Conte Sua História de São Paulo: um caso de polícia

Osnir Geraldo Santa Rosa

Ouvinte da CBN

Photo by Efrem Efre on Pexels.com

Meu pai era motorista de táxi. Morávamos no bucólico bairro do Tremembé. Ele nunca foi de contrariar as leis. Uma noite, chegando em casa cansado, recebeu uma intimação policial. E era de um órgão temido: o D.I., ou D.E.I.C., que, por sinal, ficava bem próximo de seu ponto de táxi.

Claro que meu pai não teve uma noite tranquila.

No dia seguinte, em pleno verão, chegou antes da hora marcada. Lá estava ele, naquele prédio um tanto tenebroso, sentado em um banco no imenso corredor. Passavam pela sua cabeça as situações mais horríveis: choques elétricos, ameaças e até pau de arara.

E fazia um calor asfixiante.

Foi quando aconteceu uma coincidência já difícil naquela época e quase impossível hoje. De uma das extremidades do corredor surgiu um cidadão que, tudo indicava, era funcionário graduado daquele órgão. Sapatos pretos, terno preto, gravata, camisa branca e o paletó seguro na mão direita.

Meu pai narrava esse caso em detalhes nos encontros familiares, aos domingos. E tinha enorme facilidade para guardar fisionomias.

Quando o homem avançou mais alguns passos, meu pai o reconheceu. Era um amigo de infância dos tempos de Itajobi!

Levantou-se e os dois se abraçaram efusivamente.

— Que bom te ver! Vamos para a minha sala. Sou delegado e responsável por tal área.

Já na sala, perguntou:

— O que te trouxe aqui?

— Não sei. Recebi ontem uma intimação.

O delegado chamou uma servente e pediu água e café. Em seguida, mandou um assessor descobrir o motivo daquela intimação.

Quando recebeu o documento e passou os olhos pelo papel, perguntou:

— Santa Rosa, quantos anos tem seu pai?

Meu pai, ainda meio atônito, respondeu.

O delegado então explicou:

— Bobeira, Santa Rosa. Uma pessoa fez queixa de que, certa tarde, seu pai urinou na cerca viva dela.

Cercas vivas eram muito comuns naquele bairro, naquele tempo.

Meu pai subiu ao céu, como se diz.

Quando voltou à Terra, despediu-se do amigo delegado.

Novamente, com um forte abraço.

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Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

50 debates para o Brasil: ampliação do poder das guardas municipais divide especialistas

As guardas municipais estão ampliando sua presença na segurança pública, mas ainda há dúvidas sobre os limites dessa atuação, o treinamento dos agentes e o controle das corporações. O assunto foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luís Vecchi da Silva, presidente da Federação Nacional de Sindicatos de Guardas Municipais do Brasil, e Silvia Ramos, cientista social e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

A discussão envolve uma mudança no papel das guardas. Criadas principalmente para proteger bens, serviços e instalações municipais, essas corporações passaram a atuar com maior frequência no patrulhamento das ruas, na prevenção de crimes e no atendimento de ocorrências. Em algumas cidades, seus integrantes trabalham armados e usam equipamentos semelhantes aos das polícias estaduais.

Luís Vecchi defendeu a participação dos municípios na segurança pública. Segundo ele, as prefeituras reúnem instrumentos que permitem combinar patrulhamento, assistência social, educação, iluminação, fiscalização urbana e monitoramento por câmeras.

Para o dirigente sindical, o objetivo não é substituir as polícias militares, mas integrar as instituições e oferecer respostas mais completas à população. “A população não quer mais saber da cor do uniforme, ela quer resultado prático”, afirmou.

Vecchi também contestou a avaliação de que as guardas municipais não possuem regras de formação e fiscalização. Citou a matriz curricular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, as corregedorias, as ouvidorias e o controle externo exercido pelo Ministério Público. Segundo ele, os agentes também passam por qualificação profissional anual, com atualização sobre legislação, direitos humanos e procedimentos de abordagem.

Silvia Ramos concordou que as guardas devem participar do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, que procura integrar as instituições federais, estaduais e municipais. A cientista social ressaltou, porém, que cada força precisa ter uma função definida.

Para ela, as guardas têm uma tradição comunitária que deve ser preservada. Essa atuação inclui a proteção de escolas, unidades de saúde, praças e áreas ambientais, além da mediação de conflitos. O risco da ampliação do poder de polícia seria transformar as corporações municipais em réplicas das polícias militares.

Silvia mencionou guardas armadas e militarizadas que passaram a usar fuzis e a exercer policiamento ostensivo. Também apontou a falta de informações nacionais sobre o efetivo, o armamento e a organização dessas instituições.

Cada município está fazendo mais ou menos o que quer. Cada prefeito faz mais ou menos o que quer”, afirmou. Segundo ela, sem uma regulamentação mais clara, prefeitos podem criar forças policiais próprias, definir treinamentos e armamentos de acordo com decisões locais e manter essas corporações desarticuladas das demais instituições de segurança.

Integração com identidade própria

Apesar das diferenças, os debatedores se aproximaram em um ponto: as guardas municipais devem integrar o sistema de segurança sem copiar o modelo das polícias militares. Vecchi defendeu uma identidade baseada na proximidade com a população. Silvia ressaltou que as corporações podem cumprir funções que as polícias estaduais nem sempre conseguem desempenhar.

O debate, portanto, não se limita a decidir se as guardas devem ou não atuar na segurança pública. A questão central é definir suas atribuições, estabelecer padrões nacionais de formação e controle e evitar que a ampliação de poderes resulte em corporações armadas submetidas apenas às decisões de cada prefeitura.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: combate ao crime organizado exige maior coordenação federal

Facções criminosas atuam em vários estados e até fora do país, enquanto as forças responsáveis por investigá-las ainda enfrentam barreiras territoriais e sistemas pouco integrados. O desafio de coordenar o combate ao crime organizado foi tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.

A discussão reuniu Alberto Kopittke diretor do Instituto Cidade Segura e autor do Manual de Segurança Pública Baseada em Evidências, e Guaracy Mingardi, analista criminal, pesquisador em segurança pública e ex-diretor do Ministério da Justiça.

O ponto de partida foi a federalização da segurança pública. A proposta poderia significar a transferência de atribuições dos estados para a União. Ao longo do debate, porém, os dois especialistas defenderam uma solução intermediária: preservar o comando estadual das polícias e ampliar a coordenação federal sobre investigações, inteligência, financiamento e formação profissional.

Alberto Kopittke afirmou que a União precisa assumir um papel mais forte diante de organizações que operam em diferentes regiões do Brasil. Para ele, isso não exige necessariamente retirar poder dos governos estaduais.

“Não se trata de tirar poder das polícias estaduais. Nós temos é que fortalecer as polícias estaduais, modernizá-las, mas a União tem que ter mais capacidade de induzir as políticas no país”, disse.

Kopittke citou o tráfico de fuzis como exemplo de responsabilidade federal. O controle das fronteiras e o enfrentamento do comércio nacional e internacional de armas dependem de órgãos da União. Ele também defendeu o fortalecimento da Polícia Federal, a criação de uma estrutura nacional permanente para a segurança e investimentos nas polícias civis, responsáveis pelas investigações.

Na avaliação do especialista, a União poderia exercer papel semelhante ao que desempenha no Sistema Único de Saúde. Estados e municípios manteriam suas atribuições, enquanto o governo federal definiria diretrizes, financiaria programas e acompanharia indicadores.

Guaracy Mingardi concordou que crimes de alcance nacional exigem uma participação maior da Polícia Federal. Segundo ele, uma investigação estadual perde eficiência quando identifica pessoas ou atividades criminosas em outra unidade da Federação e precisa iniciar uma nova articulação institucional.

“Não é a Polícia Federal mandando nas outras polícias, mas coordenando essas investigações que ultrapassam fronteiras”, afirmou.

Para Mingardi, o policiamento das ruas deve continuar sob responsabilidade dos estados. A atuação da União seria ampliada principalmente nos casos que envolvem facções presentes em várias regiões, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e drogas, além da troca de informações entre os órgãos de inteligência.

“O policiamento do cotidiano fica por responsabilidade dos estados. Agora, a parte que envolve organizações que atuam em vários locais tem que ter um pouco mais de centralização do conhecimento e do controle”, explicou.

Recursos vinculados a resultados

Os debatedores também defenderam critérios mais claros para a distribuição dos recursos federais. O governo federal, por financiar parte das políticas estaduais de segurança, poderia estabelecer metas, acompanhar resultados e incentivar investimentos em investigação e inteligência.

Mingardi lembrou que as polícias civis costumam receber menos atenção política porque seu trabalho tem menor visibilidade do que o policiamento ostensivo. Kopittke acrescentou que o combate ao crime organizado depende justamente de investigações de longo prazo, análise financeira e integração de dados.

A divergência apareceu mais no método do que no objetivo. Kopittke propôs uma articulação permanente entre a União e os 27 estados. Mingardi considera mais viável iniciar essa coordenação por regiões e ampliá-la gradualmente.

O debate mostrou que federalizar a segurança não significa necessariamente subordinar todas as polícias a Brasília. Pode significar criar uma estrutura nacional capaz de reunir informações, coordenar investigações e impedir que as divisas estaduais sirvam de proteção para organizações criminosas.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: especialistas discutem o uso das câmeras corporais pelas policias

A segurança pública é o tema que mais preocupa os brasileiros. Além das mensagens que recebemos dos ouvintes e da sucessão de casos que noticiamos todos os dias, as pesquisas de opinião confirmam essa percepção de forma contundente. Por isso, a série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, dedica mais de um encontro ao assunto, abordando diferentes aspectos relacionados à segurança pública. Neste debate, o foco foi o uso de câmeras corporais por policiais. Participaram da conversa a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, e o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo José Vicente da Silva Filho, que discutiram os efeitos, os desafios e os critérios para a adoção desse recurso.

A primeira questão tratou do impacto das câmeras na atuação policial. Para Samira Bueno, o principal benefício não está apenas na redução de abusos, mas na produção de provas e na proteção jurídica dos próprios agentes. “O uso das câmeras é justamente para a gente ter uma política de segurança em que o policial possa fazer o combate ao crime, fazer a prisão de criminosos, mas que isso também dê segurança jurídica para ele continuar atuando”, afirmou. Segundo ela, experiências nacionais e internacionais mostram que o equipamento fortalece a transparência da atividade policial e amplia a confiança no trabalho realizado.

José Vicente da Silva Filho concordou que o sistema representa um avanço para a atividade policial e atribuiu a maior resistência ao equipamento a uma cultura que ainda rejeita mecanismos de controle. “A resistência é da velha polícia, que acha que o policial tem que fazer tudo que bem entenda nas periferias da vida sem nenhum controle”, disse. Para ele, a gravação das ocorrências complementa a supervisão exercida pelos comandantes e ajuda a verificar se os procedimentos operacionais foram corretamente cumpridos.

Na segunda rodada de perguntas, os debatedores discutiram como um programa de câmeras corporais deve funcionar. Um dos principais pontos foi a gravação contínua, iniciada desde o começo do turno de trabalho. Samira defendeu que esse modelo preserva a integridade das imagens, facilita a produção de provas e permite o compartilhamento do material com instituições como Ministério Público, Defensoria Pública e Judiciário. Ela também destacou estudos que associam a adoção das câmeras à redução da letalidade policial, da vitimização dos próprios policiais e de casos de corrupção.

José Vicente reforçou a defesa da gravação contínua por impedir que o policial escolha quando registrar uma ocorrência. Explicou que o sistema desenvolvido pela Polícia Militar de São Paulo estabelece regras para armazenamento, auditoria e controle de acesso às imagens, preservando sua autenticidade. Acrescentou ainda que a incorporação de recursos de inteligência artificial tende a ampliar a capacidade de análise desse enorme volume de dados e contribuir para aperfeiçoar a relação entre polícia e população. “A sensação de maior ou menor segurança está muito vinculada à confiança que se tem na polícia”, observou.

Embora tenham partido de perspectivas diferentes, os dois especialistas convergiram em aspectos relevantes. Ambos defenderam que as câmeras não impedem a ação policial nem reduzem a capacidade de combate ao crime. Também concordaram que a tecnologia pode aumentar a transparência, fortalecer a produção de provas e oferecer mais segurança para policiais e cidadãos, desde que seja adotada com regras claras e fiscalização permanente. O principal ponto de divergência concentrou-se na avaliação dos modelos atualmente implementados e na necessidade de preservar a gravação contínua como padrão.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a freira e o Zorro foram detidos no aeroporto

Celia Corbett

Ouvinte da CBN

Foto de Nesrin Öztürk

Eram 1970. Tempos tumultuados. A ditadura tinha atingido seu auge. Qualquer manifestação de opinião contrária ao sistema era proibida. Nós éramos jovens estudantes, filhos respeitosos, gostávamos de Rita Lee, Chico Buarque, Beatles e assim seguíamos.

Estudantes mackenzistas com muito orgulho, estávamos entre o ensino médio e a faculdade. Eu cursava o último ano do Técnico de Administração e meu irmão, o Carlos, a faculdade de Engenharia. Todos nós éramos amigos dos amigos e formávamos um grupo muito legal. 

Fim de semana com festa era o máximo. Com festa a fantasia, era genial  Seria na casa da namorada do Andrade. Muita atrasada fui a loja de fantasia na Bela Vista e quase fiquei na mão. Tinha sim uma roupa que me servia. Mas será? De Freira? E assim foi. 

O quanto eu ouvi antes de sair de casa foi para a vida toda. Lá estava eu vestida com um hábito de freira perfeito, preto e branco, como manda o figurino. Mas qual a jovem de 16 anos não faria uma maquiagem a altura de uma festa de arromba. Festa, aliás, que estava fantástica com direito a odaliscas e piratas. Sensacional estava o Castro de zorro com capa e espada. Foi ele que me convidou para  acompanhá-lo e levar uma amiga lá pelos lados do Aeroporto de Congonhas. 

Nada era comparável ao café no aeroporto nos fins de noites daqueles ditos Anos Dourados. Aquele saguão chiquérrimo com seu piso quadriculado era muito badalado. O Castro tirou os adereços da fantasia e estava de calça e camisa pretas . Eu fiquei apenas com o hábito de freira e a maquiagem. E isso se transformou em um pesadelo.

Quando estávamos curtindo o saboroso cafezinho no balcão do salão fomos abordados por um policial que nos intimou a acompanhá-lo a delegacia do aeroporto. Por quê?

– Vocês estão detidos, disse o policial.

– Documentos na mesa, deu a ordem.   

    Logo nos apressamos a entregar a carteira de identidade e de estudante. Sim, de estudante porque mostrávamos que éramos pessoas de bem. Mas 1968 ainda estava na cabeça de todos assim como a Batalha da Maria Antonia, que fez com que nosso policial  nos condenasse antecipadamente.

    – Ah, estudantes do Mackenzie. Isso explica porque estão vestidos assim.

    Da festa de Ali Baba nos tornamos estudantes subversivos. Ficamos aterrorizados com a repressão do policial. Mesmo sem sofrer nenhuma agressão física, foi um pesadelo que só terminou quando o delegado de plantão chegou. Fez algumas perguntas: onde morávamos, oi que estávamos fazendo com as roupas estranhas. Todas devidamente respondidas. 

    Assim que fomos liberados pelo delegado, voamos para o carro que estava no estacionamento e de lá direto para casa. Além de um susto enorme, isso rendeu muita conversa pelos corredores do Mackenzie.

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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    Presidente vira notícia ao dizer que vai cumprir a lei: isso diz muito do Brasil em que vivemos

    Tem certas coisas que transformamos em notícia que se pensarmos ao pé da letra beiram o ridículo. Vou pegar dois casos que estão relacionados e foram motivos de entrevista com Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, hoje cedo no Jornal da CBN. O primeiro deles tem a ver com o tema que foi o centro da nossa conversa: o projeto de emenda à constituição do voto impresso —- um fetiche do presidente Jair Bolsonaro. 

    O Brasil começou esta segunda-feira, com cerca de 563 mil pessoas mortas e mais de 20,2 mil contaminadas por Covid-19. Somos 107 milhões de vacinados (50,58%) em primeira dose; e apenas 45 milhões com o ciclo completo (21,49%). Só de desempregados, passamos de 14,7 milhões de brasileiros. E paro por aqui com os números ruins, porque esses já são suficientemente expressivos e graves para uma nação. 

    Qualquer país e gestor público sérios estariam debruçados sobre esse desafio e mobilizando a sociedade para superá-los. E se pensar bem até tem algumas propostas interessantes com o objetivo de encontrar uma saída para essa jornada, mas o tema que está no noticiário é o voto impresso —- que não vai salvar uma só vida e talvez só garanta mais emprego para quem produzir a impressora, a despeito de tirar outros milhares com os gastos que a União deixará de fazer em áreas essenciais para sustentar esse delírio bolsonarista.

    O próprio presidente da Câmara dá sinais de que extrapolou ao anunciar que levará a PEC derrotada na comissão especial para votação em plenário como uma forma de enterrar de vez o tema —  não é comum este ato, pois geralmente projetos que não tiveram capacidade de convencer integrantes de uma comissão caem no esquecimento. Lira parece temer que, se deixar o assunto engavetado, vai minar a confiança que o governo tem nele. Disse que pretende expor a PEC ao escrutínio dos deputados até quarta-feira. Outra impressão que tive na entrevista é que Arthur Lira também está cansado do assunto e não vai esticar a corda até a próxima semana, como a base bolsonarista está pregando para ver se consegue virar os votos e aprovar a proposta de emenda à constituição, que precisa de três quintos dos deputados ou 308 votos a favor.

    Discutir voto impresso com tanta gente desempregada e outras tantas morrendo de uma morte que poderia ter sido evitada, sem dúvida, beira o ridículo. Tanto quanto imaginar que o anúncio de um líder político de que vai cumprir a lei pudesse ser destaque de uma entrevista. Sim, foi o que aconteceu, nesta manhã, após a conversa com Artur Lira. Ele informou que, na sexta-feira, ligou para o presidente da República para falar da decisão de levar a PEC do voto impresso para plenário e ouviu Bolsonaro dizer que aceitará a decisão dos parlamentares. Foi o que bastou para que a mensagem fosse estampada em sites e redes sociais. 

    O presidente dizer que vai cumprir a lei não é notícia. Ou melhor, não deveria ser notícia. Tanto quanto a PEC do voto impresso não deveria ser motivo de preocupação neste momento para o país. E a culpa não é de quem põe em destaque as informações, mas quem a faz se destacar. No caso, o presidente Jair Bolsonaro que deveria estar oferecendo soluções para problemas muito maiores e mais graves do que esses. O fato de ambas as informações ascenderem no noticiário sinaliza claramente o cenário político que estamos expostos, aqui no Brasil. 

    Assista ao vídeo da entrevista com o presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira:

    A tristeza que se expressa nas mortes da Paraisópolis

     

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    Foi triste a segunda-feira. Uma extensão da tristeza de domingo quando as informações da morte de jovens em uma festa na comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo começaram a chegar. A segunda foi ainda mais triste porque a morte deflagrou uma série de comentários absurdos, desrespeitosos e desumanos. E essas reações me entristecem porque revelam como está partida a nossa cidade. A nossa sociedade.

     

    Há duas versões sendo apresentadas.

     

    A polícia diz que foi atacada por uma dupla que estava em uma moto, que fugiu em direção a festa e aproveitou-se do aglomerado de pessoas para transformá-las em escudos humanos. A equipe da Força Tática, que foi reforçar a ação, chegou no local e foi agredida com pedradas e garrafadas. Nenhum policial fez disparos com arma de fogo. Usaram apenas munições químicas para dispersão.

     

    Os frequentadores do baile disseram que os policias bloquearam as duas saídas do local. Houve correria. A polícia disparou com armas de fogo e bala de borracha. Arremessou bombas de gás e usou sprays de pimenta contra a multidão. Agrediram com garrafadas, cassetetes, pontapés e tapas pessoas já imobilizadas.

     

    É bem possível que as duas tenham vestígios da realidade. Somente a investigação será capaz de descobrir. Mas teríamos de acreditar no rigor desse trabalho.

     

    O incontestável, no meu entender, é que a tentativa de dispersão das três mil pessoas que participavam no Baile da 17, seja pelo motivo que for, foi um descalabro. E a Polícia Militar tinha obrigação de saber disso.

     

    As polícias militar e civil, assim como as forças de segurança pública constituídas, têm o privilégio da força e da violência, garantido e observado pela Constituição. E por tê-lo precisam agir, acima de tudo, com responsabilidade, prudência e inteligência. Jamais podem extrapolar esse direito sob o risco do descontrole social.

     

    Ao mesmo tempo, transformar em criminosos todos os frequentadores do baile funk, que desde o início dos anos 2.000 se realiza naquele espaço ao ar livre, levando multidões aos fins de semana, é uma demência que expressa bem como estamos socialmente doentes. Ideia que se fortalece quando tentam relativizar as mortes como muitos buscaram fazer enquanto questionavam a existência desses eventos e a presença da juventude naquele local — como se proibir qualquer uma daquelas manifestações fosse o suficiente em regiões onde a única ação do Estado, quando existe, é a da polícia.

     

    Querer que se apure e se puna os responsáveis é o mínimo, diante dessa situação. Não parece, porém, que haja muita gente interessada em encontrar a resposta certa. Pois todos querem apenas confirmar suas convicções. Garantir sua razão. Apontar o dedo e repetir: “eu avisei!”. E jogar a culpa para o lado de lá.

     

    Entrevista: Torquato Jardim diz que “não tem por finalidade demitir ou nomear quem quer que seja”, na Polícia Federal

     

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    De poucas palavras, mas aceitando falar. Falou ontem em entrevista coletiva, falou à noite, no Jornal Nacional, e já havia falado para alguns jornais antes mesmo de assumir o ministério da Justiça. Hoje, Torquato Jardim falou ao Jornal da CBN. Manteve a mesma estratégia: dizer poucas palavras e questionar perguntas. Às vezes, até elogiá-las se for necessário, mesmo que isso possa soar como ironia (não que o seja).

     

    Mesmo tendo falado tanto, até agora Torquato Jardim não havia convencido jornalistas – ao menos os jornalistas – que assumiria o Ministério da Justiça sem mexer na Polícia Federal e na Operação Lava Jato. Para esta, ele até havia reservado a expressão “blindada”; para aquela, porém, sempre deixara uma porta aberta às mudanças.

     

    Hoje, no Jornal, seja por insistência, foi mais claro quanto a possibilidade de mudanças na Polícia Federal. Disse que a avaliação que pretende fazer “não tem por finalidade demitir ou nomear quem quer que seja na diretoria da Polícia Federal”. Quer mais: quer aprender com o chefe da instituição, delegado Leandro Daiello, com quem viajará no mesmo avião para Porto Alegre. Quando voltar do Sul espera ter “quase que um mestrado” de Polícia Federal, falou o ministro.

     

    Sobre Michel Temer, atua como os advogados de defesa – não que seja esta a função que exercerá. Nega veementemente esta possibilidade. Prefere esperar o desenrolar das investigações e da perícia no áudio entre o presidente e o empresário Joesley Batista. Aliás, perguntei se a escolha dele para substituir Osmar Serraglio, no Ministério da Justiça, estava relacionada aos problemas que Temer enfrenta desde a delação: “não seria nenhuma motivação dessa natureza. É um reajuste administrativo de resultado e é só isso”

     

    A entrevista completa, você acompanha aqui:

     

    Policial bom é policial inteligente

     

     

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    No rádio e no jornal entregue em casa, encontrei números coletados pelo Instituto Datafolha, em pesquisa de opinião encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Cada publicação privilegiou um aspecto diferente do mesmo estudo.

     

     

    A CBN chamou atenção para os 57% dos brasileiros que concordam com a máxima que “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, entendem que a polícia não pode ter perdão contra a bandidagem.

     

     

    O Globo puxou para a manchete o fato de a maioria dos brasileiros ter medo da polícia: 59% têm receio de ser vítima de violência por parte da Polícia Militar enquanto 53%, da Polícia Civil. Esses percentuais são ainda maiores entre os jovens. Da turma que tem entre 16 e 24 anos, 67% temem a violência da PM e 60%, da Civil.

     

     

    Como não ter medo da violência policial, se nós mesmos incentivamos esta violência?

     

     

    A percepção do brasileiro sobre a atuação da polícia no Brasil, identificada na pesquisa, sinaliza uma contradição e, ao mesmo tempo, explica o cenário de violência no qual vivemos. A cada dia, em média, nove pessoas são mortas por policiais: 3.345 pessoas em todo o ano de 2015. Os policias são vítimas desta mesma violência: apesar de uma queda em relação a 2014, ainda foram registrados 393 assassinatos de policiais – em serviço e fora do horário de expediente -, no ano passado.

     

     

    Este quadro tende a piorar se continuarmos incentivado a polícia a matar como estratégia de segurança pública.

     

     

    Defende-se uma polícia violenta contra bandidos, sem que a lei precise ser respeitada, e, imediatamente, passamos a ser vítima deste discurso, pois entregamos à autoridade policial o direito de julgar e aplicar a pena de morte por conta própria. Mas só contra bandidos, lógico!

     

     

    Ao propagar esta lógica – e ela está escrita em milhares de comentários nas redes sociais, em emails enviados a este jornalista e no bate papo de gente que se diz do bem – permitimos que o policial aja de forma violenta diante de qualquer atitude suspeita – seja lá o que isso possa significar. E sabemos que, no Brasil, temos os suspeitos preferenciais: preto, pobre e jovem.

     

     

    Diante de um policial com esse poder só resta ter medo. E medo não é sinônimo de respeito e confiança. Menos ainda de segurança.

     

     

    Em lugar de bandido bom é bandido morto, temos de defender a ideia de que policial bom é policial inteligente. E para isso é preciso oferecer às policias Civil e Militar condições de trabalho, mais tecnologia e informação, além de atuação próxima das comunidades.

     

     

    Com inteligência, investiga-se e pune-se mais. Mata-se menos. Morre-se menos ainda.

    Deus que nos ouça, por que se depender dos homens … haja violência!

     

    Por Milton Ferretti Jung

     

    Estatisticas

    Gráficos e estatísticas publicados pelo jornal Zero Hora/RS

    Não sei se estou ficando repetitivo nos meus textos,ainda mais naqueles em que trato do Rio Grande do Sul e de suas mazelas. Essas não são poucas,e ficam claras quando se acompanha as manchetes dos nossos jornais sobre o que rola nas editorias de polícia,coisa que me levou a comparar Porto Alegre com a antiga Chicago dos tempos em que a máfia era tipo (como a garotada costuma dizer) dona da casa. Acostumamo-nos, inclusive,a assistir à vasta filmografia sobre os “feitos”dos mafiosos.

     

    Aqui,os comandantes do tráfico de entorpecentes mandam e desmandam. E como matam gente inocente de todas as idades, no afã de liquidar a tiros os seus rivais, com as famigeradas balas perdidas. Perdi o número de crianças que morreram atingidas por essas.

     

    “Ladrões fazem arrastão em vagão do trensurb”

     

    Os “artistas” que protagonizaram esse episódio,em sua maioria se deram mal,quem sabe,por serem apenas aprendizes. Os passageiros do vagão, invadido pelos bandidos,assustadíssimos,disseram que não sabiam o que fazer para escapar dos ladrões. Esses,porém,não souberam como fugir dos PMs que os perseguiram no centro de Porto Alegre. Menos mal que esse foi o primeiro arrastão no Trensurb. Entre os ladrões havia menores,tipos que são considerados “coitadinhos” por uma política do meu Estado.

     

    Em Dois Irmãos,suspeitos de cometer o assalto no qual foi morto o primeiro sargento da Brigada, Arílson Silveira dos Santos,eram egressos da prisão em que se encontravam ,”só que a Susepe não soube explicar como os detentos escaparam”. Coisas do tipo são comuns no Rio Grande do Sul.

     

    Essa,que também rendeu manchete, foi a do médico assaltado no posto de saúde em que trabalhava, situado na Vila Cruzeiro,reduto de ladrões de toda espécie e que chegou a ser desativado faz algum tempo,eis que não era local seguro para os seus funcionários. Foi a segunda fez em que um médico desistiu de prestar serviço no que ficou conhecido como Postão da Vila Cruzeiro,com carradas de razão.

     

    Com o que acabei de relatar, creio que as pessoas de Estados mais bem servidos de policiamento do que o nosso Rio Grande do Sul,entenderão por que tenho produzido textos nos quais despejo o meu HORROR diante do que se vê,sem vislumbrar solução de continuidade. Muitos que saem para as nossas ruas, já foram assaltados por “especialistas”em todas as espécies de crimes,desde os mais comuns até os mais perigosos,e correram risco de perder a vida,além dos seus bens.

     

    Sexta-feira passada, futuros policiais militares,civis e bombeiros,que aguardam,sem sucesso,a sua convocação,fizeram manifestação, na frente do Palácio do Governo e da Assembleia Legislativa,com a esperança de que as autoridades maiores do Rio Grande do Sul encontrem uma solução que permita a todos nós não precisarmos estampar, na praça da Matriz,frases como:”Economizar em Segurança custa vidas;”Chega de Terrorismo” e “Queremos mais Segurança”.

     

    Deus que nos ouça – eis como concluo o texto de hoje. Isso por que, a cada dia que passa, acreditamos menos nos homens. Especialmente nos políticos!!!

     

    Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, mora em Porto Alegre e é meu pai. Escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)