Eu estou aqui, diga-me como você sente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagine a seguinte situação: Você telefona para um conhecido e, ao atender, ele diz que não consegue te escutar. Você insiste em perguntar: “tá me ouvindo agora?“. Ele diz: ´´Alô? Alô? Não escuto nada!“. Você aumenta a voz e se dá conta de que não adianta. Ele não te ouve. Na impossibilidade de comunicar o que você gostaria de maneira eficiente, clara, você encerra a chamada.

Algo semelhante vai ocorrer quando há a invalidação das emoções.

A invalidação emocional ocorre quando alguém comunica sua emoção, o que está sentindo e somos incapazes de compreender. Para quem comunica, fica a impressão de que sua mensagem foi errada ou inapropriada.

Ainda muito precocemente ensinamos as crianças a lidarem com as suas emoções. A família desempenha um papel significativo nesse processo, estimulando a criança a expressar o que lhe é importante. O modo como se sente, as suas convicções e suas preferências são levadas em conta. Por outro lado, ambientes invalidantes tendem a não responder às comunicações feitas pela criança ou exigem que ela não expresse suas emoções, especialmente quando se tratam de emoções negativas.

Isso pode contribuir para que haja uma dificuldade em alterar ou regular condições emocionais, que rapidamente se acentuam e passam a ser percebidas como tensões praticamente insuportáveis, difíceis de serem toleradas e para as quais se busca, frequentemente, tentativas disfuncionais de regulação, como o consumo demasiado de bebidas alcóolicas.

Engana-se quem pensa que a invalidação acontece apenas na infância, quando os pais dizem à criança que não chore porque o que ela sente não é nada demais ou quando simplesmente ignoram seu choro.

Dizer a um adolescente que sua tristeza não se justifica, afinal ele tem tudo o que necessita para ser feliz. Dizer a alguém que o que lhe aconteceu não é tão grave assim, afinal isso nem é tão ruim quanto parece. Pedir a alguém que se levante e faça suas coisas porque depressão é coisa de fraco. Isso tudo contribui para dizer para essas pessoas que seus sentimentos não são válidos, não são legítimos.

Imagino que muitos de nós já dissemos palavras, até mesmo positivas, na esperança de que pudessem levar alento e encorajamento para as pessoas. Mas não é apenas sobre o que se fala. É sobre o que se ouve e como isso repercute num momento de fragilidade, de vulnerabilidade emocional.

Quando dizemos a alguém que não deveria se sentir desse jeito, talvez desejássemos dizer que não gostaríamos que essa pessoa estivesse passando pela dita situação, que gostaríamos que o mundo fosse mais gentil com ela, que a vida fosse mais leve. Mas ao falarmos que ela não deveria se sentir assim, estamos mencionando que seus sentimentos não fazem sentido, que a maneira como se sente deveria ser outra, fazendo, mesmo que sem perceber, um julgamento.

Validação é conferir verdade àquilo que se sente.

É respeitar e compreender o que o outro está sentindo e ajudá-lo a elaborar e superar esse momento.

É simplesmente dizer: estou aqui. Me diga como se sente. Posso compreender. Se tiver algo que eu possa fazer para que você se sinta melhor, por favor me diga.

Alô? Pode continuar… eu consigo te ouvir claramente.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Nossos heróis de cada dia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A minha primeira ida ao cinema aconteceu no final da década de 70, para assistir a Superman: o filme, com Christopher Reeve no papel de Clark Kent, retrata um repórter que, ao deparar com uma situação que coloca em risco a vida de sua colega de trabalho, Lois Lane ( Margot Kidder), revela seus super poderes. Ao longo do enredo, torna-se responsável por desviar um ataque de míssil, minimizar os efeitos de uma explosão nuclear e, ainda, alterar a passagem do tempo para salvar sua amada.

Nos dias que se seguiram, era muito comum que eu e meus irmãos colocássemos toalhas de banho amarradas no pescoço, nossas capas, para exibirmos nossos superpoderes, que incluíam pular de um sofá para o outro.

Na atualidade, outros heróis fazem mais sucessos, especialmente aqueles criados pela Marvel, mas os ideais continuam os mesmos: combater os inimigos e criminosos, numa luta incansável para que o bem vença o mal.

Apesar de parecer uma criação da nossa sociedade moderna, heróis com superpoderes são descritos em diferentes culturas e desde tempos remotos, como aqueles retratados em histórias mitológicas da Grécia Antiga.

Na mitologia grega, os heróis eram personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais, superiores aos dos humanos, como inteligência e força, que os tornavam capazes de vencer inimigos ou atuar em missões impossíveis; por outro lado, como não eram deuses, apresentavam algumas fragilidades psicológicas ou corporais, semelhantes aos seres humanos.

Hércules, por exemplo, era conhecido por sua força física. Foi capaz de vencer doze tarefas difíceis que lhe foram propostas, mostrando-se poderoso contra seus inimigos. Matou diversos monstros, ganhou todas as categorias dos jogos olímpicos e venceu a própria morte.

Seja através da mitologia grega ou dos personagens da Marvel, as aventuras e fantasias criadas pelas ações dos super-heróis, de certo modo, resgatam um ideal coletivo: a esperança de que a justiça prevaleça e que o bem se perpetue.

Especialmente em momentos nos quais sobram desafios a serem superados, e na ausência de medidas eficazes que possam resgatar direitos básicos, como segurança, comida e vacina, o faz de conta parece invadir nossa imaginação.

Aguardamos pelo momento no qual um grande feito seja realizado e atinja a todos de maneira equitativa. Aguardamos pelo momento no qual atrocidades e injustiças não aconteçam mais.

Possivelmente, essa expectativa se desenvolve como um modo de proteção diante de noticias e realidades tão difíceis de serem assimiladas. Buscamos na fantasia um universo paralelo, capaz de resgatar a esperança,  apesar das durezas da vida.

 Talvez a nossa imaginação ou ideias prévias nos permitam pensar nos heróis como aqueles que são capazes de vencer monstros e ataques, exterminam inimigos e realizam feitos impossíveis a nós, seres humanos.

No entanto, provavelmente, um olhar mais cuidadoso nos revele a existência de pessoas que, apesar de não terem poderes especiais, realizam diariamente ações que modificam a vida alheia. Não apresentam forças sobrenaturais ou coragem extrema, mas agem na vida cotidiana atendendo aos interesses coletivos.

Imagino que você, assim como eu, consiga se recordar de algumas dessas pessoas, frequentemente anônimas, que nos ensinam que o verdadeiro heroísmo não é um dom ou algo além dos limites humanos. Pelo contrário. São pessoas comuns, talvez raras, mas comuns; nas quais poderíamos nos inspirar e descobrir que não são as capas ou os símbolos que as diferenciam.  Não é coragem excessiva. É determinação em fazer o que deve ser feito.

Duelam bravamente todos os dias e, muitas vezes, enfrentam lutas internas que quase as fazem fraquejar, porém, se levantam, não se intimidam com os obstáculos.

E, semelhantes ao heróis dos quadrinhos ou do cinema, passam por nós disfarçados de médicos, bombeiros, professores, vizinhos, amigos, desconhecidos. Heróis de uma vida real que reasseguram a esperança de que os vilões ainda serão derrotados e que poderemos viver seguros e felizes nesse nosso planeta.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Às mães atípicas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Especialmente na semana que comemoramos o Dia das Mães, o estereótipo materno invade os meios de comunicação, enaltecendo aquela que sabe de todas as coisas, que é a rainha do lar, capaz de tudo suportar. 

Ao longo do tempo,  o conceito de maternidade sofreu profundas mudanças históricas e culturais, mas a manutenção de uma visão poética e romantizada, por vezes, limita discussões e não corresponde à realidade de inúmeras mulheres. 

Maternidades típicas e atípicas.

Maternidade que por vezes vai além da noite mal dormida, da dúvida entre o aleitamento materno ou a mamadeira, do choro de cólica ou de colo.

Mães atípicas.

Sua maternidade é construída com o filho que tem deficiência,  transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.

Falo sobre essas mães. Mães que muitas vezes são esquecidas.

Descobriram com a maternidade uma jornada de desafios que excedem os padrões.

Frequentemente estão sozinhas ou são acompanhadas por olhares que englobam um misto de pena e responsabilização.

Onde falharam?

A pergunta que também ressoa em seus pensamentos, gerando culpa e impotência.

Não falharam.

Fizeram e fazem o melhor que podem, mas como não são heroínas, e sim mulheres de carne e osso, nem sempre conseguem fazer tudo o que gostariam.

Por vezes faltam recursos financeiros e educacionais, acesso a tratamentos adequados, apoio familiar, medidas governamentais. Mas não faltam o seu empenho, a sua dedicação, seu amor genuíno e uma vontade de seguir em frente mesmo quando parece não haver mais energia capaz de sustentar o seu corpo cansado, exausto pela rotina.

Lutam batalhas mais penosas, quando precisam exigir que seus filhos sejam incluídos e não sofram os preconceitos de uma sociedade cuja medida de valor se baseia excessivamente na análise  de desempenhos acadêmicos e sucessos profissionais em detrimento do afeto.

Perdem a paciência, sentem  tristeza. Perdem o sono, sentem medo. 

Vocês não são perfeitas, queridas mães. E está tudo bem. O que não vai bem é a nossa incapacidade de acolher a sua preocupação e o seu pranto, de conhecer as suas necessidades e lhes oferecer uma ajuda eficaz.   

Sim. Nós que somos mães, pais, filhos ou irmãos típicos, estamos falhando com vocês.

Parabéns para cada mãe. Para cada uma que apesar de não ter superpoderes, pode simplesmente ser. E isso, vamos combinar, já dá um trabalho danado!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Carecemos de presença

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Khoa Võ no Pexels

Queria escrever um texto suave que falasse de esperança e prosperidade.

Queria escrever sobre meninos correndo livres pelas ruas e praças.

Sobre pessoas e abraços apertados. 

Mas há uma ausência de palavras.

O tempo, que antes parecia um aliado, agora nos escapa, nos confunde.

O presente, marcado por escassez de novidades, reforça em nossas memórias uma melancolia sorrateira, daquelas que precisamos vigiar para não enveredar.

É preciso um certo esforço para que o coração seja acalmado. É preciso um certo esforço para evitar que ele retenha feridas de uma face da realidade, ainda pouco conhecida.

Resistimos.  E pouco a pouco, com esperança tímida, imploramos ao futuro que se encarregue das mudanças que nos permitam sorrisos, afagos, encontros.

Somos equilibristas nessa tal linha da vida…

O que nos sustenta? Não estamos sós. 

Somos a somatória das pessoas que passam por nós. Por vezes, esquecidas ou distantes, mas nunca ausentes; porque de certo modo, carregamos cada uma dentro de nós.

Sua presença repercute em nossas crenças, medos e expectativas. Sua presença ressoa no olhar acolhedor, nas mãos que nos amparam ou nas palavras que nos encorajam.

Carecemos de presença.

Dessas que nos permitam percorrer um caminho que nos leve a encontrar um sentido e seguir com esperança.

Desejamos ser presença. 

Dessas que permitam ao outro percorrer um caminho mais feliz, com uma vida digna e um futuro melhor. 

Como diria Saint-Exupéry:

“O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça”.

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O que o passado nos ensina sobre as escolhas do presente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de PixxlTeufel por Pixabay 

“O que poderia ter sido e o que foi

Apontam para um único fim, sempre presente.

Passos ecoam na memória 

Pelo caminho não escolhido

Rumo à porta que nunca abrimos.”

T.S.Eliot, “Burnt Norton”

Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.

Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.

A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas. 

As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal. 

Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais. 

Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.

Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo. 

Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.

Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos. 

No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.

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A teoria do furinho na blusa e a autocompaixão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

            

Foto de Ismael Sanchez no Pexels

Há alguns anos, quando eu ainda tinha um consultório na cidade de Vitória, uma das minhas funcionárias – diga-se de passagem uma das pessoas mais amáveis que já conheci – tinha um comportamento que despertava minha atenção. Ao receber um elogio, seja de um profissional da clínica ou de um cliente, ela não menosprezava o que havia acabado de ouvir e sempre tinha uma resposta que reforçava a veracidade de suas qualidades.

Um dia, ouvi alguém comentar que sua blusa era muito bonita, e ela prontamente respondeu: “Muito obrigada. Eu também acho essa blusa linda”.

Aquilo me fez refletir sobre como lidamos diante da forma como as pessoas pensam e agem sobre nós mesmos.

Semelhante a outras aprendizagens, muito precocemente descobrimos que diante de elogios devemos evidenciar para os outros as nossas falhas, fraquezas ou erros, como uma demonstração de humildade. 

A partir disso, nos tornamos severos conosco. Buscamos modelos de perfeição em tudo que somos e fazemos e, diante de alguns tropeços, temos uma tendência a sermos muito autocríticos, intolerantes com os nossos sentimentos, culpados pelas nossas ações.

Esse exemplo da minha funcionária me fez criar a “teoria” do furinho na blusa. Explico: imagine que alguém diz para você que sua blusa é linda e você prontamente reage alegando coisas como: “mas ela não custou quase nada, ela é tão velha e você não viu esse furinho que tem aqui!”.

Quantas vezes somos admirados, reconhecidos e valorizados por quem somos, mesmo que um pouco desbotados ou com furinhos que marcam nossa trajetória, e não nos apropriamos desse reconhecimento. Pelo contrário, invalidamos o elogio, invalidamos a nós mesmos, com desculpas de não sermos perfeitos.

Queremos saber todas as respostas para o curso que acabamos de iniciar. Queremos bater as metas do mês em seus primeiros dias… Se não somos absolutamente a melhor versão de nós mesmos, automaticamente reconhecemo-nos como uma fraude, um fracasso.

Essa busca exagerada por modelos de perfeição é tão sabotadora que em geral nos leva à procrastinação. Deixamos de agir, de concluir tarefas ou até mesmo de aceitar boas possibilidades porque julgamos não estarmos prontos ou não sermos bons o suficiente para as demandas da situação

O curioso é que muitas vezes, somos compreensivos com as demais pessoas, somos solidários com os seus sentimentos e com seus erros, mas elevamos o padrão de exigências conosco, aumentando os sentimentos de culpa. Usamos de dois pesos, duas medidas. Somos mais compassivos com os outros do que com nós mesmos, porque nos esquecemos que as pessoas passam por nossa vida, mas nós permaneceremos nela.

Carecemos de autocompaixão, ou seja, de sermos capazes de agir conosco da melhor forma, com a qual agiríamos com as outras pessoas. 

Seja gentil com você, se perdoe por seus erros, se apoie e seja amável. E quando receber um elogio ou reconhecimento, antes de verbalizar aquelas várias frases prontas capazes de diminuírem suas qualidades, lembre-se do exemplo da blusa, e ao invés de sair mostrando para o outro aquele defeitinho, saiba que ele pode até não ser o detalhe mais virtuoso, mas está longe de representar a totalidade do ser. 

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Temos o direito à tristeza

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Bruno Bueno no Pexels

A pandemia não é mais uma condição recente, no entanto, a impressão que temos é que a cada semana os fatos se renovam, infelizmente, sem trazer alívio ou contento. Atitudes desgovernadas, baixa adesão da população aos meios de distanciamento social, números que selam um momento muito doloroso. Diante desse cenário, torna-se difícil, por mais otimistas e esperançosos que sejamos, conseguirmos manter as emoções sempre positivas.Mas deveria ser assim?

Num mundo que se acostumou a buscar soluções imediatas e simplistas para lidar com as dificuldades da vida e a estampar nas diversas fotos que alimentam as redes sociais um excesso de felicidade, sentir tristeza, raiva ou solidão parecem ultrajantes.

Robert Leahy, um dos maiores estudiosos em Terapia Cognitiva, alerta para a busca pelo perfeccionismo emocional. Para o autor, há uma crença – errônea – de que as emoções devem ser boas, felizes e descomplicadas. Isso nos torna incapazes de tolerar a tristeza, a frustração e outros sentimentos desagradáveis, desconsiderando que justamente esse leque de emoções é que nos permitiu a adaptação aos riscos e às demandas da vida em um mundo repleto de escassez e perigo, como aquele vivenciado por nossos ancestrais pré-históricos.

O distanciamento das emoções dolorosas se assemelha a uma ingenuidade emocional, capacitando a negação da realidade, e restringindo, portanto, nossas decisões voltadas para a solução dos problemas atuais de maneira realista e produtiva.

Essa supressão dos sentimentos e a cobrança por atitudes constantemente positivas têm sido apontadas como “positividade tóxica”, termo cunhado a fim de nos alertar sobre os riscos da invalidação de sentimentos, próprios ou de terceiros, através de frases como: “good vibes only” (em tradução literal, boas vibrações apenas). 

Na contramão do benefício, atitudes como essa, em geral, aumentam a percepção de inadequação, gerando culpa e vergonha pelos sentimentos experimentados.

Não falo sobre cultivar os sentimentos que são desagradáveis, mas sobre vivenciá-los integralmente, compreendendo que fazem parte da existência humana. 

Nada dura para sempre. Nem as situações nem as emoções. Que saibamos viver nossas dores, com respeito e compaixão, e que isso nos permita o crescimento e a construção de dias melhores, para que também possamos vivenciar plenamente  os momentos de gratidão e de felicidade.

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A vida nos apresenta oportunidades disfarçadas de limitações

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A autora e sua arte

Na minha infância, às vezes, me sentia um pouco diferente de outras crianças. Explico: nunca pude comer doces.

— ´´Mas nem um docinho? “

— “Não, nenhum.”

Lembro-me de algumas situações: quando a aula terminava e na saída da escola estava o “tio” do carrinho de doces. Eu dava uma passada com os olhos naqueles pirulitos coloridos e achava o máximo, mas ia embora sem comprar nenhum. Nas festas de aniversário, todos aguardavam ansiosos o momento de cantar parabéns, porque isso significava a hora do bolo e dos docinhos. Para mim, era encantador ver a decoração do bolo e dos doces, imaginando como teriam sido feitos. Na Páscoa, quando todos recebiam um ovo de chocolate, eu gostava mesmo era de ganhar um queijo bem gostoso!

Eu e um dos meus irmãos temos frutosemia, uma alteração genética caracterizada pela incapacidade de metabolizar a frutose, um tipo de açúcar presente em frutas, alguns legumes e inúmeros alimentos industrializados que contenham açúcar ou adoçantes em sua composição. No nosso caso, o grau de intolerância é grave, o que nos restringe totalmente o consumo desses alimentos, desde que éramos bebês, provocando náuseas, vômitos, suores frios, dentre outros sintomas. 

Não sei se o fato de comer doces e passar mal foi o que causou a aversão, mas não tenho nenhuma atração por doces. É realmente aversivo. No entanto, a restrição ao consumo de doces, na prática, nunca foi um problema. O verdadeiro desafio sempre foram os alimentos que, mascarados por outros sabores e temperos, continham açúcar dentre seus ingredientes.

Talvez a aversão nos conduza à paixão.

Assim, fui me empenhando no estudo da confeitaria. Desde pequena, fazia meus bolos confeitados e descobri na elaboração e preparo de receitas doces, uma ótima maneira de me divertir, me distrair, de usar a criatividade e, de certo modo, ir além das minhas próprias limitações. Uso as cores, odores e a textura dos alimentos para chegar à versão final de uma receita, visto que experimentar é uma impossibilidade. Além disso, conto com ajuda das pessoas com as quais convivo na tarefa de provarem e opinarem, a fim de aprimorá-la.

Um dia, já adulta, conheci a história do chefe americano Grant Achatz. Durante sua ascensão profissional nos Estados Unidos, em decorrência de um câncer na língua, perdeu o paladar. Achatz contratou quatro subchefes, que experimentavam suas receitas, e, no ano seguinte, foi considerado o melhor chefe americano, sem conhecer o sabor de suas criações.

Sem a pretensão de aproximar-me dessa história incrível, compreendi que podemos nos valer de vários recursos para atingirmos um objetivo, ainda que tenhamos limitações ou restrições.

Todas as privações, de algum modo, nos causam incômodos. Talvez a diferença esteja em obter algum grau de satisfação, apesar desse desconforto experimentado.

Para mim, preparar os doces é uma atividade que me traz inúmeras alegrias, mas a maior gratificação fica por conta de ver a satisfação das pessoas que os consomem.

As restrições não impedem o engajamento.

Nesse caso, falo de doces, mas poderia discutir sobre o uso de máscara, sobre ficar em casa ao invés de ir a uma festa ou viagem, sobre uma gentileza ou uma ação na qual podemos nos engajar socialmente. A vida, frequentemente, nos apresenta oportunidades disfarçadas de limitações. Longe de buscar a romantização dessa trágica situação que vivemos, é importante nortearmo-nos a partir daquilo que podemos aprender com ela. Ao aprimorar nossa capacidade de enxergar o outro, muitas vezes a visão sobre o propósito da vida torna-se nítida.

Aproveito e preparo um bolo. Envio para amigos, esperando que possam comemorar como se estivéssemos próximos apesar da distância imposta e necessária, que se sintam queridos e que isso lhes traga um pouco de doçura, num momento tão amargo. E, embora não duvide de sua alegria ao receber o presente, guardo a certeza de que quem mais ganhou fui eu.

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Carta ao Presidente: “conversar sobre o suicídio é medida de conscientização, expor publicamente o relato de alguém é colocar em risco a vida de pessoas”

Foto: Pixabay

Carta ao Exmo Sr Presidente Jair Bolsonaro,

Senhor presidente, sobre a carta lida na última quinta-feira, em live publicamente realizada, gostaria de propor algumas considerações que são fundamentais quando falamos sobre o suicídio. Espero, como profissional da saúde mental, que o senhor nunca tenha experimentado em sua vida pessoal, sobre si  ou referente as pessoas a quem o senhor ama, a dor que essa situação  provoca.

Nós, profissionais da saúde, trabalhamos para amenizar a dor de milhares de pessoas que sofrem no mundo inteiro, sem distinção de gênero, raça ou credo e auxiliá-las a conseguirem comportamentos mais saudáveis, mais ajustados, que impeçam a concretização do suicídio.

Vidas são vidas. Salvá-las é nosso dever.

Todos os anos, senhor presidente, aproximadamente 800 mil pessoas morrem por suicídio e, para cada um concretizado, há um número ainda maior de tentativas. Esses dados são especialmente alarmantes, quando sabemos que o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens na faixa etária de 15 a 29 anos em nosso país.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, em média a  cada 46 minutos uma pessoa tira a própria vida. 

Infelizmente, há muitos casos de suicídio no momento atual, mas esse fenômeno não é observado exclusivamente por conta da pandemia ou de medidas restritivas.

Dentre os fatores que podem levar ao suicídio, estudos apontam que aproximadamente 90% dos casos estão relacionados a transtornos mentais, na maioria das vezes a depressão, que embora acometa pessoas de todos os níveis socioeconômicos, é mais prevalente em países de baixa renda, por estar associada à pobreza e à violência. 

Os dados apontam um aumento da prevalência dos transtornos mentais em decorrência da pandemia, especialmente depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Em geral, os sintomas podem estar associados às perdas econômicas, mas incluem ainda o medo do adoecimento, as  medidas invasivas adotadas  e risco à vida, como a necessidade de intubação e a morte de familiares. 

Há ainda um fator para o qual precisamos nos atentar, que se refere ao desgaste excessivo a que são submetidos os profissionais da linha de frente, motivo pelo qual tem havido um aumento dos transtornos mentais nesse grupo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), medidas  preventivas em saúde mental podem reduzir em até 90% os casos de suicídio.

Permita-me dizer, senhor presidente, medidas preventivas não englobam colocar três máscaras e sair no meio do povo, como sugerido em sua live. Isso não é uma medida preventiva ou apoio à população. Isso é politicagem. 

Usar o exemplo da perda da vida de alguém por suicídio, na tentativa de evidenciar qual político está certo em suas decisões, é, no mínimo, uma banalização da vida, uma tentativa de superficializar questões que são mais densas e profundas e que desconsideram o sofrimento emocional e a saúde mental da população. 

Medidas preventivas englobam ações de saúde pública, como campanhas de conscientização sobre os riscos do suicídio e, principalmente, o acesso ao diagnóstico e intervenções eficazes, ou seja, o acesso a serviços de saúde mental, como aqueles oferecidos nos CAPSs.

Conversar sobre o suicídio é uma medida de conscientização importante. Entretanto, expor publicamente o relato de alguém que escreveu uma carta antes de cometê-lo, numa ação não planejada e espetaculosa, pode ser um fator precipitante para pessoas mais vulneráveis e que não veem saída para sua dor insuportável e desesperança, além de tirar a própria vida. 

A dor causada pelo suicídio não é exclusiva de quem o comete. Há uma dor imensa de pais e mães que não poderão mais abraçar os seus filhos e que todos os dias, ao colocarem suas cabeças no travesseiro, vão pensar o que poderiam ter feito para evitá-lo. 

Há filhos que sofrerão a ausência de seu pai ou sua mãe, muitas vezes em idades tão precoces, que precisarão amadurecer e cuidar de si, experimentando uma enorme sensação de desamparo. Não terão nunca mais esse ente querido para dividir suas alegrias ou receber um afago nos momentos de angústia.

Reitero senhor presidente que espero,  verdadeiramente, que o senhor e sua família nunca experimentem a devastação e a dor que o suicídio provoca.

Finalizo, como psicóloga e mãe,  me solidarizando com essas famílias que passam por essa terrível situação, e posso dizer ao senhor que por vezes os dias são muito difíceis, especialmente quando precisamos nos manter inteiros, apesar de estarmos em cacos, fragmentados pelo que nos assola e pela nossa própria impotência em auxiliar os que estão a nossa volta.  

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Vamos cuidar de nossas garotas e garotos, interrompidos

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de NEOSiAM 2021 no Pexels

O filme “Garota, interrompida”, do diretor James Mangold, conta a história de Susanna Kaysen, uma jovem que ao fim da adolescência foi internada para tratamento em um hospital psiquiátrico, após uma tentativa de suicídio. Além de retratar a história de Susanna, o filme mostra como eram realizados os tratamentos psiquiátricos na década de 60, nos quais o paciente era isolado da sociedade, havia pouco ou nenhum conhecimento de sua patologia e prevalecia o estigma sobre o conceito de loucura.

As características apresentadas por Susanna envolvem dificuldades no controle das emoções — ora mais eufóricas ora muito tristes –- e no controle dos impulsos. Classificado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o Transtorno de Personalidade Borderline está caracterizado por um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e dos afetos, além da impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta.

As pessoas que apresentam esse transtorno vivenciam medo intenso de abandono e acentuada reatividade de humor, sendo muito frequente a irritabilidade, raiva ou tristeza, que dura, em geral, algumas horas. Essa labilidade emocional se expressa muitas vezes em comportamentos imprevisíveis, gerando inconstâncias sobre a própria identidade, o que promove um sentimento de vazio.

Ademais, é bastante frequente a ocorrência de comportamentos suicidas ou de automutilação, como uma tentativa de resposta ao sofrimento emocional intenso. As causas do Transtorno de Personalidade Borderline ainda não são totalmente conhecidas, mas os estudos indicam a combinação de fatores biológicos com fatores ambientais. A ocorrência de abuso físico e/ou sexual, negligência ou perda prematura dos pais são vivências frequentes entre os portadores dessa condição clínica. 

Muitos desses pacientes apresentam uma história de vida caracterizada por uma infância livre de sinais que sugeririam a presença do futuro diagnóstico, com bom desenvolvimento nas atividades escolares e sociais. No entanto, suas famílias e o próprio paciente notam mudanças significativas em seus comportamentos, em geral, durante a passagem da adolescência. O diagnóstico é dificultado, uma vez que a adolescência é um período marcado por grandes instabilidades emocionais e comportamentais, sugerindo respostas diferentes ao problema central.

Atualmente, o tratamento é ambulatorial e conta, essencialmente, com a psicoterapia e a farmacologia a fim de regular as emoções e promover respostas comportamentais mais saudáveis, mais adaptadas. O Transtorno de Personalidade Borderline apresenta bom prognóstico, com remissão ou redução de sintomas a longo prazo. 

Como a maioria dos distúrbios mentais, o transtorno em questão provoca sofrimento ao paciente e a suas famílias. Compreender que a instabilidade emocional e que as reações comportamentais extremas não são voluntárias ou produzidas para manipular as outras pessoas pode levar tempo e causar desgaste extremo. Se o sofrimento acomete a família, ele atinge de maneira mais intensa o paciente, que muitas vezes vê apenas a dor física ou a morte como ferramentas capazes de reduzir a dor emocional que carrega consigo.

Precisamos agir. São vidas, na sua maioria jovens, definidas pela dor, que se perdem todos os anos, as quais poderiam ter sido poupadas.

Favorecer o diagnóstico e intervenções precoces são importantes, porém, ainda se faz necessário que estigmas e preconceitos sejam rompidos, independente da patologia ou do transtorno mental apresentado. Obter um diagnóstico não deve rotular o paciente, escancarando suas dificuldades ou limitações, mas deve propiciar a realização de terapias direcionadas às suas necessidades.

Para além disso, somos chamados a abrir os olhos para os transtornos mentais como algo que pode acontecer com qualquer pessoa, independentemente de gênero ou condição socioeconômica. Somos chamados a abrir os olhos e sair da ignorância que nos cerca por acreditarmos que somos superiores por não estarmos adoecidos e o outro é alguém que deva ser zombado, marginalizado ou excluído.

 Revisar os papéis que cada um desempenha no ato de viver a sua humanidade pode aumentar a solidariedade e empatia, promovendo mudanças em cada um e em todos nós enquanto sociedade.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung