Procrastinação: o que estamos adiando?

Beatriz Breves

Todos adiamos alguma tarefa de vez em quando. O problema começa quando o adiamento se repete, traz prejuízos e nos impede de avançar naquilo que é importante para nós. Nesses momentos, vale perguntar: estamos evitando apenas a tarefa ou também o que sentimos diante dela?

Do ponto de vista psicológico, procrastinar é adiar algo que precisa ser feito. Isso pode acontecer porque a tarefa exige um esforço para o qual a pessoa não se sente em condições, ainda que não perceba claramente o motivo. Medo, insegurança, perfeccionismo, angústia e outros sentimentos podem se combinar e tornar a ação desconfortável. Adiar, então, oferece um alívio imediato, mesmo quando sabemos que a decisão trará dificuldades depois.

Podemos imaginar a mente humana como um grande oceano. Na superfície está aquilo que percebemos conscientemente. Abaixo dela, há experiências e sentimentos que também participam de nossas decisões. Por isso, alguém pode saber que precisa começar uma tarefa e, ainda assim, não compreender por que continua evitando-a. O medo de falhar, a sensação de incapacidade ou a vergonha, por exemplo, podem estar presentes sem que sejam imediatamente reconhecidos.

Não existe um único sentimento por trás da procrastinação. Em uma pessoa, o medo pode vir acompanhado de autocrítica; em outra, a insegurança pode se somar à frustração. Ansiedade, tristeza, raiva e culpa também podem fazer parte dessa experiência. Mais útil do que procurar uma explicação igual para todos é perguntar: o que esta tarefa desperta em mim?

O medo merece atenção especial. Ele tem uma função de proteção: nos ajuda a reconhecer riscos e a tomar cuidado. Entretanto, quando se torna intenso a ponto de paralisar a ação, pode contribuir para o adiamento. Às vezes, a pessoa não teme apenas falhar. Pode temer se expor, acertar e ter de lidar com novas expectativas, ou enfrentar as consequências de uma decisão.

É comum que a procrastinação seja confundida com preguiça ou falta de força de vontade. Afinal, vemos a tarefa que não foi feita, mas não enxergamos facilmente o que se passa no mundo interno de quem a adiou. Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade, esse julgamento pode aumentar a autocrítica e a culpa. A pessoa passa a se censurar por não agir, sem compreender o que a está impedindo.

Quando o adiamento se torna frequente, seus efeitos podem alcançar diferentes áreas da vida. Prazos perdidos e tarefas acumuladas prejudicam o trabalho. A sensação de não conseguir cumprir o que foi planejado pode abalar a confiança em si. Nos relacionamentos, responsabilidades adiadas podem gerar conflitos e desgaste. Essas consequências, por sua vez, podem intensificar a ansiedade e tornar ainda mais difícil começar. Forma-se um ciclo.

Por isso, a expressão “vencer a procrastinação” nem sempre ajuda. Ela sugere uma batalha contra um inimigo, quando o adiamento pode ser uma forma sutil de comunicação do nosso mundo interno. Antes de lutar contra ele, talvez seja preciso escutá-lo. O que estou evitando? O esforço da tarefa? A possibilidade de errar? O julgamento dos outros? Aquilo que sentirei se tentar?

Reconhecer esses sentimentos não significa esperar até que todo desconforto desapareça. Significa compreendê-lo melhor para poder agir mesmo sem se sentir inteiramente à vontade. Quando a procrastinação provoca sofrimento significativo ou compromete atividades importantes, buscar ajuda profissional pode ser um caminho para explorar o que sustenta esse comportamento.

Na perspectiva do Eu Fractal, podemos compreender a procrastinação crônica como um padrão que, ao longo da vida, foi incorporado à maneira de a pessoa sentir e agir. Padrões enraizados não se modificam de um dia para o outro, mas podem mudar. E, nesse percurso, voltar a adiar uma tarefa não significa que todo o caminho tenha sido perdido. Pode ser uma oportunidade de perceber o que ainda é difícil e experimentar uma nova forma de lidar com isso.

Talvez o primeiro passo não seja perguntar “como faço para nunca mais procrastinar?”, mas “o que o meu adiamento está tentando me mostrar?”

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O crime contra a autoestima

Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de luna visceral

Você comete esse crime?

Vou fazer.

Vou falar.

Vou resolver.

Não fiz.

Não falei.

Não resolvi.

A preguiça e a inércia venceram.

É mesmo difícil de resistir. Descansar é mais fácil, não arriscar é mais “seguro”, evitar o conflito dá menos medo.

Mas um padrão de desânimo com a vida e de desconfiança em si mesmo contamina por completo quando isso vira a regra dos seus dias – prometer e não cumprir.

Quando você promete algo a si mesmo e não cumpre, está executando um crime – o assassinato da sua autoestima.

O seu compromisso não é de obedecer às outras pessoas – é de honrar a si mesmo; você é seu próprio chefe e, se fizer o que precisa ser feito, o lucro é seu!

Ter a disciplina de ao menos tentar concluir suas metas e seus objetivos é o que construirá seu sentimento de que você é capaz e confiável, uma pessoa digna de admiração.

Escolha se tratar com o respeito que deseja que os outros te tratem.

Não mate seu amor próprio.

Faça, fale, resolva.

Alimente e fortaleça, todos os dias, em cada tarefa realizada, o orgulho de ser quem você é.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos…

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts. 

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: Que bela cidade preguiçosa

 

Por Marcel Crespin
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Hoje a cidade acordou preguiçosa

 

Hoje, dois de janeiro de dois mil e treze, a cidade acordou preguiçosa. Nem o sol ousou levantar. O céu cinzento, desde cedo, anunciava um dia lento em São Paulo. Acostumada ao trânsito que consome horas do cotidiano paulistano, a cidade estava lenta, o trânsito não. Quase não havia carros na rua. O trajeto que levo, em média, mais de uma hora para percorrer, não levou sequer 20 minutos para ser percorrido.

 

Quem dera fosse esse o ritmo da cidade. Não o da produção das indústrias ou o da intelectual, não o dos espetáculos culturais, nem o do comércio pungente, não o da educação ou o das feiras livres, nem tampouco o dos anunciantes ou o das agências de propaganda, mas da vida, que muitas vezes deixamos de saborear como deveria ser feito, por conta da correria insana do dia a dia.

 

A lassidão do primeiro dia útil do ano podia ser notada em tudo o que se via por aí. As poucas pessoas que andavam a passos lentos pelas ruas, bocejavam preguiçosamente e se espreguiçavam como quem acaba de levantar da cama. As faixas de pedestres surpreendentemente vazias das ruas e avenidas mais movimentadas da cidade, ilustravam que de útil o dia só tinha o nome. Ou quase isso.

 

Ao entrar na garagem, as inúmeras vagas disponíveis antecipavam o movimento praticamente inexistente de pessoas no luxuoso edifício da marginal Pinheiros. Subi sozinho no elevador que me conduziu ao térreo, onde fiz a baldeação para o outro elevador que me levaria até meu destino final.

 

Normalmente coalhado de pessoas indo e vindo, o andar térreo do edifício dessa vez estava completamente vazio. Nem mesmo o balcão da recepção tinha todas as moças que tradicionalmente atendem as intermináveis filas de visitantes. Ao invés de várias, apenas uma estava lá, lixando entediada e cuidadosamente as unhas. Passei pela catraca estranhamente sem fazer fila e lá estavam todos os elevadores me esperando para um confortável passeio até o décimo segundo andar.

 

Ao ter as portas do elevador fechadas, notei que uma televisão dava notícias exclusivamente para mim. Aquela televisão, presença cada vez mais comum nos elevadores, que via de regra traz as últimas notícias e anuncia de forma masoquista a quilometragem caótica do trânsito paulistano, hoje trazia as primeiras notícias do ano e anunciava os inacreditáveis oito quilômetros de congestionamento em toda a cidade.

 

Ao ver as portas do elevador se abrindo novamente, sem fazer sequer uma escala em outro andar, pude ver muito pouco. O corredor do décimo segundo andar era todo meu. Nem uma pessoa dividia aquele espaço comigo. Pude ouvir meus passos me conduzindo, apenas intercalados pelo som da minha própria respiração. Pelo caminho, as luzes apagadas dos escritórios vizinhos, tradicionalmente acesas até tarde da noite, manchavam de escuro o piso claro do corredor que iluminava nada, nem ninguém.

 

Ao chegar, me senti aliviado por encontrar vida alheia. Poucas, bem poucas, mas lá estavam alguns heróis da resistência.

 

Como sempre faço ao chegar de manhã, fui à minha sala, me ajeitei na cadeira e abri meu computador para checar meus emails. Apenas para desencargo de consciência, uma vez que já havia checado inúmeras vezes antes de sair de casa e pelo caminho, dessa vez percorrido muito rapidamente, se comparado a um dia normal.

 

Com a preguiça de um domingo de manhã, minha caixa de entrada me ajudou a perceber logo que a letargia das ruas não havia invadido apenas esse edifício da marginal Pinheiros, mas muito provavelmente tantos outros dessa cidade, que em plena quarta-feira nos dava a nítida certeza de que o mundo não havia acabado, conforme anunciado, mas que também o ano ainda não havia começado.

 

Participe do Conte Sua História de São Paulo, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net