Do Rio 40 graus à São Paulo 10 graus

 

Por Adamo Bazani

Para continuar o sonho de permanecer ao volante, motorista deixa tudo no Rio de Janeiro e vem para São Paulo. O maior choque? O choque térmico

Admir, motorista de ônibus

Que São Paulo, devido a mudança climática provocada pela poluição, construção desordenada e aumento da população deixou de ser Terra da Garoa, isso é um fato. E que se deu muito rapidamente. Esta transformação também pode ser contada através da história do motorista de ônibus, Admir dos Reis Oliveira, 50 anos.

Natural do Rio de Janeiro, Admir sempre foi fã de ônibus e admirava a diversidade de cores das empresas que andavam na cidade, uma das únicas a não aderir a padronização e a permitir que as empresas mantivessem sua identidade.

De família humilde, ele perdeu o pai aos 4 anos de idade.  A mãe não dava conta de manter a família e Admir teve de morar com a avó-madrinha e um tio. Trabalha desde a infância. Fazia de tudo: entregas, vendas e serviços gerais, quando aproveitava para apreciar os ônibus na rua.

“Coloquei na cabeça que iria dirigir ônibus. Ia em garagens, começava a me inteirar de como eram as manhas para guiar um possante. Mas tudo ainda ficava na base do namoro”.

Em 1977, apareceu uma chance para Admir. A empresa Rio-Ita, que opera na região Metropolitana do Rio de Janeiro, abriu vaga para ajudante geral. “Depois de estar dentro de uma empresa, seria mais fácil conseguir virar motorista”.

O pensamento de Admir estava certo. Passou por auxiliar geral, auxiliar de mecânica, mecânico até que, em 1979, aparece oportunidade de operar em linhas intermunicipais no Rio de Janeiro. “Foi uma maravilha. O serviço era interurbano, mas com ônibus Ciferal e Marcopolo rodoviários. Me senti o Rei do Asfalto”.

O calor no Rio era um dos principais problemas para motoristas no fim dos anos 70. Apesar de já existirem veículos com ar condicionado, eram muitos caros. “Mas como um bom carioca da gema, batia fácil o calor”.

A primeira lição que Admir teve no volante é que por mais especializado que o motorista seja, é no dia a dia que se aprende a profissão. “Lidar com pessoas é uma arte e dirigir ônibus é interagir com o ser humano. É muito mais que controlar um carrão grande”.

Ele garante: “era um aluno aplicado na escola da estrada”.

E foi no ônibus que encontro equilíbrio financeiro para a família. “Não ganhava muito, o salário no Rio de um motorista na época, era 3 vezes menor que o salário no ABC ou em São Paulo. Mas consegui viver feliz”.

Em 1984, o que parecia ser uma vida estável, sofre um grande baque. O então proprietário da Rio–Ita vende a empresa e transfere a maior parte dos recursos para empresas da Capital e do ABC Paulista. Ele teve de tomar uma decisão importante. Correr o risco do desemprego ou acompanhar o patrão em São Paulo.

“Todo mundo na minha família foi contra, mas o dono da empresa me ofereceria o emprego em São Paulo. E tinha outro dilema, eu teria de ir a São Paulo, mas começar do zero, como auxiliar geral, igualzinho eu tinha começado, em 1977. É que o proprietário da Rio-Ita, que acabara de entrar nos negócios em São Paulo e no ABC precisava reestruturar as viações que acabara de comprar”.

Depois de muito pensar e discutir com a família, Admir teve de tomar coragem, e veio sozinho para Mauá, no ABC Paulista, deixando no Rio de Janeiro uma filha de um ano e dois meses e a mulher.

“Pelo menos era um emprego, eu mandaria o dinheiro para minha família.. Antes poder sustentá-la longe a passar fome, perto. Além disso, minha paixão é dirigir, não me via fazendo outra coisa”.

Grande São Paulo, o choque térmico

Em setembro, Admir foi para Mauá, na região metropolitana de São Paulo. Ele começou do zero mesmo. Auxiliar geral e morava num quartinho cedido pelo dono da empresa na garagem.

“O que mais me chamou a atenção quando cheguei a Mauá (Grande São Paulo) foi o frio. Sem brincadeira, parece ridículo, mas isso quase me fez desistir”. Era setembro e mesmo assim a temperatura estava próximo dos 10 graus.

“Sofri muito. Gripe, direto. Usava casacos enquanto os outros motoristas trabalhavam de camisa normal, era até caçoado”.

Na época, o ABC e parte de São Paulo, mesmo se expandindo ainda podiam ser consideradas Terra da Garoa. E da neblina. A garagem da empresa ficava em um lugar alto de Mauá.

“Enquanto em 1984, muitas cidades da Grande São Paulo tinham crescido bastante, parte de Mauá, quase chegando em Ribeirão Pires, tinha pouca construção, os morros não eram habitados como agora e o ar era fresco, geladinho, por natureza”.

A garoa típica que já deixava aos poucos a cidade de São Paulo, enquanto ela crescia, ainda podia ser notada em Mauá. “No fim da tarde, tinha de colocar a blusa e ligar o limpador do ônibus. Quando pegava a linha que ia para Paranapiacaba (vila considerada patrimônio histórico da humanidade, marcada por construções inglesas, devido à construção da linha Santos Jundiaí, por Barão de Mauá, no final do século XIX) era outro mundo pra mim. A neblina da Serra do Mar, o ar frio, bem diferente do Rio de Janeiro”.

Dois meses depois de ter virado motorista na Viação Barão de Mauá, a filha e a mulher de Admir se mudam para a garagem. O patrão havia arrumado um lugar maior. “Mas meu objetivo, que hoje conquistei, era comprar uma casa para minha família. Não dava pra ver minha filha ser acordada as três da manhã pelo barulho dos motores dos ônibus que se preparavam para as primeiras viagens. Na garagem não pagava aluguel e graças a isso, consegui economizar pra comprar uma casinha”.

Pelas janelas dos ônibus, inicialmente os Bela Vista, Gabriela, Amélia, passando pelos modelos Padron Vitória, Admir viu o clima da região mudar. As construções, em São Paulo e no ABC, se tornavam mais altas. Os morros com eucaliptos que perfumavam a garagem foram ocupados por barracos. O número de carros nas ruas cresceu assustadoramente.

“Depois de 20 anos, dirigindo entre a cidade de São Paulo e Ribeirão Pires, comecei a sentir o mesmo calor que no Rio de Janeiro. Mas um calor mais abafado, com ar pesado. Pensei que é porque eu tinha me adaptado, mas os termômetros não mentiam: a temperatura tinha aumentado mesmo”

Hoje em dia, por conta do calor na cidade de São Paulo e nas cidades do ABC, e das lotações nos ônibus, a presença do ar condicionado dos veículos é quase obrigatória.

“Estranhei o frio quando cheguei na Grande São Paulo. Me chamaram a atenção a brisa e o friozinho da tarde na periferia de Mauá. Hoje, mesmo adorando calor, como bom carioca, sinto saudade desse tempo. Hoje, temos um calor poluído e pela minha história no ônibus, presenciei a mudança do clima em São Paulo. Motoristas mais antigos que trabalharam na região nos anos 40 e 50 me contaram que sentiram mais ainda a mudança. Infelizmente, o trânsito, a poluição e o “calor pesado” chegaram bem pertinho da Serra do Mar, em Mauá. Quem trabalha na rua, como eu, vê que é verdade que o Planeta está ficando mais quente”.

Ádamo Bazano é repórter da CBN, busólogo e sabe que a coisa está esquentando.

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