Por revanchismo, vereadores mudam nome de avenida em Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Duvido que exista em São Paulo – refiro-me à capital – quem não se preocupe, um pouquinho que seja, com o Adote um Vereador.A ideia partiu da cabeça do Mílton. Quem lê o blog inserido no site da CBN sabe que se trata do meu filho. Acho tão importante o trabalho que a turma do Adote realiza – e hoje é bem grande – que não tenha encontrado seguidores em outros municípios brasileiros,nos maiores,pelo menos,porque quanto maior a cidade,mais vereadores elege. Não pensem que,em São Paulo,os representantes dos munícipes sejam policiados. Podem ser,isso sim,cobrados por aquelas pessoas que os puseram na Câmara,caso não façam o esperado pelos seus eleitores.

 

Estou tentando saber o que o povo votante da minha Porto Alegre pensa,agora que a eleição está tão próxima, de um projeto que passou pela nossa Câmara:refiro-me à troca de nome de uma avenida da cidade. Alega o prefeito José Fortunati que a comunidade porto-alegrense não foi consultada sobre a alteração que a Câmara aprovou.E fez bem. Talvez surja quem entenda que o chefe do município,como não vetou nem sancionou a lei,teria ficado em cima do muro. O texto da lei voltou para os vereadores. A Casa,no momento,está sendo comandada por um presidente em exercício – o petista Mauro Pinheiro. Este terá de sancionar a lei. O titular do cargo,Professor Garcia,peemedebista,está licenciado.

 

Não esclareci para quem não é porto-alegrense e,por porventura,esteja lendo o meu texto,qual é a via,importante porque é por ela que se sai da capital gaúcha,cujo nome está provocando a polêmica:Castelo Branco é o atual;Avenida da Legalidade e da Democracia,talvez venha a ser o novo. Como não poderia deixar de ser,Fernanda Melchionna e Pedro Ruas,ambos do PSOL,se surpreenderam com a posição de José Fortunati. Eles são autores do projeto. Para mim,a ideia de troca tem cheiro de revanchismo rançoso. Não lembro de ter notícia de avenida que mudou de nome por razões eivadas de politicagem.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O mocotó do Tito Tajes

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Tornou-se um hábito para mim ler o caderno Donna,que vem encartado aos domingos na Zero Hora,jornal gaúcho que assinamos aqui em casa. Ocorre que,como já revelei em textos anteriores deste blog,minha sobrinha Claudia Tajes,escritora de vários livros e,mais recentemente,roteirista da Globo,em sua coluna no Donna (ou seria na Donna?),volta e meia conta histórias sobre as famílias Tajes e Jung,mas separadamente. Desta vez,juntou a dela e a minha. Nesse domingo,o assunto foi “Almoço em família”. Lembrou,com riqueza de detalhes,os ágapes que o Tito,o seu pai,promovia em uma casa de veraneio e também de invernos gelados,que pertencera ao chefe do clã dos Jung – o seu Aldo,meu pai – localizada nas proximidades do Guaíba. A propósito,continuo defendendo a sua condição de rio e não,como querem teimosos e quejandos,lago.

 

A casinha de madeira foi a parte herança do meu pai que coube ao Tito e à Mirian,minha irmã e que se transformou em uma casa de alvenaria. Hoje,tenho saudade da casa antiga e dos nossos banhos diários nas águas do Guaíba,durante o verão,um rio com águas límpidas,no qual a gente entrava sem medo de se afogar,temor que me impede de enfrentar o mar. Foi essa casa que,reformada,transformou-se mais tarde no local das nossas comilanças dominicais,nas quais o Tito deixava por um dia de ser jornalista para se transformar em exímio cozinheiro. Tios e primos se reuniam,satisfeitos da vida,para saborear o variado cardápio,composto em um domingo por churrasco,no próximo por massa,feijoada ou comida árabe,como lembra a Claudia na seu texto.

 

Ah,havia o domingo do mocotó que,conforme a Claudinha,acontecia uma vez a cada inverno. Pelo jeito,nem todos apreciavam mocotó. A culpa era do odor que danado,enquanto ficava em ebulição,horss e horas,no fogão à lenha. Não recordo,mas a Claudia garante que o cheiro saía da panela e grudava (será que cheiro gruda?)nos cabelos e nas roupas dos convivas. Não sei se o Mílton,que é o âncora deste blog,tem em sua coleção de fotos a dos Jung e Tajes em um dos almoços dominicais que eu,particularmente,jamais vou esquecer. A Claudia bem que poderia parafrasear o seu texto desse domingo chamando-o de “Conte a sua historia de Porto Alegre”. Tenho certeza de que o Mílton o leria com grande prazer.

 

Nota do Blogueiro: fotos dos almoços de domingo não temos, mas apresentamos na ilustração deste post as imagens do cozinheiro, jornalista e meu tio Tito Tajes

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Porto Alegre, 22 gols depois da Copa do Mundo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Na semana passada fiz algumas projeções ao tratar da Copa do Mundo e os seus reflexos em Porto Alegre,porque é daqui que escrevo no blog ancorado pelo Mílton. Algumas se confirmaram,outras não. Redigi as projeções,como sempre,dois dias antes da postagem. Foi um risco,mas bem menor do que andaram correndo as oito seleções classificadas para disputar as Quartas de Final. Não foi fácil para nenhuma delas alcançar a segunda meta da mais importante competição de futebol do planeta. Como o recomeço está marcado para sexta-feira,desta vez,não será necessário me meter de pato a ganso com prognósticos acerca de quem está mais perto das Semifinais.Vou escrever sobre o que já ocorreu nesta Copa do Mundo.

 

O Internacional encerrou gloriosamente as suas atividades copeiras. Foram cinco jogos muito interessantes realizados na Arena Beira-Rio,começando por Austrália x Holanda e se encerrando com a disputa entre uma das seleções favoritas e outra que nunca havia ido além da fase de grupos do Mundial,a Argélia. Não vou esquecer tão cedo dessa partida. Para homenagear postumamente a memória dos meus avoengos – foi da Alemanha que veio o meu bisavô Jung – torci pelos germânicos. E não me arrependi. Diga-se a bem da verdade que os eliminados argelinos lutaram bravamente durante 120 minutos,mas tiveram de se render aos alemães. Esses,no entanto,tiveram em Neuer,um misto de goleiro e volante,eis que saiu cinco vezes da goleira para desarmar perigosos contra-ataques. A Alemanha,com seis titulares do Bayer, me fez lembrar do Grêmio,que conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiros em 1981 enfrentando,no Morumbi,sob o comando de Ênio Vargas de Andrade,um São Paulo com sete jogadores da Seleção Brasileira. Choramos todos com a comoção provocada pela vitória:Jacque,Mílton,Christian,a mãe deles,Ruth e eu.

 

A conclusão dos jogos na Arena Beira-Rio,durante os quais foram marcados 22 gols,demonstrou que a Copa,por aqui,deixou felizes os torcedores das nações que jogaram no estádio colorado e os que assistiram a bem disputadas partidas de futebol. Os moradores da Zona Sul de Porto Alegre vão,por sua vez, contar com obras que prometem facilitar acesso ao Centro Histórico e demais regiões da Capital gaúcha. A rigor,a prefeitura ficou devendo a conclusão da Avenida Tronco. Essa não progrediu porque vai ser necessário remover para outro locais moradores de casas situadas ao longo da via. Outro projeto que gorou foi o do metrô. A mobilidade urbana melhoraria muito se essa obra fosse realizada,mas não houve tempo hábil para que pudesse ter sido,pelo menos,iniciada. Vamos,a partir de sexta-feira,assistir aos jogos das Quartas de Final,torcendo,é claro,para que a Seleção Brasileira faça o que dela se espera. Ser campeã!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Nem os deuses do trânsito salvam

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sei que há quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo no blog do Mílton. Não penso que sejam muitos esses abnegados.Tenho por eles (ou ele?),como não poderia deixar de ser,grande respeito. Por isso,afora outros cuidados,lembro que digito o texto nas terças-feiras,mas esse somente é postado nas quintas.Assim,sou obrigado,dependendo do assunto,a correr o risco de que ele fique defasado. Vou usar,no do dia 26,um subterfúgio. Isto é,morador que sou de Porto Alegre,só não sofro com o trânsito caótico dos dias de jogos da Copa do Mundo na Arena da Beira-Rio,porque fico acoitado – ou quase isso -em minha casa. Morador,que sou,da Zona Sul,sofro com a proibição de ir,pelas vias normais,ao Centro da cidade. Já as anormais,que aumentam o trajeto uma enormidade e não contribuem em nada com a velocidade do deslocamento,só podem ser utilizadas por quem tem necessidade de chegar,depois de gastar muito combustível e torrar a paciência,ao local de destino.

 

Nesta terça-feira,estou redigindo o meu texto e lendo na Zero Hora,jornal gaúcho,esta manchete: “PARA (TENTAR) EVITAR O CAOS NO TRÂNSITO”

 

Explica o matutino que,”depois dos congestionamentos no dia de Austrália x Holanda,a EPTC – Empresa Pública de Transportes – preparou ações para tentar aliviar a vida dos motoristas porto-alegrenses”. Afora essa providência,Prefeitura e Estado – leio na ZH – apenas para os seus servidores em Porto Alegre ,anunciou ponto facultativo. Tomo a liberdade de duvidar que essas e outras decisões tenham obtido o esperado efeito (ou seria o desesperado efeito)adotado pelas autoridades ditas competentes,visando a ter evitado,na quarta-feira,25/6,a repetição do caos. Tenho pena dos moradores de prédios,alguns luxuosos,situados nas proximidades do Beira-Rio:eles nunca imaginaram que bem à frente de suas residências,o que era um estádio clubista, viraria Arena.Lembro isso porque,nos dias de jogos da Copa, os proprietários de apartamentos,no local, têm de mostrar documento oficial comprovando que residem na área com entrada restrita. Oxalá,me engane,mas creio que somente os deuses do trânsito podem ter evitado um novo caos na Zona Sul de Porto Alegre,suas adjacências e as supostas vias de mobilidade para quem tem urgência de ir ao Centro Histórico desta cidade.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele). Desta vez, porém, dado o tema escrito, o editor (seu filho) antecipou a publicação em um dia e, pelo descrito na imprensa gaúcha, a expectativa de que haveria grande congestionamento nesta quarta-feira, antes do jogo da Argentina, estava correta.

Minha sobrinha tem razão: reclamar é preciso

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Esta é,se não me engano,a segunda vez que vou me valer de um texto de Claudia Tajes,minha sobrinha escritora,publicado na revista Donna,que recebo encartada na edição dominical de Zero Hora. Em um desses domingos já um tanto distantes,ela usou uma palavra que,embora minha conhecida,jamais havia utilizado:procrastinar. A propósito,graças a ela,Claudia,recuperei um álbum de fotografias que,no mínimo,estará completando 78 anos em outubro. Tem a minha idade. Fui,como primeiro rebento do casal Aldo e Ione,protagonista desse álbum. O meu pai tinha uma Agfa,máquina fotográfica das melhores na sua época. E não poupou me fotografar desde a mais tenra idade.

 

Se alguém está lendo este texto,talvez pergunte o que a Claudia e o verbo procrastinar têm a ver com o meu assunto desta quinta-feira. Explico,no seu texto,ela conta que parou de procrastinar e resolveu mexer num movelzinho com muitas fotografias que estavam atiradas. Minha sobrinha,corroída pelo remorso ao ver as fotos bagunçadas,percebeu que essas acabariam se estragando caso não voltassem a ser mais bem cuidadas. Ao ler o que ela havia escrito,mandei-lhe um e-mail perguntando se,em meio a fotos,algumas já amareladas,outras ainda em bom estado,não haveria um álbum. Pois não é que havia? O documentário antigo,como apelidei a relíquia,tinha ficado,enquanto esta viveu, com a minha irmã Mirian,mãe de Cláudia. O álbum voltou para as minhas mãos sem mais procrastinações. Na edição de Donna,do dia 16 de março,Claudia ilustrou o seu texto com fotografias antigas. Numa dessas ilustrações está uma foto do casamento dos meus pais.Em outra,a de um aniversário de primeiro ano. Nessa vê-se Ruth,minha falecida mulher,com Jacqueline,minha filha mais velha,no seu colo.Creio que,contando a história do retorno do álbum às minhas mãos,é mais um agradecimento que faço à Claudinha por ter vencido a procrastinação.

 

Passo,agora,ao meu texto desta quinta,aproveitando o que Claudia escreveu para Donna do último domingo,intitulado “Reclamar é preciso”. Neste,ela se refere às audiências no Juizado Especial Cível de Porto Alegre,local em que clientes de operadoras de telefonia e televisão,lojas, etc.,se queixam de todo tipo de empresas que não age corretamente com os seus clientes. Ela conta,por exemplo,o ocorrido com a sua mãe que,em uma loja,aguardava para ter o crediário aprovado,quando ouviu a atendente gritar:”a dona Mirian está no SPC. Mania que vocês têm de comprar o que não podem”.Minha irmã e mãe da Claudia entrou no Pequenas Causas e ganhou uma reparação.

 

Eu nunca fui ofendido em público por uma atendente cretina. Fui agredido,isso sim, de maneira sutil por uma “empresa” que vendia eletrodomésticos online,sediada em Ribeirão Preto. Comprei uma máquina fotográfica de boa marca e por preço mais baixo do que o de outras do mesmo tipo. Não lembro qual era o tempo do prazo de entrega do produto. Quando esse venceu,passei a telefonar para o número do vendedor. Inicialmente,ouvi desculpas pelo atraso. Como o tempo passasse e a minha compra não aparecesse,dei-me conta de que havia sido ludibriado. Tratava-se de uma loja fictícia. Um colega meu,funcionário de uma secretaria estadual, cedido ao PROCON,levou-me ao diretor da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor,onde fui muito bem atendido.Prestei a minha queixa,preenchi-a com o relato do ocorrido e,de cara,o diretor me disse que,provavelmente,não havia como rastrear empresas safadas do tipo da EURONOTE Comércio de Produtos Eletrônicos,cujo nome nunca esqueci.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai.Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

As minhas Copas e a do Brasil

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sou um veterano em Copas do Mundo. Na de 50,confesso,minha ligação com o futebol resumia-se às peladas com os meus companheiros de zona. Já contei neste blog,mas não custa repetir, que assistia a um filme, no cinema Eldorado, quando esse foi interrompido para que um “speaker” informasse que o Brasil perdera a Copa para o Uruguai. Em 1954,ouvi pelo rádio a vitória da Alemanha sobre a Suíça. Trabalhava,então,no meu primeiro emprego:Rádio Clube Metrópole. Em 1958,já na Guaíba,festejamos a vitória brasileira na final,contra a Suécia.Escutei os jogos, narrados por Mendes Ribeiro. Depois,percorremos as congestionadas ruas do centro de Porto Alegre,rodando com o Oldsmobile do pai de Pedro Carneiro Pereira. Ele ainda trabalhava na Clube Metrópole. Como narrador da Guaíba fiz,na Alemanha, a minha primeira Copa do Mundo. Em 78,na Argentina,narrei apenas um jogo. Já,no México,em 1986,na condição de narrador titular da Guaíba,não tive o prazer de vibrar com uma vitória brasileira. Ganharam os nossos sempre rivais,os argentinos.

 

O Brasil recebe agora as seleções de boa parte do mundo em uma competição que,como ouvi de Parreira,se considera favorito. Há,entretanto,instituições de nosso país que não foram favorecidas com verbas governamentais. Hospitais,por exemplo. Bilhões foram despejados,porém, na construção de estádios capazes de agradar a exigente e poderosa FIFA. Aqui,em Porto Alegre,duvido que todas as obras destinadas a facilitar a mobilidade urbana possam ser entregues totalmente finalizadas.Morador que sou da Zona Sul,transito diariamente pelas proximidades do Beira-Rio.Está ali, esperando finalização,o Viaduto da Pinheiro Borda.

 

Os problemas provocados pela realização de uma competição como a que se iniciará em junho não ficam somente restritas a obras e quejandas. Para não me estender,vou citar duas. A nossa Brigada Militar,preocupadíssima com a segurança da população de Porto Alegre e dos turistas que vierem para ver suas seleções nos cinco jogos marcados para o Beira-Rio,decidiu trazer do Interior cerca de 2 mil PMs. Despe-se um santo para vestir outro,é o que dizem prefeitos de cidades interioranas que,sofrem com assaltos,principalmente,os que sofrem instituições bancárias. Quem comanda a BM garante que não faltarão patrulhas no interior. É preciso ver para crer.

 

Às obras que, não se sabe ao certo, se serão entregues aos munícipes,decreto da prefeitura de Porto Alegre,em vigor desde ontem,proíbe que os nossos taxistas vistam camisas xadrez,de bolinhas,com listras e,menos ainda,caso sejam de um time de futebol. Ah,claro,o taxista tem de estar bem vestido. Concordo.Isso é uma coisa,outra é a exigência de uniforme. Não sei (porque sempre escrevo às terças-feiras)se o Sinditáxi aceitará o que reza o decreto sem ameaçar com greve. Era só o que faltava às vésperas da Copa do Mundo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Mais uma viagem de bonde pelo passado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No texto que digitei para este blog,na última quinta-feira,dia 1º de maio,os bondes de Porto Alegre foram o meu tema. Cheguei a imaginar que tivesse esgotado o assunto. Ao buscar algo para preencher o espaço de hoje,porém,dei-me conta de que estava enganado. Esses veículos, que saíram de moda há muito tempo, foram protagonistas de variados e saudosos episódios que começaram na minha adolescência e se estenderam até eu ter atingido a idade adulta.

 

No texto anterior sobre os bondes,quase chegando à conclusão,assinalei que os meus filhos,por iniciativa da Ruth,a falecida mãe deles,levou-os a passear no último que rodou nos trilhos do Menino Deus. Se não estou enganado, Jacqueline, Mílton e Christian,especialmente este – o caçula – talvez somente tiveram aquela última chance de viajar em um desses veículos. A data da despedida foi 8 de março de 1970. Os três,naquele tempo,iam para os respectivos colégios de Kombi.

 

Viajei vários anos de bonde no tempo em que estudei no Colégio Anchieta,então situado na Avenida Duque de Caxias. Quando passei para o Colégio Nossa Senhora do Rosário,ía de carro com o meu pai. Em 1954,com 18 anos,ainda estudante,fiz um teste na Rádio Canoas. Eram muitos os candidatos,mas só três foram aprovados pelos inesquecíveis examinadores,o Léo Ramos e o Hélio Assis. A emissora montou o seu primeiro estúdio em uma casa de madeira,que ficava na frente da torre de transmissão. A Canoas,depois,mudou-se para a Rua Moura Azevedo e,a seguir,estabeleceu-se na Avenida Eduardo,hoje Franklin Roosvelt. Aí,os bondes já não circulavam mais.

 

Bem antes disso,entretanto,comecei a namorar Ruth. O namoro começou em uma quermesse da paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Eu era um dos locutores na Voz Alegre da Colina,serviço de alto-falantes graças ao qual animávamos as festas de uma igreja que começava a ser construída. Se é que alguém está lendo este texto,informo que,no meu namoro,os bondes voltaram a aparecer. Os pais da Ruth deixaram as proximidades da casa onde eu morava,mudando-se para a Rua do Parque. Era,então,o bonde São João que me levava,ida e volta,à casa da minha futura mulher. A linha era servida pelos “gaiolas”,bondes de tamanho menor do que os demais. Como eles se sacudiam muito,não era raro que descarrilassem. Uns e outros percorriam a Rua do Parque em toda a sua extensão e iam até o fim da linha.Eu viajava neles para ir da casa dos meus pais,onde morei até pouco antes de casar,até a da Ruth.

 

Eu usava esses bondes também para ir trabalhar na Rádio Canoas. Em 1958,fiz dois testes na Rádio Guaíba. Passei em ambos,mas não gostei do salário que Mendes Ribeiro,diretor de broadcasting,me ofereceu quando passei no primeiro. Pouco tempo depois,voltei à Guaíba. Aden Rossi,chefe dos locutores dessa emissora,testou-me novamente. Passei no exame e continuei a usar os bondes da linha São João para ir da 16 de Julho,onde vivi boa parte da minha existência,até a casa da Rua do Parque. Ruth e eu casamos em 1961 e,ainda sem ser proprietário de automóvel,ia e voltava num Floresta até o meu sonhado emprego em uma rádio de porte. O último bonde que usei foi o Menino Deus. Os ônibus,se comparados com os bondes,serviram-me muito pouco. Por isso,vou continuar tendo saudade dos bondes e lamentando que tenham ficado apenas na lembrança neste país em que a mobilidade urbana é cada dia mais precária.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Um passeio de bonde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há várias semanas,não mais que de repente,deu-me uma saudade danada do primeiro veículo de transporte público que conheci:o bonde. Quando,com bem menos de um ano de vida meus pais alugaram uma casa em Porto Alegre,na Rua Conselheiro Travassos,onde nós três,eles e eu,recém nascido,passamos morar,esta cidade já era servida por bondes. Não cheguei a conhecer esses veículos que,no início da sua existência eram tracionados por mulas, rodavam sobre trilhos de madeira que, mal sedimentados, produziam barulho insuportável e,pior do que isso,descarrilavam com frequência. Nasci em 1935. Somente em 1908 iniciou-se o tráfego dos bondes elétricos. Os primeiros bairros que percorreram foram Menino Deus,Glória,Teresópolis e Partenon. Até estar em idade de viajar sozinho nos que faziam,já então,as linhas Floresta e São João,passaram-se muitos anos.

 

Os dois primeiros nos quais me desloquei foram os que percorriam as duas linhas que acabei de citar. Ambas me levavam ao Colégio Anchieta,no qual estudei vários anos. O Floresta,quando chegava à parada que ficava na Rua Benjamin Constant,quase na esquina da São Pedro,em geral,estava lotado.O remédio era viajar,perigosamente,no estribo. É evidente que eu e os guris da minha idade,não nos importávamos de correr riscos. Cada viagem com bonde cheio era uma aventura apreciada por nós. O Anchieta ficava na Rua Duque de Caxias. Eu desembarcava do Floresta, na Praça 15 de Novembro,subia a Borges de Medeiros e a escada do viaduto. Na volta,fazia o caminho inverso. Era uma pernada e tanto.Com 11 anos,porém,ou pouco mais que isso,a gente resiste a muito mais.

 

Ao retornar para casa,muitas vezes dava preferência ao bonde São João,que tinha o terminal na Praça Parobé. Esse,tinha,no entanto,uma particularidade:ia do centro até a Rua São Pedro,esquina com a Farrapos. Dali em diante,havia apenas um trilho. Se existia um bonde na São Pedro com Floresta,o que visava seguir,tinha de esperar o retorno do outro veículo. Seja lá como fosse,quando o bonde acabava chegando ao fim da linha,os guris que viajavam nele corriam para trocar o engate desse ao cabo que o ligava ao fio que eletrificava a máquina.Os cobradores de passagens,de tanto ver a gente,ficavam amigos e nos deixavam fazer o serviço do qual eles eram os responsáveis.Outra coisa que fazíamos,era fazer de conta que estávamos no controle do bonde. A gente disputava a permanência na roda,que ficava ao lado dos controles do motorneiro e cuja função era frear o veículo em caso de emergência. Nunca fiquei sabendo que fosse necessário esse tipo de freio.

 

Os bondes da minha saudade,no distante ano de 1926,chegaram a alcançar mais de uma centena em circulação.Eles seguiram em operação durante décadas. Passaram,então,a ser substituídos por empresas de ônibus. Essas,na base do devagar se vai ao longe,foram tomando conta do promissor mercado que para elas se abriu. Porto Alegre chegou a aturar os Trolebus, ônibus elétricos que,entretanto, não deram certo. Problemas de voltagem e defeitos nos freios,desaconselharam. Convém lembrar que,na Europa,os bondes continuam rodando – e silenciosamente – facilitando a mobilidade urbana.

 

Jamais,imagino com pesar,voltarão a atividade. No dia 8 de março de 1970,o último deles circulou,com direito à solenidade de despedida. Por iniciativa de Ruth Muller Jung,a mãe dos meus filhos,esses viajaram,de graça,no último bonde de Porto Alegre.Vou encerrar o meu texto desta quinta-feira com um anúncio que a gente não podia deixar de ler nos nossos bondes.Que os meus netos não se espantem com o arcaico português da propaganda:

 

Veja illustre passageiro
O bello tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado…
E,no entretanto,acredite
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o RHUM CREOSOTADO.

 

Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cuidado:motorista flagrado três vezes bêbado está livre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Já faz algum tempo que não escrevo neste blog sobre um assunto que abordei inúmeras vezes neste espaço,ou seja,trânsito. Há 60 anos possuo carteira nacional de habilitação,já dirigi automóveis no exterior,jamais tive o documento habilitador apreendido,raríssimas vez fui multado e há muito,sempre que chega a hora de pagar o IPVA,ganho o desconto de bom motorista. Sou fanático por direção defensiva,algo cada vez mais fundamental se levarmos em conta que o número de veículos que circulam, tanto nas cidades quanto nas rodovias, é cada vez maior,isso graças aos financiamentos tentadores oferecidos pelas revendas. Lembro-me com saudade dos tempos em que eu me sentia feliz conduzindo um automóvel em Porto Alegre,minha cidade e,também,viajando pelo interior do Rio Grande do Sul e até por outros estados do Brasil a serviço da rádio em que então trabalhava cobrindo futebol. Hoje,confesso lisamente,tenho um certo medo de dirigir aqui ou ir,pela freeway, além de Tramandaí, balneário gaúcho onde temos casa de veraneio. Aliás,é a propósito do que ocorreu nessa rodovia que vou manifestar a minha opinião e a minha revolta.

 

“Motorista é preso ao dirigir bêbado e pela contramão”

 

A manchete é do jornal Zero Hora. Ao me deparar com ela na 27ª página do periódico,imaginei que não havia razão para sequer divulgar informação do tipo dessa,eis que motoristas dirigindo sob efeitos de álcool não têm nada de incomum. Bem pelo contrário:trata-se,hoje em dia, de fato corriqueiro. Ah,mas Zero Hora tinha sobradas razões para dar destaque à notícia. Se já se tornou um tanto comum para as polícias rodoviárias estaduais e federais pegar em flagrante caras que dirigem embriagados,prender o mesmo sujeito,na mesma rodovia – a freeway – conduzindo,etilizado, o seu automóvel,na contramão, no mínimo,chega a espantar. Lucio Mario Borba – relata a repórter Letícia Costa – foi flagrado pela terceira vez,na freeway, com “sinais de embriaguês ao volante. Antes disso,na mesma rodovia,Borba,agora com 41 anos,havia sido flagrado,em condições semelhantes. Os episódios etílicos de Borba aconteceram em 2012,2013 e culminaram com o do dia 13 de abril de 2014. Neste,dirigindo um Ônix por cerca de seis quilômetros,acabou colidindo com um Gol,que capotou.

 

Perguntem-me agora o que aconteceu com este contumaz infrator? Ah,já esteve no Presídio Central de Porto Alegre. E daí?O sujeito segue soltinho da silva.Não duvidem que voltará não apenas a dirigir,mas novamente na contramão e pondo em perigo a vida de motoristas bem comportados que se arriscam a vê-lo guiando impunemente,quando deveria ter a carteira de habilitação rasgada em pedacinhos. Justiça leniente não é justiça,mas quase perdão. Esta é a minha opinião.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)