Uma amizade construída no ônibus

 

Por Ádamo Bazani

Lázaro e Miranda dedicam suas vidas ao transporte de passageiros e na primeira parte desta história lembram dos tempos em que a paixão pelo ônibus os uniu

LÁZARO E MIRANDA

Eles são novos, mas já têm muita história para contar. Lázaro Barbosa da Silva, 44, e Márcio Antônio Capucho, o Miranda, 37, começaram cedo e tiveram oportunidade de assistir a transformação do transporte de passageiros de um sistema quase amador ao profissionalismo e especialização exigidos nos tempos atuais. Amigos, eles concordam que a mudança se deveu ao desenvolvimento da indústria automobilística, do crescimento das cidades e do trânsito e da maior fiscalização dos agentes públicos e da sociedade.

Lázaro veio de Sergipe para Santo André com 8 anos. Desde pequeno, os ônibus despertavam um interesse especial: “Fui morar com minha família, na rua Potomaque, próximo a avenida Martim Francisco, em Santo André, por onde passavam os ônibus da Viação Esplanada e da São Camilo. Eu pensava, um dia vou andar em todos estes ônibus. Hoje estou aqui, coordenando as operação da São Camilo”.

Adolescente, Lázaro era feirante quando o irmão do padrasto, que trabalhava na Auto Viação ABC e na Viação Cacique, do mesmo grupo, o convidou para ser cobrador, em 1982. No primeiro dia, ele deveria apenas acompanhar um colega para aprender a função. Mas teve uma surpresa: “O cobrador que ia me dar instrução tinha faltado. Então, tive de desempenhar a função sem treinamento nenhum. Fiquei tremendo a primeira viagem toda. O motorista, o sr. Pacheco, entrou no carro Caio Gabriela e já me deu a primeira ordem. Abrir todas as janelas do ônibus. Fazia muito frio em São Bernardo do Campo, mas tive de abrir para desembaçar os vidros. A linha, da extinta Viação Cacique, era a Jardim Farina – B. Petrônio, em São Bernardo. Quando o carro encostou no ponto final, para a primeira viagem, simplesmente o ônibus lotou. Não sei de onde vinha tanta gente. Me atrapalhei algumas vezes, alguns passageiros passaram batido, mas foi bom para logo ganhar responsabilidade” .

Márcio Antônio Capucho era apaixonado por ônibus desde pequeno e fez de tudo para trabalhar no setor, adolescente ainda. Com 16 anos, em 15 de janeiro de 1987, ele entrou na Viação Miranda como office boy. O apelido Miranda vem da empresa, para a qual ele dedicava uma verdadeira paixão: “Os serviços de office boy eram mais intensos a tarde. Então, pela manhã, não saía da oficina, do almoxarifado, dos pátios, conversando com os motoristas. Minha vontade de lidar diretamente com os ônibus chamava atenção”.

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Existe vida além do carro

 

Quatro personagens foram escolhidos para que possamos fazer deste Dia Mundial Sem Carro um momento de reflexão. Da autoridade pública que tem em mãos a responsabilidade de transportar quase 3,5 milhões de passageiros por dia ao filósofo que ao anunciar que jamais dirigiu um automóvel na vida se transforma em referência; do engenheiro de trânsito que usa os números para provar que o pedestre tem de ser prioridade ao jornalista que alerta para o risco que a humanidade corre ao apostar no automóvel. Todos nos fornecem subsídios para pensar se existe vida além do carro.

“Nunca se investiu tanto na expansão do metrô como agora”

Ouça a entrevista de José Luiz Portella, secretário estadual de Transportes Metropolitanos de São Paulo

“Cometemos suicídio em massa com a política de incentivo do automóvel”

Ouça a entrevista com Washington Novaes, jornalista especializado em meio ambiente

“Faz a obra, mas coloca um corredor de ônibus na Marginal Tietê”

Ouça a entrevista do engenheiro de trânsito, Horácio Figueira

“O paulistano não se incomoda de transportar duas toneladas de ferro para comprar 100 gramas de pão”

Ouça a entrevista com o filósofo Mário Sérgio Cortella

Ele andou de trem e ônibus no Desafio Intermodal

 

O carioca Carlos Aranha participou do Desafio Intermodal, em São Paulo, no dia 17 de setembro, e percorreu a distância entre a avenida Luis Carlos Berrini, no Brooklin, zona sul, até a sede da prefeitura, no centro, combinando dois transportes públicos: trem e metrô. O trajeto foi gravado e no vídeo a seguir você acompanha um resumo desta viagem que demorou 89 minutos no horário de pico da capital paulista. Carlos chegou depois de outrs 13 modelos e combinações de transportes em um total de 18 que participaram do evento em comemoração ao Dia Mundial Sem Carro.

Assista ao vídeo do Carlos Aranha e seu passeio de trem e metrô, em São Paulo

Os ônibus na luta pelos direitos civis no mundo

 

Por Adamo Bazani

A atitude isolada de uma mulher negra em uma linha de ônibus municipal se transforma em referência na luta contra a segregação, nos Estados Unidos. E daquele ato surge um líder mundial

Quem diria que um ônibus seria cenário de uma revolução capaz de mobilizar o mundo? Nas pesquisas sobre os ônibus, seja aqui no Brasil ou lá fora, é possível perceber que a história deste veículo, muitas vezes tão criticado, é a história de pessoas: algumas anônimas, algumas bastante simples, algumas que se transformaram em referência.

Rosa Parks é nome nem sempre lembrado. Mais fácil lembrar de Martim Luther King. Os dois se cruzaram justamente em um ônibus, na luta pelos direitos civis e contra as desigualdades. Juntos marcaram a evolução da humanidade (por incrível que possa parecer, os seres humanos evoluem interiormente; nem todos, mas evoluem).

Nos anos de 1950, o racismo no mundo era explícito. A segregação, legitimada. A discriminação, sinal de status para alguns. Neste clima, vivia a costureira Rosa Parks, 42 anos, moradora de Montgomery, no Alabama. Em 1955, os ônibus da pequena cidade americana tinham lugares separados para brancos e negros. Com aqueles tendo preferência sobre estes.

O ônibus, velho, estava lotado e Rosa se negou a dar o lugar dela para um passageiro branco que acabara de entrar. O motorista advertiu de que isso poderia levá-la à polícia, mas ela se manteve firme. Pressionado pelos passageiros da “ala branca do ônibus”, o motorista teve de chamar o policiamento.

O ato levou Rosa à justiça e chamou atenção da comunidade local. No dia do julgamento, o Conselho Feminino do Alabama decidiu realizar um boicote ao transporte público, no Estado. O protesto pretendia mostrar que o serviço público deveria ser um direito de todos, brancos e negros. Rosa perdeu a batalha judicial. Revoltada, a população negra criou uma associação de lutas pelos direitos civis, a MIA – Montgomery Improvement Association.  Foi eleito para presidente da Associação, o recém-chegado a cidade, Pastor Martin Luther King. Nascia ali um líder.

A eloquência e o desejo de justiça sem violência eram marcas de Luther King. Já em seu primeiro discurso, o pastor dizia: “Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta Nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado.”

O discurso comoveu a multidão em frente de uma igreja batista e marcaria o início de uma luta de dor, sofrimento e superação. O boicote aos ônibus que só deveria ter ocorrido no dia do julgamento de Rosa se prolongou.

Como reação, a prefeitura de Montgomery usou lei de 1921 que combatia qualquer tipo de boicote a negócios lícitos. 80 pessoas foram indiciadas. Entre elas, o pastor que teve de pagar U$ 550 de multa para não ser preso. Outros ativistas, como o pastor Ralph Abernathy e o líder negro ED Nixon também sofreram. Este, assim como Luther King, teve sua casa incendida.

Nada disso os fez desistir. O que era uma questão local, ganhava destaque internacional. O boicote aos ônibus continuava e lideranças nacionais de luta pelos direitos civis, Bayard Rustin e Glenn Smiley, se uniram à ideia. Mais de 42 mil negros entraram nesta luta.

Os taxistas negros implantaram um sistema de carona para que os apoiadores do boicote pudessem se deslocar. Os motoristas – mais de 300 – foram reprimidos. Alguns tiveram a permissão de trabalho cassada, outros foram presos. Mas Luther King, milhares de anônimos, inclusive Rosa, na cadeia ainda, não se rendiam. Os ônibus de Montgomery circulavam vazios, só com os brancos, insuficientes para sustentar o serviço.

Após intensa luta, em 5 de junho de 1956, a Corte Federal dos Estados Unidos, reconhece que a segregação nos transportes públicos era ilegal. Em 13 de novembro, a Suprema Corte do País tem o mesmo entendimento. Vitória.

Um dos momentos mais marcantes na vida de Martin Luther King foi dia 21 de dezembro de 1956, pouco mais de um mês do posicionamento da Suprema Corte. Um dia antes, após 381 dias de boicote, o protesto teve fim, e Luther King e o colega pastor Ralph Abernathy entraram num ônibus, em Montgomery.

Este é o momento que você vê na foto que está neste post extraída de uma edição especial da revista Veja de 1968, ano do assassinato do líder negro, pouco antes de uma marcha organizada pelo comitê que presidia.

Apesar da vitória naquela batalha, a luta contra o racismo, pela igualdade e pelos direitos civis, continua. A passageira de ônibus Rosa Parks, cuja determinação mobilizou o mundo, pressionada e sem emprego, teve de se mudar para Detroit.

A este busólogo, a certeza de que a história do transporte público não se conta a partir de marcas e modelos de ônibus, mas de gente como Rosa Parks.

Adamo Bazani, é repórter da CBN e busólogo. Às terças, escreve no Blog do Mílton Jung

Veja o Desafio Intermodal pela internet

 

Bicicleta na pistaDa praça General Falcão, no Brooklin, até a prefeitura de São Paulo, no centro, todos os participantes do Desafio Intermodal serão monitorados pela internet, além de terem suas ações gravadas em vídeo. As informações serão atualizadas na página do Ciclo BR que está no comando desta quarta edição. Tempo de viagem, custo e emissão de CO2 serão os dados registrados na chegada para que se possa comparar as modalidades de transporte que estarão no desafio.

Uma das avaliações que se pode fazer em relação ao Desafio Intermodal é quanto ao serviço prestado pelo sistema de ônibus da capital. Há três edições, o trajeto a ser percorrido é o mesmo. Enquanto em 2006, da Berrini até a prefeitura, a viagem durou 66 minutos, em 2007 foram gastos 76 minutos, no ano passado foram necessários 111 minutos. Ou seja, perde-se cada vez mais tempo para andar de ônibus.

Para conferir o desempenho de cada modal nos anos anteriores e as informações atualizadas do desafio deste ano, acesse a página do Clico BR.

Ouça a entrevista com o cicloativista Andre Pasqualini

Rio vai proibir estacionamento no Centro

 

A cidade do Rio de Janeiro vai comemorar o Dia Mundial Sem Carro proibindo o estacionamento no centro da cidade, reduzindo a velocidade máxima para os veículos que andarem no bairro de Copacabana e colocando 100% da frota de ônibus nas ruas. Política pública de mobilidade não se constrói apenas com ações datadas e pontuais, podem soar hipócritas se não fizerem parte da estratégia de desenvolvimento da cidade. Mas é significativo que o Rio esteja atuando desta maneira, enquanto São Paulo ainda não anunciou nenhuma atividade para a data. Por enquanto, todas as ações estão sendo organizadas pela sociedade civil, conforme você pode ver em post publicado nessa terça-feira.

A notícia a seguir foi publicada no G1:

No próximo dia 22, a cidade do Rio adere à campanha do Dia Mundial sem Carro, uma iniciativa que já é um sucesso em grandes capitais do mundo e tem como objetivo estimular o uso do transporte público e de outras alternativas de locomoção, como a bicicleta e a caminhada em trajetos curtos.

Entre as ações previstas para o dia no Rio, a principal será a proibição, por meio de decreto, do estacionamento no quadrilátero que tem como limite a Rua Santa Luzia, a Avenida Presidente Antônio Carlos, a Rua da Assembleia e a Avenida Rio Branco, todas no Centro da cidade. Esse trecho concentra 510 vagas entre o Rio Rotativo e vagas oficiais.

No Buraco do Lume, também no Centro, haverá atividades culturais e educativas, sempre com o intuito de estimular a reflexão da população sobre o uso excessivo dos carros.

Nos prédios municipais, também será proibido o estacionamento de carros, com exceção apenas para os veículos operacionais. Serão sorteados passes de bicicletas públicas entre os servidores.

Leia a notícia completa no G1

Um tesouro chamado Carbrasa

 

Por Adamo Bazani

Carbras 1962

Veja aqui slideshow com imagens do Carbrasa


Avenida das Bandeiras, 846 – Lucas – Rio de Janeiro. Telefone 30 08 30

Descobri que este era o endereço de uma das empresas que marcaram a história da indústria de carrocerias de ônibus no Brasil após achar uma relíquia. Pura coincidência.

Este apaixonado por transportes estava indo com o pai ao mercado, domingo de manhã, comprar mistura para semana, quando começa, ao volante de seu carro de passeio (infelizmente) a esbravejar:

– “Nossa, nossa, nossa, nossa…um Carbrasa”.

O pai deste que lhe escreve não entendeu nada

“Car o quê ?”

Os apaixonados pela história do ônibus sabem bem o motivo pelo qual esbravejava. No meio do caminho entre a casa de um busólogo e o supermercado havia um verdadeiro tesouro: um ônibus de carroceria Carbrasa, ano 1962.

Era domingo, trânsito tranquilo, rua de bairro, em Santo André, deu até para parar em frente a uma guia rebaixada de uma casa (não façam isso). Todo o busólogo tem de sair “armado”, seja quando atravessa o país seja quando vai até a outra esquina. Eu estava. Em minhas mãos, uma máquina fotográfica.

É verdade que o ônibus dava sinais de que sofreu com o implacável tempo. Mas, como se o veículo fosse um sitio arqueológico, fucei e descobri detalhes interessantíssimos.  O câmbio cotovelo de difícil engate. A placa do motor Chevrolet TB 65 02. O freio de mão, totalmente diferente dos de hoje. Em um dos degraus da porta, a plaquinha, com endereço e telefone da Carbrasa.

A empresa não existe mais. Seu fundador, Mário Sterka, era diretor da Volvo do Brasil nos anos 40. Época difícil, Segunda Guerra Mundial, os avanços tecnológicos não tinham a mesma velocidade de hoje em dia.

Sterka se inconformava em ver a Europa e Estados Unidos, já nos anos de 1930, apresentarem ônibus com carrocerias metálicas, enquanto, o povo brasileiro ainda era transportado em duros veículos com mecânica defasada e carroceria de madeira. Em 1945, mesmo com a crise da Segunda Guerra, decidiu fundar no Rio de Janeiro a Carbrasa – “Carroçarias Brasileiras  S. A”, que desenvolvia, inicialmente, para chassis Volvo, inovadoras carrocerias de aço cobertas de alumínio. Obviamente, o preço era mais alto do que a concorrência e, assim, o início foi bem difícil. A vontade de desistir, segundo a família, apareceu. Mas ela foi superada. Mas Sterka provou que é no momento de crise que se deve investir em inovações. 

Nos anos 60, bem da década que nossa relíquia foi encontrada em Santo André/SP, a Carbrasa se tornou uma das principais encarroçadoras do País, ostentando o nome BRASILEIRAS em sua sigla. Nesta época, a carroceria não era colocada apenas em plataformas da Volvo, mas de diversas montadoras, como a GM, empresa cuja mecânica ainda é a original de nosso achado.

No fim dos anos 70, as ações da empresa foram compradas por outras encarroçadoras, mas a Carbrasa deixou marcas, que são encontradas até hoje, principalmente, pela ação inovadora de Mário Sterka.

Assim foi, com estas lembranças, o domingo de um busólogo que ao levar o pai ao mercado encontrou um tesouro. Pai que também gostou de rever um dos veículos no qual ele andava quando jovem, mas que não aguentava mais de fome, após horas ao lado do filho que contemplava o achado “arqueobusófilo” (não procure esta expressão no dicionário).

A entristecer o dia, apenas a informação de que o dono deste Carbras vai transformá-lo em um motorhome. Portanto, aproveite bem estas fotos, talvez as últimas deste exemplar que ficou na história.

Ádamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças, escreve para o Blog do Mílton Jung. E durante toda a semana garimpa tesouros pelas ruas.

São Bernardo fala em revolução no transporte, mas faz corte drástico no dinheiro do setor

 

Por Adamo Bazani

Onibus em São Bernardo

Ao mesmo tempo em que a Prefeitura de São Bernardo do Campo anuncia que até dezembro deste ano terá um Projeto de Transportes Urbanos, que trará novos terminais de ônibus à população e a criação de um bilhete único, o prefeito Luiz Marinho (PT) encaminhou à Câmara de Vereadores um projeto de remanejamento de verbas do orçamento previsto para 2009, aprovado no ano passado.

O remanejamento faz com que o orçamento extrapole os gastos previstos para diversas áreas em cinco por cento. A previsão orçamentária é de R$ 2,3 bilhões de reais. Serão abertos créditos especiais de R$ 169 mi, a maior parte, para a Fundação do ABC, instituição de ensino superior.

Pelo novo remanejamento, o setor de transportes públicos perde R$ 22 mi, previstos para este ano, e recebe R$ 5,4 mi. Apesar desta diferença drástica dos recursos, a secretaria de Transportes e Vias Públicas prevê uma revolução nos transportes para o ano que vem. Mas para isso, os investimentos deveriam começar com  o orçamento deste ano.

A pasta fala na criação do Bilhete Único Municipal, nos mesmos moldes da Capital Paulista, mas com validade de tempo e limite de viagens ainda para se definir. Para a implantação do Bilhete Único em São Bernardo do Campo, os ônibus terão de adotar a bilhetagem eletrônica com a substituição dos passes de papel, abolidos já em muitas cidades. A Prefeitura promete ainda contato com a EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos – para integração tarifária também entre ônibus municipais e intermunicipais.

A construção de terminais de integração e estações de transferências está incluída para a fase final dos projetos para os transportes a ser realizado a partir de 2010. O objetivo do plano é dar uma nova logística ao sistema e mais racionalidade às linhas, ou seja, alguns itinerários devem desaparecer e outros criados. A pasta anunciou também que o transporte público será priorizado em detrimento ao particular, mas não falou ainda sobre criação de corredores.

Pessoas atuantes no transporte público da região afirmaram que aguardam a conclusão dos projetos, mas estão ainda em dúvida, tanto pela falta de propostas mais concretas – onde serão os terminais, haverá corredores, quantos e onde? Como será o sistema de bilhetagem eletrônica ? Quais os prazos ? – e pela redução dos investimentos na área.

“Do dinheiro das tarifas é que não dá pra fazer milagre nos transportes de SBC e se o orçamento cai, aí é que não dá pra ter uma certeza do que sairá do papel” – disse um funcionário de empresa de ônibus, que pediu para não ser identificado, mas que alertou a coluna sobre as propostas e o corte no orçamento.

Vamos cobrar e esperar se o plano vai trazer propostas viáveis dentro do orçamento e das condições técnicas que o sistema requer.


Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Costuma escrever às terças no Blog do Milton Jung, mas adora fazer viagens extras como nesta sexta-feira.

Santo André ganha ônibus para deficientes

 

Por Adamo Bazani

Ônibus adaptados para passageiros com deficiência

Ônibus adaptados para passageiros com deficiência

Santo André, no ABC Paulista, ganhou mais 11 ônibus adaptados para pessoas com deficiência que devem começar a rodar em breve na cidade. São dez Caio Apache Vip II, Volkswagen 17-230, e um micro-ônibus Caio Foz, Volkswagen 9-150, comprados pela Expresso Guarará. Até agora, havia apenas ônibus do tipo “micrão” em condições de transportar passageiros com restrições de locomoção.

A apresentação dos veículos marcou as comemorações dos oito anos de operação do Corredor Vila Luzita, o único segregado para ônibus na cidade de Santo André. Apesar de reclamações como lotação nos veículos, o corredor, idealizado em 1998 e entregue a população em 2001, representou avanço nos transportes da cidade, já que os ônibus conseguem oferecer viagens até 50 por cento mais rápidas do que antes de sua implementação.

Santo André carece ainda de outros sistemas semelhantes e o próprio corredor da Vila Luzita deve ser aperfeiçoado, por conta da alta demanda de passageiros.

O prefeito de Santo André, Aidan Ravin, acredita que investir em ônibus adaptados para deficientes beneficia toda a população.

“Ao comprar ônibus com acessibilidade, as empresas, como a Expresso Guarará, criam uma cultura de transportes, que consegue modificar a visão dos cidadãos sobre os deficientes. Quando a população vê um ônibus com elevadores para cadeirantes ou piso baixo, percebe que a pessoa com deficiência é cidadão e, como tal, tem o direito de estudar, trabalhar, passear, enfim ter uma vida normal. Além de ser um investimento no nosso próprio futuro. Hoje estamos jovens e com força, mas amanhã a idade virá e as limitações também podem vir. Se uma cidade tiver uma cultura para transportar essa população, se estivermos no futuro nestas condições, seremos beneficiados”.

Quando se fala em cultura de transportes, um dos referenciais na região é Sebastião Passarelli, dono da Expresso Guarará e fundador de boa parte das empresas na região do ABC. A família Passarelli atua no ramo de transportes coletivos desde 1938, no interior paulista.

“Uma das coisas que mais me gratificam ao longo do tempo é saber que é possível ter um transporte racional, economicamente viável, que dá lucro, mas que ao mesmo tempo é humano. Estou na região do ABC há 49 anos atuando na área. Me doía ver que num passado não muito distante, pessoas com limitações não tinham condições de entrar num ônibus. São veículos mais caros, mas vale a pena investir”, comenta o empresário, de 81 anos.

Quem está nas ruas no dia a dia sabe como são as dificuldades dos passageiros, principalmente os deficientes físicos. É o caso da motorista Luciane Lopes, da Expresso Guarará. Ela conta que começou a dirigir ônibus em 1996. No início,guiava micro-ônibus. Depois, Luciane
se aperfeiçoou e, hoje, transporta de uma só vez mais de cem passageiros em ônibus articulados, de 18 metros.

“São gigantes domesticados pela suavidade da mulher” – brinca a motorista, uma das primeiras do grupo, quando as linhas municipais ainda eram operadas pela Viação São José.

“Transportar deficientes é como transportar um tesouro dentro do ônibus. Eles tem uma força especial, sempre algo a ensinar. Fiz muitas amizades trabalhando como motorista e digo sem medo nenhum. Prefiro linha de bairro, de periferia. Apesar dos perigos, o passageiro torna-
se amigo. São poucos carros e os pontos finais são praticamente na porta das casas. Nunca tive medo do perigo da periferia. Ao contrário, nas lanchonetes de ponto final é que se encontram histórias de luta e superação, além de uma comida deliciosa” – diz Luciane. Para ela, a
população das periferias vê no ônibus um apoio, um sinal de que não foi esquecida totalmente.

O funcionário da Expresso Guarará, Sandro Alves, que acompanhou a compra dos veículos, explica que os ônibus possuem elevadores para cadeirantes com acionamento automático pelo motorista, balaustes com textura para deficiente visual, bancos com cores diferentes para idosos e bancos para obesos.

Sandro, o funcionário, sempre dava lugar ao Sandro, busólogo. Além de trabalhar, ele é um apaixonado por ônibus, o que permite que conheça um pouco mais do ramo, com as visões de profissional e de fã.

Isso foi possível notar quando, indiscutivelmente entusiasmado, ele mostrava os “mimos” que a empresa conseguiu negociar com a encarroçadora, como relógio digital, com marcador de temperatura e um simpático ventilador para o motorista.

Por onde os ônibus novos passavam, numa espécie de carreata, os moradores viam a diferença em relação aos antigos e logo perguntavam quando estes começariam a rodar, o que acontecerá nos próximos dias.

Até outubro haverá 30 ônibus acessíveis transportando passageiros pela Expresso Guarará. Eles se somarão aos 15 “micrões” da Viação Vaz, já circulando. Número pequeno ainda se for levando em consideração o fato de que a frota de Santo André tem 250 ônibus. Mesmo assim, é o início
de uma nova fase que este “Ponto de ônibus”, que registra a história do transporte de passageiros, faz questão de contar, afinal, as cidades, empresas e sociedade tem enorme débito com as pessoas com deficiência.

Adamo Bazani é busólogo, repórter da CBN e sorri quando um passageiro com deficiência pode sair de casa, não apenas para o hospital, mas para trabalhar, estudar, passear e viver.

Do Rio 40 graus à São Paulo 10 graus

 

Por Adamo Bazani

Para continuar o sonho de permanecer ao volante, motorista deixa tudo no Rio de Janeiro e vem para São Paulo. O maior choque? O choque térmico

Admir, motorista de ônibus

Que São Paulo, devido a mudança climática provocada pela poluição, construção desordenada e aumento da população deixou de ser Terra da Garoa, isso é um fato. E que se deu muito rapidamente. Esta transformação também pode ser contada através da história do motorista de ônibus, Admir dos Reis Oliveira, 50 anos.

Natural do Rio de Janeiro, Admir sempre foi fã de ônibus e admirava a diversidade de cores das empresas que andavam na cidade, uma das únicas a não aderir a padronização e a permitir que as empresas mantivessem sua identidade.

De família humilde, ele perdeu o pai aos 4 anos de idade.  A mãe não dava conta de manter a família e Admir teve de morar com a avó-madrinha e um tio. Trabalha desde a infância. Fazia de tudo: entregas, vendas e serviços gerais, quando aproveitava para apreciar os ônibus na rua.

“Coloquei na cabeça que iria dirigir ônibus. Ia em garagens, começava a me inteirar de como eram as manhas para guiar um possante. Mas tudo ainda ficava na base do namoro”.

Em 1977, apareceu uma chance para Admir. A empresa Rio-Ita, que opera na região Metropolitana do Rio de Janeiro, abriu vaga para ajudante geral. “Depois de estar dentro de uma empresa, seria mais fácil conseguir virar motorista”.

O pensamento de Admir estava certo. Passou por auxiliar geral, auxiliar de mecânica, mecânico até que, em 1979, aparece oportunidade de operar em linhas intermunicipais no Rio de Janeiro. “Foi uma maravilha. O serviço era interurbano, mas com ônibus Ciferal e Marcopolo rodoviários. Me senti o Rei do Asfalto”.

O calor no Rio era um dos principais problemas para motoristas no fim dos anos 70. Apesar de já existirem veículos com ar condicionado, eram muitos caros. “Mas como um bom carioca da gema, batia fácil o calor”.

A primeira lição que Admir teve no volante é que por mais especializado que o motorista seja, é no dia a dia que se aprende a profissão. “Lidar com pessoas é uma arte e dirigir ônibus é interagir com o ser humano. É muito mais que controlar um carrão grande”.

Ele garante: “era um aluno aplicado na escola da estrada”.

E foi no ônibus que encontro equilíbrio financeiro para a família. “Não ganhava muito, o salário no Rio de um motorista na época, era 3 vezes menor que o salário no ABC ou em São Paulo. Mas consegui viver feliz”.

Em 1984, o que parecia ser uma vida estável, sofre um grande baque. O então proprietário da Rio–Ita vende a empresa e transfere a maior parte dos recursos para empresas da Capital e do ABC Paulista. Ele teve de tomar uma decisão importante. Correr o risco do desemprego ou acompanhar o patrão em São Paulo.

“Todo mundo na minha família foi contra, mas o dono da empresa me ofereceria o emprego em São Paulo. E tinha outro dilema, eu teria de ir a São Paulo, mas começar do zero, como auxiliar geral, igualzinho eu tinha começado, em 1977. É que o proprietário da Rio-Ita, que acabara de entrar nos negócios em São Paulo e no ABC precisava reestruturar as viações que acabara de comprar”.

Depois de muito pensar e discutir com a família, Admir teve de tomar coragem, e veio sozinho para Mauá, no ABC Paulista, deixando no Rio de Janeiro uma filha de um ano e dois meses e a mulher.

“Pelo menos era um emprego, eu mandaria o dinheiro para minha família.. Antes poder sustentá-la longe a passar fome, perto. Além disso, minha paixão é dirigir, não me via fazendo outra coisa”.

Grande São Paulo, o choque térmico

Em setembro, Admir foi para Mauá, na região metropolitana de São Paulo. Ele começou do zero mesmo. Auxiliar geral e morava num quartinho cedido pelo dono da empresa na garagem.

“O que mais me chamou a atenção quando cheguei a Mauá (Grande São Paulo) foi o frio. Sem brincadeira, parece ridículo, mas isso quase me fez desistir”. Era setembro e mesmo assim a temperatura estava próximo dos 10 graus.

“Sofri muito. Gripe, direto. Usava casacos enquanto os outros motoristas trabalhavam de camisa normal, era até caçoado”.

Na época, o ABC e parte de São Paulo, mesmo se expandindo ainda podiam ser consideradas Terra da Garoa. E da neblina. A garagem da empresa ficava em um lugar alto de Mauá.

“Enquanto em 1984, muitas cidades da Grande São Paulo tinham crescido bastante, parte de Mauá, quase chegando em Ribeirão Pires, tinha pouca construção, os morros não eram habitados como agora e o ar era fresco, geladinho, por natureza”.

A garoa típica que já deixava aos poucos a cidade de São Paulo, enquanto ela crescia, ainda podia ser notada em Mauá. “No fim da tarde, tinha de colocar a blusa e ligar o limpador do ônibus. Quando pegava a linha que ia para Paranapiacaba (vila considerada patrimônio histórico da humanidade, marcada por construções inglesas, devido à construção da linha Santos Jundiaí, por Barão de Mauá, no final do século XIX) era outro mundo pra mim. A neblina da Serra do Mar, o ar frio, bem diferente do Rio de Janeiro”.

Dois meses depois de ter virado motorista na Viação Barão de Mauá, a filha e a mulher de Admir se mudam para a garagem. O patrão havia arrumado um lugar maior. “Mas meu objetivo, que hoje conquistei, era comprar uma casa para minha família. Não dava pra ver minha filha ser acordada as três da manhã pelo barulho dos motores dos ônibus que se preparavam para as primeiras viagens. Na garagem não pagava aluguel e graças a isso, consegui economizar pra comprar uma casinha”.

Pelas janelas dos ônibus, inicialmente os Bela Vista, Gabriela, Amélia, passando pelos modelos Padron Vitória, Admir viu o clima da região mudar. As construções, em São Paulo e no ABC, se tornavam mais altas. Os morros com eucaliptos que perfumavam a garagem foram ocupados por barracos. O número de carros nas ruas cresceu assustadoramente.

“Depois de 20 anos, dirigindo entre a cidade de São Paulo e Ribeirão Pires, comecei a sentir o mesmo calor que no Rio de Janeiro. Mas um calor mais abafado, com ar pesado. Pensei que é porque eu tinha me adaptado, mas os termômetros não mentiam: a temperatura tinha aumentado mesmo”

Hoje em dia, por conta do calor na cidade de São Paulo e nas cidades do ABC, e das lotações nos ônibus, a presença do ar condicionado dos veículos é quase obrigatória.

“Estranhei o frio quando cheguei na Grande São Paulo. Me chamaram a atenção a brisa e o friozinho da tarde na periferia de Mauá. Hoje, mesmo adorando calor, como bom carioca, sinto saudade desse tempo. Hoje, temos um calor poluído e pela minha história no ônibus, presenciei a mudança do clima em São Paulo. Motoristas mais antigos que trabalharam na região nos anos 40 e 50 me contaram que sentiram mais ainda a mudança. Infelizmente, o trânsito, a poluição e o “calor pesado” chegaram bem pertinho da Serra do Mar, em Mauá. Quem trabalha na rua, como eu, vê que é verdade que o Planeta está ficando mais quente”.

Ádamo Bazano é repórter da CBN, busólogo e sabe que a coisa está esquentando.