Foto-ouvinte: Paciência e passageiros

 

Estação Brás da CPTM

A plataforma da estação Brás da CPTM estava tomada de passageiros às seis e meia da tarde, quando o ouvinte-internauta Edgar Pereira cruzava de trem pelo local. Acostumado a usar o outro lado da linha apenas fora do horário de pico, foi embora pensando no tamanho da paciência que cada um daqueles passageiros tem de ter para enfrentar esta situação absurda.

Ônibus atrasado, passageiro no ponto

Não tão cheio quanto sua versão sobre trilho, mas também exigindo extrema paciência, neste ponto do Terminal Bandeira os passageiros aguardavam o ônibus da linha 6366-10, que estava atrasado, conforme constatou o ouvinte-internauta Airton Goes.

Ônibus em São Paulo anda mais devagar que galinha

 

Corredores mal planejados reduzem a velocidade dos ônibus para até 12km/h, em média, enquanto as galinhas atingem velocidade de até 15km/h.

Adamo bazani

Z CORREDOR 1

Uma fila de ônibus no correr da Santo Amaro, zona sul da capital, é o que se percebe na primeira foto do acervo de Alberto Gomes, feita em 1988. No primeiro plano há um Caio Amélia Mercedes Benz da Gatusa, outro da São Luis e um Marcopolo Torino Scania da CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos.

Z CORREDOR 4

Uma imensa fila de ônibus no corredor das avenidas Rebouças e Eusébio Matoso, sem ponto de ultrapassagem, é o que se vê na imagem feita pelo repórter fotográfico da Folha Imagem, Renato Stockler, em 2005.

Especialistas em trânsito e mobilidade urbana são unânimes em dizer que os corredores de ônibus são uma das medidas para melhorar os deslocamentos urbanos, diminuir congestionamentos e atrair os passageiros dos carros para o transporte público. Os ganhos ambientais com a redução das frotas de carros de passeios também são grandes. Um ônibus pode tirar das ruas de 20 a 40 carros de uma só vez. São dezenas de escapamentos sendo substituídos por um único veículo. Esses ganhos se tornam maiores ainda se os corredores de ônibus contarem com veículos de tecnologias limpas como os trólebus.

Cidades de condições econômicas diferentes mostraram que corredores modernos podem, sim, ajudar e muito nos problemas urbanos.

Lion, na França, possui um dos mais modernos sistemas de ônibus elétricos, integrados até mesmo com carros de passeio, que param em determinados pontos, em bolsões de estacionamento, para seus donos seguirem para as áreas mais movimentadas de transporte público. Curitiba, no Paraná, o primeiro sistema de ônibus expressos do mundo, inaugurado em 1974, foi um dos agentes principais para remodelar a cidade, que é considerada modelo. Na Colômbia, o Transmilênio é um dos casos mais bem sucedidos da América do Sul, contando com ônibus modernos, de grande capacidade, num sistema que agiliza as operações com o pagamento da passagem antes do embarque e pontos de ultrapassagem. Entre São Mateus, na zona Leste da Capital Paulista, e Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, passando pelos municípios do ABC Paulista, o corredor, na maior parte dos trechos segregado dos demais veículo e eletrificado, foi considerado por um índice de qualidade da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, que leva em consideração a opinião dos usuários, entre outros fatores, o melhor sistema de ônibus intermunicipal do Estado de São Paulo. O fato de a maior parte do corredor ser eletrificada, é um dos pontos apontados como positivos pelos usuários.

Enquanto isso, na capital paulista, os corredores de linhas municipais, apesar de apresentarem avanços e melhorias ainda têm muito a ser modificados.  A partir de 2001, houve um grande contrassenso em relação a tecnologias limpas nos corredores. Ligações como as da Nove de Julho e de Santo Amaro, na gestão da então prefeita Marta Suplicy perderam as redes aéreas de alimentação, aposentando quase metade dos trólebus em São Paulo. A velocidade média dos ônibus, atualmente,  é considerada muito baixa para o esperado, de acordo com os dados da própria CET e SPTrans. (A velocidade nos corredores você confere abaixo). Não há pontos de ultrapassagem para os ônibus e, muitas vezes, os corredores se limitam a faixas pintadas na via comum ou separadas por um canteiro. Mas por que isso?

Na história da formação dos corredores de São Paulo é possível encontrar algumas respostas, com fatos e não com opiniões apenas.

Um destes fatos foi a falta de planejamento. A cidade cresceu privilegiando os carros, quando se passou a investir nos corredores havia pouco espaço para serem implantados. A maior parte surgiu defasada e sem estar preparada para absorver o aumento da demanda provocado pelo crescimento da cidade.

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Tremembé, pioneiro no transporte de São Paulo

 

O alemão Ewald Kruse ficou famoso por oferecer transporte alternativo à Maria Fumaça e foi proprietário de uma das primeiras linhas regulares de auto-ônibus da Capital

SANTANA TREMEMBÉ

Por Adamo Bazani
 
O que o antigo Tremembé, na zona norte de São Paulo, tem a ver com a história dos transportes na cidade? Lá rodavam jardineiras, responderão alguns. Tem razão, mas há um fato ainda mais marcante. O bairro abrigou uma das primeiras linhas regulares de ônibus da cidade.

E para falar da linha Santana-Tremembé, o “Ponto de Ônibus” conta com o apoio do colecionador e historiador Waldemar Correa Stiel, autor de vários livros sobre transporte, que cedeu a rara foto deste veículo que auxiliou no desenvolvimento viário da região norte da capital. O serviço de auto-ônibus no Tremembé foi iniciado e regularizado com este veículo Ford que pertencia a Ewald Kruse.

Nascido na Alemanha, em 1889, Kruse veio para o Brasil jovem. Foi parar no distrito de Tremembé que apesar de distante do centro, atraía imigrantes europeus, pela sua topografia, tranquilidade e o clima, próximo da Serra da Cantareira. Ao mesmo tempo, a região era um desafio para o transporte. Principalmente, para a Jardineira de Kruse.

Vendo o lento crescimento do bairro, mas um com uma visão de que a área seria populosa, o alemão inaugura o primeiro serviço de auto-ônibus da região, e um dos primeiros da cidade, no ano de 1926. Segundo contam familiares dele, as dificuldades para ligar Santana a Tremembé eram grandes e o velho Ford, na verdade um carro adaptado com carroceria artesanal de madeira, atolava quase todo o dia de chuva. O pequeno veículo tinha capacidade para transportar até 12 passageiros. Com as laterais abertas, os dias de chuva eram um martírio, mesmo com as cortininhas.

O serviço de Kruse complementava e, em alguns trechos, concorria com os trens da “Tramway da Cantareira”, conhecido comop “Trenzinho da Cantareira” que começou a operar logo no início do bairro. Sua linha foi inaugurada em 1894 para auxiliar na construção dos reservatórios de água da cidade. A estação de Tremembé era a penúltima antes da Cantareira, onde havia fontes naturais de água. Com a configuração da região em loteamentos, os trens começaram a transportar passageiros.

Vale lembrar que antes mesmo do Trenzinho da Cantareira e do ônibus de Kruse, uma tentativa primitiva de transportes já existia no bairro. Eram os bondes a cavalo de Antônio Pontes Júnior, que levavam passageiros da Ponte Grande, perto do Rio Tietê até Santana. O serviço, precário, não resistiu e seus dois veículos, dois cocheiros e 18 cavalos se aposentaram em maio de 1907.

O bairro do Tremembé, nome que em Tupi Guarani significa brejo, nasceu no fim do século 19 com o desmembramento da fazenda da família Vicente de Azevedo. O local foi divido em glebas de terra para a criação de chácaras. De acordo com levantamento histórico da Prefeitura de São Paulo, a sede da fazenda ficava na área que hoje corresponde a Avenida Nova Cantareira com a Rua Mara Amália Lopes Azevedo. A região era conhecida por Fazendinha.

No início do século 20, a procura por moradias no bairro crescia. Eram portugueses, espanhóis, italianos, mas principalmente alemães. O Tremembé sem dúvida foi um dos grandes núcleos alemães até meados do século 20.

Em 1910, vendo a procura por casas na região, os filhos de Pedro Vicente de Azevedo e Maria Amália Lopes de Azevedo criaram a Cia Villa Albertina de Terrenos, dando início ao loteamento em moldes urbanos. O distrito de Tremembé, constituído oficialmente, em 1890, começava a dar ares de que seria um bairro.

Por isso, Ewald Kruse não perdeu tempo. Ele via um crescimento de demanda de passageiros que não seria atendida pelo Trenzinho da Cantareira, pois este não ia loteamentos a dentro. Flexibilidade na época que só os ônibus poderiam ter, por isso que foram responsáveis pelo desenvolvimento de muitos bairros. A importância desta iniciativa pode ser medida pelo fato de que as primeiras ruas a serem pavimentadas na região foram aquelas pelas quais passavam o ônibus.

O desenvolvimento ao longo do Rio Tietê também fez crescer o bairro. A linha que ligava Santana a Tremembé se expandia e se tornava mais longa. O trenzinho não dava conta da demanda de passageiros e da necessidade de flexibilização dos trajetos. E operou até 1964.

A presença alemã no bairro ainda nos anos 60 era tão grande que, além dos jornais nacionais, circulava pela região o periódico “Notícias Alemãs”. Além de trazer informações do País de origem dos imigrantes, o jornal destacava em uma página dedicada a Memória, os alemães que marcavam o desenvolvimento de Tremembé.

E na edição de 24 de julho de 1966, guardada pelo historiador Waldemar Correa Stiel, o jornal lembrava a façanha pioneira de Ewaldo Kruse: “Naquele tempo, os seus modernos carros Ford eram transformados em veículos para o transporte coletivo e integrados à linha que ligava o bairro de Tremembé a Santana”.

O jornal ironizava o Trenzinho da Cantareira dizendo que ele não era concorrente do ônibus de Kruse, pois os passageiros da jardineira do alemão não precisavam se preocupar com as fagulhas pretas soltadas pela Maria Fumaça.

Nos anos 40, segundo estimativas da Prefeitura na época, a população do Tremembé mais que dobrava. Algumas pequenas fábricas apareciam na região e muitos moradores de Tremembé e loteamentos vizinhos precisavam se deslocar para a região central de São Paulo ou outros municípios para trabalhar. O bairro então foi inserido no programa de reorganização dos transportes municipais, criado pelo prefeito Abrahão Ribeiro, em 1946, ano em que instituiu a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Nesta época, pelo projeto, a CMTC, que havia herdado de Light & Power à operação dos transportes municipais de São Paulo, seria responsável pelos ônibus que ligassem os bairros ao centro e as empresas de ônibus particulares (muitas sucumbiram nesta época) fariam as ligações periféricas bairro a bairro.

Com o Tremembé não foi diferente. Entre os anos de 1948 e 1949 é inaugurada a linha 77 da CMTC, que ia até a região central de São Paulo, mas já passando por um cenário misto: meio rural ainda, com vegetação, chácaras e paisagens e meio urbano, com calçamento, pequenas fábricas e até um pouco de trânsito.

De acordo com o departamento histórico da Associação Nacional das empresas de Transportes Urbanos – NTU, o primeiro ônibus a rodar em São Paulo, foi uma jardineira Saurer, importada da França. Mas o veículo não tinha linhas e horários definidos. Já com Kruse foi diferente. Ele apresentou ao poder público uma solução compromissada, com itinerário fixo, preço e número de viagens.

Muitos outros pequenos investidores – na época não havia grandes empresários de ônibus – se inspiraram em Kruse e também elaboravam seus itinerários e horários.

Certamente, a este imigrante e ao bairro de Tremembé, a cidade de São Paulo deve muito quando se fala em história dos transportes. E Tremembé deve também aos transportes, pois foi a partir do Trenzinho da Cantareira, da jardineira de 1926, passando pela linha 77 da CMTC, que mais pessoas e empresas procuravam o bairro. Devido aos transportes, a infraestrutura, principalmente iluminação e calçamento, chegava mais rapidamente. Dos 96 distritos da cidade, atualmente a região do Tremembé é a quarta em tamanho e uma das maiores em área verde por causa da Serra da Cantareira, apesar de ter crescido e muitas construções terem se instalado no local.

Este texto nasceu de uma pesquisa feita a partir da descoberta da raríssima foto do acervo do historiador Waldemar Correa Stiel e prova que uma imagem vale mais que mil palavras: pode contar.

Adamo Bazani, busólogo, repórter da CBN, e que se ente descobridor de um tesouro quando lhe é entregue uma ligam como esta da jardineira de Kruse

Como as encarroçadoras andam no Brasil IV

 

Os empresários do setor de carrocerias de ônibus estão entusiasmado com a possibilidade de crescimento do setor, devido a investimentos para as eleições, em 2010, e para a Copa do Mundo em 2014 e as Olímpiadas em 2016. Na última reportagem da série você vai conhecer as perspectivas do setor.

CHASSI

Por Adamo Bazani

Os fabricantes de carrocerias de ônibus foram agentes ativos no desenvolvimento do País, pois faz parte da cadeia produtiva do setor de transportes, essenciais para os trabalhadores de todos os demais segmentos da economia. Uma realidade que ficou muita clara na entrevista com Roberto Ferreira, executivo da Fabus, entidade que reúne as encarroçadoras brasileiras, que nos guiou nestas quatro reportagens publicadas nesta semana no “Ponto de Ônibus”.

A falta de investimento em trens e metrôs e o incentivo a indústria automotiva desde os anos de 1950, deixaram para os ônibus o papel de principal meio de transporte de massa, na cidade e na estrada.

Em alguns momentos, o setor de carrocerias quase entrou em colapso, principalmente na época da inflação. Milhares de empregos foram perdidos, dezenas de empresas desapareceram de vez, outras ressurgiram das cinzas e o setor conseguiu se superar. Mas o que a população e a economia podem esperar do segmento de encarroçamento de ônibus e do setor de transportes em geral?

De acordo com Roberto Ferreira, há boas perspectivas a curto, médio e longo prazos, apesar dos resultados de 2009 terem sofrido reflexo da crise internacional. Foram produzidas 25.600 unidades, queda de 19% em relação a 2008. O recuo só não foi maior por causa da recuperação do mercado interno nos últimos três meses, quando as empresas decidiram renovar parte de suas frotas.

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Como as encarroçadoras andam no Brasil III

 

Ônibus para a zona rural, carros mais confortáveis para os passageiros e prontos para circular em corredores segregados. As fabricantes de carroceria precisam estar prontas para atender o mercado como você pode ver na terceira reportagem desta série

ÔNIBUS PARA BRT

Por Adamo Bazani

O Projeto Padron, sobre o qual falamos no texto anterior, fez com que o Brasil se aperfeiçoasse na fabricação de ônibus e permitiu que a indústria nacional alcançasse o prestígio mundial que tem atualmente. O país é dos maiores exportadores do mundo de veículos preparados para circular em corredores segregados, conhecidos por BRTs – Bus Rapid Transit.

Estes modelos são exportados, principalmente, para a América Latina. São brasileiros, por exemplo, os ônibus do sistema BRT Metrobus do México, Transantiago do Chile, e o Transmilênio da Colômbia. Roberto Ferreira, da Fabus, que nos acompanha nestes artigos, explica:

“Temos tecnologia, basta investimento público nas vias para priorizar o transporte por ônibus rápido com pistas modernas, com pontos de ultrapassagem nas paradas, estações que proporcionam embarque no nível do ônibus e pagamento antecipado. Basta que o poder público invista mais neste tipo de transporte com eficiência semelhante a do Metro e com custo até dez vezes menor por quilômetro construído”.

Nem sempre, porém, vanguarda e tecnologia andaram a bordo dos ônibus produzidos no Brasil, lembra Roberto. Por aqui rodavam veículos que não eram mais aproveitados na Europa, onde ficava a maior parte das sedes dos fabricantes.

“As montadoras ganhavam. Traziam para o Brasil o que era novidade aqui e conseguiam vender o que lá seria sucata, produto depreciado”.

Para enfrentar esta realidade, Roberto conta que uma das principais preocupações dele na diretoria da Fabus era dialogar com as montadoras.

“Toda vez que tinha uma novidade aqui, vinda por meio de matrizes de ferramental de outros países ou mesmo desenvolvida no Brasil, eu procurava saber como seria a configuração do chassi e se seria possível encarroçá-lo dentro da realidade dos fabricantes e a realidade dos transportadores. Nossos engenheiros conversavam com os engenheiros dos chassis e, felizmente, todas nossas observações eram atendidas. Às vezes a configuração do chassi não permitiria que alguns instrumentos da carroceria seriam dispostos de uma maneira melhor, mais prática, barata e eficiente. Mas as montadoras acatavam nossas observações e nós as delas. Costumo dizer que a fabricação de ônibus é como um casamento. Há o chassi sendo fabricado de um lado e a carroceria do outro. Tem de haver sinergia nos projetos, no namoro, para que esse casamento dê certo”.

Roberto ensina que para esta sinergia ter resultado positivo é preciso, também, ouvir os donos das empresas de ônibus. São eles que vivem as dificuldades do dia a dia. O produto tem de corresponder a sua realidade econômica e operacional.
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Como as encarroçadoras andam no Brasil – parte II

 

Na segunda reportagem da série sobre o mercado de carrocerias de ônibus no Brasil você conhecerá algumas inovações tecnológicas que só foram implatadas após um duro período em que “quase os ônibus foram para o brejo”.

CIFERAL


Por Adamo Bazani

A crise econômica que marcou a década de 1980 foi apenas um dos motivos que atingiram o mercado de carrocerias, no Brasil. Problemas administrativos e falta de capacidade para comandar o próprio negócio também afetaram as encarroçadoras, de acordo com o diretor executivo da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, Roberto Ferreira.

“Foi a época em que mais apareceram e desapareceram encarroçadoras. Muitos executivos e engenheiros de empresas maiores, ou demitidos, ou com a ilusão de terem um negócio próprio, fundavam suas encarroçadoras. Levavam um time limitado e na hora de gerenciar viam que não bastava apenas saber produzir ônibus, tinham de entender de finanças e negociações com montadoras, frotistas e governos. Muita gente quebrou a cara”

Os erros administrativos também eram cometidos por empresas com experiência no setor. Reduziam demais os preços para conquistar mercado, os custos aumentavam e a margem de lucro estreita os levava a operar com prejuízo. Houve perdas, também, devido a iniciativas audaciosas em um tempo de incertezas.

Roberto Ferreira cita o caso da Cobrasma, empresa tradicional do setor ferroviário.

“Ela decidiu lançar um ônibus rodoviário com chapa de aço inoxidável. O veículo ficou muito caro e pesado e ônibus pesado interfere diretamente no custo de combustível e desgaste de pneus. Além disso, a manutenção deste veículo era muito cara. Se batesse, não bastava um simples serviço de funilaria para desamassar a peça. Todo o componente tinha de ser trocado. Nem precisa dizer que o ônibus, cuja principal propaganda era a chapa de aço, não foi bem sucedido no mercado”
Houve casos pontuais que assustavam o setor de encarroçamento de ônibus. Um desses foi a falência da Ciferal, mesma empresa cujo dono fundou a Fabusa. A Comércio de Ferro e Alumínio Ltda foi uma das principais empresas do segmento. Hoje, atua apenas no setor urbano e, desde 2001, pertence a Marcopolo.

A Ciferal foi fundada, no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1955 pelo austríaco Fritz Weissmann, depois que este se afastou da Carrocerias Metropolitana, criada em parceria com o irmão Franz. Foi uma das primeiras a implementar o duralumínioe a criadora, a pedido da Viação Cometa S.A, de São Paulo, do modelo Dinossauro, inspirado nos GMs americanos. As linhas modernas e inovações tecnológicas deixaram um legado nas estradas brasileiras. Ela também produziu em 1979 o primeiro trólebus Padron de 12 metros, com novas tecnologias, o Padron Amazonas.

Em 1982, sofreu um grande golpe. Somou-se aos problemas administrativos, o cancelamento de uma grande encomenda de trólebus para a CMTC. A Companhia Municipal de Transportes Coletivos, de São Paulo havia encomendado 1.200 carrocerias. A Ciferal investiu todos os recursos que tinha para adaptar a linha de produção. Novos componentes de fabricação foram comprados, o parque fabril foi remodelado, foram gastos vários recursos em estudos e engenharia. A CMTC alegou problemas financeiros e comprou apenas 200 ônibus. A Ciferal não teve condições de honrar o financiamento com o Banco do Estado do Rio de Janeiro e os fornecedores para a linha de produção. A falência foi decretada e o setor de carrocerias como um todo sofreu um grande abalo.
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Como as encarroçadoras de ônibus andam no País

 

Roberto Ferreira, da Fabus, há mais de 30 anos, relembra das lutas de empresários e funcionários para o desenvolvimento do setor de carrocerias, no Brasil. Na primeira parte desta nova série de reportagens, o “Ponto de Ônibus” mostra como o segmento enfrentou o período da inflação.

CARROCERIAS SOBRE CHASSI DE CAMINHAO

Por Adamo Bazani

O fechamento de uma empresa e a onda de demissão e incerteza são dos maiores sofrimentos para o trabalhador. Não se resume a números em uma estatística de desemprego, são famílias, sonhos e projetos ameaçados – um carro a ser comprado, uma casa ou um tratamento médico que caem por terra.

Quem assistiu de perto este cenário, por muitas vezes, foi Roberto Ferreira, diretor executivo da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, entidade que reúne as principais encarroçadoras do país. Há 33 anos na função de executivo da entidade, Roberto diz que a indústria de ônibus se desenvolveu muito e vive condição favorável, atualmente. Nem sempre foi assim, ressalta.

“Sou enfático em dizer que a indústria de encarroçamento de ônibus no Brasil é uma grande vencedora, contribuiu com o desenvolvimento do País e, mesmo que a duras penas, soube superar os momentos econômico e social mais difíceis, no s anos de 1980 e 1990”

Nascido no Bosque da Saúde, zona sul da capital paulistao, Roberto Ferreira, de 65 anos, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista, quando era criança. Seu primeiro contato com os transportes foi entre os anos de 1966 e 1968, quando administrava com o pai, Olegário Ferreira, uma distribuidora de bebidas na região:

“Eu cuidava da parte administrativa na distribuidora, e meu pai com um velho caminhão vendia as bebidas. Tirando a área central do ABC, as demais ruaseram de barro e cascalho. Quando chovia era um Deus nos acuda. Meu pai atolava com o caminhão e eu tinha de providenciar o resgate. Na época, para trabalhar com transporte, não bastava apenas dirigir. Tinha de entender de mecânica. E eu via meu pai trabalhando, consertando o velho caminhão. Lembro-me, por exemplo, da dificuldade que era, principalmente nos dias depois de chuva forte, a subida da Rua Gamboa para a Juazeiro, no Paraíso, em Santo André. Quantas vezes o caminhão do meu pai atolava neste lugar”.

Na distribuidora de bebidas, Roberto conheceu as dificuldades no transporte e desenvolveu experiência para gerenciar empresas:

“Peguei o tino para gerenciar e dirigir um negócio de uma tal maneira que quando vendemos a distribuidora, ela valia três vezes mais que na época quando entramos no negócio”.

Na década de 1970, Roberto Ferreira continuava no ramo de transportes. Desta vez, como gerente da Expresso Santa Catarina, em Blumenau, uma empresa de transporte de carga seca. Querendo voltar para São Paulo, ele descobre uma vaga para diretor executivo da Fabus.

“Quando cheguei na sede da entidade, na Rua Guaiaúna, na Penha, fui entrevistado por um mestre em transportes: o senhor José Massa, na época presidente da entidade e que, entre 1945 e 1946, fundou a Caio – Companhia Americana Industrial de ônibus -, homem visionário, um dos pioneiros da fase profissional de fabricação de carrocerias no Brasil”.

Em 16 de fevereiro de 1977, ele assume o cargo de diretor da Fabus. Mal sabia que anos depois, por causa da conjuntura econômica, além de problemas específicos no setor, enfrentaria um dos maiores desafios de sua carreira.

“No início, pensava que era mais tranquilo que o gerenciamento da transportadora. Quanto estive à frente da Expresso Santa Catarina, eram problemas como caminhão quebrado, frete não entregue na hora, discussões por causa do preço das entregas, e na Fabus, todas as associadas entregavam seus balanços direitinho e relatavam as necessidades do setor, para entrarmos em contato com montadoras, fornecedores e poder público. Mas, as coisas logo depois não foram tão tranquilas assim”.
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A polêmica sobre os novos ônibus de São Bernardo

 

Nem micros nem micrões, modelos oferecem mais espaço para os passageiros, mas são alvos de reclamação por parte dos motoristas que temem prejuízo à saúde

Novos modelos da  SBCtrans

Por Adamo Bazani

O Consórcio SBCTrans vai deixar a cara da cidade de São Bernardo do Campo um pouco diferente. Em lugar dos micros convencionais entrarão veículos com dimensões um pouco maiores mas que não chegam a ser os micrões. Alguns carros já circulam e a estimativa é que 50 deles estejam rodando até o fim do ano de acordo com funcionários. Mais de uma dezena desses ônibus estão na garagem.

Responsável pelo transporte de passageiros em São Bernardo do Campo/SP, o consórcio é liderado pelo Grupo da Auto Viação ABC, de João Antônio Setti Braga e Maria Beatriz Setti Braga, com a participação de empresários da região, como Baltazar José de Souza.

Os novos modelos de ônibus são encarroçados sobre chassi Mercedes Benz OF 1218.

Para o passageiro a vantagem é que os veículos são maiores que os micros convencionais, da série 11XX, que aos poucos serão substituídos. Pelo menos os micros mais velhos LO 814. Além disso, por se tratar de um veículo novo, já segue a Resolução 316 do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) e NBR 15570, que estipulam acessibilidade para pessoas com deficiência: elevador na porta traseira, espaço para cadeira de rodas e cão guia, balaústres com relevos para passageiros cegos ou visão restrita, espaço mínimo entre os bancos de 30 cm e largura mínima no corredor para livre circulação interna de pessoas. Têm ainda saídas de emergência que seguem os novos padrões internacionais, faixas refletivas ao longo da lataria, entre outros itens.

O modelo de desenho controverso traz uma dificuldade para os motoristas. O embarque é feito logo após a roda dianteira (onde está a porta) e atrás do posto do motorista. Como o condutor também cobra a passagem, tem de se virar, torcendo o tórax, sempre que o passageiro tiver de pagar a passagem com dinheiro. Além de dirigir e cobrar, o que requer atenção redobrada, o motorista terá de fazer um esforço a mais num movimento repetitivo.

Novos modelos da  SBCtrans

Se há vantagens para o passageiro em comparação ao microônibus, para o operador há queixas. Sobre o desempenho, o veículo foi considerado bom levando em consideração a categoria que ocupa.

O consórcio SBCtrans diz que os ônibus estão dentro dos padrões de qualidade e aceitáveis pelos órgãos responsáveis pela homolgação de modelos automotivos. Os empresários explicam que não é vantajoso colocar veículos convencionais, com motorista ou cobrador, ou até mesmo os micrões, com porta antes da roda por conta da demanda. É possível perceber, porém, que em alguns desses trajetos, os micros andam lotados e em percursos que, há alguns anos, eram usados ônibus convencionais com motorista e cobrador, como Amélias, Vitórias, San Remos, Torinos, Urbanuss etc.

Adamo Bazani é repórter da CBN, busólogo e escreve no Blog do Mílton Jung às terças-feiras.

Pauta #cbnsp: “Ônibus anda como carroça”

 

CBN SPO bairro de Moema perde 3.850 vagas de estacionamento para que o trânsito possa fluir melhor, a partir desta segunda-feira. A medida provoca reclamação entre moradores e comerciantes da região e a repórter Luciana Marinho esteve lá para mostrar como ficou a situação. Para o engenheiro de tráfego de transportes Horácio Augusto Figueira, ouvido pelo CBN São Paulo, a medida tem de ser adotada oferecendo prioridade para o transporte de passageiros. Ele explica que estudo feito em informações da SPTrans mostra que os ônibus andam a velocidade médida de 6,2 km no corredor exclusivo da avenida Ibirapuera. “É menos do que anda uma carroça”, disse Figueira que atua, também, como consultor da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego). Para o engenheiro é preciso que a pista do corredor seja duplicado ao menos no horário de pico.

Igreja do barulho –
Os templos religiosos são alvo da maior parte das reclamações por excesso de barulho feitas ao Ministério Público Estadual. O promotor José Eduardo Lutti, de Justiça e Meio Ambiente da Capital, disse que a maioria das vezes o barulho é resultado da falta de informação dos proprietários da Igreja e o problema é resolvido com orientação. A bronca com os templos já supera a reclamação de barulho dos bares da cidade. Para enviar denúncias ao Ministério Público use o e-mail: pjmac@mp.sp.gov.br

Direito do Cosumidor – O Procon de São Paulo autuou 94 lojas na Operação Dia das Mães, a maioria por venda irregular com cartão de crédito. Os comerciantes ou cobravam valores diferentes se a venda fosse à vista ou limitavam o valor da compra no crédito, medidas que ferem o Código de Defesa do Consumidor. A reportagem é de Márcia Arroyo.

Parque na Guarapiranga – A prefeitura promove atividade em área onde será entregue mais um parque no entorno da represa de Guarapiranga, zona sul de São Paulo. A destruição de um motel que funcionava no local foi o pretexto para o prefeito Gilberto Kassab (DEM) convocar a imprensa para ir até o local. Ouça a reportagem de Juliano Dip. Ao contrário do que foi dito na reportagem, essa área não é a mesma em que funcionará o parque Nove de Julho, que está na mira do Ministério Público Estadual devido a construção que invade a área de alagamento da represa.

Época Sp na CBN – Shows de Yamandú Costa e Nouvelle Vague abrem a semana de espetáculos em São Paulo. E Rodrigo Pereira lembra que estão à venda os ingressos para a apresentação de Johnny Rivers.

Cidade Inclusiva –
Os acidentes de trânsito matam cerca de 40 mil pessoas por ano, no Brasil, e levam mais de 120 mil para os hospitais, destes 1/3 fica com sequelas permanentes, informou Cid Torquato, comentarista do Cidade Inclusiva. Para combater este cenário de guerra, foi criado em 2009 o programa “Chega de Acidentes” que mantém site onde estão uma série de informações sobre o tema.

Anchieta, a sessentona e o transporte rodoviário

 

Semana passada, dia 22 de abril, a Via Anchieta completou 63 anos, rodovia que se transformou em sinônimo de modernidade em uma época na qual o transporte rodoviário engantinhava, superando crises internacionais.

EXPRESSO BRASILEIRO INAUGURAÇÃO

Por Adamo Bazani

A Rodovia Anchieta, que faz parte do sistema Anchieta-Imigrantes, em São Paulo, recebe mais de 30 mil veículos por dia na semana e até 80 mil por dia sábados e domindos, isso sem contar os feriados prolongados. Foi um sonho antigo de desenvolvimento de quem entendia a importância de uma ligação moderna entre três grandes pólos econômicos no Estado de São Paulo: Santos, pelo seu porto, o maior da América Latina, principal ponto de exportação dos produtos nacionais; ABC e Capital Paulista, pelo número de indústrias e população que aumentava de maneira considerável desde dos anos de 1930.

Com o aumento da atividade econômica no litoral e no planalto, ampliando também a área urbanizada nestas regiões, os deslocamentos de produtos e pessoas se faziam mais necessários. A ligação principal entre Santos e a Capital era a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, da São Paulo Railway, empresa de capital inglês, que desbravou a Serra do Mar por trilhos. No entanto, desde o governo de Washington Luís, nos anos de 1920, o Brasil começava a adotar política rodoviarista, por opção e, também, necessidade para atender de maneira rápida e barata o crescimento da população e da economia nos centros urbanos.

Mesmo com o trem sendo predominante, já em 1929, as autoridades e a população constatavam o esgotamento da rota Estrada Vergueiro, Caminho do Mar, Estrada Velha de Santos, pelo aumento do número de pessoas, mercadorias e veículos.A estrada velha se tornaria perigosa. Os veículos de transportes de cargas e passageiros se tornariam maiores e sua circulação se tornaria mais difícil.

Neste ano, em 4 de janeiro de 1920, o governo paulista de Júlio Prestes autoriza a obra que cortaria a Serra do Mar. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, no entanto, o projeto ficou parado. Era época de conflito mundial e os recursos ficariam escassos.

Ironia ou não, foi na época de Segunda Guerra Mundial que a Anchieta começou a ser construída, apesar de todas dificuldades financeiras e incertezas em relação ao futuro.

A construção começou em 10 de julho de 1939 e foi considerada uma da obra prima da engenharia rodoviária brasileira. Foram inúmeras as dificuldades e até vidas foram perdidas. Os viadutos, pontes aterros, túneis e cortes na Serra do Mar foram feitos quase artesanalmente, esculpida por trabalhadores e engenheiros com ferramentas simples. Não se poderia usar máquinas de grande porte em alguns pontos, por causa de riscos de deslizamentos.

Em 22 de abril de 1947, no governo de Adhemar de Barros, a primeira parte da rodovia, apenas a pista utilizada rumo ao Litoral era inaugurada. Os serviços de ônibus marcaram a fundação da rodovia. Para se ter ideia, no dia da apresentação se formava uma fila de ônibus novíssimos GM Parlour Coach, verde-amerelos, da Expresso Brasileiro, Viação Ltda, que fazia a ligação entre São Paulo-Santos, desde 1942, por iniciativa do empresário Manoel Diegues.