Banho de floresta: a natureza que pode caber no caminho de casa

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Parques e idosa

Fonte: imagem produzida por IA

Que tal diminuir o passo, deixar o celular de lado por alguns minutos e prestar atenção ao que acontece ao redor? O cheiro das árvores, o movimento das folhas, a temperatura à sombra, o canto dos pássaros e até o silêncio entre um som e outro. Conhecida no Japão como Shinrin-Yoku, ou Banho de Floresta, essa prática começou a ser difundida na década de 1980 como resposta ao ritmo acelerado da vida urbana e como forma de aproximar a população das áreas naturais.

A proposta é simples: estar na natureza com atenção. Não é preciso percorrer grandes distâncias nem transformar a caminhada em uma prova de desempenho. Caminha-se devagar, observa-se a vegetação, sentem-se os aromas, tocam-se as folhas e percebe-se o ambiente pelos diferentes sentidos. No Japão, onde cerca de 67% do território é coberto por florestas, essa prática encontrou condições favoráveis para se incorporar à vida cotidiana. Nas cidades, pode ocorrer em parques, praças arborizadas, jardins e outros espaços verdes.

A ciência passou a investigar com mais atenção o que acontece com o organismo nesses momentos. Estudos da Universidade de Chiba, no Japão, e do Instituto Max Planck de Desenvolvimento Humano, na Alemanha, relacionam a exposição a ambientes naturais à redução do cortisol — hormônio associado à resposta fisiológica ao estresse —, à diminuição da pressão arterial, ao alívio de sintomas depressivos e a mudanças positivas na atenção e na resposta imunológica. Alguns efeitos podem ser percebidos após apenas 10 a 15 minutos de contato com a natureza.

Esses resultados sugerem que o ambiente pode acrescentar efeitos aos produzidos pela própria atividade física.

Outro estudo japonês acompanhou homens entre 35 e 56 anos durante uma permanência de três dias e duas noites em uma floresta. Após a experiência, aumentou a atividade das células natural killers (NK), relacionadas à resposta imunológica. Esse aumento permaneceu por mais de uma semana. Uma das hipóteses dos pesquisadores é a de que os fitoncidas — compostos voláteis liberados pelas árvores — contribuam para esse efeito, associado também à menor ativação fisiológica relacionada ao estresse.

Essas descobertas ajudam a olhar para as árvores de outra maneira. Elas não estão nas cidades apenas para ornamentar ruas e praças. Interferem na temperatura, oferecem sombra, ajudam na drenagem, abrigam outras espécies e mudam a experiência de quem circula ou permanece nesses lugares.

No Brasil, porém, a vegetação urbana ainda é escassa e distribuída de maneira desigual. Dados do MapBiomas de 2024 apontam que apenas 6,9% das áreas urbanas brasileiras têm cobertura vegetal, o equivalente a 283,7 mil hectares. A falta de árvores é sentida sobretudo em áreas sujeitas ao calor intenso, onde predominam o asfalto e o concreto e são poucas as oportunidades de contato com espaços naturais.

Essa realidade ganha outra dimensão diante das mudanças climáticas. A vegetação urbana ajuda a amenizar o microclima e pode melhorar as condições ambientais dos bairros. Quando bem distribuída, também aproxima a natureza do cotidiano. Uma árvore no caminho para a escola, uma praça próxima de casa ou um parque acessível podem fazer parte da rotina sem exigir grandes deslocamentos.

Há ainda um aspecto menos visível nessa relação: os sentidos. A natureza oferece estímulos diferentes dos que predominam nas cidades. Em vez da sucessão de veículos, buzinas, telas e anúncios, surgem outros sons, texturas, aromas e movimentos. A atenção encontra um ambiente menos previsível e, ao mesmo tempo, menos exigente.

Em Forest Bathing: How Trees Can Help You Find Health and Happiness, Qing Li reúne estudos que relacionam a exposição a ambientes florestais à redução do estresse, a mudanças na pressão arterial, à melhora do sono e a possíveis efeitos sobre sintomas de ansiedade e depressão.

A experiência na natureza também é estudada por seus possíveis efeitos sobre a atenção, a memória e outras funções cognitivas.

Essa relação também importa quando se fala em envelhecimento. As pessoas não envelhecem apenas biologicamente; envelhecem também nos lugares onde vivem. Uma praça, uma calçada arborizada ou um parque podem favorecer a caminhada, o descanso, o encontro com outras pessoas e a permanência no bairro.

Um estudo com 46 pessoas de 65 anos ou mais observou que o Banho de Floresta autoguiado esteve associado a melhorias na atenção, na memória de trabalho e na criatividade. A pesquisa ainda encontrou uma relação entre visitas semanais mais frequentes a ambientes florestais e melhor desempenho cognitivo em adultos mais velhos.

Para que experiências como essas façam parte do cotidiano, porém, é preciso garantir acesso. Uma praça pode ser atraente e arborizada, mas, se a calçada estiver irregular, faltar sombra, os caminhos forem inseguros ou não houver locais adequados para descanso, parte da população ficará de fora.

A acessibilidade precisa acompanhar a arborização. Pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas com diferentes níveis de mobilidade devem conseguir chegar a esses espaços, circular e permanecer neles com autonomia e segurança.

Algumas cidades brasileiras já experimentam formas de requalificar espaços públicos e aproximar a população de áreas verdes. Entre os exemplos estão a Praça da Saudade, em São Luís; o Parque da Criança e o Parque Urbano Rachel de Queiroz, em Fortaleza; e o Parque Princesa Isabel, em São Paulo. As intervenções mostram como espaços antes subutilizados podem ganhar novas funções de convivência, lazer e contato com a natureza.

Uma cidade verde, contudo, não é aquela que concentra grandes áreas arborizadas em poucos pontos. É aquela em que a vegetação está presente em diferentes bairros e acompanha os percursos cotidianos. Pequenos jardins, árvores nas ruas, praças de bairro e corredores verdes também têm seu papel.

No contexto da longevidade, essa distribuição se torna ainda mais necessária.

Quanto mais longa a vida, maior o tempo de relação com a cidade. Caminhar até uma praça, encontrar vizinhos, sentar sob uma árvore ou simplesmente observar o movimento da rua também são experiências que contribuem para a qualidade de vida.

O Shinrin-Yoku oferece uma maneira interessante de pensar essa relação. Em vez de tratar a natureza como algo distante, reservado a viagens ou a grandes áreas florestais, a prática chama atenção para a possibilidade de encontrá-la no cotidiano. O parque do bairro, a rua arborizada, o jardim de uma instituição ou uma pequena praça podem proporcionar momentos de contato com elementos naturais.

Árvores, parques e espaços verdes podem ajudar a enfrentar o calor, favorecer deslocamentos a pé, estimular a convivência e oferecer oportunidades de contato com a natureza. Quando esses espaços são acessíveis e bem distribuídos, seus benefícios podem alcançar moradores de diferentes regiões.

Talvez o Banho de Floresta comece justamente quando diminuímos o ritmo e percebemos algo que sempre esteve ao nosso lado: uma árvore, uma sombra, um cheiro, um som.

A experiência pode durar alguns minutos, mas a pergunta que ela provoca é muito maior: quanto de natureza ainda cabe nas cidades que estamos construindo?

Construir cidades mais arborizadas não significa abrir mão dos benefícios da urbanização. Significa reconhecer que concreto, tecnologia e infraestrutura também precisam conviver com árvores, solo, água e outras formas de vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque Arquiteto e urbanista. Doutorando e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Pós-graduado em Neurociência, Geriatria e Gerontologia e Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI) e coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, em Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na pós-graduação em Gerontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que aprender da estratégia para a escolha do nome “Nubank Parque”

NuBank Parque
Foto: Divulgação NuBank

Você, não sei. Mas a torcida do Palmeiras, com certeza, participou da escolha do novo nome da arena do clube. A estratégia foi usada pelo banco digital NuBank que está assumindo o “naming rights” do complexo esportivo e cultural, em São Paulo. Para Jaime Troiano e Cecília Russo, do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, transformar as pessoas em participante de uma decisão pode ser mais eficiente do que investir apenas em propaganda. 

O Nubank colocou três opções em votação pública: “Nubank Parque”, “Nubank Arena” e “Parque Nubank”. Durante 20 dias, torcedores e consumidores puderam votar. O nome escolhido foi “Nubank Parque”, com 47% dos votos. A decisão trouxe um efeito importante para a marca: o público passou a discutir, compartilhar e defender a escolha.

Cecília Russo observou que o processo gera sensação de pertencimento. “Quando você convida, as pessoas se sentem ativas nessa mudança e você vai ter menos ruído em relação a isso”, afirmou.

A lógica por trás desse movimento é relativamente simples. Em vez de comunicar uma decisão pronta, a empresa cria uma experiência de participação. O consumidor deixa de ocupar apenas o papel de espectador e passa a atuar como alguém que ajudou a construir a história da marca.

Esse tipo de estratégia também produz outro efeito valioso: amplia espontaneamente a circulação da mensagem. Pessoas comentam nas redes sociais, discutem em grupos de conversa e levam o tema para ambientes fora do universo publicitário. O assunto ganha vida própria.

No comentário, Cecília lembrou que a discussão ultrapassa o ambiente digital e chega ao cotidiano das pessoas. “Na nossa empresa mesmo, a gente começou: ‘Que nome que você escolhe?’”, contou.

Jaime Troiano ponderou que esse movimento ainda não representa uma transferência das decisões estratégicas para o consumidor. Para ele, as empresas continuam definindo os caminhos principais, embora estejam aprendendo novas maneiras de gerar envolvimento. “As marcas estão aprendendo de alguma forma a navegar no mundo dessa hiper-informação”, disse Jaime.

Ele citou como exemplo a campanha “Compartilhe uma Coca-Cola”, que estampava nomes próprios nas embalagens. Embora não houvesse votação pública, a ação estimulava as pessoas a procurar seus nomes, fotografar as latinhas e compartilhar o conteúdo espontaneamente. “Quanto mais as pessoas se sentem envolvidas, mais elas ficam abertas a falar sobre isso, quase como se fossem embaixadoras da marca”, explicou Jaime.

Existe aí uma mudança importante na forma de comunicação das empresas. Durante muito tempo, marcas falavam e consumidores apenas ouviam. Hoje, muitas companhias perceberam que participação gera memória, conversa e engajamento. É como transformar o consumidor em coproprietário simbólico daquela narrativa. Mesmo que a decisão final continue nas mãos da empresa, o público sente que deixou sua impressão digital no processo.

A marca do Sua Marca

Marcas ganham força quando conseguem envolver as pessoas na construção da própria narrativa. Participação cria vínculo emocional, reduz resistência a mudanças e amplia espontaneamente o alcance da comunicação.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: o parque do Ibirapuera é vital

Fábio Caramuru

Ouvinte da CBN

Vista do Lago do Ibirapuera

Um lugar muito importante, muito especial na cidade, que está ligado à minha história inteira é o Parque do Ibirapuera. Acho esse lugar uma coisa impressionante. 

Desde os dois, três anos de idade, eu já vivia no Ibirapuera. Meus pais me levavam para passear; nós morávamos relativamente perto – não tão perto quanto eu moro hoje. Agora, moro a 500 metros ali do portão da Quarto Centenário. 

A minha ligação com esse Parque, por uma coincidência, sempre esteve presente, na maior parte da minha vida. Já morei perto do Parque duas vezes – uma agora e outra quando o Pedro, meu filho, nasceu. 

Para mim o Ibirapuera é algo vital. Passo quase diariamente em frente; vou correr. Tenho uma ligação afetiva muito grande com o Ibirapuera. 

Então, presenciei toda a evolução desse importante símbolo de São Paulo, que foi criado em 1954. Não tinha nascido, mas desde criança venho frequentando. o local. Faz parte da minha vida. 

Outro ícone importante é o Aeroporto de Congonhas, que, juntamente com o parque, tenho documentado em várias fotos da infância, nas quais revejo meu pai me levando a esses lugares. O  Aeroporto, quando eu era pequeno, era um passeio; todo aberto… Não era como é hoje, envidraçado e formal.

Ir para Congonhas era uma alegria, como ir num parque de diversões, e podíamos ver as decolagens, as chegadas. Você ficava muito próximo dos aviões. Os passageiros desciam na pista; tinha apenas uma gradezinha que separava o público dos passageiros. Era bem diferente do que é hoje.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fábio Caramuru é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: as frases do realejo do Parque do Trianon

Tania Plapler Tarandach 

Ouvinte da CBN

Sou a primeira criança brasileira em uma família de judeus fugidos da Polônia por causa do antissemitismo, nascida nesta Pauliceia, chamada “desvairada”. Minha mãe deixou uma pequena cidade, no norte do Paraná, especialmente para dar à luz na Avenida Paulista. Ali, na esquina com a Alameda Rocha Azevedo onde hoje está uma agência da Caixa Econômica e o restaurante Spot, que eu nasci. Um casarão no meio de um jardim, todo verde. Me levaram para o Paraná, porém, São Paulo era o meu lugar.

Viemos, meus pais e eu, para morar na rua Oriente, no Brás. Minha alegria de menina, quase sete anos, era quando chegava o fim de semana. Ai eu voltava para a Avenida Paulista. Para o Parque Trianon. Lugar todo verde, com as árvores muuuito altas, os bancos de madeira, onde sentávamos para respirar o ar puro do lugar. E tinha um prêmio: antes de ir embora, no portão do parque, lá estava o homem do realejo, girando a manivela sempre com a mesma música. Aquele pássaro que saia da gaiola, olhava pra mim e bicava uma folhinha de papel, escolhida entre tantas dentro da caixinha: umas amarelas, outras verdes, rosas e azuis, todas bem clarinhas. Cada vez ele me entregava uma frase mais linda que a anterior. Era tão bom que faz minha felicidade recordar até hoje, cada vez que vou ao Trianon (e vou bastante, pois moro perto).

Sou uma Paulistana (com P maiúsculo) da Avenida Paulista! Orgulhosa desse título, faço coro com o poeta Guilherme de Almeida, na frase escolhida para o brasão da cidade: ”non ducor, duco”! Não sou conduzido, conduzo!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Tania Plapler Tarandach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie agora o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu primeiro Salão da Criança foi no Ibirapuera

Luiz Eduardo Pesce de Arruda

Screenshot

Em oito de outubro de 1966 seria aberta a sexta edição do Salão da Criança, no Pavilhão Internacional do Parque do Ibirapuera. O evento, criado em 1961 por Caio de Alcântara Machado, mexia com a imaginação da criançada. Todos nós prometíamos ser os melhores filhos do mundo — quase anjos, de aureola e tudo — nos meses que antecediam a festa. Era essa condição de nossos pais para nos trazerem a São Paulo. 

A TV, na época em preto e branco, dias antes da abertura, reproduzia anúncio e jingle do palhaço Carequinha convocando a molecada a ir ao Ibirapuera, onde haveria “competição, muita criançada e muita diversão”.

Uma semana depois da abertura oficial, no dia 16, um domingo saímos cedo de Araras, interior de São Paulo. Toda a família em um fusca, ainda de madrugada, seguindo pela Rodovia Anhanguera, que ainda era em pista única, ao menos até Campinas. Logo que chegamos ao Parque do Ibirapuera, na esquina da rua Abílio Soares com Pedro Alvares Cabral, ao lado da atual Assembleia Legislativa, meu pai estacionou o fusca. Minha mãe estendeu uma toalha xadrez, branca e vermelha, sobre o gramado. Eram umas nove horas da manhã quando fizemos um piquenique. Minha mãe havia preparado lanche de bife à milanesa, ovo cozido, Coca-Cola e café. 

Depois  de comermos à sombra do que me pareceu um espesso bosque  — hoje percebo que não era tanto assim — fomos, eu, meus pais e irmãos, todos ao Salão da Criança para nos divertir.

Como a vida da gente é engraçada: visitei muitos lugares, fui a tantos eventos, mas aquela manhã de outubro de 1966 nunca se perdeu ma memória.

Talvez, seja a evidência de que um passeio em família, tão simples,  temperado pela comida da mãe e pela presença das pessoas que amamos, escreva realmente a história dos momentos inesquecíveis de nossas vidas.

Veja aqui um dos anúncios de TV do Salão da Criança

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luiz Eduardo Pesce de Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: as árvores do Morro do Cruzeiro

Fatima Magalhães de Oliveira

Ouvinte da CBN

Passeio ecológico no Morro da Cruz. Foto: site da prefeitura de SP

Nasci em 25 de março de 1968, em Xique Xique, na Bahia. Cheguei a São Paulo aos nove meses de vida, no bairro Jardim Santo André, onde até hoje resido. Sou graduada em pedagogia e geografia. Já lecionei em todas as escolas estaduais do nosso bairro. 

Um fato marcante que vivenciei foi em setembro de 2016. Um crime ambiental aconteceu em uma área próxima ao Morro do Cruzeiro que é um dos maiores picos da cidade, com 998 metros de altura, no limite entre as cidades de São Paulo e Mauá, no Jardim Santo André, na zona leste. Lá próximo do parque do Morro, também conhecido por Pico do Votussununga, tinham sido cortadas aproximadamente 350 árvores. 

Diante do ocorrido, constitui o coletivo S.O.S Morro do Cruzeiro para defender este patrimônio. Conseguimos realizar cinco ações e reflorestar o local com umas 380 árvores nativas da Mata Atlântica.

Nossas atividades, nos deram autoridade e fomos contempladas pela Jornada do Patrimônio, o que nos permitiu em, novembro de 2021, a entregar um abaixo assinado, com dois mil apoiadores, solicitando a implantação do Parque Natural do Morro do Cruzeiro. 

Em agosto do ano seguinte, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, da cidade de São Paulo, instalou mais de dez placas no percurso onde será criado o parque. 

Eu me sinto muito feliz em fazer parte desta história em defesa da nossa mini Amazônia da zona leste que é o Morro do Cruzeiro. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fatima Magalhães de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: diálogos que nascem no Trianon e passeiam pela Paulista

Wagner Nobrega Gimenez

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instagram de @poemesenmachine

Tarde de domingo. Caminho sozinho. Faz muito frio. 

Vou até um evento do ‘Poèmes en Machine’ no Trianon. As conversas dos passantes com os artistas geram poemas datilografados na hora. “Não somos capitalistas. Escrevemos e não cobramos!”, falam com orgulho os poetas. 

Ouço a senhora nordestina: “Nossa, nunca ninguém fez uma poesia para mim. O que eu fazia antes de me aposentar? Era costureira em uma fábrica de guarda-chuvas, lá na Penha, onde moro.” 

Saio do parque. Na Paulista, por acaso cruzo com um gaúcho conhecido. Muito alto, com cara de alemão. Está com uma garota. Baixa. Ele fala, gesticula, enquanto anda. Não consigo ouvir o que  diz. 

Na banquinha, peço bolo de bacalhau e um suco. O recolhedor de latas reclama com o outro, seu concorrente: “Vamos combinar: eu não atrapalho a sua vida e você não se mete comigo, tá bom?” 

Um rapaz, nervoso, para o outro: “agora acabou tudo, ela está grávida.” 

Sigo. As garotas lésbicas em grupo alertam: “atenção, gente, vamos tirar uma self nossa!” 

O rapaz moreno, alto, no megafone sobre o palanque de sindicato: ”… então, a solução agora é a convocação de novas eleições para Presidente. Temos aqui um abaixo-assinado…”.

Pessoas estão paradas ouvindo uma banda tocar “Light My Fire”. É da década de 1960. Recordo meus 13 anos quando namorava com a Veridiana. Uma vez, no cine Universo nos beijamos. Qual era mesmo o filme? Não lembro mais. 

O som agora é outro:  “Camon baby light my fire…”.

Cruzo a avenida. Ouço ciclistas, skatistas, caminhantes, passantes, casais hetero e homo, crianças encapotadas, passeadores com cachorros, pessoas das mais variadas. A Paulista é uma festa urbana! Mas está na hora voltar. E é o som do metrô que me acompanha até em casa, no Belenzinho.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Esta história é inspirada no texto que ele enviou para contesuahistoria@cbn.com.br . A sonorização é do Daniel Mesquita. Venha participar você também e ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: memórias fotográficas do Parque da Água Branca

Dora del Mercato

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instragram @aguabrancaparque

O ano era 1987. Na época, eu com 23 anos e meu namorado, hoje meu marido, com 26. Éramos estudantes da Faculdade Cásper Líbero e usávamos os fins de semana para passear, namorar e fotografar. 

Um de nossos lugares preferidos era o Parque da Água Branca, na Barra Funda. Fácil de chegar e relativamente perto de nossas residências, nos encontrávamos lá quase todos os sábados para fazer fotos com uma máquina Nikon emprestada e depois revelaríamos o filme no laboratório da faculdade.   

Foram tantas e lindas fotos! 

Dentre elas um menino que trabalhava como pipoqueiro que não devia ter mais de 10 anos; idosos pensativos sentados nos bancos; e muitos animais atravessando as alamedas. 

Aprendemos a olhar com os olhos da alma, a admirar a beleza daquelas imensas árvores e ouvir os cantos dos galos. Tantas crianças, com pedaços de pão, correndo atrás das galinhas, patos e gatos, habitantes que viviam livres no Parque! 

No mini zoológico, alguns bois, bezerros e bodes ouviam desatentos os insistentes chamados das crianças penduradas nas cercas. Caminhando em direção a rua Turiassú, sempre parávamos no Pergolado. Lá, cantos de pássaros podiam ser ouvidos, e o local nos convidava a reflexão e quietude. Podia até imaginar esse sossego quando os portões se fechavam, depois de um dia intenso de sol. Os bichos se aninhando nas gramas, nas árvores, nos cantos. Em paz, enfim! 

Andando pelo parque, no meio de tantas árvores, parecia que não estávamos em São Paulo. O Água Branca era um oásis no barulho da Avenida Francisco Matarazzo.

Caminhávamos de mãos dadas, máquina pendurada no ombro, sem sentir as subidas que faziam parte dos diversos caminhos que nos levavam para as ruas Ministro de Godói e Turiassú. Parando ora aqui, ora ali, para uma foto, um comentário, um beijo! 

Muita coisa mudou na cidade e o Parque da Água Branca acompanhou essa transformação: envelheceu e soube manter seu frescor. Como todos na cidade, teve que se adaptar aos tempos: hoje tem aparelhos para ginástica, mesas e cadeiras para o café na feira orgânica, o Revelando SP, que apresenta comidas e artesanato de várias cidades do interior de São Paulo. 

O modo de fazer fotos também mudou. Hoje, os visitantes têm celulares e não precisam economizar o filme. Saem fazendo diversos cliques e fotos de tudo o que veem, muitas vezes se esquecendo de só olhar, de registrar a lembrança na memória e de andarem de mãos dadas pelas alamedas.

O Parque continua majestoso, recebendo de braços abertos pessoas de todos os locais da cidade e do mundo.  

Dora del Mercato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e nvie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: descobrindo as flores do asfalto

Por Valéria Dantas Machado do Nascimento

Ouvinte da CBN

Photo by Manoel Junior on Pexels.com

Quando penso em São Paulo, afirmo: logo eu existo.

Nasci e cresci aqui, então me sinto parte deste todo, deste mundão.

Hoje quase cinquentona, tenho muitas histórias pra contar.

Na infância, a Praça da Árvore foi meu berço, lá nasci, mas aos dois anos de idade fui para Vila Gumercindo.

De mãos dadas éramos quatro — papai, mamãe, maninho e eu — e hoje somos mais: irmãos, cunhada, sobrinho e afilhada. O ritmo é este: crescer, conhecer, surpreender-se com esta São Paulo.

Passeios com mãos dadas, os primeiros passos, a natureza no asfalto. Mamãe de Salvador e papai do interior de Jaboticabal,  já aqui afeiçoados, nos ensinavam que havia sim flor neste asfalto. Seja no Zoo, no Ibirapuera, no Horto ou na Cantareira, e até no ponto zero, na Praça da Sé, onde alimentar pombos era prazer de casa aos domingos.

Aqui vemos de tudo, e tudo com potência máxima. Do caos, ao crime, a paz, a evolução. Sim, São Paulo tem e é a pura satisfação. E quem aqui não nasce se torna cidadão de coração. Como destino ou de passagem, quem passa por São Paulo, leva consigo esperança, agito e o acreditar!

De manhã em oração quem me acompanha são as maritacas, os beija-flores que se reúnem em cima dos fios e dos postes de eletricidade. Totalmente adaptados à cidade grande. Vão e vem sem casa fixa, transformam seus ninhos em momentos de paz neste caos.

E é no Museu do Ipiranga que acontece a magia, a conexão com a natureza! No jardim frontal onde as palmeiras se transformam nas primeiras horas do dia, em pés de pássaros. Os jardins enchem nossos olhos e nos dão a impressão de simetria nem sempre percebida por pessoas que na pressão cumprem suas metas sem se dar conta da vida ao redor.

Na pista de cooper as folhas, os galhos, os diversos cantos e os passos de corredores anônimos marcam o início de mais um dia. 

No “story” registro o momento em que carros param, buzinas cessam e me conecto com a natureza em meio ao agito. Por instantes, a pressão se torna calmaria, o tempo não marca as horas, o agito se acalma dentro de nós.

Ao voltar para casa, meus pés pisam no asfalto da avenida, um carro freia, o pedestre reclama e o ciclista diante de tudo isso continua seu trajeto. Mas algo dentro de mim mudou, renovou e percebo que ao voltar não integralmente mais a mesma dentro de mim ainda me conecto aos minutos vividos  e sei que tudo já deu certo!

Nas estações que se mesclam e não seguem o calendário, já aprendi que reclamar do tempo é como se queixar da previsão não assertiva dos meteorologistas. Então, é assim viver aqui, rezar para ir e voltar, agradecer e acreditar que amanhã será ainda mais bonito do que hoje. E de geração para geração, a CBN faz parte do meu dia a dia.

Viva a vida em São Paulo. Viva a flor no asfalto.

Valéria Dantas, filha da Dona Selene, nossa ouvinte querida, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os parques que visitei com meu filho

Por Profª Maria Emília dos S. Gonçalves

Ouvinte CBN

Parque da Juventude Foto Dibulgação Gov. do Estado de São Paulo

Como guarulhense e, agora, vivendo no extremo sul da Bahia, em uma região agraciada pela natureza, não resisti em escrever sobre a minha eterna relação com os parques da cidade São Paulo, nossa querida Sampa. 

Ainda com o meu filho pequeno, o San, iniciei o ritual de amar a cidade que é um organismo vivo e que injustamente ganhou o título de selva de pedra, como foi cantado por Caetano Veloso. Aproveitávamos as férias para desbravar os parques e por instantes nos jogar nos braços da natureza gentil. 

Cada parque com sua característica e com algo a nos ensinar. 

Do parque do Ibirapuera, as árvores centenárias que se tornaram testemunhas e cúmplices de amantes em seus primeiros beijos, de pedidos de noivado, do fim de um namoro.

Árvores caladas e donas de segredos, sombra para um remanso, para  esquecer o mundo lá fora, ouvindo o cantar dos pássaros e suas algazarras e nos lembrando que nunca poderemos ser como eles e, por isso, sinto uma boa inveja.

Do parque do Zoológico, amamos a presença dos animais em um espaço rodeado de matizes de cores das árvores, e de nós seres humanos. A gente se sente parte de um todo e nesse momento não consigo saber onde começo e termino; me afundo e sinto que posso rugir, que posso ser uma árvore bonita que balança e balança nos dando a sua seiva. 

Do Jardim Botânico, descobrimos que tem árvores centenárias com milhares de espécies nativas que contam a nossa história e guardam esperanças e sonhos.

Para cada parque uma história. 

E assim chego ao Parque da Juventude, cujo espaço democrático não discrimina pessoas idosas, etnias e orientação sexual. Sua história precisa ser contada para que as próximas gerações se contraponham ao massacre de pessoas presas. Assim como uma fênix, o espaço ressurgiu. A grande área verde é palco para shows, encontros e despedidas, a contemplação da natureza e a possibilidade de recarregar as baterias e respirar. 

O que seria de São Paulo sem os nossos parques?

Maria Emília dos S. Gonçalves  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar você também desta série especial em homenagem aos 469 anos da nossa cidade com textos sobre locais em que o verde e o meio ambiente foram preservados na capital paulista. Escreva agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. E vamos juntos comemorar mais um aniversário de São Paulo