De lexigrama

 

Por Maria Lucia Solla

Lexiograma

Através do lexigrama eu mergulho no mistério das palavras. Não existe nome ou título que resista, e eu me esbaldo.

Hoje resolvi mergulhar no mistério de duas palavras que não querem largar de mim, e das quais não faço o mínimo esforço para me soltar.

Tudo começou há uns dois dias, quando eu assistia à novela das seis. Linda. Quando dá, assisto e me regalo; mas um personagem disse uma frase que sequestrou um pedaço de mim. Ele disse: A cerca que protege é a mesma que aprisiona.

Senti uma folia no plexo solar, mas continuei a assistir e a curtir a magia da arte que se consegue orquestrar num simples capítulo de novela. Eu não conseguia prestar atenção na trama porque ficava pensando na frase que já se reduzira, para mim, a proteção/prisão.

Vai dia vem dia, e me veio de lexigramar o que andava martelando na minha cabeça, fazendo meu corpo vibrar, exigindo minha atenção. Proteção/prisão. E é um pouco da viagem que fiz, nesse binômio de aparência paradoxal, que vou revelar a você.

Lexigrama é a técnica de encontrar no nome, frase, título, tantas palavras quantas se conseguir, combinando suas letras e se deixando maravilhar por revelações ávidas por se oferecer.

Em Proteção e Prisão encontro todo tipo de palavra, mas percebo que além do verbo no infinitivo, como castrar e casar, encontro muitos verbos na primeira pessoa do singular como rocei e pastei, ou aposto e arrisco, e entendo que esse binômio mostra a importância da responsabilidade na ação, palavra que também encontro ali.

encontro acerto e erro
presa e preso
porta e portão
mas não encontro
o fecho nem o desfecho

dou de cara com aposto e arrisco
ator e arisco
razão e reação
oração creio e Cristo

encontro traição e tropeço
corpo e procê
tesão parceiro e pato
mas para encontrar coração
falta o cê

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este texto foi escrito durante as férias do Blog e por isso está sendo publicado somente agora

De comunicação e expressão

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De comunicação e expressão na voz da autora

A linguagem humana está tão distante da original, da linguagem da natureza, da vida, que não surpreende o caos que toma conta de nós. Em todas as áreas. Dentro, assim como fora.

Linguagem pressupõe: herança e lógica da fonte onde nasce, ordem, estratégia, coerência, gesto, ritmo, melodia, e tem que ter um quê de permanência. Mesmo que hoje palavras brotem de provetas, às dúzias, todos os dias, e mesmo que tenhamos dezenas de termos para uma só idéia, a idéia original não pode se perder no processo, senão instala-se o caos ali também.

mancebo rapaz
moço menino
gato bofe
guri mino
pão avião
ficante amigo
amante rapagão
cara mano
chefe irmão
deus homem

A linguagem dos deuses é a mitologia. Nós a esquecemos? abandonamos? As histórias dos mitos são a literatura do espírito, mas estamos interessados na cena inteira? Não, é mais fácil não ver.

focamos no aparente
no imediato
no que já está na rede
e perdemos o cardume dourado
que passa logo ali, do nosso lado

Arremedamos a natureza, de dentro e de fora de nós, de forma tão excepcional, que perdemos a capacidade de distinguir entre o original e o pirata. Em tudo. Padronizamos em nome do tempo; da produtividade.

medimos ideias e sentimentos
com a mesma fita métrica descartável
com que medimos o metro quadrado
de livro encadernado
na prateleira do escritório
empoeirado

No dia em que nos interessarmos em aprender que o vocábulo sociedade é símbolo para um grupo reunido de forma organizada, pelo bem de todos, num espaço/tempo determinado, e que não se refere a uma só parcela desse todo, então começaremos a nos entender. Voltaremos a olhar-nos nos olhos, a dizer o que verdadeiramente sentimos, e, nesse impulso de pura vida, nos voltaremos para a natureza e ouviremos o que ela tem a dizer. Veremos que ali que estão escritas as regras que nos levam a gozar as delícias dos jardins das mesmas: da modernidade, tecnologia, inovação, superação, conforto, beleza, saúde, desenvolvimento de mentes e corpos e etc. As delícias da Ciência e as delícias da Filosofia. A verdadeira religião.

Voltar a compreender essa linguagem, é um caminho para a harmonia. E, se começar é preciso, é também simples; há que andar, dançar, voar, amar, pedalar, plantar, colher, perdoar, aceitar, perseverar, criar, brincar, rir, rir de si mesmo, de guarda baixa, acreditar, deixar-se envolver por mitos; ouvir o que eles têm a dizer.

Tente, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De linguiça a carniça, de televisão em cores a dores de amores, de copo-d’água ao mal de mágoa, de ideia e de plateia, de canapê ou canapé, bebê ou bebé

 
Por Maria Lucia Solla

Ouça o texto “De linguiça a carniça, …” na voz da autora

 

 

E convém que se fale do hífen.

Eu entendo que na vida ele tenha pouco peso. Entendo que esteja tão lá em baixo que nem dá para ver o acento agudo no “i“.
Mas faz parte.
E faz parte da nossa língua escrita.

E aqui é importante que eu confesse que não faço parte do grupo que quer de volta o nacionalismo, ufanismo, ou como queiram chamar. Acredito na evolução do Homem, e a Humanidade começou sem pátria.
No paraíso.
Aí foi um divide daqui, puxa dali, rasga ao meio acolá, assina tratado e depois pica o papel em pedacinhos, mata homens, mulheres, crianças, animais, árvores, pássaros, répteis, e delimitam-se fronteiras em nome do “isto é meu e isso é teu”.

Eu acredito ainda no Homem, seja ele branco, amarelo, vermelho, marrom, listrado ou quadriculado. Acredito no Homem, tenha ele olhos castanhos, azuis, verdes ou cor de mel.

E por falar em cor de mel, fica sem hífen, assim como cara de pau.
Mas cor-de-rosa mantém o hífen.
Não se sinta mal.

Mas falávamos de nacionalismo. Eu tive bandeira e hino na escola, mas não acredito que o mundo ficaria melhor se a prática voltasse. Ao contrário, se quiser a verdade nua e crua do que penso, acho que não está melhor porque ainda existe isso e mais um pouco disso, aqui e ali, no mundo, desde a pré-história (com hífen).

O que falta ao homem é respeito e amorosidade, empenho e religiosidade, coragem e verdade, boa-educação e dignidade;
seja ele afro-asiático, indo-europeu,
cristão ou judeu.

Hífen não pode mesmo ser muito bom. Não é de comer, não dá fofoca, não dá barato, não dá dinheiro e não faz moda. É um sinal deitado, e com ele ou sem ele a gente entende o que se quer dizer. Ou seja, ele nem faz lá grande diferença.

O que já não é verdadeiro para o sinal de interrogação, por exemplo. Todo torto, vítima de lordose agudamente crônica, devido a postura de dar dó, quando não usado adequadamente causa uma confusão que só.

O ponto de exclamação, por outro lado, apesar da postura impecável e do corpinho bem-talhado, anda em desuso. A pontuação da hora vem em grupo; são os pontinhos das reticências, já que tudo pode ser…

Mas voltando ao hífen, a nossa língua não é das mais fáceis, mas é das mais ricas. Tem lugar cativo no clube, para nós que somos chegados num, das neo-latinas, acompanhada de feras como francês, italiano e espanhol.

E como tudo nesta vida, ela é bonita se bem-falada, se bem-escrita, bem-articulada, respeitada, bem explorada e acariciada. E é assim que ela quer ser usada. Para que você seja bem-compreendido, ouvido quando fala, lido quando escreve, acreditado quando promete, respeitado quando exige respeito em troca.

Mas o hífen é só parte do que foi mexido na língua escrita. O restante passa pela acentuação, um retoque no alfabeto e a execução sumária do trema, que de saudade faz que eu trema.

Na verdade da realidade dos fatos, menos de 0.6% das palavras foi afetado pelo tal Acordo Ortográfico.
Não é de arrepiar.
Com o tempo todo mundo vai se acostumar.

Enquanto isso, se você precisa escrever, use um corretor, compre um dicionário atualizado e comece pela palavra que mais gosta, a mais sonora, a que te traz lembranças de outrora.

Você vai se surpreender. Curioseia daqui, curioseia dali e, como tudo na vida, além de comer e coçar, é só começar
E se duvidar, pode se animar e gostar.

E como anda a tua comunicação?

Pense nisso, ou não, e obrigada pela atenção.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, é sempre bem-vinda ao Blog do Mílton Jung, com hífen, é lógico.

A fala dos homens

Por Carlos Magno Gibrail

Lugo, Maradona, ACM Neto e a força da palavra

“Em nada lembra o tal carro inglês”… Dirigente da montadora chinesa ao apresentar semana passada no Salão de Xangai o Geely, idêntico ao Rolls Royce.

“Fué La mano de Dios”… Diego Maradona ao marcar visivelmente com a mão o gol que deu a vitória para a Argentina contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986.

Estas falas, todos sabem que não devem ser levadas a sério. A não ser o próprio Maradona que aproveitou e lançou música, livro e filme.

Com humor, uma das melhores falas de Vicente Matheus: “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável”.
Outra, famosa, pode ter autor camuflado: “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, Joãozinho Trinta ou Elio Gaspari?

A natureza que nos envolve e as comunicações nas relações sociais exigem percepção e conhecimento. A olho nu mal conseguimos perceber que a terra é redonda. No âmbito das Humanas a busca da verdade exige redobrada atenção.

“Domingo é o dia da ressurreição e o dia da nossa eleição.  Deus abençoe o Paraguai”. Lugo, candidato, ex-bispo católico, celibato obrigatório.

“Quero pedir perdão por estas circunstâncias e quero ratificar que minha versão será sempre a verdade”. Lugo, Presidente do Paraguai, após a denúncia de 3 filhos ainda quando bispo.

“Não apoiarei ninguém no segundo turno”. Soninha Francine, vereadora candidata a Prefeita SP.

“O DEM tem uma posição política da qual eu discordo. Eu quero o poder. O poder de fazer o possível. Por isso aceitei esse cargo executivo”. Soninha Francine, após ter sido oferecida pelo partido.

“A Casa toda fez… Acho que estão querendo fechar o Congresso”. ACM Neto que recém foi a Paris com a esposa.

“Até ontem era tudo lícito. O que mudou? É um bando de babaca”. Ciro Gomes ao responder sobre passagens para sua família.

No futebol, falas tem gerado confusões, que aliadas aos problemas de torcedores trazem resultados ruins para todos. A partir da fuzarca do último jogo do Brasileirão que redundou na suspensão do presidente da FPF, os clubes paulistas entraram em rota de colisão, a ponto das finais do Paulistão estarem praticamente com torcidas únicas.

“Eles tem é que fazer a conta de quanto vão perder”. Marco Aurélio do SPFC sobre a não utilização do Morumbi.
Dirigentes apaixonados esquecem as regras comerciais. Este final de Paulistão evidencia o que há de pior neste sistema de radicalização, clareando apenas que não há exceção, todos agem amadoristicamente.

Melhor a fala dos jogadores, que José Geraldo Couto bem definiu. Dramática de Maradona, malandra de Romário e épica de Ronaldo. Pelé deve ter lido o texto de J. G. Couto e disse que no domingo passado Ronaldo foi o Rei da Vila Belmiro.

* “A fala dos Homens” é o titulo do livro da Profa. Maria de Lourdes M. Covre, minha orientadora no Mestrado. Analisa a fala de Delfim Neto, Simonsen, Passarinho, etc. quando estavam no Governo Figueiredo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, toda quarta, fala às claras no Blog do Milton Jung

De palavra

Por Maria Lucia Solla

Palavra


Olá,

A palavra é tão falada, que nem se importa mais com o que dizem dela.

É soberana.
Toma o que quer. Dita regras, se você deixar.
É súdita.
Entrega-se. Saudável. Insaciável, Libertina.

É livre.
Num piscar de olhos, escapa por eles.
Expõe-se. Despe-se. De cara limpa, encanta.

É escrava.
Distorcida. Dominada. Aprisionada.
Tantas vezes torturada.

Vive para o amor.
Morre nele.

É corisco imaturo. Troteia indecisa.
É jegue maduro. Empaca quando mais precisa.

É bandido. É mocinho.
Faz a personagem, com igual paixão.

É falada. Sussurrada.
Impressa.
Devagar ou com pressa.

Defende, com igual dedicação, tradição e revolução.

É conceito e preconceito.
Amor e desamor.
Rima de verso e reverso.

É pasmaceira. É paixão.
Na sinfonia e nas cordas do violão, é cérebro. É coração.

É tudo. É nada. Cheio e vazio.
É cantar. É calar. É dar e tirar. Rir e chorar.

Tirana ela não é.
Deixa ir e vir, sair e entrar. Gritar e calar.
É morta e viva.

É beijo que nasce do desejo.
É saudade do sonho.
É com ela que eu me exponho.

E você?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça “De Palavra” na voz da autora

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Todo domingo faz da palavra sua forja.