Quintanares: Função

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em Apontamentos de História Sobrenatural
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua
uma esquina

 

Pequenino mundo sem rumo

 

Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis

 

E havia súbitas e lindas aparições como aquela das
longas tranças

 

E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua
cruel inocência do bonecas

 

E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar em minha boca

 

E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um
jogo cambiante de reflexos

 

Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada
que o arremessou

 

E eu danço, tu danças e nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente
do escuro…

 

O programa Quintanares foi originalmente apresentado na Rádio Guaíba de Porto Alegre e é reproduzido aqui no Blog do Mílton Jung.

Quintanares: Canção dos romances perdidos

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Canções (1946)
Narração de Milton Ferretti Jung

 

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…

 

O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…

 

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz…

 

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…

 

De onde fugiram todos os retratos…

 

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…

 

Quintanares foi programa apresentado originalmente na Rádio Guaíba de Porto Alegre. O áudio é do arquivo pessoal de Milton Ferretti Jung.

Quintanares: Pequena crônica policial

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em Antologia Poética
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

“Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E enquanto abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldta sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!”

Quintanares: Canção de Ballet

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung
Publicado em Canções

 

Ele sozinho passeia
Em seu palácio invisível.
Linda moça risca um riso

 

Por trás do muro de vidro.

 

Risca e foge, num adejo.
Ele pára, de alma tonta.
Um beijo brota na ponta
Do galho do seu desejo.

 

E pouco a pouco se achegam.
Põem a palma contra a palma.
Mas o frio, o frio do vidro

 

Lhe penetra a própria alma!

 

“Ai do meu Reino Encantado,
Se tudo aqui é impossível…
Pra que palácio invisível
Se o mundo está do outro lado?”

 

E inda busca, de alma louca,
Aquele lábio vermelho.
Ai, o frio da própria boca!

 

O amor é um beijo no espelho?

 

Beija e cai, como um engonço,
Todo desarticulado?
Linda moça, como um sonho,
Se dissipa do outro lado?

 

Quintanares: Canção da Aia para o filho do Rei

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Canções (1946)
Interpretação Milton Ferretti Jung

 

Mandei pregar as estrelas
Para velarem teu sono.

 

Teus suspiros são barquinhos
Que me levam para longe.
Me perdi no céu azul
E tu, dormindo, sorrias.
Despetalei uma estrela
Para ver se me querias.
Aonde irão os barquinhos?
Como será que tu sonhas?
Os remos mal batem n’água!

 

Minhas mãos dormem na sombra.
A quem será que sorris?
Dorme quieto, meu reizinho.
Há dragões na noite imensa,
Há emboscadas nos caminhos.
Despetalei as estrelas,
Apaguei as luzes todas.
Só o luar te banha o rosto
E tu sorris no teu sonho.
Ergues o braço nuzinho,

 

Quase me tocas? A medo
Eu começo a acariciar-te
com a sombra dos meus dedos.
Dorme quieto, meu reizinho.
Os dragões, com a boca enorme,
Estão comendo os sapatos
Dos meninos que não dormem.

 

Quintanares era o nome do programa reproduzido originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: O dia abriu seu pára-sol bordado

 

 

Poema de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos
Interpretado por Milton Ferretti Jung

 

Para Érico Veríssimo

 

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

 

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua — a Lua! em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado…

 

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

 

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude…

 

Quintanares é um programa que foi ao ar, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: Contigo fiz, ainda em menininho

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos
Narração de Milton Ferretti Jung

 

Contigo fiz, ainda em menininho,
Todo o meu Curso d′Alma… E desde cedo
Aprendi a sofrer devagarinho,
A guardar meu amor como um segredo…

 

Nas minhas chagas vinhas pôr o dedo
E eu era o Triste, o Doído, o Pobrezinho!
Amava, à noite, as Luas de bruxedo,
Chamava o Pôr-do-sol de Meu Padrinho…

 

Anto querido, esse teu livro “Só”
Encheu de luar a minha infância triste.
E ninguém mais há de ficar tão só:

 

Sofreste a nossa dor, como Jesus…
E nesta Costa d′África surgiste
Para ajudar-nos a levar a Cruz!…

 

O programa Quintanares foi ao ar, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre

Tomando um cafezinho com meu poeta preferido, Mário Quintana

 

Por Milton Ferretti Jung

 

IMG_2617 (1)

 

Mílton,meu filho e âncora deste blog,que aos domingos vem publicando post cujo nome – Quintanares – foi uma homenagem prestada pela Rádio Guaíba ao poeta Mário Quintana. Modéstia à parte,atrevo-me a dizer que,tanto eu quanto o Mílton,adorávamos Quintana e até hoje,quem visita a casa do meu filho,vê a imagem do poeta em uma parede a ele dedicada.

 

Na Rádio,deram-me a honra de declamar as suas poesias. Ainda bem que o Christian,meu filho mais moço,que se dá ao trabalho de guardar o que o seu pai, descuidadamente, esquece de fazer,toma tal providência.Os áudios usados no blog fazem parte deste acervo mantido por ele.

 

Conheci de perto o poeta.

 

Nos sábados,o fechamento do jornal Correio do Povo de domingo era acompanhado bem mais cedo do que durante a semana. Mário aparecia na redação e lá ficava por bom tempo.

 

Ah,claro,ele ia entregar um dos seus poemas ao Tito Tajes. Esse,era casado com minha irmã,a Mirian,e responsável pelo fechamento, sem erros, das notícias dominicais. Eu apresentava as duas últimas edições do Correspondente Renner e,entre uma e outra leitura,visitava o Tito,sempre um bom papo. Junto com esse,já lá estava Mário Quintana.

 

Sabem o que ele fazia? Tratava de preencher as palavras cruzadas do Correio do Povo de domingo. Lembro-me que ali mesmo,sentado na redação do jornal,ele “matava a charada” com incrível rapidez e sem precisar,como eu, de dicionário.

 

Eu costumava levar os meus três filhos – a Jacque,o Mílton Júnior e o Christian para me acompanhar aos sábados. O Tito,por sua vez,levava minha sobrinha, a Claudia,hoje roteirista da Globo e que também é colunista da revista Donna. Como se viu,ela não atendeu ao desejo paterno: Tito não queria que ela fosse jornalista…

 

Dos meus,o Mílton foi um dos que mais se divertiram ao visitar a Rádio Guaíba. Os operadores,mal o Mílton chegava,tratavam de fazer uma bola com muito papel e guarnecida com fita isolante para aguentar os chutes que ele dava no corredor da Guaíba.

 

Ao conhecer o Christian,então com crespos cabelos louros,Mário Quintana,que também encontrava o meu caçula na redação do Correio do Povo,aos sábados,tratou de apelidar o garotinho de “Anjinho”.

 

Já os meus contatos com o poeta se davam quando,eventualmente,ele me ouvia declamando uma de suas poesias,as que seriam acompanhas pelos ouvintes da Guaíba ao irem ao ar. Eu ficava imaginando o que ele estaria pensando do seu “declamador”.

 

Não esqueço que ele fez um elogio ao Lauro Quadros -meu colega de rádio na época-, dizendo que gostava muito de vê-lo na televisão, não para ouvi-lo,mas porque achava muita graça na maneira como ele se sacudia.

 

Quem costumava almoçar no bar da rádio Guaíba,o que muitos faziam praticamente todos os dias, sempre podia aproximar-se de Mário Quintana,que tomava café preto e,invariavelmente,fumava um “cigarrinho”.

 

Mário Quintana não foi somente um poeta que,a meu juízo e do Mílton,foi o melhor de todos. Ele foi um jornalista dos melhores que eu cheguei a conhecer quando ainda vivo e atuando na Livraria do Globo.

 

Ah,que saudade do tempo em que tínhamos um grande poeta com quem se podia conversar e,no meu caso,ter o prazer de ser o seu intérprete no Quintanares.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Quintanares: “leio velhos jornais”

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Porta Giratória
Narração Milton Ferretti Jung

 

Pesquisa

 

Na gostosa penumbra da Biblioteca Municipal
leio velhos jornais
e
dos anúncios prescritos
das novidades caducas
dos poetas mortos há tanto tempo que parecem de novo estreantes
das ferocíssimas batalhas políticas do ano de 1910
– brotam como balões meus sábados azuis
as horas bebidas aos goles
(num copo azul)
e as ruas de poeira e sol onde bailam sozinhos
os meus sapatos de colegial.

Quintanares: Quando os meus olhos de manhã se abriram

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua Dos Cataventos
Interpretado por Milton Ferretti Jung

 

Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…

 

Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.

 

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?

 

Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…