Avalanche Tricolor: o guri que vestia a camisa 3 está de volta

 

Rosário Central 1×1 Grêmio
Libertadores – Gigante de Arroyito/Rosário ARG

 

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Todos querem a camisa de Geromel, como se vê na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A estreia na Libertadores 2019 me colocou diante de uma das raras fotos que consegui preservar da época em que jogava na escolinha de futebol do Grêmio. Perfilado, com os braços soltos ao longo do corpo, sobre a linha lateral do gramado do saudoso estádio Olímpico, fui flagrado por um dos fotógrafos esportivos que aguardavam o time principal entrar em campo. Não tenho o nome do autor da foto, mas se o fez, tenho certeza, foi para presentear meu pai, que deveria estar orgulhoso de ver o guri naquela posição.

 

Naquele tempo, não tínhamos acesso ao uniforme oficial dos clubes de futebol. Comprava-se as camisetas na lojinha do bairro. A minha era de um tecido mais grosso, com o azul, o preto e o branco desbotados pelas inúmeras lavagens feitas por minha mãe. Com a gola em vê e sem direito a emblema do Grêmio no peito, o único adereço que havia —- e não aparece na foto —- era o número 3 nas costas, que mais do que minha posição preferida, revelava a admiração por um dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa, Atilio Genaro Anchieta — capitão da seleção do Uruguai e do próprio Grêmio. Uma espécie de Geromel dos anos de 1970.

 

Ver aquela foto me fez voltar para um tempo em que a Libertadores era sonho distante para os gremistas. Nos satisfazíamos com o aguerrido campeonato gaúcho. Nos orgulhávamos das vitórias sobre times do eixo Rio—São Paulo. Ganhar um campeonato brasileiro seria uma façanha. Foi lá, porém, que forjamos o caminho que nos levou ao topo do Mundo e nos coloca, hoje, entre os maiores times do futebol do planeta.

 

Em campo, o Grêmio é respeitado mesmo pelos arquirrivais argentinos, contra quem travamos alguns dos grandes e heróicos clássicos sulamericanos. Afinal, estamos em nossa décima nona participação de Libertadores, competição que já vencemos três vezes — a última em 2017, ou seja, coisa recente, que segue na memória dos adversários. Sem contar o futebol qualificado que temos jogado há três anos, desde o retorno de Renato ao comando técnico do time —- futebol reconhecido aqui e lá fora.

 

Nossa reputação, contudo, não significa vida fácil contra nossos adversários. Ao contrário. Eles transformam a partida em uma guerra. Como se ganhar do Grêmio fosse um troféu à parte na competição. Por isso, não surpreende a maneira até violenta com que fomos recebidos em campo na noite de ontem, na Argentina — boa parte dessa violência ocorreu sem qualquer punição por parte do árbitro.

 

Pelas fotos feitas por Lucas Uebel —- fotógrafo oficial do Grêmio e autor das imagens que costumo reproduzir nesta Avalanche —, o árbitro não apenas deixou de advertir o adversário com a rigidez necessária como também não viu um pênalti sobre Geromel, no qual teve sua camiseta de número 3 agarrada pelo marcador. Foi um pouco antes do entrevero que ocorreu entre o mesmo Geromel e o atacante adversário, já na área gremista, ao fim do primeiro tempo.

 

Independentemente da marcação mais forte do que as regras esportivas recomendam ou da disposição do adversário para nos superar —- e isso são apenas motivos de mais orgulho para esse gremista —-, o Grêmio foi maduro em campo. Não perdeu a cabeça, mesmo tendo sofrido gol logo no segundo minuto de partida. Evitou cair em provocações. Colocou a bola no chão, trocou passes, esperou brechas na marcação adversária e chegou ao empate.

 

O gol que marcou foi resultado dos muitos méritos que essa equipe leva a campo, além da própria maturidade para encarar reveses. Após pressionar muito, ameaçar jogadas por um lado e por outro, contamos com a visão de jogo e a precisão do passe de Marinho. Ele estava marcado pelo lado direito e teve capacidade de enxergar Everton lá do outro lado. A partir daí, ficamos por conta do talento de nosso atacante que driblou dois marcadores dentro da área e completou a jogada colocando a bola no fundo do poço.

 

Não tenho mais aquela camiseta desbotada da foto antiga. As que me acompanham em casa estão emolduradas ou dobradas no armário a espera de um espaço na parede — ainda quero ter uma de Geromel, um Anchieta redivivo e melhorado pelo tempo. Mas o guri com a camisa 3, sem emblema, lá do gramado no estádio Olímpico, voltou a se revelar na noite dessa quarta-feira de cinzas, ao vibrar como louco, com os punhos cerrados e o grito de gol que nos garantiu o primeiro ponto na estreia da Libertadores, jogando fora de casa naquele que é conhecido por Grupo da Morte.

Avalanche Tricolor: que baita saudade!

 

Botafogo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Nilton Santos/RJ

 

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De folga nestes dias, vim a Porto Alegre me encontrar com a família. Quando estou por aqui, fico na casa da Saldanha Marinho, que já foi muitas vezes protagonista desta Avalanche. É a vizinha do velho estádio Olímpico, no limite entre o bairro Menino Deus e o da Azenha. Daqui até ali é um pulo só — um salto que deixou marcas no meu coração pelas vitórias e sofrimentos, muitos dos quais confidenciados a você caro e raro leitor deste blog.

 

Nesse sábado, peguei carona com meu irmão e demos uma volta no entorno do Olímpico —- ou o que resta dele. O lado que costumo enxergar aqui de casa não causou tanto desconforto, talvez por já ter absorvido a imagem do estádio sem o anel superior.

 

Incomodou-me, porém, o restante do tour, a começar pela passagem do Largo dos Campeões – portão de grade fechado, pedaços de cimento espalhados pelo piso, e os Arcos que recepcionavam a torcida esquecidos, servindo de estacionamento para dois carros — quem teria o privilégio de acessar aquele espaço?

 

Já do lado da Azenha, a coisa é ainda pior. Os despojos do ginásio onde treinei basquete por 13 anos e da churrascaria, que recebia visitantes estrangeiros e ilustres; os tapumes diante dos portões por onde parte dos torcedores chegavam e o mato cobrindo o que antes era a sede social, onde ficavam as piscinas do clube — tudo isso compõe uma imagem melancólica.

 

Tenho saudade do Olímpico por tudo que representou na minha vida —- e saudade é uma lembrança que vem pela alegria ao contrário da nostalgia. Se é triste presenciar sua desconstrução sem o devido respeito à sua história; é com satisfação que rememoro os momentos que presenciei nas arquibancadas e nos bastidores do nosso antigo estádio.

 

Voltei para casa para assistir ao Grêmio pela TV, na terceira rodada do Campeonato Brasileiro. Fomos de time alternativo ao Rio. Dos titulares somente Luan. Tudo bem, se quiser pode colocar André nesta conta, pois tem saído jogando desde que o Brasileiro iniciou-se.

 

Tive saudade no desenrolar da partida daquele passe perfeito, daquele deslocamento veloz e daquela defesa impenetrável, coisas que o time completo costuma oferecer ao torcedor — mas não é justo exigir espetáculo igual se nossa escolha foi por deixar os titulares descansando.

 

A saudade do Olímpico ficará no coração para sempre; a do futebol talentoso que tem sido premiado com títulos e elogios, matarei na terça-feira, quando o Grêmio estará disputando a liderança do grupo A da Libertadores, em nossa casa mais moderna e confortável, a Arena.

Avalanche Tricolor: foram palavras mágicas!

 

 

Grêmio 3×0 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

 

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Muitos motivos para sorrir (foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O saudoso estádio Olímpico está a alguns passos de onde escrevo esta Avalanche, nesta noite de domingo. A Arena fica mais distante, algo em torno de 11 a 12 quilômetros. Era para lá que seguiria nessa tarde para assistir ao Gre-Nal 414. O ingresso destinado aos sócios, no setor Oeste das cadeiras gold, ficou armazenado no meu computador a espera de ser impresso. Preferi guardá-lo. Mudei meus planos.

 

Em vez do estádio, entendi que meu lugar era na sala da casa onde passei minha infância e adolescência, na Saldanha Marinho, no bairro do Menino Deus. Naquele mesmo espaço onde nossa família se reunia no passado, onde eu e meus irmãos brincávamos, onde a mãe montava a árvore de Natal, onde ligamos a nossa primeira TV a cores … Ali mesmo, onde hoje estariam meu irmão mais novo, meu filho mais velho e, especialmente, meu pai.

 

Foi ele, o pai, quem me ensinou a ser gremista desde pequenino – usou método pouco ortodoxo, é verdade, e já escrevi sobre isso em Avalanches anteriores, mas foi fundamental na minha escolha.

 

O pai me levou pela mão ao estádio Olímpico, me apresentou muitos dos meus ídolos, me fez conhecer os bastidores e corredores do time. Me fez íntimo daquele espaço e daquelas cores. Forjou minha personalidade e educação nas conversas que tínhamos diariamente, nas quais o Grêmio era nosso motivo de interação.

 

Foram-se muitos anos desde aqueles tempos de guri. Eu já estou com 54 anos e o pai com 82. Por aquelas coisas que a idade avançada vai nos tirando da memória, a conversa com ele já não tem a mesma fluidez. A gente se esforça para dialogar, dizer algumas palavras, descobrir o que queremos falar um para o outro. Às vezes, a mensagem chega por gestos, por sorrisos ou pelo olhar.

 

Com medo que essa distância aumente de maneira acelerada, acreditei que estar ao lado dele, neste domingo, era o melhor que poderia fazer, aproveitando minhas férias na cidade. Por isso nos sentamos nos sofás e poltronas novos que ocupam a nossa velha sala de televisão para assistir ao Gre-Nal.

 

Foi mágico!

 

Falamos do jogo e dos jogadores; vibramos com as primeiras defesas de Marcelo Grohe; nos incomodamos com a falta de chute do nosso time; reclamamos do árbitro e das manias dos locutores e comentaristas esportivos. Em pouco tempo, éramos novamente pai e filho daquele passado que havia se passado bem ali ao lado, no estádio Olímpico.

 

E foi ainda mais mágico, porque o Grêmio parecia entender os instantes que estávamos experimentando juntos.

 

Para nos oferecer a primeira grande alegria, fez questão de marcar um gol, através de Everton, ainda antes do intervalo, em uma troca de passes típica deste time que tem encantando a América. Apenas não corri e me joguei nos braços do pai porque achei que ele não suportaria essa extravagância. Preferi dar-lhe um abraço e um beijo enquanto falávamos da nossa satisfação.

 

Tive de me conter mais uma vez, aos 17 minutos do segundo tempo, ao ver Jael bater falta de maneira precisa e indefensável e correr em direção a Renato com o sorriso característico deste atacante que a cada partida revela seu prazer em ser feliz. Sorrimos, o pai e eu, juntos com Jael. Voltamos a nos abraçar e trocamos palavras de felicidade.

 

Aos 31, acompanhamos quase em pé a corrida de Arthur em direção ao terceiro e definitivo gol. A medida que a bola se aproximava do “fundo do poço”, nós já nos cumprimentávamos, agora batendo as mãos no alto, uma contra a outra, como se fôssemos dois adolescentes. Era o que parecíamos mesmo, narrando novamente cada momento daquela jogada, o lançamento, o toque de ombro de Jael, a escapada de Arthur e o chute por debaixo do goleiro adversário.

 

Falávamos com satisfação, felicidade e jovialidade. Falávamos do Grêmio e das alegrias que ele nos proporcionava. E a partir da nossa fala, descobri que por mais que a memória queira ir embora, as palavras que sempre nos uniram se mantém vivas. E esta foi, mais do que a goleada, a minha maior alegria deste domingo de Gre-Nal.

A Avalanche definitiva

 

 

Voltei para casa. Mesmo morando há 21 anos em São Paulo, lá ainda é a minha casa. Minha infância, minha adolescência e o início da vida adulta foram vividos por lá. Fui brincar no pátio como fazia quando criança. Vi o campinho de futebol, encostado na rua Dr Aurélio Py, onde joguei bola muitos anos, nos tempos em que, como zagueiro e lateral esquerdo, exercitava a arte de chutar canelas. Havia muitos carros estacionados sobre ele, mas o areião, no qual rasguei joelhos e cotovelos, ainda se destaca em toda sua extensão. Do outro lado, vi a quadra na qual joguei basquete, passei frio e escorreguei na água da chuva que ultrapassava o telhado que despencou durante um vendaval. No meio do caminho enxerguei a sacada, onde meus craques apareciam de vez em quando, abanavam e, com o polegar, davam sinais de confiança. Foi meu pai quem lembrou das piscinas que ladeavam a avenida Carlos Barbosa, as quais frequentava carregado pelas mãos da minha mãe, no verão gaúcho. Os guris com quem fiz amizade não encontrei. Devo ter passado por eles, mas a idade escondeu seus traços de criança e não os reconheci. Havia outros ao meu lado. O Christian, meu irmão, o Fernando, meu sobrinho, e o Lorenzo, meu filho mais novo, que não escondia a alegria de estar compartilhando comigo as brincadeiras de criança naquele imenso pátio que se transformou o Olímpico Monumental.

 

No último dia de vivência no estádio, cenário de parte da minha vida, chorei de forma contida, não pela despedida, mas ao ouvir, mais uma vez, o radinho de pilha transmitir a voz de meu pai que, Milton Ferretti Jung, que por 15 longos minutos, narrou os lances do Gre-Nal. Antes do jogo, havia sido tocante ouvir as declarações dos craques do passado que desfilaram no gramado do Olímpico. Gente como Gaspar, Jardel, Danrley, Mazaropi, Iura e Loivo, meu eterno Coração de Leão. Nada se comparou, porém, a transmissão feita pelo meu craque da locução esportiva. Perfeccionista, jura que os óculos impróprios para a distância atrapalharam e preferia ter dado ritmo mais acelerado ao jogo. Só ele tinha esta preocupação. O que nós, seus fãs e ouvintes, queríamos era relembrar, agradecer por todas as emoções narradas. Tirar foto ao lado dele, assim como dezenas fizeram questão na caminhada até a cabine da rádio Guaíba. Voltar no tempo.

 

O Gre-Nal desse domingo, que só descrevo ao fim desta segunda-feira pela necessidade de retomar o fôlego, sufocado pelas sensações que vivi, era coadjuvante num cenário tão grandioso. A falta do futebol bem jogado, a carência de habilidade para furar bloqueios defensivos, a predominância da violência, o descontrole dos comandantes e a incompetência do árbitro pouco nos importaram. Esperávamos o fim da partida ansiosos para dar adeus ao velho estádio. E o fizemos com uma Avalanche definitiva, que extrapolou os limites da Geral, torcida que trouxe este movimento sincronizado para as arquibancadas. Era a última vez, oficialmente, que comemoraríamos nossos feitos, ao lado de filhos, sobrinhos, irmãos, pais e amigos no pátio da minha casa. No Olímpico Monumental.

E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.

 

Da inauguração à despedida do estádio Olímpico

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Conheci quando criança – nem me lembro que idade tinha – a primeira praça de futebol do Grêmio: o Estádio da Baixada ou, se preferirem os mais velhos, o Fortim da Baixada, situado na Rua Dona Laura, no bairro Moinhos de Vento. Meus amigos e eu, deixamos Higienópolis, onde morávamos, caminhando até a Baixada. Era um domingo e pretendíamos dar um jeito de entrar no Estádio. Queríamos ver o Grêmio jogar. O máximo que conseguimos foi espiar a partida por uma fresta. Eu, pelo menos, não voltei mais a ver o Grêmio atuar naquele local, cujo pavilhão de madeira foi cedido ao Força e Luz, dono do Estádio da Timbaúva, em troca do zagueiro Airton, de saudosa memória para os gremistas.

 

Minha carreira radiofônica começou em 1954,na Rádio Canoas, um pequena emissora, por coincidência, no mesmo ano em que o Presidente tricolor, Saturnino Vanzelotti via realizar-se o seu sonho de dar ao seu Clube um moderno Estádio, o Olímpico Esse, mais tarde, foi ampliado por outro dirigente: o Dr.Hélio Dourado. Uma das minhas primeiras tarefas, na Canoas, foi a de fazer a cobertura jornalística da inauguração do Estádio Olímpico. Há quem imagine que eu tivesse narrado o Gre-Nal, que havia sido o jogo escolhido para a festa inaugural, de má memória para o Grêmio. Eu era solteiro e ainda morava no bairro de Higienópolis. Casei e nos mudamos para bem bem perto do Olímpico, onde o Christian, meu caçula,ainda reside, isto é, na Rua Saldanha Marinho. O Mílton Jr., que jogou na escolinha de futebol do Grêmio e depois, passou 12 anos no basquete gremista, atuando do time infantil ao adulto, hoje âncora do Jornal da CBN, em São Paulo, no blog dele, sempre que o Grêmio joga, não deixa de escrever a “Avalanche Tricolor”. Nessa, não faz muito, lembrou, que considerava o pátio do Olímpico, uma extensão do quintal da nossa casa.

 

Neste domingo, Mílton e Lorenzo, um dos meus netos, mais Christian e Fernando, o filho dele, ambos que seguem morando na Saldanha Marinho, vão tentar acostumar-se a viver longe do novo e moderníssimo estádio gremista: a fabulosa Arena. Ficamos com dois corações, um deles triste, com a despedida do passado; o outro, alegre com o a praça de esportes do presente, que se inicia daqui a alguns dias.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Mais dois trófeus

 

Grêmio 4 x 0 Ypiranga
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

 

Foi uma semana de muitas emoções para este coração tricolor e, curiosamente, estas foram provocadas mais pelo que ocorreu fora do que dentro de campo. Não que os resultados destes últimos dias tenha desagradado. Bem pelo contrário. Foram duas vitórias importantes, sete gols marcados e nenhum tomado que nos deixaram um passo mais próximos de nossas conquistas. Seja na Copa do Brasil seja no Campeonato Gaúcho, faltam apenas três adversários para serem batidos até o título final. Uma sequência incrível de decisões em mata-mata que promete testar nossos nervosos e capacidade até somarmos mais dois troféus para nossa galeria. E pelo jogo de hoje, quando os jogadores de trás se sobressaíram, aparecendo de forma positiva no ataque, é para acreditar na nossa força, sem esconder as carências que ainda são evidentes. Mas não estou aqui para falar sobre estas, aproveitando apenas a frase para deixar meu desejo de que sejam resolvidas no vestiário e nos treinos da semana.

 

Quero mesmo é dedicar esta Avalanche à alegria que senti ao receber um presente e tanto. Dois troféus – como fiz questão de apresentar a todos os amigos. Alguns estavam perto de mim e logo perceberam meu sorriso quando fui agraciado com a caixa contendo duas camisetas comemorativas do Grêmio que marcam os 58 anos de trajetória no Olímpico Monumental, este estádio do qual estaremos nos despedindo no fim do ano e no qual vivi alguns dos momentos mais intensos da minha vida de torcedor, jogador, filho e cidadão. Um dia ainda terei tempo para descrever o quanto amadureci respirando o ar tomado pelo cheiro de cimento das arquibancadas do Olímpico, de terra dos seus campos suplementares e de umidade no seu ginásio de basquete. Hoje quero dividir com você a satisfação de vestir a atual camisa tricolor, desenhada pela Topper a partir do modelo usado por Tesourinha, Airton Pavilhão e equipe na inauguração do Olímpico, oportunidade em que vencemos o Nacional do Uruguai com dois gols do atacante Vitor. Aliás, a outra camisa que ganhei é a réplica daquela que ainda tinha no peito o escudo gremista com a palavra Foot-Ball em destaque, que não deixava dúvida da nossa missão: jogar futebol de verdade (a propósito, foi o que fizemos na tarde deste domingo, não é mesmo?)

 

As duas camisetas já têm lugar reservado no Memorial do Imortal, espaço que mantenho em minha casa com ítens que se transformam em pedaços da história gremista.

Avalanche Tricolor: Copa do Brasil ou será da Argentina?

 

 

Grêmio 3 x 0 Ipatinga
Copa do Brasil – Olímpico Monumental

 

 

 

 

É muito legal assistir aos jogos do Grêmio pela Copa do Brasil e não escrevo isto pensando no futebol talentoso e forte que poderíamos desenvolver – e, registre-se, não temos feito isso nas últimas partidas, seja na Copa seja no Gaúcho. Digo de quanto é bacana acompanhar esta competição porque os locutores, comentaristas e repórteres de campo da televisão não se cansam em repetir que somos o primeiro campeão da história da Copa, estivemos em sete finais, vencemos quatro, estamos sem perder há sete anos dentro do estádio Olímpico – mesmo que isto não signifique mais de nove jogos – e tantas outras daquelas coisas que tratam do passado (e dizem pouco sobre o presente). Eles não se cansam de falar e eu não me canso de ouvir, mesmo que o jogo esteja cansativo.

 

 

Quanto a partida de ontem, é bem verdade, estivemos mais para Copa da Argentina do que para Copa do Brasil, haja vista a relevância dos hermanos no ataque gremista. Bertoglio e Miralles fizeram a diferença na classificação à próxima fase e deixaram a esperança de que poderão desequilibrar com seu futebol surpreendente nas seis partidas que nos separam da conquista do penta.

Avalanche Tricolor: Jonas pode

 

Grêmio 2 x 1 São José
Gaúcho – Olímpico Monumental

Jonas está condenado às críticas nestes próximos dias. Moralistas sem causa e senhores de caráter ilibado pedirão punição, afastamento, quem sabe uma medida exemplar contra o atacante que explodiu de razão ao marcar o primeiro gol do Grêmio.

Ouvirá conselhos e puxões de orelha de comentaristas, torcedores e dirigentes. Afinal, as ofensas públicas dirigidas à social do estádio Olímpico não condizem com os bons modos exigidos de um atleta profissional.

Que partam todos para o destino que Jonas os encaminhou !

Ouviram porque falaram. E vaiaram de maneira errada, injusta. Foram incapazes de compreender as razões que impedem Jonas e seus colegas de imprimirem o futebol que sempre esperamos. Estão sendo preparados para uma decisão em poucas semanas, sem direito a pré-temporada e após terem imposto um ritmo alucinante no fim do ano anterior.

Tem todo o direito de explodir com aqueles que não enxergam que entre o desejo de tocar a bola ou chutar a gol existem músculos endurecidos pelos treinos de início de ano. Os impacientes que se retirem. Deixem Jonas fazer seus gols estranhos, bonitos e decisivos.

Jonas tem crédito no clube e no futebol, que não lhe dá o devido respeito. Goleador do Brasileiro foi preterido por muitos na escolha dos melhores do País. Com fama de patinho feio, vê os críticos torcerem o nariz. Sofre o mesmo dentro do seu time.

Um dos maiores atacantes que passaram pelo Grêmio e peça fundamental para a arrancada de 2010, merece toda a nossa atenção. Tem de ser valorizado pelo que faz e pelo que é.

A reação dele é paixão que tem pelo que busca. E isto tem de ser admirado, não criticado. Jonas é capaz de chorar dentro de campo se não alcança seu objetivo. Não aceita a indiferença diante dos fatos.

É bom moço, sincero nas palavras e resignado.

Em vez de glorificado, assistiu durante as férias ao enorme esforço da diretoria para enfiar goela abaixo de parte da torcida um falso ídolo. Enquanto ele nem contrato tem renovado.

Jonas é o nosso ídolo.

E após a “comemoração” da noite dessa sexta-feira, em Porto Alegre, meu ídolo ainda maior.

Gol neles, Jonas !