Conte Sua História de SP: reencontro

 

Por Sidarta S. Martins

 

 

Novamente…
Novamente me envolvo em seus braços
Sinto o calor de seus abraços.

 

A cada reencontro, as lembranças…
Cada lembrança me faz voltar
Voltar a um tempo feliz
Um tempo que passamos juntos
Nos abraçamos, nos envolvemos
Juntos, enlouquecemos…

 

E cada dia mais
Mais e mais
Eu te amei.
Loucamente, profundamente.
Eu te amei.

 

E você me amou.
Amou-me com ternura,
Dedicou-se a mim,
Deu o melhor de si
O melhor que você podia…

 

Você era uma criança
– Você continua uma criança,
Descobrindo, errando
Caindo, levantando, acreditando…

 

Mas me amou!
Amou-me como gente grande
Como nenhuma outra
Fez-me crescer
Mostrou-me a vida…

 

Eu te amo!
Continuo te amando como no passado
Loucamente, profundamente.

 

Abandonei-te, sinto muito!
Você disse que outros a haviam abandonado
E eu?
Eu jurava amor eterno
Mas fui um ingrato.
Sinto muito, te abandonei!
Conheci outras
Procurei novas aventuras
Envolvi-me, me entreguei
Aconcheguei-me em outros braços.

 

Você sabe disso
Eu sei disso
Mas te amo!
Amo-te sempre
Sempre e sempre…

 

A cada volta
Me apaixono novamente.
Sou volúvel?
Não sei!
Sei que te amo!

 

Tuas curvas, às vezes perigosas
Revelam segredos novos e velhos
Sou curioso, sou atrevido, insaciável
Os caminhos estreitos
Os cruzamentos perigosos
Seus sinais…

 

Verde: Vá em frente!
Amarelo: Atenção!
Vermelho: Perigo, muito perigo!

 

Suas colinas, seus vales
Suas avenidas que convidam
Convidam a ir em frente
Sempre em frente…

 

Destemido, quero conhecer mais
Perder-me em seus bosques
Deitar em seu colo
Beber de sua fonte
Embriagar-me novamente.

 

Dá-me tua mão, me conduz
Quero voltar ao passado
E só você tem a receita
Só você conhece meu prato predileto
Os segredos da cozinha alemã
A alegria italiana
A formalidade e a formosura da chinesa.
Minha caipirinha predileta
Meus bares, meus programas…

 

Com simplicidade você me fala de seus poetas
Dos escritores, dos professores
Dos locutores, de seus cantores…

 

Culta, você sabe ser simples
Inteligente, você sabe ser humilde
Rica, você sempre acolheu os pobres
Rápida, você aceita a lentidão
Bondosa e sincera, sempre acredita em promessas.

 

Perdoa-me, te abandonei!
Andei por aí afora
Vaguei pelo mundo
Troquei-te por outras.

 

Mas volto sempre!
Preciso de você
Preciso de seu pulsar
Preciso de seu calor
Nada sou sem te ouvir.

 

Dá-me tua mão
Leva-me por aí afora.

 

Você é meu norte
De norte a sul.
Você é meu leste,
De leste a oeste.
Você é santa!
A única em minha vida com nome de santo.
São Paulo…

 

Amo-te!
Amar-te-ei sempre!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando texto para milton@cbn.com.br

De ah!

 

Por Maria Lucia Solla

 

ah, quanto eu gostaria
de poder escrever
só palavras
de pura alegria

 

o que seria
na verdade
um tédio só
pura fantasia

 

ah, quanto eu gostaria
de ser sempre bem-posta
e que a vida não se oferecesse
tantas vezes
como uma cega aposta.

 

Mas sou tão pequena
uma das menores células
da Humanidade
do que eu tenho ciência
desde tenra idade

 

Agradeço sempre
por tudo o que tenho
por tudo o que sou

 

E peço ao Criador
que na Sua Grandeza
que me dê força para continuar
no Caminho que escolhi para mim
seja ele de alegria ou de dor

 

Para um domingo de manhã
já é filosofia demais
Aproveita o teu dia
e por que não?
faz você, a tua poesia.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: meu tempo nessa cidade

 

Por Caubi Dias

 

 

Meu tempo nessa cidade
Foi um tempo sem conquista
Tempo sem “privacidade”
Com tempo assaz pessimista
Pois daquele tempo eu sei
Que era mau tempo e morei
Algum tempo, em Bela Vista.

 

Se era tempo de Bexiga
No meu tempo eu só sabia
Que o tempo era só de briga
Em todo o tempo que havia
E em tempo de confusão
Pedi, ao meu tempo, opção
De tempo em Vila Maria.

 

Mas lá fiquei pouco tempo
Pois em tempo de agonia
Eu, de tanto perder tempo
Sem tempo de mordomia
Troquei de tempo e cidade
Por mais um tempo à vontade
E, a tempo, como eu queria.

 

Sou nordestino.
Me adaptei bem em GuarUhos
Estou passando através do tempo que não passa,
porém muda e faz barulho.

 

Caubi Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O programa vai ao ar, aos sábados, no CBN São Paulo, logo após às 10 e meia da manhã. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: poetisando na janela do ônibus

 


Por Janina Zmitrowicz (Janina Zmi)
Ouvinte-internaura da CBN

 

 

Nasci em São Paulo e amo minha cidade. Desde sempre conheci de perto seus lugares históricos e marcantes conduzida pelos antigos ônibus CMTC, em companhia de meus pais e irmãos. Tornei-me médica, e há 14 anos dedico-me à população das periferias de São Paulo. Realizei muitas viagens de ônibus em diferentes regiões da cidade, como Jaçanã, Cidade Tiradentes, São Mateus, Campo Limpo, Capão Redondo, Grajaú, Centro. Como apreciadora do cotidiano, sempre contemplei cada minuto dentro de um coletivo, observando lugares, pessoas, situações. Tantas viagens resultaram em uma enxurrada de informações, que foram sintetizadas em uma poesia feita durante essas jornadas paulistanas, “CORREDOR URBANO”

 

Entra, fica em pé e senta
Sai, levanta e ajeita
Vai pedir licença
Faz a gentileza
Que não tá moleza levar isso não

 

Anda, corre, anda, para
No ponto mais gente entra
Gente sai indo na correnteza
Tanta pressa
Tanta coisa faz passar

 

Entra o artista
Toca a sanfona e a viola
Faz a sua festa
Necessito da sua ajuda
Para o meu CD gravar

 

Desce o artista
Entra o poeta declarando
Seu amor em poesias
Colaborem
Para o meu livro publicar

 

Desce o poeta
Entra o rapaz com chocolate, doce
Bala e chiclete
Amendoim salgado
Para a fome do trabalhador passar

 

Desce amendoim e doce
E sobe o coitado
Que sofre da vista
Do rim, do joelho, é pai de família
Mas como sustentar?

 

A cidade passa rápido
E lentamente
Apertado e às vezes
Mais dignamente
Senta, que não tá moleza carregar

 

Anda, corre, anda, para
Vê se dá licença
Por favor, me dá licença
Motorista, não esquece
Que meu ponto vai passar…

 

Ouça esta poesia cantada e musicada pela própria autora:

 

Conte Sua História de SP: sou filho seu também

 

Por Sebastiao Mendes Lages

 

Ouça esta poesia sonorizada por Cláudio Antônio

 

Vindo de terras distantes, alterosas
De um chão fértil e pedras preciosas
Para encontrar o louro da conquista
Um peregrino que a sorte arrisca
Sem pensar nunca, em ser oportunista
Nascer mineiro e depois virar paulista.

 

Do prédio, no chão a sombra vaporosa
O apressado caminhante em rua sinuosa
Atento a luz do semáforo quando pisca
O gari, o boy, o padre, o missivista
A multidão correndo, atravessando a pista
Só um sábio, esta cidade linda administra.

 

É do trabalho, a mão laboriosa
Desta terra assás, prodigiosa
Que o imigrante agrega de longa vista
A boa vinda, a saga otimista
Feliz quem mora aqui, ou é turista
Mas é comum, gostar de ser paulista.

 

Escrevi um livro, em curta prosa
Plantei arbusto, floriu, terra chuvosa
Uma família, uma casa, sou ativista
Sua guarida, agradeço, terra bendita
Seu fardo é doce, a destra pacifista
Sou filho seu também, ah… sou paulista.

 

Ainda sobre o Medo

 

Por Julio Tannus

 

Já falei aqui sobre o medo na pós-modernidade. Citei vários autores e não poderia deixar de citar nossos poetas.

 

Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove.
Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha.
Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra.
É por isso que eu tenho medo.
Você também diz que me ama.
William Shakespeare

 

As alegrias do amor são sempre proporcionais ao medo de as perdermos.
Stendhal

 

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
Clarice Lispector

 

Que medo alegre, o de te esperar.
Clarice Lispector

 

Porque há para nós um problema sério, tão sério que nos leva às vezes a procurar meio afoitamente uma ‘solução’; a buscar uma regra de conduta, custe o que custar. Este problema é o do medo…
Antonio Candido

 

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadeamos.
Refugiamo-nos no amor, este célebre sentimento, e o amor faltou: chovia, ventava, fazia frio em São Paulo.

Carlos Drummond de Andrade

 

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito, porque tem medo de perdê-la.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Quando nem Freud explica, tente a poesia!

 

Por Julio Tannus

 

Ao procurar um livro na minha biblioteca desarrumada, reencontrei a poesia. Compartilho aqui algumas delas:

 

Sigmund Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”.

 

Bertolt Brecht: “Fôssemos infinitos / Tudo mudaria / Como somos finitos / Muito permanece”

 

Raimundo Gadelha: “E a tristeza maior é a certeza: nas multidões de todas as estatísticas eu, tão só, não estou só”.

 

Patativa do Assaré: Povão Sofrido

 


“Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasí fica mió;
Mas o Brasí continua
Na cantiga da perua:
Que é: – pió, pió, pió…”

 

Mário Quintana: Da Sabedoria dos Livros

“Não penses compreender a vida nos autores.
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás.”

 

Mário Quintana: Da Condição Humana

 

Custa o rico a entrar no Céu
(afirma o povo e não erra)
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra…

 

Nicolino Limongi: O Livro

 

“Fechado, é como um sol em potencial,
relicário de amor e de saber;
aberto, é verdadeiro manancial
de inspiração, de luz e de prazer.
Mestre amigo, incansável e cordial,
sempre pronto a servir e a esclarecer,
não protesta, não fala, não diz mal
daqueles que o não sabem compreender.
Se acaso jaz perdido, abandonado
sobre um móvel qualquer, velho empoeirado,
guarda em silêncio o bem que armazenou.
Se o espírito que o fere vem, sedento,
ao seio farto haurir conhecimento, ei-lo servindo à mão que o desdenhou.”

 

Olavo Bilac: Língua Portuguesa

 

“Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma”.

 

T.S. Eliot: Poesia

 

Ninguém nos deu emprego
Com as mãos nos bolsos
E o rosto cabisbaixo
De pé no descampado estamos
A tremer de frio em quartos obscuros.
Somente o vento ainda se move
Nos campos desolados, improfícuos
Onde o arado jaz inerte, em ângulo
Com os sulcos. Nesta terra
Um cigarro haverá para dois homens,
Para duas mulheres apenas um quartilho
De cerveja amarga. Nesta terra
Ninguém nos deu emprego.
Nossa vida é inoportuna, nossa morte,
Jamais anunciada pelo “Times”.

 

Arthur Rimbaud: Uma Temporada no Inferno

 

“Sim, a hora nova é a menos severa.

 

Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram, – invejas pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. – Condenados, se eu me vingasse!

 

É preciso ser absolutamente moderno.

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Poesia à Sonia

 

Por Julio Tannus

 

Hoje, 25 de setembro, é dia do aniversário de Sonia, minha companheira de sempre. Em 28 de agosto último, completou 1 ano de seu falecimento. Permito-me aqui, prestar uma homenagem a ela, republicando uns versos que fiz. Em uma de tantas noites na vigília, eu escrevi:

 

A Sonia, minha queridíssima mulher e companheira, tem um espírito tão forte e livre – uma imensidão de liberdade – que, quando seu corpo ficou doente, ela repetidamente dizia “meu corpo me abandonou”. Após quase 9 anos de luta incessante, seu corpo a abandona, mas seu espírito paira sobre nós.

 

E na véspera de seu falecimento, ao pé de sua cama, eu também escrevi:

 

Uma Ode a Sonia amiga

Oh! Sonia querida. 

Hoje não tem alegria, só tristeza.

Você que alegrava meu silêncio com seu olhar;

Você que tirava minha solidão com sua presença;

Você que conquistava meu coração com sua coragem;

Você que carregava a tristeza de tantos com sua sabedoria; 

Você que iluminava a escuridão de todos com seu pensamento;

Você que diminuía a dor de muitos com sua generosidade;

Você perdeu seu corpo, mas ganhou o olhar de todos nós;

Oh! Sonia querida

Hoje não tem alegria, só tristeza…

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Desejos … aos 50 anos e mais

 

Por Julio Tannus

 

Há pouco tempo me pediram para elaborar uma lista do que ajudaria as pessoas de 50 anos e mais, nessa fase de vida, do ponto de vista social, da saúde, profissional, familiar e, também de consumo – o que as empresas poderiam fazer para satisfazer esse novo consumidor maduro. De pronto me lembrei de alguns versos de um poema sobre desejos de Carlos Drummond de Andrade:

 



Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve no Blog do Mílton Jung