Avalanche Tricolor: uma ‘dushi’ vitória na Copa do Brasil

Grêmio 3×1 Operário PR

Copa do Brasil – Centenário, Caxias do Sul-RS

O azul do mar em Curaçao para lembrar do Grêmio Foto: Mílton Jung

Às vezes, parece português. Em outras, espanhol. Se o ouvido for sensível perceberá a leve sonoridade francesa e a forte influência holandesa. Essa mistura de sotaques e origens forma a língua local de Curaçao, onde passo parte de minhas férias. O papiamento é o idioma oficial e resultado desse caldeirão cultural que se transformou a ilha autônoma que faz parte do Reino dos Países Baixos. Dizem os estudiosos que o “papear” se iniciou nas conversas dos escravizados que foram forçados a passar por aqui. 

Foi em meio a um papo e outro que acompanhei a vitória do Grêmio, na Copa do Brasil. Infelizmente, meu calendário de férias não estava sintonizado com o da CBF que trouxe esse jogo atrasado da competição para a manhã de um domingo. Assim, o azul que me havia sido reservado era o do mar do Caribe que é estonteante. No caso, os vários azuis, porque se expressam em uma variedade de tonalidades, conforme a profundidade, a região e a luz do sol. Quando todos esses fatores jogam em conjunto, o resultado é incrível.

Do azul que nos cabe nesta Avalanche, o do Grêmio, soube pela descrição e pelos comentários que, mesmo diante do susto do empate, ainda no primeiro tempo, e alguns lances arriscados, dominou a partida e impôs sua autoridade. Fiquei com a impressão de que, além de nos classificar à próxima etapa da Copa do Brasil, o jogo serviu para desanuviar o ambiente ruim gerado pelos maus resultados do Campeonato Brasileiro. Ao menos é o que espero.

Os gols de Pavón e Galdino foram importantes para melhorar a imagem dos dois atacantes diante da torcida. Enquanto o de Gustavo Nunes, para reafirmar a relevância do jovem que tem se transformado no principal jogador do Grêmio na temporada. A partida valeu, também, para conter a pressão sobre Soteldo, criticado pelo atraso no retorno da Copa América. O venezuelano deu assistência e ajudou bastante nas jogadas ofensivas.

’Dushi’ foi a palavra que encontrei no dicionário do papiamento que melhor define o resultado desta disputa de vaga às oitavas de final. Não tem uma tradução muito clara. Pode ser sobre algo bom ou doce. É usada em diversas situações sempre com caráter positivo. Haja vista que o apelido de Curaçao é Dushi Korsou. E o que poderia ser mais positivo para nós tricolores do que uma vitória nesta altura do campeonato (no caso, da Copa do Brasil).

Avalanche Tricolor: vaga adiada para a Arena

Operário-PR 0x0 Grêmio

Copa do Brasil – Germano Krüger, Ponta Grossa/PR

Galdino tenta mais um ataque em foto de Dido/GrêmioFBPA

Em jogo de futebol escasso, as palavras escasseiam, também. Pouco se tem a dizer de uma partida em que o placar ficou em zero a zero. E a perfomance foi apenas a suficiente para deixar a decisão da vaga para a  Arena, em 22 de maio. 

Nesta estreia de Copa do Brasil, que tanto gostamos, assistimos a raros rompantes de futebol. Um tentativa aqui, outra acolá. De gol desperdiçado quase nada a lamentar. Talvez naquele ataque ao fim do primeiro tempo em que Diego Costa serviu Cristaldo dentro da área. De resto, pouca inspiração.

A boa da noite foi ver o esforço de Galdino pela direita. Mesmo que contestado, jogou acima do esperado. Já havia demonstrado sua utilidade no esquema gremista na vitória pela Libertadores. Hoje, foi além. Aproveitou o espaço que tinha, fez boas jogadas, driblou e tentou tabelar com seus companheiros. 

Os torcedores gostaríamos de sair de Ponta Grossa com a vitória tranquilizadora, sem dúvida. Especialmente aqueles que tiveram de pagar R$ 350,00 para assistir ao jogo no estádio. Mas a impressão que ficou é que havia um contentamento do time em fazer um jogo seguro e ciente de que a decisão da vaga à próxima fase da Copa será mesmo diante da torcida, na Arena.

Avalanche Tricolor: a Roger o que é de Roger

Grêmio 5×1 Operário PR

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Roger Machado em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Lá se vão três meses desde o último revés. Não lembro contra quem foi nem perderei meu tempo olhando a tabela para conferir. Coisa ruim a gente esquece. Há quem diga que com as ruins a gente também aprende. Faz sentido. Mas desse aprendizado já tivemos demais na última temporada, portanto fiquemos com o que de melhor tem acontecido neste time comandado por Roger Machado.

Ouço críticos falarem com surpresa da consistência defensiva do Grêmio, algo que não era comum na passagem anterior de nosso técnico à frente do time. Roger aprendeu. Amadureceu. E amadurecido aceitou o desafiou de remontar a equipe e levá-la à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

Nosso treinador sempre foi inteligente e diferenciado na maneira de tratar as coisas do futebol e da vida. Hoje, tem mais experiência para entender limites e oportunidades. 

Ele sabia que o Grêmio precisaria reequilibrar-se, simplificar a maneira de jogar, ter segurança lá atrás, enquanto reerguia-se do meio para frente. Sabia que o Grêmio carregava um peso extra pelo que havia deixado de fazer no ano anterior. Uma vergonha que tirava o sorriso dos jogadores em campo — precisava resgatar neles o prazer de jogar bola. Sabia que a reconquista da confiança viria jogo após jogo, ponto após ponto. Precisaria de paciência para suportar os muxoxos de uma torcida ainda traumatizada. 

Foi assim que Roger recuperou o Grêmio na temporada. Com a calma necessária. Garantindo pontos fora de casa. E fazendo o máximo possível dentro dela. Reposicionando jogadores. Contando com a sustentação de “veteranos” como Geromel e Diego Souza. Agora, tendo a experiência e o talento de Lucas Leiva. 

O Grêmio tem a melhor defesa do campeonato; depois da goleada de hoje, também o melhor ataque; é o time mais disciplinado da competição;  sem perder há 17 jogos, registra a maior invencibilidade do futebol brasileiro, nesta temporada. Fincou os dois pés na zona de classificação e tudo leva a crer que vai além. 

Em campo, não faz apenas resultado —- o que, convenhamos já seria suficiente para as necessidades do ano. Está melhorando a maneira de se portar também quando está com a bola nos pés. Troca passes com mais velocidade e se movimenta com maior rapidez. É um time mais solidário na defesa e no ataque. E com isso ocupa melhor os espaços no campo. Nem sempre a execução sai como o desejado. Tropeços vão ocorrer porque a competição é longa. Mas o bom caminho está traçado. E a Roger tem de ser dado este mérito.

Em tempo, a coincidência no calendário: em 9 de Agosto de 2015, o Grêmio fazia 5×0 no Inter; em 9 de Agosto de 2022, 5×1, no Operário. Nas duas datas, o técnico do Grêmio era Roger Machado. Que o 9 de Agosto se repita mais vezes na temporada.

Leia a Avalanche em que conto o dia que conheci Roger

Avalanche Tricolor: Grêmio faz a lição “fora” de casa

Operario PR 0x1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Germano Krüger, Ponta Grossa PR

Elias comemora o gol da vitória, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

Estádio acanhado. Distante de oferecer o conforto das Arenas. Torcida motivada, quase no cangote dos jogadores. Adversário entusiasmado diante da #BatalhaDos110 — marca usada para comemorar o aniversário do time. Em campo, uma equipe aguerrida, disposta a manter a invencibilidade iniciada em outubro do ano passado e a conquistar a primeira vitória de sua história contra o Grêmio.

Começo essa Avalanche de forma inédita. Pelo outro. Pelo adversário. Pelo coadjuvante. E não pense que falo assim por desmerecimento. É que dedico esse espaço ao time do meu coração. O Grêmio é o protagonista. Mesmo que nem sempre o seja com a bola no pé, como aconteceu em boa parte do ano passado, a tal ponto que chegamos onde estamos. Por isso mesmo, aliás, iniciei essa Avalanche descrevendo o cenário que encontramos nesta quarta rodada do Brasileiro B. 

A situação de rival a ser batido, do grande a ser superado ou de deparar com estruturas nem sempre apropriadas para a partida, vai se repetir a cada rodada — ou na maioria delas. Na última vez que estivemos nessa condição, demoramos para aprender a lição antes de sermos protagonistas da nossa própria batalha, a dos Aflitos. Você talvez não lembre, mas só mudamos nossa história após sofrermos uma impressionante goleada. Neste ano, temi pelos primeiros resultados. Pensei que as dificuldades de adaptação para o tipo de jogo a ser jogado e de competição a ser disputada fossem se estender por mais tempo. 

Na noite desta quarta, em Ponta Grossa, interior do Paraná, o Grêmio deu sinais de que está ciente de seus limites e de como deve se comportar diante da situação a que se expôs ao não ser capaz de permanecer na primeira divisão. Mesmo com a escassez de jogadas de ataque, foi competente na marcação, dobrando em cima do adversário, encurtando espaço para o toque de bola e sendo firme nas divididas. Jogadores foram substituídos por exaustão —- provocada porque precisam fazer o dobro do que estavam acostumados. 

Não por acaso, Campaz, que seria um talento a ser preservado à frente, apareceu duas ou três vezes despachando a bola na defesa. E Rodrigo Ferreira, novidade na temporada, escalado para dar consistência lá atrás, foi quem proporcionou o primeiro chute de grande perigo a gol. Sem exagero, cito Benitez, que entrou já no segundo tempo. Meio-campo sempre lembrado pelo toque de bola e distribuição de jogo. Não se fez de rogado: apareceu três vezes desarmando com carrinho os adversários.

Depois de resistir ao empate no primeiro tempo, Roger armou a equipe para impor velocidade. E em dois lances, logo no início do segundo tempo, o Grêmio mostrou a que veio. Biel pela esquerda, soltou o drible e usou de agilidade para chegar na área. Na primeira jogada, colocou Diego Souza na cara do gol. Na segunda, deu assistência para Elias marcar o nosso gol. Nosso único e suficiente gol. Gol com o valor de goleada. Porque valeu os três pontos que precisávamos para botar o pé no grupo dos quatro mais bem classificados.

Sem querer me precipitar: tenho a impressão de que o Grêmio entendeu que está disputando o Brasileiro B. E esse é o primeiro passo para todo e qualquer time se livrar dela o mais cedo possível.

Conte Sua História de São Paulo: o operário que virou escritor

José Jorge Porto 

Ouvinte da CBN

Foto de Rodolfo Quirós no Pexels

Em abril de 1975 deixei a terra natal, no interior de Pernambuco, para encontrar trabalho em São Paulo. Fui morar na casa da minha irmã, ali em Guaianazes. Demorou pouco para o primeiro emprego. Na PEM Engenharia, na Vila Mariana, como ajudante de eletricista. A primeira obra foi um marco: o prédio da IBM, na Tutóia com a 23 de Maio — a primeira estrutura de concreto revestido com vidro. 

Marcantes e difíceis estes tempos. Ganhava um salário mínimo. Passava frio. Mas mesmo as dificuldades me encantavam. Logo me matriculei numa escola estadual ali, em Guaianazes, no Jardim São Paulo. Ano seguinte, ingressei em uma escola técnica de eletrônica. Lá na primeira obra — que durou quatro anos — fui promovido à oficial eletricista e depois encarregado de eletricista. Até hoje quando passo diariamente dirigindo ali na 23 de maio que vejo aquele prédio meu coração fica alegre.

Meu esforço me levou à universidade, me formei em filosofia, Gestão Estratégica de Empresas e Engenharia Elétrica, fiz várias especializações. Hoje, também dou aulas em ambientes corporativos.

Em março de 2020, um dos diretores da empresa TEMON onde trabalho, me antecipou as férias porque aos 63 anos eu não poderia ficar exposto ao coronavírus. Com três dias em casa, reciclei dois bancos de madeira. E a ansiedade em ficar parado em casa não passava.

Comecei a escrever algumas coisas e percebi que nascia um aprendiz de escritor.  Em parte das escritas, reproduzi conversar com um amigo irmão, o Cleyton. 

Cento e quarenta páginas depois, o livro ficou pronto e a Editora Laços aceitou publicar “Reflexões para gestores”, em que abordo principalmente os desafios, habilidades e competências que um gestor precisa ter, saindo de uma visão tecnicista para uma visão contemporânea, levando o gestor a transformar o trabalho em algo gratificante para todos, ao  autoconhecimento na construção de uma empresa ética, competitiva e mais humana.

José Jorge Porto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da cidade, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. O quadro vai ao aos sábados, 10h30, no CBN SP

Barulho no ouvido do vizinho é refresco

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Minha sobrinha Cláudia Tajes resolveu,na última Donna,fazer um texto sobre o barulho. E escolheu como a hora mais silenciosa do dia, a que se situa entre às 12h e 13h. A explicação que ele dá para eleger esta hora como a mais silenciosa do dia aí vai:por que,escreve ela,os operários da obra param a fim de almoçar e oferecem um breve descanso,com isso. Ela entendeu,também que uma obra esteja em construção nas proximidades da sua casa,o que aumenta o barulho.Isso ocorre porque se trata de uma obra gigante,coisa de gente rica.

 

A hora do silêncio passa ligeiro. Tudo o que é bom passa depressa,não é? O ruim é que tão pronto os operários mudam para outro setor da construção,algo pior entra em ação: o especialista começa a operar uma perfuratriz,que arrasa até mesmo os tímpanos de surdos. A Cláudia cita ainda outras fontes dos mais diversos ruídos. O coitado de um Chevette sofre,no dizer dela,produzindo,imagino, um som horroroso. Afinal,nem todos os motoristas possuem carros com alto-falantes poderosos e de som límpido. No Rio de Janeiro você pode descansar os ouvidos com música de qualidade,se é que música em carro com som altíssimo pode ser ouvido sem causar algum mal aos tímpanos.

 

A Claudia se queixa igualmente do menino que estuda guitarra,não lembro se no andar de cima ou onde o capeta busca inspiração para suas músicas. É aí que entram os eletrodomésticos de todos os tipos. Ah!Tem um cara na frente da nossa casa no comando de uma máquina de cortar grama que já viu dias melhores,tamanho é o ronco que produz. Esse desgraçado tem a mania de fazer o seu trabalho aos sábados. Nada pior do que estragarem de alguma forma o soninho que pretendíamos fazer.E chega o domingo. E o torcedor de futebol se acorda. Isso é o de menos:o nosso televisor possui som muito mais do que o dele.

 

Cláudia deve ter esquecido um dos tantos barulhos que recordou neste curto espaço de um dia,principalmente um dia de fim de semana. Esqueceu,porém,o pior:o cachorro do vizinho para quem odeia cães de qualquer raça,sejam os grandalhões,sejam os pequenos ou os diminutos. Fomos premiados com um Pastor que tem mania de latir na garagem. Quando enxerga a nossa gata,enlouquece e se transforma em um Pastor elétrico.Felizmente,entretanto,ela é bem mais esperta do que ele e nos vinga:sabe que o cão não pode atravessar a cerca de ferro e fica tirando sarro do abobado.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)