. A verdade absoluta apenas o tempo nos oferecerá.

 

Se não vejamos: quando o primeiro avião se chocou no prédio do WTC em Nova Iorque, em 2001, noticiamos um acidente aéreo. Estávamos mentindo? Não. Contávamos a verdade daquele momento. Assim que um segundo avião se chocou na torre, um terceiro despencou sob o pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, outras verdades passaram a se revelar ao longo do dia.

 

 

Em meio a pressão oferecida pela revolução tecnológica que mudou comportamentos e quintuplicou o número de mensagens recebidas por uma cidadão, nos últimos 30 anos, e os interesses de grupos políticos dispostos a distorcer a verdade em busca do poder, o jornalismo tem obrigação de resistir e seguir o seu curso. Intensificar a checagem dos fatos, aprofundar a apuração e proporcionar o contato de posições divergentes, promovendo o diálogo entre os diversos atores de uma mesma cena.

 

 

Encerro essa nossa conversa lembrando frase dita por Eugênio Bucci no início de sua participação no programa da CBN:

 

“O jornalismo não pode faltar na sociedade democrática … e a maior ameaça para o jornalismo é o populismo”

………………………………………

 

Ouça a seguir, o Jornal da CBN especial, em comemoração aos 26 anos da rádio CBN:

 

 

 

 

Desligar é preciso!

 

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Foi-se o tempo em que nas férias tínhamos permissão para o isolamento,  era o momento de descansar o corpo e a mente. Do trabalho ficava-se afastado. Dos problemas do cotidiano, também. Todos a quilômetros de distância, que podia ser medida por linhas telefônicas precárias e caras. Para ligar em casa, ficávamos horas na fila e a conversa tinha de ser rápida para não inviabilizar o orçamento das férias. Estivéssemos no exterior, era mais fácil enviar um cartão postal, que tendia chegar ao destino depois de nós.

 

As notícias não circulavam. Quando muito apareciam estampadas na banca de jornal. Dependendo o lugar, chegavam à tarde. Em outros, só se alguém estivesse chegando à cidade. Lembro que em Nova York costumávamos ir até a rua dos brasileiros onde algumas tabacarias vendiam o Estadão, único jornal que desembarcava por lá nas asas das extintas Varig e Vasp. O que líamos tinha o sabor da novidade.

 

Hoje, assim que acordo, a tela do celular estampa as últimas do dia. O Twitter já me contou pedaços da história. E a caixa de correio eletrônico está cheia de pedidos e ofertas enviados por quem não sabe que você tem direito a férias.

 

Nestes últimos dias, os primeiros das férias, tenho sido bombardeado por tragédias.

 

Aqui na Itália, dois trens se chocam e 27 pessoas morrem. Teria havido falha humana, dizem os investigadores. Um agente de tráfego ferroviário não avisou ao outro que deixou passar despercebido e todos permitiram que dois trens pegassem a mesma via em sentidos contrários. Falha desse diacho da comunicação, o que nos remete a uma contradição moderna: ao mesmo tempo que estamos sufocados de informação, deixamos as essenciais de lado.

 

Além da comunicação, o acidente pode ter sido provocado pela corrupção, também. É o que diz a Autoridade Nacional Anti-Corrupção, Raffaele Cantone: o dinheiro roubado deixa de financiar obras de infraestrutura como as que duplicariam a linha onde ocorreu o acidente, que deveriam ter sido concluídas até o ano passado. Ainda não se iniciaram. Para ele, este é “um problema atávico do nosso país”. Do nosso também.

 

A imagem dos dois trens fundidos em ferro e morte destacada nos jornais e internet em seguida foi substituída pela de um caminhão conduzido por um terrorista, em Nice, na França. Ele atropelou e atirou contra a multidão que comemorava o 14 de julho, feriado nacional para celebrar os valores da Revolução Francesa. São 84 mortos até a última atualização. O motorista é um franco-tunisiano e foi morto por policiais.

 

Claro que eu poderia simplesmente desligar-me de tudo. Ao menos tentar. Deixar o computador fora do alcance ou o celular sem bateria. Talvez tivesse de restringir meu contato com as pessoas a um buongiorno ou uma buona sera, sem abertura para conversas do tipo: “che cosa succede?”.

 

Quem disse que consigo?

 

Aqui estou no computador, atualizando o blog para compartilhar com você, caro e raro leitor, as coisas que se sucedem – como se você não soubesse de tudo isso e mais um pouco. A impressão é que se não fizer isto, o cérebro vai transbordar de informação, o que me remete a percepção de Alain de Botton, filósofo do cotidiano, que  diz sermos todos viciados em notícia.

 

Para relaxar talvez a opção seja se ligar na sensação do momento e se transformar em um caçador de Pokemon. Aqui na Itália, aí no Brasil, ou em qualquer lugar que você navegar no noticiário, vai se deparar com informações sobre o novo jogo da Nintendo. Até autoridades públicas entraram na brincadeira como o prefeito Eduardo Paes pedindo que os monstrinhos cheguem para a Rio2016.

 

O problema é que pra se divertir tem de se conectar. E desligar é preciso!

Empreendedorismo: não evite notícia ruim, use-a a seu favor

 

 

Na rádio ou no jornal; na TV ou na internet. As notícias ruins estão por aí. Muitas vezes, nos assustam. Tem gente que se esconde delas. Outros, apagam o rádio, não leem e não veem, temendo ser contaminados pelo pessimismo.

 

Uma das questões apresentadas durante o Papo de Professor, promovido pelo Sebrae Pronatec, foi como os empreendedores deveriam se proteger das notícias ruins. Minha ideia é muito clara: informação é essencial para planejarmos e nos preparamos. Portanto, não evite as notícias ruins, use-as para estar pronto para encarar o próximo desafio.

 

Assista a outros vídeos com perguntas e respostas sobre empreendedorismo.