A era dos parlamentares selfie: novo guia propõe mudanças na comunicação legislativa

Nos dias de hoje, é cada vez mais comum ver políticos utilizando selfies e postagens nas redes sociais como principal meio de comunicação com seus eleitores. Essa prática, embora promova a proximidade, muitas vezes carece de conteúdo qualificado, desdenhando das discussões legislativas em prol de uma presença digital superficial. Nesse cenário, surge uma necessidade urgente de estratégias mais efetivas e substanciais para a comunicação parlamentar.

É exatamente essa lacuna que o livro “Comunicação Legislativa para Gabinetes Parlamentares” busca preencher. A obra, escrita pelo experiente jornalista Sergio Lerrer, apresenta diretrizes claras e práticas para que os gabinetes possam desenvolver uma comunicação mais eficaz e de maior alcance. Com mais de 30 anos dedicados à comunicação pública e legislativa, Lerrer destaca a importância de uma comunicação bem estruturada, que não se limita apenas ao ambiente legislativo, mas se estende à sociedade, entidades setoriais, imprensa e blogs.

Lerrer alerta para os desafios contemporâneos da comunicação parlamentar. Se por um lado, as redes sociais e o mundo digital facilitaram a disseminação de informações, por outro, é crucial que essa comunicação não seja desordenada e superficial. Publicações sucessivas e desgovernadas podem minar a autoridade e a reputação do parlamentar. Assim, o livro orienta sobre estratégias, rotinas e modelos de comunicação que promovem uma visão consistente e confiável da atividade parlamentar.

Em capítulos dedicados, o autor aborda temas como a “Comunicação com Waze”, que sugere uma navegação estratégica na comunicação, e o “Parlamentar Selfie”, que critica o excesso de personalismo em detrimento de conteúdo relevante para o cidadão. Essas metáforas ajudam a ilustrar de maneira prática e acessível como os gabinetes podem melhorar suas práticas comunicativas.

A obra é pioneira ao oferecer uma literatura especializada para os colaboradores de comunicação dos gabinetes parlamentares, servindo como um guia básico para a execução de suas atividades com mais acertos. É um recurso valioso para a profissionalização dessa função, utilizando a experiência acumulada no Brasil até o momento.

Sergio Lerrer, jornalista, cineasta e profissional de comunicação, é um precursor na área de comunicação legislativa no Brasil, com uma carreira dedicada a essa atividade como pesquisador, formulador e professor. Sua experiência inclui a gestão de comunicação de entidades de interesse público e frentes parlamentares, além de ser um dos pioneiros na organização de eventos e na publicação de livros sobre comunicação legislativa.

O lançamento do livro “Comunicação Legislativa para Gabinetes Parlamentares” marca um importante avanço para a profissionalização da comunicação nos gabinetes parlamentares, proporcionando ferramentas valiosas para a construção de um diálogo mais efetivo e produtivo entre os parlamentares e a sociedade.

São Paulo é o estado que tem menor adesão à pesquisa sobre ações antirracistas nas escolas

Foto de Arthur Krijgsman

No Brasil, o combate ao racismo nas escolas é uma questão de urgência cívica e social. No entanto, apenas metade das instituições de ensino público havia adotado ações contra o racismo em 2021. Para entender o cenário atual e preparar a política nacional de educação antirracista, o Ministério da Educação convocou prefeitos e secretários de educação para participarem de uma pesquisa sobre as ações desenvolvidas pelas redes de ensino para enfrentar o racismo.

De acordo com o levantamento do próprio ministério, pouco mais de 1.000 cidades, de um total de 5.570, tinham respondido ao questionário até o início do mês. Diante disso, a associação que reúne os tribunais de contas estaduais e municipais está convocando os prefeitos e secretários de educação a enviarem, o mais breve possível, as respostas necessárias ao MEC.

É preocupante notar que, apesar da importância dessa iniciativa, a adesão dos estados mostra um cenário desigual. A Atricon informa que o estado de São Paulo teve a menor adesão até o momento, com apenas 54,3% dos prefeitos paulistas respondendo à pesquisa. Amapá (56,3%), Rondônia (57,7%), Tocantins (58,3%) e Rio Grande do Sul (59,6%) seguem nesta lista de estados com menor adesão. Em contraste, Minas Gerais alcançou 100% de adesão, com todas as 853 cidades respondendo ao levantamento. Ceará e Alagoas também tiveram adesão total.

Surge a questão: a baixa adesão dos prefeitos à pesquisa seria por receio de serem vistos como omissos no combate ao racismo? Tal hesitação poderia refletir falta de responsabilidade ou comprometimento com suas obrigações.

O MEC prepara-se para lançar a “Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola”, um passo potencialmente transformador se acompanhado de envolvimento efetivo das esferas governamentais locais. Este momento é crítico: prefeitos e secretários municipais de educação devem reconhecer a importância de sua participação ativa nesta pesquisa, que não apenas moldará políticas futuras, mas também impactará diretamente na formação cívica e cultural de jovens estudantes.

Portanto, é imperativo que todos os estados e municípios brasileiros estejam alinhados e engajados com o MEC nesse esforço conjunto. A diversidade é uma riqueza inestimável do Brasil e deve ser refletida e respeitada em nossas salas de aula. Para que isso aconteça, é essencial que cada prefeito e secretário de educação responda à chamada do MEC, ajudando a transformar nosso sistema educacional em um espaço verdadeiramente inclusivo e representativo.

Mundo Corporativo: Antônio Carlos Aguiar fala dos desafios do trabalho na era digital

Bastidor da gravação com Aguiar, no estúdio da CBN. Foto: Priscila Gubiotti

“Então, não dá mais para fazer aqueles planejamentos que nós fazíamos de cinco, de 10 anos, porque eu não sei o que vai ser. Nem o mercado de trabalho a gente sabe mais o que é.”

Antonio Carlos Aguiar, advogado

A evolução tecnológica tem reformulado as bases tradicionais do trabalho, criando um novo paradigma onde as relações laborais precisam ser tão ágeis quanto as mudanças sociais e tecnológicas que as impulsionam. Neste contexto, o advogado Antônio Carlos Aguiar, especialista em direito do trabalho digital e disruptivo e autor do livro “Direito do Trabalho 2.0 – digital e disruptivo”, compartilhou suas perspectivas no programa Mundo Corporativo da CBN.

Transformação Digital no Ambiente de Trabalho

Durante a entrevista, Aguiar enfatiza que o cenário atual exige uma nova abordagem nas relações de trabalho, onde até mesmo a legislação existente, como a CLT, parece não mais atender completamente às necessidades atuais.

“O trabalhador tem um mindset digital na prestação do trabalho dele com visão de startup, do mundo do Século 21, do mundo com viés digital e não mais aquele mundo analógico, onde tinha para proteção do trabalhador uma CLT , alguma coisa mais formal”

O advogado pontua a importância de entender que estamos em um ecossistema trabalhista onde tem inclusive stakeholders que optam por sequer trabalhar e têm de ser respeitada essa opção” A flexibilidade e a informalidade, que antes poderiam ser vistas como precarização, hoje são entendidas como parte de um ambiente de trabalho que valoriza a autonomia e a contribuição individual de maneira não tradicional.

“Então, as relações de trabalho tem que acompanhar as mudanças das relações sociais e a visão de propósito que a nova geração tem”.

Antonio Carlos Aguiar também discute a interação entre diferentes plataformas digitais e o mercado de trabalho, admitindo que não se tem ainda uma resposta concreta sobre como essa relação deve se realizar porque é ainda algo muito novo. Entende, porém, que se deveria refletir sobre a maneira como as grandes empresas de tecnologia transformaram completamente seus modelos de negócio para atender às demandas do século 21. Um exemplo é a Amazon: se antes vendia livro, hoje entrega qualquer produto em qualquer lugar do mundo. Citou, também, o WeChat, que é a versão do Facebook na China, uma rede social pela qual também se faz pagamento sem usar cartão de crédito ou dinheiro. Ou seja, um espaço de entretenimento, pagamento e prestação de serviço que representa bem o modelo de negócio  atual.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Fernando Gabeira: “As ideias brigam, as pessoas não”

Cássia Godoy e eu entrevistamos Fernando Gabeira, na edição desta quinta-feira do Jornal da CBN, para refletir sobre os 60 anos do Golpe Militar. Ele era um jovem jornalista, em 1964, quando a ditadura se iniciou no Brasil. Na época, deixou a redação pela luta armada, participou do sequestro do embaixador americano, foi preso e exilado. Hoje, com mais de 83 anos, é um dos jornalistas mais importantes do país e um exímio pensador do comportamento político e social. 

Compartilho com você um dos momentos da entrevista – a última resposta para ser preciso. A sensibilidade das palavras de Gabeira sobre o desafio que temos diante das divergências que assistimos na sociedade expressa uma das ideias que defendemos sempre que tratamos do tema da comunicação: “as ideias brigam, as pessoas não”

Desinformação faz mal para o coração

Cardiologistas estão preocupados com os efeitos da desinformação na área da saúde e aproveitam o mês de fevereiro, quando temos o Dia da Internet Segura, para discutir o tema em videocast. Tive o privilégio de ser convidado para compartilhar parte da minha visão sobre o assunto e, ao mesmo tempo, entender o quanto é danosa a forma irresponsável com que conteúdos relacionados à saúde são abordados por influenciadores, alguns da própria área médica.

O programa foi mediado pelo dr Pedro Duccini, coordenador da Cardiologia do hospital Vivalle Rede D’or São Luiz, e teve a presença do dr Lorenzo Tomé, professor universitário e CEO da SDConecta, uma plataforma de comunidades médicas.

Duccini me provocou a lembrar de mentiras que circulam pela internet e estejam relacionadas à área da saúde. 

Por curioso, havia deparado com uma delas no mesmo dia da gravação. Um ouvinte do Jornal da CBN me enviou mensagem que circula em WhatsApp sobre um suposto vírus mortal e sem sintomas que estaria devastando comunidades e, claro, para o qual não se dava publicidade para não prejudicar o Carnaval brasileiro. Na mensagem, estava o link de uma fala de Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, sobre o assunto. 

Fui pesquisar e logo descobri que a gravação de Adhanon se referia a um alerta para que os países estejam preparados para futuras pandemias e não se referia ao tal vírus “escondido pela grande mídia”. Apesar de essa desinformação não prejudicar a saúde da população, dissemina o pânico e tira o foco do que realmente é importante. 

Outra mentira disseminada nas redes sociais é a que assistimos no Brasil em defesa da venda de cigarros eletrônicos. Patrocinada por fabricantes do produto, a campanha pela liberação dos vapes tenta convencer legisladores, comunidade médica e população em geral de que esse “cigarro”em formato de pendrive reduz os danos do cigarro convencional. A verdade é que causa danos aos pulmões e mata.

Na lista de desinformação podemos incluir as fórmulas mágicas de emagrecimento, as dietas da moda que fazem milagres no corpo humano e os multivitamínicos que prometem curar uma enormidade de doenças e prevenir de tantas outras. 

E por aí vemos como é árdua a batalha contra o que se determinou chamar de “fake news” (contra a minha insignificante vontade). Há interesses milionários por trás dessas informações falsas, há a ansiedade das pessoas em encontrarem fórmulas fáceis para resolver problemas complexos, há falta de tempo e paciência para apurar a verdade e há tecnologia suficiente para engajar cidadãos a este conteúdo. Uma sinergia de fatores que pode levar as pessoas à morte, o que me permite dizer que desinformação faz mal para o coração.

O videocast Conexão SOCESP, produzido pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, estará no ar em breve.

Inteligência Artificial na elaboração de leis não é o fim dos políticos

Imagem criada pelo Dall-E

No coração da Câmara Municipal de Porto Alegre, um marco histórico foi estabelecido com a aprovação de uma lei inteiramente redigida por uma ferramenta de inteligência artificial (IA), o ChatGPT da OpenAI. Este evento singular não apenas destaca a crescente integração da IA em várias esferas da vida pública, mas também incita um debate vital sobre as implicações éticas, legais e sociais dessa tecnologia emergente no processo legislativo.

O vereador Ramiro Rosário (PSDB) propôs um projeto de lei que isenta moradores de cobrança pela substituição de medidores de água furtados, um texto totalmente elaborado pelo ChatGPT. O vereador desafiou a IA, pedindo que criasse uma “lei municipal para a cidade de Porto Alegre, com origem legislativa e não do executivo, que verse sobre a proibição de cobrança do proprietário do imóvel pelo pagamento de novo relógio de medição de água pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) quando este for furtado”. Surpreendentemente, a IA foi além do pedido, propondo prazos e incluindo um artigo sobre a isenção de pagamento da conta de água enquanto o relógio não fosse substituído – uma ideia que não estava no projeto original.

Os colegas de Rosário e o prefeito Sebastião Melo (MDB) só tomaram conhecimento da origem do texto após sua aprovação e sanção. A revelação gerou surpresa e abriu um precedente notável na história legislativa da cidade.

As reações variaram significativamente. Enquanto Ramiro Rosário exaltou a capacidade da IA de ir além das expectativas, propondo prazos e artigos não solicitados, o presidente da Câmara, Hamilton Sossmeier (PTB), expressou preocupações. Ele reconheceu a legalidade do processo, mas alertou sobre o perigo de estabelecer um precedente para leis mais complexas, potencialmente escritas sem supervisão humana adequada.

Legalmente, não existem barreiras claras que impeçam a elaboração de leis por IA. No entanto, isso levanta questões éticas significativas. A principal preocupação gira em torno da transparência e da responsabilidade no processo legislativo. Quem é responsável por erros ou omissões em um texto legal redigido por IA? Como a sociedade pode garantir que a IA não seja manipulada para servir interesses específicos?

Este evento inaugura uma nova era de debates sobre a função e o impacto da IA na governança. A sociedade pode se beneficiar de uma legislação mais eficiente e objetiva, mas também deve estar atenta à possibilidade de desumanização do processo político. A ideia de IA substituindo tarefas humanas se estende agora ao sagrado domínio da criação de leis, um território anteriormente imune à automação.

Apesar das preocupações, o uso de IA na elaboração de leis pode trazer benefícios significativos. A eficiência e a capacidade de processar grandes volumes de informações podem levar a legislações mais abrangentes e bem-informadas. Além disso, a IA pode ajudar a identificar lacunas legais e sugerir melhorias baseadas em dados, contribuindo para um sistema legislativo mais robusto e adaptativo.

O caso de Porto Alegre é um microcosmo das vastas e multifacetadas implicações da IA na vida pública. Enquanto navegamos neste território inexplorado, é crucial manter um equilíbrio entre abraçar a inovação tecnológica e preservar os princípios fundamentais de responsabilidade, transparência e humanidade no processo legislativo.

Pessoalmente, acredito que a IA pode de fato melhorar significativamente a qualidade dos textos legislativos. A capacidade de processar e sintetizar grandes quantidades de informações pode resultar em legislações mais completas, precisas e atualizadas. No entanto, é importante enfatizar que a IA, por mais avançada que seja, não substitui a importância crítica dos políticos e do debate público no processo de tomada de decisões. A IA é uma ferramenta, uma extensão das capacidades humanas, e não um substituto para o julgamento, valores e a essência da política. Em última análise, a IA pode ser um aliado poderoso na melhoria dos processos legislativos, mas deve sempre operar sob a orientação e supervisão de líderes eleitos, garantindo que a política permaneça, fundamentalmente, uma empreitada humana.

(este texto antes de ser escrito foi “discutido” com o ChatGPT; e passou por revisão ortográfica da ferramenta )

Reale Júnior diz que é preciso seguir o “rastro do dinheiro” no caso das joias de Bolsonaro

O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, está prestes a tomar uma decisão crucial sobre a autorização da quebra de sigilo bancário e fiscal do ex-presidente Jair Bolsonaro e da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. O pedido foi feito pela Polícia Federal após uma operação que investiga a venda de joias com dinheiro vivo no exterior.

O jurista e ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, em entrevista ao Jornal da CBN, ressaltou que o comportamento de um grupo em torno do ex-presidente, que estaria envolvido em práticas de fake news e comprometimento das urnas eletrônicas, poderia justificar a prisão preventiva — tema que ganhou maior projeção, na sexta-feira, a partir do cerco da Polícia Federal a ex-assessores e pessoas do circulo pessoal de Bolsonaro. Além disso, mencionou a importância de se seguir o rastro do dinheiro para entender onde ele foi depositado e se há tentativas de impedir a produção de provas.

Reale Junior destacou a necessidade de quebrar o sigilo bancário e fiscal para seguir o dinheiro e explicou que a utilização de dinheiro em espécie nas negociações pode dificultar o processo de investigação. Ele apontou que a busca por ocultar valores e bens, além das trocas de e-mails mencionadas na entrevista, justifica a quebra de sigilo para obter informações relevantes.

O ex-ministro da Justiça também abordou a pressão sobre a empresa americana envolvida na exportação das joias, levantando questões sobre sua ciência da ilegalidade e o rigor das fiscalizações nos Estados Unidos.

Quanto ao ato em defesa da democracia ocorrido há um ano no Brasil, em 11 de Agosto, o jurista afirmou que essa movimentação foi crucial para alertar a sociedade sobre os riscos que o país enfrentava nas mãos do então presidente Jair Bolsonaro. Reale Jr foi um dos líderes daquele movimento e salientou a ampla manifestação da sociedade civil e a participação de diversos setores, incluindo sindicatos, estudantes, bancários e empresários, que se uniram para reagir contra o que consideravam um golpe.

A entrevista com Miguel Reale Júnior evidencia a importância do desenrolar da investigação das joias e do papel do Supremo Tribunal Federal em tomar decisões fundamentais para o desdobramento do caso. A quebra de sigilo bancário e fiscal emerge como um passo crucial para a compreensão dos fluxos financeiros envolvidos nas transações das joias e possíveis tentativas de obstrução das investigações.

Ouça a entrevista completa no Jornal da CBN

Reforma tributária: Senado será contraponto a “Rito Arthur Lira”

Neste segundo semestre, a reforma tributária é um dos temas de maior relevância no debate político e econômico. Após a aprovação na Câmara dos Deputados, o projeto enfrenta agora o desafio do Senado, onde o debate promete ser mais prolongado do que o esperado pelo Governo. O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, senador Vanderlan Cardoso (PSD GO), falou em entrevista ao Jornal da CBN sobre as diferenças de tratamento em relação à tramitação na Câmara.

Diferentes Tratamentos na Câmara e no Senado

As discussões no Senado seguirão um calendário estabelecido, com várias reuniões e audiências públicas planejadas. O objetivo é ouvir diversas autoridades e segmentos da sociedade, permitindo um debate amplo e inclusivo que contemple as perspectivas das diferentes regiões do Brasil, como Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, explicou o senador goiano. Ficou claro que o Senado será um contraponto ao “Rito Arthur Lira” que prevaleceu no debate na Câmara — quando o presidente da Câmara tem interesse no assunto, usa de todo tipo de atalho para acelerar a aprovação do projeto.

“Nós temos um calendário a ser obedecido. E esse calendário nos foi passado pelo relator que quer aprovar, quer colocar em votação (a Reforma Tributária) durante o mês de outubro”.

Vanderlan chamou atenção para a necessidade de fazer um “pente fino” no que passou pela Câmara, principalmente em relação as mudança feitas “depois da meia-noite” — uma referência ao fato de o projeto ter sofrido mudan;cas nas últimas horas que antecederam a votação, com oferta de novos benefícios a determinados setores da economia.

Desafios para os Senadores

Uma das questões mais desafiadoras para os senadores é como lidar com as compensações para os estados em desenvolvimento que se beneficiaram de incentivos fiscais. As regras serão alteradas e é fundamental um debate aprofundado para garantir uma transição justa e eficiente.

União em prol da Reforma

O governador Romeu Zema, de Minas Gerais, defendeu uma frente Sul-Sudeste para contrapor a pressão dos estados do Norte e Nordeste, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo. No entanto, o senador Vanderlan ressalta que a reforma não deve ser vista como uma disputa regional, mas sim como um esforço para atender às necessidades e peculiaridades de cada estado, em benefício de todo o Brasil.

Aprovação no Senado

A aprovação da reforma tributária no Senado ainda este ano dependerá do relator, o senador Eduardo Braga (MDB AM), que já está trabalhando no processo. Simulações e estudos serão realizados para entender o percentual do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), mas a definição da alíquota ficará a cargo do Governo.

A reforma tributária é um tema complexo e crucial para o país, e sua discussão no Senado requer atenção e engajamento de todos os envolvidos. Ouvindo diferentes perspectivas e buscando o consenso, o Senado tem o desafio de aprovar uma reforma que atenda às demandas de todas as regiões brasileiras.

Para ouvir a entrevista completa com o senador Vanderlan Cardoso, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, clique aqui.

Conte Sua História de São Paulo: a política estudantil me apresentou à cidade

Janice Paulo

Ouvinte da CBN

Igreja na praça da Sé, foto de Claudinéia Regina/Flickr CBNSP

Era o ano de 1983. Eu havia ingressado no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, em São José do Rio Preto. Bacharelado de Letras-Tradução. Com 18 anos, nascida e criada em uma pequena cidade do interior paulista, sentia-me um peixe fora d’água naquele ambiente tão politizado, com colegas super descolados. 

Nem imaginava que, em breve e, justamente, com eles, pisaria em São Paulo, pela primeira vez. A abertura política se fazia lenta, mas progressivamente. Nesse contexto, a comunidade universitária da UNESP, em sintonia com o movimento Diretas-já, propunha um processo de eleição para a indicação do candidato ao cargo de reitor da universidade. 

No início de 1984, realizou-se a consulta à comunidade, num ato democrático extraordinário, para a época. Mas o Conselho Universitário e o governador Franco Montoro não acataram a nossa vontade expressa pelo voto. Isso gerou profunda revolta, motivando uma prolongada greve e a ocupação da reitoria e das diretorias de várias unidades. 

Naqueles dias, embarcou no trem RioPreto-São Paulo um grupo de destemidos, do qual eu fazia parte. Uma noite inteira, não só de café com pão, café com pão… mas, também, de pão com mortadela, mortadela com pão. Na manhã seguinte, chegamos em São Paulo para revezar com os colegas que estavam ocupando a reitoria há vários dias. 

Eu fingia naturalidade no metrô, fingia saber onde estávamos ou para onde íamos. A ninguém eu havia dito que jamais estivera na capital. Imagina! Na Praça da Sé, olhei deslumbrada a Catedral, os prédios do Tribunal de Justiça e da própria reitoria. Notei que faltavam árvores e sobrava gente. 

Dado o risco de estarmos sendo vigiados, entramos rapidamente na reitoria, de onde só saí oito dias mais tarde com todos os companheiros, expulsos por Michel Temer, então Secretário de Segurança Pública de São Paulo. 

Seguidos à distância pela força policial, fomos em passeata pelo entorno, gritando palavras de ordem, cantando o hino da época: ”para não dizer que não falei das flores”. Ouvia aplausos de alguns, palavras de apoio de outros, e chuva de papel picado a nos receber.

Lá se vão 38 anos de muitas outras histórias de manifestações, comícios, protestos, passeatas, quase sempre em São Paulo. Mas é essa passagem que divido com você, na Praça da Sé, o marco zero da minha história de lutas e paixão por essa cidade.

Janice de Paulo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?

Por Matheus Nucci Mascarenhas

Photo by Charl Durand on Pexels.com

O BRASILEIRO PRECISA VOLTAR A ACREDITAR: a descrença generalizada em nosso país explica por que ainda passamos por um interminável ‘terceiro turno’, o qual nos provoca a refletir sobre o futuro da nação.

As eleições dividiram ainda mais um povo que jamais foi unido de fato. Já afirmava o sociólogo carioca, Sérgio Buarque de Holanda, que o brasileiro persiste em ser “um desterrado em sua própria terra”. Mas quem é o Brasil? O colonizador português, o escravizado africano, o imigrante europeu e asiático: o único verdadeiro brasileiro, o indígena, todavia hoje é um pária, vive às margens da sociedade e sob a constante lembrança do extermínio da colonização. Esse Brasil, que nunca teve um povo que se pensasse brasileiro, que se pensasse genuinamente patriota, sofre, novamente, um dos sintomas dessa sociedade estilhaçada: uma eleição de descrença.

Em termos gerais, o brasileiro atual divide-se em três categorias de descrentes.

O primeiro deles, é o descrente cético. Este, que perdeu sua esperança no fracasso das “Diretas Já”, no fracasso dos fiscais do Sarney, no fracasso do governo Collor, na corrupção do governo Lula, no fracasso do governo Dilma e no fracasso do governo Bolsonaro, agora rejeita qualquer chamado “patriótico”, tanto a se opor ou a apoiar projetos políticos.

Esse brasileiro cético é aquele que, no passado, era interessado na política nacional, acompanhava-a no noticiário e até mesmo detinha certa esperança por um Brasil melhor. Porém, quando a maré baixou e a sujeira deplorável da política desnudou-se perante seus olhos, o descrente cético escolheu se blindar. Agora, prefere aproveitar um churrasco em casa, papear com os amigos e assistir a FRIENDS, a participar da decepcionante ciranda da política brasileira. Dentre esses indivíduos, incluem-se os quase cinco milhões que votaram nulo, ou aqueles que, muito indecisos, escolheram entre uma das duas gárgulas, geralmente por terem maior raiva em uma do que na outra.

A segunda categoria, esta já mais fisiológica, barulhenta e caricata, trata-se dos descrentes fanáticos. Parece ilógico juntar a palavra “descrente”, alguém que não acredita, com “fanático”, aquele que cegamente crê.

No entanto, o descrente fanático engloba, paradoxalmente, essas duas características. Por um lado, essa porção de brasileiros é fanática por aceitar levianamente o que recebe em suas bolhas ideológicas (tanto de esquerda, direita, ou qualquer outra denominação política que seja pertinente). Por tão intensamente se colocarem passivos ao que recebem e a como se devem comportar, “Sim, meu líder, farei o que for preciso”, tornam-se servos de um “mestre”, que tem como última das suas prioridades importar-se com essa casta devota de seu eleitorado. Por outro lado, são, sim, descrentes, porque não têm mais a capacidade de, pelo menos por um momento, acreditar em si mesmo e em seu julgamento próprio. Não, não o fazem, pois, perante quaisquer evento político, tomam seus juízos não de si mesmos, mas de formadores de opinião. Tornam-se “presas intelectuais” de um sistema que os faz, pouco a pouco, mais distantes de sua própria capacidade de pensar. Nesse contexto, a esses brasileiros falta reflexão, abrir os olhos de forma tal a se apartar de vieses que confirmam diariamente, intensamente e, sobretudo, maliciosamente, sua “suposta” visão política. E digo “suposta”, porque, para que seja uma visão política, demandar-se-ia do indivíduo raciocínio e análise crítica (alguma lasca de crédito a si mesmo), não uma simples fagocitação faminta de discursos pré-fabricados, muitas vezes, divulgados na internet. Em síntese, a estes minions, stormtroopers, habitantes da Oceania de George Orwell, ou londrinos de Aldous Huxley falta a capacidade de escapar desse invólucro alienante que os condiciona a dizer “sim”, a dizer “não”, a gritar, a protestar, a quebrar, ou a matar segundo a vontade de outrem, daquele líder “virtuoso” (popular, sonhador, da esperança, ou mesmo imbrochável).

Por fim, temos a terceira categoria: os descrentes despretensiosos. Esses congregam a maioria dos brasileiros: o trabalhador informal, o profissional liberal, o vendedor ambulante, o favelado, o aposentado, o doente, o morador de rua, o trabalhador que bate ponto às 18h, o pequeno empresário, o agricultor familiar, e assim por diante.

Os descrentes despretensiosos (e me desculpem pelos sufixos repetitivos), são o mais verdadeiro retrato do Brasil. Esse povo é aquele que votou no palhaço ou no farsante, mas não por convicção, e, sim, por obrigação (para não ter que se dar ao trabalho de justificar a abstenção) ou por terem se convencido de forma rasa a escolher entre os dois “cândidos” candidatos. Os descrentes despretensiosos, diferentemente dos outros dois grupos, ainda não sabem que possuem um papel na democracia, na transformação social. Os céticos o reconheciam, mas agora desiludiram-se por completo, enquanto os fanáticos o vêem com clareza, mas somente para o lado que lhes convêm (o resto é antidemocrático, facista, comunista, censitário). Nessas eleições, o terceiro Brasil não entende que seu voto faz, e muita, diferença, muito menos entendem que o poderiam ter usado em outra alternativa, na primeira rodada do jogo eleitoral. Esse terceiro grupo não reconhece e, muitas vezes, tampouco tem acesso à sua cidadania. A exemplo, um morador de rua, um favelado, um andarilho: tais indivíduos não se enxergam como cidadãos (e, resgatando o início do texto, como verdadeiros brasileiros). Como então podem enxergar-se como transformadores da política nacional? E o padeiro, motorista, porteiro, lavrador, pedreiro? Qual é o seu papel, senão trabalhar e cuidar de sua família. Para este terceiro Brasil, esse papel é não menos do que a despretensão de atuar politicamente, pensando em seu círculo pessoal acima do cidadão. A este grupo, digo que não estão errados: há, sim, a necessidade de pensar em si e em seus próximos. Mas, quando estamos diante de problemas que afetam a vida de todos os brasileiros, é vital que o terceiro Brasil creia em sua função social de provocar mudança.

Após definir e elucidar os três Brasis que se manifestaram nesta eleição, gostaria de finalizar o texto com um convite a todos. Enquanto passarmos por momentos como esse, de descrença generalizada (seja ela no outro, em si ou no nosso papel cidadão), não devemos perder de vista nossa missão maior: formar o Brasil dos brasileiros, para os brasileiros. Nosso sonho deve ser, nas décadas que se seguirem, termos um novo intelectual brasileiro, um Sérgio Buarque de Hollanda XVIII, que escreva: “finalmente, os brasileiros dispõem de sua terra, e à sua terra dispõem-se os brasileiros”.

Bem, esse passar do “terceiro turno” eleitoral, que muito mais tem a ver conosco do que com as duas bestas, deve tornar-se um momento de autocrítica e progresso. Aos descrentes céticos, há, sim (e nunca cessará de ter), poder de transformar, protestar, cobrar, se posicionar, lutar democraticamente. Essas ações surtem efeito, mesmo que gradual e lentamente. Aos descrentes fanáticos, tenham mais respeito e admiração a si próprios! É possível pensar por si mesmo e impedir que uma lavagem cerebral irrompa doutrinas perigosas em suas mentes. E essa tarefa depende exclusivamente de vocês. Aos descrentes despretensiosos, vocês não são somente habitantes do Brasil, mas cidadãos brasileiros. Lutar pela democracia que vocês almejam, lutar por um país mais justo, igualitário, fraterno e livre está ao seu alcance. É possível mudar, basta acreditarmos no poder de ser brasileiros de verdade.

Evitando clichês finais, como “o Brasil que queremos depende de nós”, ou “a nossa nação se faz com as nossas mãos”, termino com a seguinte pergunta:

“Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?”

Matheus Nucci Mascarenhas é estudante, ouvinte de rádio e tem 17 anos.