Luciana Henn S. Castro
Ouvinte da CBN
“O que é o palco, onde ele está, do que ele é feito?
O palco é uma dimensão espiritual, simbólica, o palco é seu próprio coração. […]
O coração tem o calor pra alma, para nos animar.
E durante a pandemia realmente foi nossa ânima que fez o mundo girar”.
Gilberto Gil em especial para “Amor e Sorte”
Foi um pouco antes da pandemia que nos conhecemos, na Casa da Amizade, no Paraisópolis. E assim que tudo na rua virou silêncio, recebi a mensagem dela: “Você pode continuar me dando dicas sobre redação para o vestibular? Acabei de escrever um texto, posso te mandar pelo zap”? Com meu “sim, claro”, se abriu um portal de possibilidades impensadas.
Confesso que, quando a escola em que trabalho como professora foi fechada, em 18 de março, nutri a esperança de que aquela situação duraria no máximo um mês. E ainda que continuasse orientando os alunos remotamente, eu era daquelas pessoas que achavam impossível realizar o trabalho docente em “home office” pela própria definição do termo: não existia “home classroom”.
A Ingrid me mostrou que dava.
Enquanto eu me ajustava às inéditas demandas da escola particular onde trabalho, alimentando plataformas com aulas, eu cultivava, por causa da Ingrid, a energia de lecionar. Ela me mandava a redação, eu a corrigia, identificava pontos fortes e a melhorar. Buscava na internet — até aquele momento, um lado escuro da lua, ainda tão cheio de possibilidades inexploradas — os tópicos que poderiam ajudar a Ingrid a se sair bem no vestibular.
O calendário desfolhava rapidamente e estávamos às vésperas de organizar o Concurso de Redação da Mostra Cultural de Paraisópolis, para alunos de escolas públicas. Eu, ainda entorpecida pela mudança de rotinas doméstica e profissional, pelo enclausuramento, pelo medo, pelas incertezas propostas pelo governo federal, pensava em cancelar o concurso, mas a experiência com a Ingrid me mostrou que era possível.
Chamei uma reunião, via internet, com a equipe organizadora para trocarmos ideias e contar, por exemplo, o quanto eu começava a dominar os diversos aplicativos que poderiam viabilizar o evento: desde a inscrição dos candidatos à sua preparação pelos professores nas escolas; da criação à aplicação da proposta de redação, com seus textos motivadores, bem aos moldes do ENEM; da maneira de coletar essas redações à entrega delas, sem identificação nominal, à equipe de corretores; do modo como publicar as notas de forma fácil e confiável.
Fizemos isso em tempo recorde e de maneira totalmente remota, promovendo o encontro de todos os atores. Um viva à informática e à nossa sinergia!
A adesão ao Concurso foi menor do que nas edições anteriores —- para muitos participantes, o celular era o único dispositivo disponível, e você pode imaginar a dificuldade em ler os textos motivadores e escrever a redação numa tela do tamanho da mão, torcendo para o sinal não cair bem no meio da operação.
Enfim, conseguimos!!! E, no melhor estilo “live”, a XV Mostra Cultural de Paraisópolis aconteceu, as 10 melhores redações receberam seus prêmios via correio e a celebração dos vencedores foi feita por transmissão virtual.
Toda essa experiência me mostrou que o palco, também na educação, é o coração! É o coração que traz o calor para a alma e nos anima, para continuar fazendo essa comunidade girar! Para continuar, enfim, sinalizando aos jovens que a Educação ainda é um passaporte para uma vida melhor e que estamos aí para nos reinventar, nos apropriando das tecnologias para criar novos mundos, menos desiguais, mais fraternos e empáticos.
Luciana Henn Castro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Seu Francisco vai mudar de endereço. Ele está sempre de mudança. Morava em casa, foi para a rua, consegue, vez em quando, um albergue. Chegou a vez do albergue se mudar de um número para outro na mesma Cardeal Arcoverde, rua de Pinheiros, primeiro bairro em que busquei abrigo quando cheguei em São Paulo. Ao contrário de Francisco, carroceiro, não precisei mudar muito de casa nem vivo na rua ou passo fome. Menos ainda sofri preconceito como ele e todos os que usam as dependências do albergue para serem acolhidos pela dignidade. Moradores do entorno os querem bem distantes dali, pois vão afugentar clientes, sujar o ambiente urbano e desvalorizar o patrimônio. Deveriam valorizar mais suas próprias vidas e privilégios conquistados -imagino, a duras penas – entendendo que nem todos têm os mesmos direitos e oportunidades.

O Governo de São Paulo se antecipou a manifestação de moradores do Morumbi por mais segurança na região e anunciou a instalação de uma base da Polícia Militar ao lado da rua Doutor Francisco Thomaz de Carvalho, o Ladeirão, onde ocorrem assaltos com frequência. Além disso, o secretário de Segurança Antonio Ferreira Pinto disse que o policiamento será reforçado para coibir os roubos a residências. Na noite passada e neste madrugada era possível ver uma quantidade significativa de viaturas da PM paradas em pontos estratégicos da avenida Giocanni Gronchi. E para não haver dúvida de que estavam lá, todas com o giroflex ligado.
