Novelas, conceitos e preconceitos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A dois dias do fim de “Amor à vida” temos vivenciado ampla cobertura da mídia sobre a novela das 9hs da TV Globo. Nada mais natural, pois se trata do programa de maior audiência do país. E um dos mais antigos. Fato que lhe confere importância ao mesmo tempo em que se questiona o seu futuro, tendo em vista a atual tendência da queda de pontos no Ibope. Não é o que preocupa, por exemplo, o autor da próxima novela, Manoel Carlos, pois em entrevista a Veja, lembrou que na década de 60 até o cinema e os romances água com açúcar tiveram seu desaparecimento previsto.

 

Na verdade a segmentação de mercado explica a queda de pontos, ao mesmo tempo em que a posição se fortalece dentro do seu mercado específico. Certamente por isso que as novelas absorveram as inovações tecnológicas e operacionais, inclusive atuando no dia a dia da internet e das mídias sociais, mas não mudaram conceitos básicos. Até mesmo a longa duração está sendo mantida.

 

Se os conceitos não foram mudados, os preconceitos também não. É comum ouvir pessoas orgulhosamente se identificar com aversão a novelas. Em contrapartida, consumidores fidelizados e eventuais têm oportunidade de acompanhamento e participação como nunca tiveram. E ao considerarmos um contingente diário de mais de 20 milhões de pessoas assistindo ao mesmo programa durante oito meses, pode ser que não chegaremos a afirmar que as novelas são o pão nosso de cada dia, como exagerou Manoel Carlos, mas é um evidente fenômeno.

 

Mesmo extrapolando algumas vezes, ao abusar da inteligência da audiência ou transformando merchandisings em propaganda explícita, algumas novelas têm atuado nos usos e costumes criando situações educativas ou mesmo denunciando problemas como o tráfego de pessoas, o desrespeito aos idosos, e a ignorância no trato com doenças crônicas. Além de atacar os preconceitos com as minorias.

 

É arte que copia a vida e é também copiada. É fantasia e ficção, mas é muito real como negócio e por isso deve ser consumida como tal.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

O que vai acontecer com Paulinha?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Se perguntar para Patrícia Kogut da Globo, provavelmente dirá que ela terá que enfrentar sérios conflitos emocionais entre Paloma e Ninho, pais naturais, contra Bruno seu pai “verdadeiro”, mas terá um final feliz.

 

Se perguntar para a ministra Kátia Arruda do TST – Tribunal Superior do Trabalho provavelmente ouvirá que o trabalho na TV pode acarretar mudanças no comportamento de Klara Castanho, a menina de 12 anos que interpreta Paulinha. E o final feliz não estará garantido.

 

Ao assistir aos recentes capítulos de Amor à Vida e observando a interpretação de Klara Castanho como Paulinha, admiramos o desempenho teatral apresentado. Mais ainda ao assistir à entrevista que a premiada atriz mirim deu sobre a forte cena da descoberta da paternidade, quando foi aos prantos sem truques.

 

A questão é que este trabalho realizado de forma tão profissional e madura, não escapa à indagação sobre o reflexo à formação de uma criança. Ainda mais que o trabalho infantil é proibido para menores de 16 anos.

 

O problema é que há caminhos legais que permitem esta exposição de crianças. Principalmente baseadas no preconceito, pois a glamorização da atividade artística e principalmente televisiva endossa esta atividade, mesmo para menores de até seis anos de idade. Enquanto outros trabalhos menos “nobres” e mais braçais são demonizados.

 

No tênis, por exemplo, a formação de tenistas de ponta oriundos da atividade infantil de pegadores de bola, foi interrompida ao cumprir a lei do trabalho do menor. Maneco Fernandes, Givaldo Barbosa, Julio Goes, Edvaldo Oliveira e Julio Silva, meninos pobres, e campeões, não mais existirão. Os potenciais pegadores de bola de hoje terão que ingressar como aprendizes e somente dos 14 aos 16 anos, idades que os Givaldos já eram bons de bola.

 

Enquanto isso, Paulinha, que já foi Rafaela, a primeira menina vilã da TV brasileira, deverá enfrentar cenas mais dramáticas, com doença grave e sem cabelo.

 

Esperemos que Walcyr Carrasco amoleça um pouco a trama para Paulinha, antes que se repita o ocorrido com Rafaela, quando a Promotoria interveio.

 

É bem verdade que depois disso, Klara ganhou o Prêmio de Melhor Atriz Mirim de 2010 e Contrato de dois anos com a TV Globo.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Avalanche Tricolor: estava mais pra Divino

 

Corinthians 3 x 1 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu (SP)

 

Você há de convir, caríssimo torcedor gremista, futebol aos sábados, 9 da noite, só se for do Divino, o melhor time da dramaturgia brasileira,  que reúne um grupo de jogadores mais envolvidos em paixões e dramas do que com a bola. Algumas vezes até os vemos trocando passes durante os treinos, em um estádio de subúrbio e sob o comando de um técnico que não apita nada. Sabemos que a bola entra no gol ou se espatifa na arquibancada de acordo com o interesse do autor João Emanuel Carneiro. É ele quem decide o destino de cada jogada na novela. Em um capítulo, Roni, o craque e filho do presidente, estufa a rede para mostrar que está de bem com a vida, mesmo que para esconder sua homossexualidade tenha sido obrigado a casar com Suelen, a maria chuteira do bairro. Em outro, Jorginho, filho adotivo do eterno ídolo Tufão, tropeça na bola como complemento de um capítulo no qual se enreda ainda mais em uma trama familiar difícil de explicar.  Iran, que sonha em morar na zona Sul, e Leandro, por quem Roni é apaixonado, também aparecem com algum destaque, mas não são capazes de mudar o jogo. Neste roteiro que está com a bola toda no Ibope, por mais surpresas que surjam a cada capítulo, me parece bem razoável que o único final feliz que podemos garantir é o da vitória do Divino e a conquista do título no último capítulo, de preferência com gol de Adauto, que voltaria a jogar depois de ter encerrado a carreira precocemente, após perder penâlti na decisão da Segunda Divisão, no Maracanã.

 

Perdoe-me, caro e raro leitor, se dedico o parágrafo inicial desta Avalanche para falar de novela. Mas como tenho sempre a impressão de que o destino tricolor faz parte de um roteiro de drama, sofrimento e glória, escrito pelo destino, quero crer que o resultado desta noite de sábado seja apenas um capítulo desta trama que culminará com a conquista do Campeonato Brasileiro, assim como acontecerá com o Divino, na novela Avenida Brasil.

Um final feliz para Luciana de Viver a Vida

 

Alinne Moraes no papel da tetraplégica Luciana

Casal no altar, pais reconciliados, viciado sorrindo pela recuperação e o vilão pagando seus pecados na cadeia para delírio da torcida. A síndrome do Final Feliz que contamina os autores de novelas está sob ameaça na recém-iniciada Viver a Vida, da TV Globo, graças ao destino traçado à personagem Luciana, modelo que após acidente ficou tetraplégica. A curiosidade é que a preocupação de que o autor Manoel Carlos decida “curar” Luciana no último capítulo é de parentes e profissionais ligados a pessoas com deficiência.

Desde a confirmação da sequela deixada pelo acidente de ônibus, tenho recebido mensagens de pais de jovens com deficiência, filhos que cuidam de pais que sofreram lesões de extrema gravidade na coluna e profissionais de saúde que se deparam com esta realidade diariamente. Temem que a hipocrisia leve a novela a apresentar uma transfusão mágica ou uma cirurgia milagrosa para “salvar” a vida da menina bonita.

Há duas semanas, ocomentarista Cid Torquato, do Cidade Inclusiva, anunciou no CBN São Paulo, o destino de Alinne “Luciana” Moraes, que ainda fazia o papel de modelo de passarela disputando beleza com a colega Helena que casou com o pai dela, Marcos. Ele foi afirmativo ao dizer que ao contrário de outras novelas, Manoel Carlos estava disposto a mostrar a realidade na vida de pessoas com tetraplegia, sem apresentar falsas esperanças.

“Quando encaramos a verdade, fica mais fácil agir naturalmente e é essa verdade dos fatos que faz com que o deficiente encare a sua realidade e passe a exigir respeito, a exigir o compromisso das autoridades frente aos tratamentos e, principalmente, faz com que o próprio deficiente tenha acima de tudo amor próprio e o respeito por si”. A opinião é da ouvinte-internauta Suely Rocha.

Em Viver a Vida, o final feliz não está na descoberta da cura de uma deficiência que limita o movimento do corpo, mas no combate ao preconceito que restringe a inclusão de um cidadão.