Mais uma viagem de bonde pelo passado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No texto que digitei para este blog,na última quinta-feira,dia 1º de maio,os bondes de Porto Alegre foram o meu tema. Cheguei a imaginar que tivesse esgotado o assunto. Ao buscar algo para preencher o espaço de hoje,porém,dei-me conta de que estava enganado. Esses veículos, que saíram de moda há muito tempo, foram protagonistas de variados e saudosos episódios que começaram na minha adolescência e se estenderam até eu ter atingido a idade adulta.

 

No texto anterior sobre os bondes,quase chegando à conclusão,assinalei que os meus filhos,por iniciativa da Ruth,a falecida mãe deles,levou-os a passear no último que rodou nos trilhos do Menino Deus. Se não estou enganado, Jacqueline, Mílton e Christian,especialmente este – o caçula – talvez somente tiveram aquela última chance de viajar em um desses veículos. A data da despedida foi 8 de março de 1970. Os três,naquele tempo,iam para os respectivos colégios de Kombi.

 

Viajei vários anos de bonde no tempo em que estudei no Colégio Anchieta,então situado na Avenida Duque de Caxias. Quando passei para o Colégio Nossa Senhora do Rosário,ía de carro com o meu pai. Em 1954,com 18 anos,ainda estudante,fiz um teste na Rádio Canoas. Eram muitos os candidatos,mas só três foram aprovados pelos inesquecíveis examinadores,o Léo Ramos e o Hélio Assis. A emissora montou o seu primeiro estúdio em uma casa de madeira,que ficava na frente da torre de transmissão. A Canoas,depois,mudou-se para a Rua Moura Azevedo e,a seguir,estabeleceu-se na Avenida Eduardo,hoje Franklin Roosvelt. Aí,os bondes já não circulavam mais.

 

Bem antes disso,entretanto,comecei a namorar Ruth. O namoro começou em uma quermesse da paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Eu era um dos locutores na Voz Alegre da Colina,serviço de alto-falantes graças ao qual animávamos as festas de uma igreja que começava a ser construída. Se é que alguém está lendo este texto,informo que,no meu namoro,os bondes voltaram a aparecer. Os pais da Ruth deixaram as proximidades da casa onde eu morava,mudando-se para a Rua do Parque. Era,então,o bonde São João que me levava,ida e volta,à casa da minha futura mulher. A linha era servida pelos “gaiolas”,bondes de tamanho menor do que os demais. Como eles se sacudiam muito,não era raro que descarrilassem. Uns e outros percorriam a Rua do Parque em toda a sua extensão e iam até o fim da linha.Eu viajava neles para ir da casa dos meus pais,onde morei até pouco antes de casar,até a da Ruth.

 

Eu usava esses bondes também para ir trabalhar na Rádio Canoas. Em 1958,fiz dois testes na Rádio Guaíba. Passei em ambos,mas não gostei do salário que Mendes Ribeiro,diretor de broadcasting,me ofereceu quando passei no primeiro. Pouco tempo depois,voltei à Guaíba. Aden Rossi,chefe dos locutores dessa emissora,testou-me novamente. Passei no exame e continuei a usar os bondes da linha São João para ir da 16 de Julho,onde vivi boa parte da minha existência,até a casa da Rua do Parque. Ruth e eu casamos em 1961 e,ainda sem ser proprietário de automóvel,ia e voltava num Floresta até o meu sonhado emprego em uma rádio de porte. O último bonde que usei foi o Menino Deus. Os ônibus,se comparados com os bondes,serviram-me muito pouco. Por isso,vou continuar tendo saudade dos bondes e lamentando que tenham ficado apenas na lembrança neste país em que a mobilidade urbana é cada dia mais precária.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

3 comentários sobre “Mais uma viagem de bonde pelo passado

  1. Faz muito bem para mim ler textos como este que nos leva de volta ao passado.
    Morei em Porto Alegre em 1972 e 1973 e guardo muitas lembranças dessa hospitaleira cidade onde tenho ainda alguns amigos.
    Obrigado Milton Jung pai por essa matéria.
    Abraço.

  2. Prezado Milton, meu nome é João Fernando Fossi, sobrinho neto do Aden Rossi, muito legal ver a citação de meu tio que falaceu em 1969. Lembro bem da casa que morava na tristeza e de seu velho carro Umber. Também sou aficionado em aparelhos de som, devido à influência dos aparelhos que ele tinha. Acredite quando ele faleceu minha tia Belinha me deu o seu anel de formatura de dentista, o qual ai da guardo com o maior carinho.
    Um abraçi

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