De Eleição e Lexigrama

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá, a poucos dias da eleição, reli por curiosidade os Lexigramas dos nomes dos candidatos à Presidência deste país, em textos que escrevi recentemente, e que foram postados aqui no blog do Mílton Jung.

 

O Lexigrama de Eduardo Campos trazia, entre tantas outras, esta frase:

 

‘Caros compadres e caras comadres, eu sou Eduardo Campos, marcado por carma para mudar a roda do poder e curar a seca do Ceará com pedra e suor, mas sem dor e sem medo.’

 

Certamente mudou a roda do poder.
Mas tem também:

 

‘Sou marcado com o dedo de Deus e de S. Amaro…’

 

Eduardo Campos faleceu na Ilha de Santo Amaro, e foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro.

 

Outro pedacinho de frase:

 

…de mãos dadas com Deus.

 

Quanto aos dois candidatos atuais à Presidência deste país, leia você, “caro e raro” leitor,” os textos postados anteriormente, dos candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff, e vote bem, porque eu vou.

 

Lexigrama de Dilma Roussef x Lexigrama de Aécio Neves

 

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Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Minimalismo de boteco

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

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Dias atrás, deparo-me na Veja SP com reportagem sobre botecos onde a palavra minimalismo é usada indevidamente. “O conceito é minimalista, poucos metros quadrados e pequena quantidade de mesas”. É a frase que inicia o artigo “Boteco para os íntimos”.

 

Na verdade o texto não tem nenhuma intimidade com o minimalismo. Como sabemos, minimalismo é o significado de um movimento ocorrido nas artes, na decoração, na moda e, no estilo de vida, na busca do requinte, em que o menos é o mais. No sentido de qualidade e singularidade. Nada a ver com tamanho.

 

O maltrato a uma expressão tão cara a quem milita em área em que a palavra minimalismo é técnica, gerou de minha parte um e-mail ao editor da Veja, e uma ratificação do valor do tecnicismo vocabular. Tão criticado por muitos.

 

É fato que em algumas áreas como a Medicina e a Economia realmente há exageros, gerando os pejorativos medicinês e economês. Entretanto, por mais que se critique a comunicação técnica, não há como fugir em determinadas ocasiões de palavras que representam significados específicos.

 

Culposo e doloso, por exemplo, são termos jurídicos que podem confundir, mas não podem ser evitados. Culposo, como se sabe significa a culpa sem intenção, enquanto doloso representa a culpa intencional. Na Administração, organograma que é a representação gráfica da estrutura hierárquica, e o fluxograma o desenho dos processos, são muitas vezes confundidos ou trocados.

 

O caminho para evitar dissonâncias é a naturalidade. Aos técnicos deve caber o uso sem abuso dos termos restritos ao entendimento de leigos. Aos leigos recomenda-se não entrar em área desconhecida, mesmo que aparentemente palavras como minimalismo possa indicar tamanho reduzido.

 

O melhor mesmo é ser minimalista, comunicando-se através de palavras comuns, sem excessos, articuladas com simplicidade e objetividade.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Muito tédio, pouco futuro

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Quem sou eu para dar palpite sobre qualquer coisa, ainda mais sobre política. Não sou voltada para ela. Não é o meu ramo. Palpitar, palpito pouco, até porque o som da palavra ‘palpito’ é de torcer o nariz e me lembra ‘dar -ou levar- um pito’, e lembra ‘arrogância’, que sopra um apito e dá pitos, de peito inflado e olhar altivo. Altivo eu acho bonito, mas a tal da arrogância não dá para engolir. Ela é doutora em alguma coisa que ninguém sabe bem o que é, mas dá aula para o palpite, o pito e o escárnio, que acabou de chegar na turma.

 

Mesmo que nos ‘propuséssemos’ -outra para colocar na lista- a criar uma lista das tais palavras, talvez não pudéssemos -essa é bem melhor- publicá-la porque escorregaríamos -essa é divertida- nas normas criadas pelo novo desgoverno autoritário; não ao pé da letra, é claro, porque nada mais é ao pé da letra, neste país. A letra muda ao sabor dos dominantes. Hoje somos divididos, pelo Grande Pai, em Nós e Eles. Inimigos. Nós devendo desprezar Eles. Nós, claro, são os dominantes e seus apoiadores; Eles é o resto, restolho, incluindo esta que vos fala. E assim, atiçando as flamas e apontando as flechas da intolerância e podando o preconceito na forma conveniente, Nós despreza Eles, e vice-versa.

 

Povo para ser dominado e controlado deve estar dividido. Lição Um. Todos os desgovernos autoritários fazem isso, seguindo modelo ultrapassado, embolorado e falido, que ficou tatuado em seus corações-zinhos, como trauma de adolescente rebelde, hoje propulsionado por arrogância e ganância.

 

Não é mais permitido dizer, escrever ou ouvir palavras como Negrinha, por exemplo, como eu era chamada por minha tia, ou Negrão, que eu achava que era o nome dele, um amigo do meu pai. Será que ainda se pode citar o Negrinho do Pastoreio? Será que é permitido pedir uns negrinhos na doceira lá de Porto Alegre?

 

Este atual Desgoverno Federal não é um governo; é um partido político que já está no poder há doze anos -a Era Vargas durou dezesseis, e o Regime Militar, vinte e um- aparelhando a máquina, como dizem, que na verdade quer dizer comprando gente. Sim, comprando pessoas de todas as raças e credos e partidos. O pelo não importa, importa o apoio para que a centopeia desvairada possa dançar como melhor lhe convier.

 

E por falar em Regime Militar, Boi da Cara Preta -será que pode?- até ele aceitou alternância de partidos. Partido Social Democrático, Aliança Renovadora Nacional, por DEZ anos! -oi! o PT já ultrapassou a marca e quer se perpetuar no poder?! -, o Partido Democrático Social, o Movimento Democrático Brasileiro, por cinco anos!, Collor, Itamar, até que Fernando Henrique fechou o ciclo com oito anos de Governo, filiado Partido da Social Democracia Brasileira. Agora, o PT sentou na cadeira do poder e gostou.

 

Ai que tédio!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De língua e linguagem

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Falar uma língua pode ser comparado a compor uma sinfonia, ou queimar uma oportunidade de fazê-lo. É ser capaz de decodificar vinte e seis sinais gráficos, e usá-los para pensar, escrever, sonhar, falar, como notas musicais que compõem

 

sinfonia
sonata
samba rasgado
serenata
um recital de fundo de quintal
samba de uma nota só
uma canção de Natal

 

A partir das letras do alfabeto, é possível formar um mundaréu de palavras que se põe à disposição para ser usado como cada um quiser. Na língua que quiser.

 

Tem as de som labial, nasal, gutural, dental, e outros, emitidos pelo nosso aparelho fonador, isto é, a orquestra formada de língua, dentes, cordas vocais, ar, lábios, nariz, traquéia, caixa-craniana, pulmão, diafragma e instrumentos coadjuvantes, como olhar, postura, expressão facial e corporal de todo tipo.

 

palavra
sociedade
diversidade
riqueza
poder
cada uma
como puder
ser

 

Mas mesmo com enorme poder e infindável riqueza, língua é só a base da comunicação de cada comunidade que cobre o planeta Terra. Ao menos a Terra, pelo que sabemos.

 

Só isso. Alicerce. O que você construir terá a tua cara, teu jeito, tua ginga. Mostrará quem você é e de onde você vem. E a essa construção se dá o nome de linguagem, que é a forma como você se expressa. É um instrumento de contato com o mundo à volta.

 

Espero que possamos adornar a linguagem com o luxo de compreensão, objetividade, doçura e gentileza, e desvesti-la de certeza.

 

Espero que possamos temperar a linguagem com afeto e incentivo, e desarmá-la de palavrão e crítica maldosa.

 

Espero que possamos respeitar a expressão do outro

 

Meu desejo é o de podermos lapidar a linguagem pensada, sonhada, bradada, sussurrada, escrita ou gravada.

 

Assim mudamos e desarmamos o mundo inteiro.

 

Simplesmente mudando a linguagem.

 

Ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De magia

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

ia começar a falar sobre não ter a mínima ideia do que dizer, quando apareceu ‘ olá ‘, num girar das pás do ventilador de teto sobre a minha escrivaninha. Palavra só de três letras: o, l e a, que formam também alô, lá e Ló do personagem bíblico do Antigo Testamento e do pão de ló.

 

Salva pelo trio, ‘o, l e a’, que também trago no nome, vou procurar um ritmo. OLÁ tem três letras no nome e, ainda assim, é bissílaba: O-LÁ. Duas batidas ta-ta. O mesmo com A-LÔ.

 

Mar e Sol, no entanto, com três letras cada uma, são monossílabas: mar – uma batida – ta. E aí já faço um SOM (que também é monossílabo) ta tata ta tata ta tata, batendo no tampo da mesa. MAR OLÁ, SOM, ALÔ.

 

e palavras vêm chegando
aos borbotões
me fazendo de escrava
definindo meus bordões

 

enchem a sala toda
trazendo
mar
levando
com elas
meu ar

 

como dizer não
agora não
como não abrir
a elas
as portas
como fechar
lhes
as janelas

 

E se ao se oferecerem e se virem rechaçadas, porventura, se ofenderem? É um risco tremendamente arriscado, um texto arisco que vai acabar todo riscado, no fundo do cesto, coitado.

 

Mas com você que está aí do outro lado, quero compartilhar um pouco da paz que sinto, que acalma e revigora. Magia a cada Bom Dia. Então me recosto e ouço as palavras que chegam faceiras, sorridentes, falantes.

 

Mar traz amar que ensina a calar esperar escutar aninhar respeitar sonhar.

 

E então me calo.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De novembro

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Leveza foi o que me veio à cabeça quando pensei na palavra novembro. De onde tirei isso? perguntei e respondi. Sei lá, acordei em Novembro sorrindo, leve e contente, e isso me intriga porque à primeira vista o mês começa com o número nove, que abre as muralhas para que o velho saia com o mesmo impulso com que entrou, sem ficar empatando, é sair saindo, para dar lugar ao novo que está pronto para entrar. O número nove não pede licença; chega chegando e mudando os móveis de lugar, sem consultar.

 

Novembro convida para um desapegar-se corajoso e libertador, que objetiva a simplicidade na medida de cada um, em cada fase da vida de cada um. Sempre. Só que em novembro é vai, ou vai, solta ou solta. Via de mão única. É ir em frente que atrás vem gente.

 

Novembro tem mero e tem mono, mas sem nem um pingo de monotonia, porque tem o novo, esqueceu? Mas o novo que chega é simples: é o boné, no lugar do chapéu.

 

Novembro é bom, se você se move. Ele convida com a palavra vem, estampada no nome, e com verbo e mover. Tudo soletrado.

 

Novembro tem bom e bem.
Quer mais?

 

Tem nero, o que me preocupa, já que a sandice tem imperado, a ganância e a prepotência têm abundado, mas roubo perdeu o ‘u’ para dar lugar a robô. Meno male. Um convite para mergulhar na tecnologia.

 

Tem voo e o convite: voe, no singular, e tem voem também, para não ficar ninguém de fora.

 

Tem room, que em inglês quer dizer espaço. Assim, não será por falta dele, ora.

 

E novembro sugere postura nobre; que não nos vendamos por meio cobre, nem por cobre e meio

 

E então, como vão as coisas?

 

estão boas
então
dá pra melhorar

 

não têm como estar pior

dá pra melhorar

 

melhor estraga
tolinho

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De câncer social

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

No meu tempo de criança a gente não dizia a palavra câncer. Tinha uma amiga dos meus pais, muito frágil, que visivelmente sofria e definhava mesmo aos olhos de uma criança, mas eu ouvia dizer que ela tinha ‘aquilo’ ou ‘aquela doença’. Fui ouvir o nome da doença pronunciada com todas as letras, muito tempo depois. E fui ligar os pontos, ainda mais tarde. Para se referir a ela, levavam uma das mãos à boca e baixavam o tom da voz. Ainda era comum franzir a testa, inclinar a cabeça para um lado, erguer o ombro correspondente e olhar com cumplicidade mórbida, dando uma fungada profunda, longa e ritmada em sinal de lamento.

 

O que se passava no íntimo dessas pessoas, e o significado de tantos gestos simbólicos, se traduz numa palavra: preconceito. E é o mesmo preconceito que nos acompanha em tudo, desde sempre e ainda hoje. Inconformismo frente às curvas da vida, preconceito, medo, birra infantil fora de época, sofrimento frente ao novo, desconfiança do desconhecido, medo, preconceito. E mesmo querendo evoluir, andamos na direção oposta fortalecendo o medo, que é solo fértil para o caos estéril.

 

Branco tem preconceito de negro, negro tem preconceito de branco, e os cínicos têm preconceito da palavra negro e da palavra branco. Nos Estados Unidos, durante o julgamento de um branco que matou um negro – George Zimmerman X Trayvon Martin – só o que se ouvia, para se referir a ‘negro’, era ‘the N-word’, ou seja: a palavra que começa com ‘n’. Uma apresentadora de tevê acabou profissionalmente destroçada por ter usado a palavra ‘negro’, no ar. Ela explicou que cresceu usando e ouvindo as palavras negro, branco e índio – quando as palavras e nós éramos mais livres – durante toda sua vida, e que às vezes deslizava. Eu também deslizo.

 

pobre tem preconceito de rico
inculto de culto
medo

 

vice
versa
medo

 

quem acorda cedo
de quem abre os olhos
tarde
medo

 

o agressivo
de quem
é suave
o que não sua
do que sua

 

e onde fica o
cada um na sua
?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De palavra

 

Por Maria Lucia Solla

 

Ando atrás das palavras, e as encontro fora de forma.

 

Indispostas.

 

E me indisponho.

 

Olho no espelho e me vejo disforme.

 

Procuro me recompor, me espelhar em mim mesma em dias melhores e me perco correndo atrás de mim, pelos caminhos e descaminhos do tempo.

 

Passado adentro, futuro afora.

 

Vasculho o passado e encontro palavras assustadas, descabeladas, despreparadas.

 

Passo horas sem me encontrar, correndo em disparada atrás de termos que eu mesma temo.

 

Não tenho medo, mas o medo teima em se agarrar em mim, apertando meu pescoço, sufocando as palavras que me restam.

 

E que insistem em se calar.

 

E o resto?

 

De resto me sobra a vida, que é tudo o que tenho.

 

E a ela me atenho.

 

Quando as palavras se cansarem de descansar e decidirem voltar, eu aviso.

 

“Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias.” Pablo Neruda

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung