Oito dicas para textos bem ditos no seu rádio

Foto: Pixabay

 

Conversar com jovens é revigorante. Com jovens e jornalistas, é provocante. Pela profissão que pretendem exercer, tendem a ser mais curiosos ao mesmo tempo que desconfiados. Olham você de revesgueio, ouvem com atenção enquanto matutam alguma pergunta que possa lhe tirar do trilho e quando você menos espera querem saber aquilo que você não imaginava ter de contar. É preciso preparo e cuidado extremo com as palavras.

Fiz esse exercício dias atrás. Em conversa online, estive com alunos da PUC do Rio Grande do Sul. Da mesma FAMECOS que frequentei no início dos anos 1980. Uma turma sob a batuta do mestre Cláudio Mércio —- que conheci sob o apelido de Batata quando ele ainda tinha dúvidas se seria advogado ou jornalista. Contou-me que foi o convite que fiz para ser estagiário do SBT, em 1989, que lhe deu rumo profissional. Saber disso me fez acreditar que alguma coisa boa deixarei para o jornalismo. Mércio, dentre outros afazeres acadêmicos, cuida do laboratório de texto da PUC — ao lado do professor Sílvio Barbizan — e foi nesse contexto que me convidou a participar do encontro virtual. 

Lembrei aos guris e gurias que me assistiam a frase do professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, quando foi ombudsman da Folha, na virada da primeira para a segunda década deste século: 

“80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância”. 

Como tudo acelerou de lá para cá, fico imaginando o quanto a pressa em publicar tem provocado erros. No rádio, que é o meu assunto, temos pressa, muita pressa, cada vez mais pressa. E, lamentavelmente, em nome dela justificamos boa parte dos nossos erros, quando deveríamos redobrar os esforços para essa pressa ser substituída por precisão. 

Para nos ajudar a desenvolver um texto mais bem qualificado no rádio, listei oito sugestões que reproduzo a seguir para você, caro e raro leitor deste blog:

  1. Escreva a palavra certa, nunca a palavra mal dita

Se não houvesse a pressa, a preguiça e a ignorância —- para citar os três erros identificados por Lins da Silva, deixaríamos de repetir no ar informações e expressões que costumamos ouvir das diferentes fontes com quem temos contato —- uma gente que cria jargões, usa de tecnicismo, exagera no anglicismo e mal preparada para conversar com o cidadão. Cabe ao jornalista (não apenas de rádio) traduzir para o bom e claro português toda palavra mal dita — incluindo as malditas. 

Dia desses, ouvi nas notícias de trânsito que o problema na via era da “temporização semafórica”, que nada mais é do que o tempo em que o semáforo, ou a sinaleira, como falamos no Rio Grande do Sul, abre e fecha. Aliás, a família “semafórica” parece ser enorme entre os técnicos de controlam o tráfego nas cidades brasileiras: sem puxar muito da memória já fui apresentado no ar ao pai conjunto, à mãe sinalização e ao irmão temporão, ops, temporização.

As pautas de saúde e coronavírus também vão ao ar sem que se dedique alguns minutos em busca de palavra melhor. Dos médicos, repetimos a expressão “evoluir a óbito”. O problema não é o que o médico diz —- lá na sala de cirurgia, no registro oficial, ele tem todo o direto de evoluir a pessoa a óbito —- mas isso não cabe na boca de um jornalista. Ou a pessoa sobreviveu ou morreu. Se ela evolui para algum lugar, isso é assunto para outra editoria.

Tem as paravas e expressões da moda, também. “Mortos contabilizados” e “novos mortos” estão por todos os lugares do noticiário. Não há um dia em que eu não depare com um texto em que o verbo contabilizar aparece —- não bastasse o fato de que a ideia inicial de contabilizar está relacionada a transação financeira, por que não procurar outra formas de escrita? Por exemplo: em lugar de o Brasil contabilizou 1.500 mortes por Covid-19, nas últimas 24 horas; use o Brasil registrou 1.500 mortes …; ou 1.500 pessoas morreram no Brasil… Jamais “contabilizou novas mortes” (aí é de matar) como ouvimos a todo momento. Faria algum sentido dizer que o Brasil teve 1.500 velhas mortes?

  1. Só use a palavra mal dita, quando disser que foi dita

É claro que se um entrevistado, alguma autoridade ou uma fonte que mereça e possa ter seu nome citado usar uma expressão mais complicada, um jargão da área em que atua ou uma palavra estranha ao nosso vocabulário, podemos e devemos reproduzir sua declaração —- mas não esqueça de, em seguida, traduzir para o ouvinte o que foi dito. E de forma bem dita.

  1. De preferência, deixe o mal dito na voz do dito cujo

Nesses tempos de autoridades desbocadas, que acreditam que com palavrão podem descrever uma pessoa, uma profissão ou um fato; já que estamos falando em mídias faladas, de preferência deixe que ele ou ela diga em viva voz aquela expressão. Um exemplo aleatório: imagine que você viva em um país no qual o presidente chame os jornalistas de bundões (Deus me livre de viver em um lugar desses). Você não precisa repetir no texto da reportagem, em viva voz, a palavra usada pelo presidente, se tiver a gravação do próprio mal dizendo seus colegas. Tem coisa que cabe na boca da autoridade, mas não cabe na sua. Nem na minha.

  1. Números ditos costumam ser mal ditos

Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que jornalista não entende de números, mas adora usá-los. A impressão que se tem é que reportagem sem número parece não ter lead, manchete ou credibilidade. Que fique claro, discordo piamente dessa ideia.  Reportagem não precisa de número, precisa de histórias, fatos e pessoas, além de um bom texto, é claro. Histórias, fatos e pessoas são a alma de uma reportagem.

Hoje, temos, inclusive, uma área que tem crescido bastante, que é a de jornalismo de dados, que nos especializa nos temas e nos ensina ao menos a saber quando usar ou não “morte por milhão de pessoas”. Nesta pandemia, fomos muito cobrados por parte do público —- especialmente bolsonarista ou aquele que se identificava como amante (?) do Brasil —- o fato de não relativizamos o número de pessoas infectadas ou mortas levando em consideração a população do país. Seria, segundo essa turma, uma maneira de mostrar que o problema não era tão grave quanto “vocês jornalistas que não gostam do Brasil querem que seja”. Aprendemos na crise que o número de mortos por 100 mil ou por milhão pode trazer distorções na avaliação em situação aguda como esta. A medida é importante quando tratamos de casos crônicos; por exemplo, assassinatos, acidentes de carros ou mortes por problemas no coração. 

Em situações nas quais números são relevantes para a reportagem, é preciso que se tenha parcimônia quando formos informá-los no rádio —- o preciosismo pode acabar em desinformação. Decida o número que realmente interessa; dê ênfase a esse número; faça comparações que ilustrem a dimensão dele; e evite publicar uma sequência de números com milhão, milhares, centenas e dezenas. Na dúvida, faça a você mesmo a seguinte pergunta: se eu fosse o ouvinte qual desses números que tenho em mãos, eu gostaria de memorizar para contar aos meus amigos? Esse é o número que você vai ter de trabalhar de forma precisa na sua reportagem.

  1. Sempre há uma nova forma de dizer a mesma coisa

Esses dias, li um e-mail armazenado no arquivo de meu computador que fazia parte de uma série escrita por um dos ex-diretores de jornalismo da CBN, Giovanni Faria. Guardei todos os e-mails porque o conteúdo é riquíssimo e produzido com base no que ele ouvia no ar. Em um deles, pedia para que âncoras e repórteres buscassem uma outra maneira de perguntar a opinIão de seus entrevistados. Reclamava, com razão, que em quase todas as entrevistas nós usávamos a mesma fórmula: “como o senhor vê isso?”; “como a  senhora vê aquilo?”. Sugestão do chefe, aceita e nem sempre cumprida: restringir o uso do verbo VER para seu sentido literal e abandonar o modismo de usá-lo como sinônimo de EXAMINAR, ANALISAR, PENSAR, COMPREENDER, ENTENDER, SENTIR …. Só com um puxão de orelhas desse para a gente perceber que exagera no “ver”. 

  1. O texto falado para ser escutado pode ser escrito 

O rádio é uma tremenda escola para o improviso, o que não significa que ao entrar no ar você não possa preparar o seu texto. Aliás, na abertura do Jornal da CBN, quando apresentamos uma espécie de resumo de notícias e declarações que interessam ao público, o texto é todo escrito. Há um roteiro, não exatamente com o cuidado que aprendemos na academia, mas há um roteiro adaptado às nossas necessidades.

Os repórteres —- especialmente os mais novos —- temem cometer erros e, portanto, não há mal nenhum que preparem um texto escrito com antecedência, desde que isso não atrase a participação dele na programação. Se o tempo for pouco e a insegurança muita, anote apenas os tópicos, de maneira ordenada e lógica. Quando for chamado, com texto ou sem texto, o repórter tem de estar pronto para contar a história que lhe cabe. 

  1. O texto escrito para ser escutado tem de ser falado

O cuidado essencial é entender que o texto escrito para ser escutado tem de ser escrito como é falado. E esse é talvez dos erros mais comuns, muitas vezes cometido por pressa, preguiça, ignorância ou medo —- acrescentei mais um motivo para os nossos erros, além dos três citados por Carlos Eduardo Lins da Silva. 

A forma como você escreve um texto para o rádio tem de ser da forma como falamos, caso contrário, ninguém vai ouvir como deveria. Isso não significa contrair o para para pra; ou a pessoa pelo cara; ou o bandido pelo crápula …. Há regras a serem respeitadas, mas a frase escrita tem de caber na boca do locutor; tem de fazer parte do seu cotidiano e do cotidiano do ouvinte.

*O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral” (Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios (primitivos), procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

*(reproduzido do livro “Jornalismo de Rádio”, Editora Contexto, 2004)

  1. O texto para ser escutado tem de ter ouvintes

Então, não os espante com textos mal ditos!

A palavra bem escrita no rádio é a palavra falada

 

autoradio-4672254_960_720

Foto: Pixabay

 

 

O rádio é palavra falada. E por falada que é, muita gente pensa que não precisa ser bem escrita.

 

É, também, improviso. E em nome do dito cujo há quem justifique qualquer barbaridade cometida à língua.

 

Essa visão distorcida leva à redação de jornal, quem gosta de escrever; para as de rádio quem gosta de falar —- poderia completar a brincadeira e dizer que vai para a de TV quem quer aparecer, mas não vou dizer não porque é maldade das boas e desrespeito a colegas de muito talento que conheço.

 

Verdade que no rádio a dependência ao texto escrito é bem menor do que em outras mídias, mesmo se comparado ao tipo de televisão que assistimos nos canais dedicados ao jornalismo ao vivo, onde cada vez mais apresentadores e repórteres se desprendem do roteiro prévio para contar as histórias do cotidiano. Na TV, ainda existe uma burocracia técnica que exige uma disciplina maior dos profissionais para que a reportagem entre no ar. E os telejornais seguem tendo que rodar no teleprompter.

 

No rádio, a coisa funciona mais ou menos assim — e vou me basear no Jornal da CBN.

 

Das quatro horas de programa que vão ao ar, texto lido de verdade só na abertura, quando, ao lado da Cássia Godoy, apresentamos os destaques do dia, escrito pelo editor —- geralmente o Edmílson Fernandes (esse merece um capítulo especial). A cada meia hora tem, também, o Repórter CBN, obra do redator de plantão dedicado ao programa.

 

Daí pra frente, é um improviso só.

 

Chama a reportagem do Queiroz! Quem fez? Tem repórter de Brasília ao vivo na linha. Qual o assunto? O entrevistado está esperando. Me dá o crédito dele!

 

A conversa entre âncoras, produtores e operadores rola solta enquanto a programação está no ar. Hoje, no isolamento, sou obrigado a fazer esse bate-papo virtual. Perde-se um pouco de agilidade, mas nada que prejudique a performance e a dinâmica.

 

As reportagens gravadas têm textos de apresentação, escrito pelo editor ou pelo próprio repórter. Coisa de quatro, cinco, seis linhas no máximo. Mais do que isso é exagero. Servem de orientação para chamar o conteúdo preparado pelo repórter. Costumo passar por cima desse texto, porque escrito no bastidor tende a não ter o ritmo da minha fala.

 

Prefiro um tom mais autoral. Que provoque no ouvinte a sensação de que o que ele vai ouvir em seguida faz parte daquela conversa que começou às seis da manhã e se estenderá até às dez. Por isso, gosto sempre de relacionar com algo que já havíamos falado ou falaremos mais à frente. De contextualizar o assunto para que a reportagem não caia como um paraquedas do céu. De esclarecer algum aspecto que ajude a mensagem a ser mais bem absorvida pelo público. Precisamos sempre lembrar: nunca se está só ouvindo rádio. Então, chamar a atenção do ouvinte para o que vem ou para o que foi, é essencial.

 

Disse que gosto de fazer isso. Não significa que o faça sempre assim. E, principalmente, que meu improviso seja melhor do que o texto escrito. Quando se fala ao vivo, tem dessas coisas. Aumenta-se o risco de errar. O que me consola é que erro por conta própria. Pior coisa que deve haver é a gente só cometer o erro dos outros. Tenho de ter, no mínimo, competência de errar por mim mesmo.

 

Aliás, errei muito nesta vida do rádio.

 

Dia desses, revendo CDs e DVDs do passado —- uma das tarefas que me impus para suportar esses mais de 90 dias de quarentena —-, encontrei e-mail do jornalista Eduardo Martins, o homem de um emprego só. Trabalhou no Estadão a vida toda. Começou lá aos 17 anos, fazendo palavras cruzadas como colaborador, virou redator, repórter e editor. Foi autor de “O Manual de Redação e Estilo”, que o jornal publicou em 1990 e guardo na minha estante com orgulho. Morreu em abril de 2008.

 

Sua missão em vida foi valorizar a boa língua portuguesa e em nome desta missão me escreveu em abril de 2001. No texto, convidou-me a visitar o site dele “para evitar alguns erros que cometemos diariamente”. Usou o plural, mas entendi que a crítica era singular. Foi gentil ao citar apenas um dos muitos erros que saem da minha boca: o uso inadequado da locução “em função de”.

 

Escreveu Eduardo Martins:

“1 — A locução em função de só pode ser usada quando equivale a finalidade, dependência:

 

O time jogava em função do adversário/ O político agia em função dos seus objetivos/ O homem vivia em função da família

 

2 — Ela não corresponde, porém, a em virtude de, por causa de , em conseqüência de ou por, casos em que deve ser substituída por uma dessas formas:

 

A entrega do navio foi antecipada pela (e não “em função da”) rapidez do trabalho do estaleiro./ A Justiça tomou a iniciativa em conseqüência do (e não “em função do”) grande número de processos à espera de julgamento./ Na década passada as montadoras pararam por causa das (e não “em função das”) greves. / Recebeu a promoção graças às (e não “em função das”) suas qualidades.”

Guardei esse e-mail por causa da consideração (e não “em função do”) que sempre tive por Eduardo Martins. E pela maneira como ele me considerou. Ao escrever uma carta digital de “próprio punho” para me corrigir, demonstrava respeito aos jornalistas de rádio. Sabia da responsabilidade e da capacidade que temos de influenciar outras pessoas.

 

Que se influencie de maneira certa: falando o bom português, enriquecendo o vocabulário do cidadão, evitando o lugar-comum, valorizando a nossa língua e seguindo o ensinamento do professor catalão Ivan Tubau de que “ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala”. Ou seja, a palavra bem escrita no rádio é a palavra falada.

 

Expressividade: pausa é silêncio, complementa a palavra ou muda seu sentido

 

Leia a sexta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

nelson-rodrigues---foto-arquivo-publico-do-estado-de-sao-paulo-3

 

 

SILÊNCIO RODRIGUIANO

 

A importância da palavra é inquestionável. Quem a domina, comanda. Haja vista a preocupação com a formação de monopólios do setor de comunicação. Nos regimes totalitários as emissoras de televisão, os transmissores de rádios e as oficinas dos jornais são alvos preferenciais. Não há democracia sem liberdade de expressão. No Brasil, um dos pioneiros desta luta pelo direito do cidadão expressar opinião foi Nélson Rodrigues que, em 1943, revolucionou a dramaturgia com a peça Vestido de Noiva. Pernambucano, nascido em 1912, este jornalista e romancista transformou-se no mais importante autor do teatro contemporâneo. Morto aos 68 anos, forjou um legado de conceitos e ideias batizado pela crítica de “rodriguianos”. Ironicamente, um dos homens que mais souberam manejar as palavras era, também, um apreciador do silêncio:

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

Pausa é silêncio. E, por assim ser, gera expectativa de quem ouve, motivo pelo qual deve ser usada como parte da mensagem para chamar atenção do receptor seja pela quebra de ritmo, seja pelo próprio vazio em si. Se palavras têm diferentes significados, não-dizer também ganha razão dentro do contexto. Pode ser insatisfação ou respeito. Leva à reflexão ou provoca indignação. É complemento da palavra ou muda seu sentido.

 

Na locução do texto, o silêncio leva o ouvinte a compreender a mensagem desde que feito de forma natural e no momento certo. Exclamação, vírgula e ponto são marcas de um discurso que devem ser respeitadas e permitem a retomada do fôlego do orador. No processo de comunicação, em que os interlocutores estão focados na compreensão do sentido das palavras e orações, a pausa não é menos importante, mesmo que o ouvinte não as perceba conscientemente.

 

Valorizar o silêncio foi a primeira recomendação que ouvi ao ser convidado para um desafio inédito na minha carreira profissional: narrar futebol na televisão. Faço questão de ressaltar o veículo no qual iria exercer a função porque, fosse no rádio, não caberia neste capítulo e sequer mereceria tal destaque. O diretor de jornalismo da Rede TV!, na época de fundação da emissora, era Albertico Souza Cruz que, motivado pela ideia do jornalista Juca Kfouri, passou a defender mudança substancial na cobertura dos jogos de futebol. Ambos entendiam que a exuberância e a qualidade das imagem que fazem parte de uma transmissão televisiva, eram suficientes para atender as necessidades do telespectador, cabendo ao locutor o papel de coadjuvante. No que, no meu entender, tinham plena razão, a tal ponto que aceitei o trabalho, apesar da minha inexperiência como narrador esportivo (as brincadeiras em torno da mesa de futebol de botão, ainda na infância, nunca constaram do meu currículo).

 

Hoje em dia, as emissoras de televisão oferecem à audiência uma quantidade enorme de imagens de um mesmo jogo com a presença, nos estádios, de um sem-número de câmeras. Somam-se a isso todos os recursos técnicos de reprodução, câmera lenta e computação gráfica à disposição do público. De casa, munido de um controle remoto, é possível selecionar a cena a que se pretende assistir e escolher o melhor ângulo para rever aquele lance duvidoso. Do lado de fora do campo, às vezes até dentro do gol, microfones captam todo e qualquer barulho. O grito quase impublicável do torcedor, o choro do craque machucado, a orientação do técnico, que tenta organizar seu time, o chute na bola e até o barulho da chuva. Seja qual for o som que fizer parte do espetáculo, chega até os aparelhos de televisão, capazes de amplificá-lo em equipamentos ainda mais potentes.

 

Em meio ao espetáculo de som e imagem que se transformou a transmissão esportiva, o narrador precisa encontrar o lugar dele. Deixar de lado a participação emotiva e quase histérica que ocupa, atualmente, nas principais emissoras de televisão. “Valorizar o silêncio”, como repetia Alberico a todo momento no ponto eletrônico que me acompanhava nas coberturas dos jogos de futebol. Atender a esta exigência significava me limitar as informações básicas, como o nome de quem estava com a bola ou o que sinalizava o árbitro. Abrir mão do “óbvio ululante” —- apenas para usar mais uma referência rodriguiana. Ou será que o telespectador, depois de todas as imagens à sua frente, ainda precisa ser informado que “o chute foi com o pé direito, no canto esquerdo do goleiro”?

 

O silêncio, confesso, incomodava a mim — que desde o início defendi a proposta, mas tinha dúvidas de como seria recebida e de minha própria capacidade profissional para a função — e aos telespectadores — acostumados a gritaria que reina nas transmissões esportivas. Somente os mais refinados se deram conta de imediato que ali se quebrava um paradigma do telejornalismo esportivo. Saía o “animador de auditório”, entrava o “narrador de futebol de televisão” —- papel que espero possa, um dia, ser desempenhado por alguém mais bem preparado do que eu.

 

O momento mais significativo desta experiência foi durante a partida entre Bayer de Munique, da Alemanha, e Real Madrid, da Espanha. O jogo, válido pela Copa dos Campeões da Europa, marcava a despedida do craque alemão Lothar Matheus. Faltando cinco minutos para a partida se encerrar, o técnico do Bayer decidiu fazer uma homenagem a Matheus e promoveu a substituição dele. O árbitro parou o jogo para que esta fosse realizada. Juca Kfouri, que comentava, e eu, apenas trocamos olhares e silenciamos. Durante oito minutos, o telespectador em casa teve o direito de assistir ao adeus de um dos mais interessantes jogadores do futebol internacional, sendo cumprimentado por colegas, adversários e árbitro, aplaudido em pé por todos que estavam no estádio, e, finalmente, caminhando, já solitário, até o fim de um corredor onde estava a porta do vestiário, sem a interferência do locutor e comentarista. Nenhuma palavra substituiria aquelas cenas. Valorizamos o silêncio e a inteligência do telespectador.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

typewriter-1814675_1280

Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Expressividade: a importância da ênfase certa na palavra certa

 

 

Aqui está a quarta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

woodtype-846089_960_720

Foto: Pixabay

 

 

NO BANCO DOS RÉUS

 

 

“Ele não tem uma voz confiável”. Quantas vezes você já ouviu essa frase. É quase um julgamento final. Sem direito à apelação. Do som emitido, define-se a personalidade. Logo que começamos a falar, nossa imagem passa a ser construída no imaginário do interlocutor. Fala mole? É inseguro. Fala alto? É autoritário. Não para de falar? É uma “mala”. Para não sermos condenados nos primeiros minutos de jogo, é preciso cuidado na forma de se expressar. E poucas coisas são tão importantes na busca da confiabilidade através da fala do que a ênfase que funciona como um grifo na palavra.

 

 

Minha primeira experiência como apresentador de telejornal foi na TV Cultura de São Paulo. Na redação conheci uma das melhores vozes femininas da televisão brasileira, Valéria Grillo. Logo notei que antes de ir ao ar, ela pegava a caneta e começava a rabiscar todo o texto datilografado no papel (houve uma época era que os textos eram escritos em uma tal máquina de datilografia, espécie de computado da “Era das Trevas”, em que bastava apertar as letras do teclado para as palavras saírem impressas no papel. Você talvez ainda encontre algumas destas máquinas em antiquários). Aprendi com minha colega de redação que cada risco tinha um significado diferente. Alguns alertavam para o fim do período. Outros para a vírgula que vinha em frente. Um que parecia uma sequência de pequenas ondas sublinhava os nomes próprios. Os mais fortes pediam uma ênfase especial para a palavra. Não era nada simples, porque não bastava copiar os hieróglifos na minha lauda. Era preciso antes saber qual a palavra a ser valorizada.

A inflexão tem de ser dada nas palavras-chave do texto. Naquelas que são importantes para o entendimento do discurso e, portanto, devem chamar atenção do receptor.

Exatamente aquilo que fazia o locutor do Correspondente Renner quando o preço dos produtos aumentava. Não se pode esquecer que enquanto falamos, uma série de outros fatores disputam com a gente a atenção do ouvinte. Se ele está em casa, é a comida no fogão, o vizinho que fala alto ou as crianças que brincam no pátio. Se está no carro, tem o sinal de trânsito, o anúncio no cartaz, o menino fazendo malabarismo para pedir dinheiro ou a moça bonita que atravessa a rua. Lá se foi nossa mensagem ouvido abaixo, sem sequer ser percebida por quem de direito.

 

 

Quando se quer chamar atenção para alguma palavra escrita, usa-se o negrito, o itálico ou o sublinhado. Na palavra falada também temos ferramentas apropriadas. Para ênfase deve-se usar a articulação de forma mais precisa, diminuir a velocidade da fala e reforçar a intensidade. O prolongamento da palavra, o grifo usado em algumas situações, não costuma atingir o resultado pretendido. Apenas aumenta o tempo da locução — alguém já disse que tempo é dinheiro? —-, retira a finalidade da entonação e passa a sensação de que o texto está arrastado.

Quem tem o domínio da voz, subverte a ordem. Muda a intenção do discurso apenas na escolha da palavra a ser enfatizada. Quem não o tem, promove estragos na comunicação.

Políticos e executivos de grandes empresas costumam encomendar discursos às suas assessorias. Se não houver extrema afinidade entre quem escreve e quem lê, o prejuízo pode ser enorme. Recomenda-se que, ao receber um texto escrito por terceiros, leia-se antes acompanhado do seu autor, para que mudanças de tom e ênfases inapropriadas não levem a erros de interpretação. Neste mesmo texto que você lê agora em cada palavra, vírgula, ponto e contraponto há uma intenção que talvez seja percebida apenas por este escrevinhador. Uma sonoridade para quem escreve, mas que pode ser absolutamente sem sentido para quem o lê.

 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Mundo Corporativo: para uma comunicação eficiente, respeite seu público e entenda o poder da palavra

 

 

“A palavra tem o poder de construir e destruir. Se existe uma frase que nos marca muito na história da humanidade é “pense antes de proferir”. Este pensamento precisa ser realmente estratégico com o coração que nós queremos atingir.” Diogo Arrais, professor

A comunicação pode ser transformadora na sua carreira e, portanto, precisa ser mais bem exercitada no cotidiano. O uso correto da palavra, que vai muito além do respeito às regras gramaticais —- apesar desse domínio também ser importante ——, aproxima pessoas, cria relacionamentos e gera negócios. No programa Mundo Corporativo da CBN, o jornalista Mílton Jung entrevistou o professor de língua portuguesa Diogo Arrais, fundador do Arrais Língua Portuguesa, que se dedica ao tema há mais de uma década:

“Do que adianta todo o domínio da norma gramatical se, ora, eu não tenho o respeito nem o conhecimento do meu público-alvo. De fato será um grande fracasso”

Conhecer o público-alvo é um dos caminhos propostos por Arrais para que se tenha uma comunicação eficiente. Ele vai além. Sugere que você respeite seu interlocutor, planeje o conteúdo, desenvolva a criatividade, tenha muito carinho e dedicação à língua portuguesa:

“Pense sempre que a sua plateia e o seu ouvinte não são pessoas tão especialistas e que não querem tanto a sua presença ali. O encantamento parte do pressuposto de que aquelas pessoas vão ter realmente um susto muito positivo com a sua educação, com a sua elegância, com o domínio sobre o palco e principalmente o domínio sobre a palavra.”

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, 11 horas da manhã, ao vivo, no Twitter @CBNoficial e na página do Facebook da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; no domingo, às 10 da noite, em horário alternativo, ou a qualquer momento em podcast.

Comunicar para liderar foi destaque em Felicidade iLTDA

 

 

0-1

 

A experiência de ser entrevistado nem sempre me deixa à vontade. Fui treinado para entrevistar pessoas. Quando se está do outro lado, sempre fica a apreensão de que seu desempenho poderia ser melhor. A resposta não foi tão clara quanto gostaria. Talvez tenha desperdiçado a oportunidade de contar algo mais produtivo para as pessoas. Dia desses tive de encarar esse desafio a convite de João Paulo Pacífico, empreendedor, inspirador e apresentador do programa Felicidade iLTDa, na Rádio Globo.

 

Verdade que a tarefa de ser entrevistado foi facilitada pela forma simpática e tranquila com que o Pacífico fez a mediação. Além de o fato de estar sentado à mesa com uma colega super competente e minha grande amiga: a Leny Kyrillos, com quem escrevi o livro “Comunicar para liderar” (Contexto). Ao lado dela, a conversa sempre se torna agradável e produtiva.

 

Falamos de comunicação e liderança, contamos curiosidades de nossas carreiras —- como o motivo que me levou a deixar o esporte pelo jornalismo — e apresentamos dicas para ajudar os profissionais a se relacionarem melhor com seus colegas, parceiros de negócios e clientes.

 

O programa —- como o próprio nome nos induz a pensar — é sobre felicidade no trabalho e se propõe a tratar de assuntos que mostrem como as empresas podem contribuir para um futuro melhor. Foi o que me fez lembrar do poder da palavra na comunicação e o cuidado que devemos ter ao nos dirigirmos às outras pessoas, especialmente quando estamos diante da necessidade de avaliar o seu comportamento ou o seu desempenho profissional:

 

“… uma palavra bem dita, muda e transforma a vida do outro; assim como a palavra mal dita, fere”.

 

Esse poder é ainda maior quando se aprende — como disse Leny Kyrillos — que a comunicação contagia e constrói imagens. A propósito, ao ser provocada a identificar os  pecados na comunicação dos líderes, Leny ressaltou que o mais grave deles é a falta de autenticidade:

 

“(a pessoa) se sente cobrada e pressionada por uma série de coisas e começa a acreditar que ela precisa desempenhar um papel que não é o dela, e muitas vezes perde sua essência”.

 

Espero ter sido autêntico na conversa com a Leny e com o João Paulo Pacífico — mesmo quando fui levado a contar uma piada em um dos quadros propostos pela produção do programa.

 

Ouça  muitas outras dicas e curiosidades no podcast de Felicitade iLTDA.

 

De tentativa

 

Por Maria Lucia Solla

 

FullSizeRender

 

o papel
insiste no branco puro
a palavra
no crucial momento da emissão
se perde na vida
vira a casaca

 

o bom fica babaca
a certeza perde a realeza a pose
e a casaca

 

a impermanência exige atenção
pula
se estica
faz careta
me mostra a foto da permanência
coitada
correndo na contramão
envelhecida e mofada
destruída

 

cena triste de se ver

 

insisto ainda um pouco
busco temas teoremas
que ratifiquem a minha razão

 

mas me perco no local do encontro
de mim mesma com a emoção

 

apago tudo
faço a vontade do papel
dou à palavra alforria
ao bom o seu complemento

 

e
bem

 

a certeza
não encontrei
ouvi dizer que ela e a razão
se mandaram para Canoa Quebrada
e que vivem disfarçadas
de sardinhas enlatadas

 

E voilà

 


Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung

De pessoa e palavra

 

Por Maria Lucia Solla

 

IMG_5793

 

Pensando na palavra, seus significados, cor, textura, sonoridade, gingado, malemolência, me dou conta de que nós somos palavras.

 

começamos com um sim
terminamos com um não
você olha pra mim
acelera meu coração…

 

Começamos sendo um nome, um xis peso e tal medida, e terminamos pesados e medidos na nossa despedida.

 

Hoje entendo melhor uma das frases preferidas do meu pai. Dizia que ‘nosso nome é nosso único bem’. Achava exagero seu, mas ele já sabia do que somos feitos, quando eu nem sabia falar.

 

me revelo
você se revela
nos unimos
separamos
sempre apoiados nela

 

Ando triste de tanto ver nossa Língua Portuguesa abusada por quem deveria ensinar o que não fala, a falar, e o que não escreve, a escrever.

 

Por falar nisso, você sabe como surgiu o termo você?
Vem de Vossa Mercê, que fatiado virou voismicê; daí para o apelido foi um escorregão, e virou ocê, até voltar a você. Só que que gora virou cê – Ce vai? ‘Vô! – c vai – vo.

 

E assim vai a vida.

 

(Inspirado no meu trabalho de hoje, com um delicioso grupo de Costa Rica. Um beijo para eles)

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De Eleição e Lexigrama

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá, a poucos dias da eleição, reli por curiosidade os Lexigramas dos nomes dos candidatos à Presidência deste país, em textos que escrevi recentemente, e que foram postados aqui no blog do Mílton Jung.

 

O Lexigrama de Eduardo Campos trazia, entre tantas outras, esta frase:

 

‘Caros compadres e caras comadres, eu sou Eduardo Campos, marcado por carma para mudar a roda do poder e curar a seca do Ceará com pedra e suor, mas sem dor e sem medo.’

 

Certamente mudou a roda do poder.
Mas tem também:

 

‘Sou marcado com o dedo de Deus e de S. Amaro…’

 

Eduardo Campos faleceu na Ilha de Santo Amaro, e foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro.

 

Outro pedacinho de frase:

 

…de mãos dadas com Deus.

 

Quanto aos dois candidatos atuais à Presidência deste país, leia você, “caro e raro” leitor,” os textos postados anteriormente, dos candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff, e vote bem, porque eu vou.

 

Lexigrama de Dilma Roussef x Lexigrama de Aécio Neves

 

dea

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung