Vamos cuidar de nossas garotas e garotos, interrompidos

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de NEOSiAM 2021 no Pexels

O filme “Garota, interrompida”, do diretor James Mangold, conta a história de Susanna Kaysen, uma jovem que ao fim da adolescência foi internada para tratamento em um hospital psiquiátrico, após uma tentativa de suicídio. Além de retratar a história de Susanna, o filme mostra como eram realizados os tratamentos psiquiátricos na década de 60, nos quais o paciente era isolado da sociedade, havia pouco ou nenhum conhecimento de sua patologia e prevalecia o estigma sobre o conceito de loucura.

As características apresentadas por Susanna envolvem dificuldades no controle das emoções — ora mais eufóricas ora muito tristes –- e no controle dos impulsos. Classificado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o Transtorno de Personalidade Borderline está caracterizado por um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e dos afetos, além da impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta.

As pessoas que apresentam esse transtorno vivenciam medo intenso de abandono e acentuada reatividade de humor, sendo muito frequente a irritabilidade, raiva ou tristeza, que dura, em geral, algumas horas. Essa labilidade emocional se expressa muitas vezes em comportamentos imprevisíveis, gerando inconstâncias sobre a própria identidade, o que promove um sentimento de vazio.

Ademais, é bastante frequente a ocorrência de comportamentos suicidas ou de automutilação, como uma tentativa de resposta ao sofrimento emocional intenso. As causas do Transtorno de Personalidade Borderline ainda não são totalmente conhecidas, mas os estudos indicam a combinação de fatores biológicos com fatores ambientais. A ocorrência de abuso físico e/ou sexual, negligência ou perda prematura dos pais são vivências frequentes entre os portadores dessa condição clínica. 

Muitos desses pacientes apresentam uma história de vida caracterizada por uma infância livre de sinais que sugeririam a presença do futuro diagnóstico, com bom desenvolvimento nas atividades escolares e sociais. No entanto, suas famílias e o próprio paciente notam mudanças significativas em seus comportamentos, em geral, durante a passagem da adolescência. O diagnóstico é dificultado, uma vez que a adolescência é um período marcado por grandes instabilidades emocionais e comportamentais, sugerindo respostas diferentes ao problema central.

Atualmente, o tratamento é ambulatorial e conta, essencialmente, com a psicoterapia e a farmacologia a fim de regular as emoções e promover respostas comportamentais mais saudáveis, mais adaptadas. O Transtorno de Personalidade Borderline apresenta bom prognóstico, com remissão ou redução de sintomas a longo prazo. 

Como a maioria dos distúrbios mentais, o transtorno em questão provoca sofrimento ao paciente e a suas famílias. Compreender que a instabilidade emocional e que as reações comportamentais extremas não são voluntárias ou produzidas para manipular as outras pessoas pode levar tempo e causar desgaste extremo. Se o sofrimento acomete a família, ele atinge de maneira mais intensa o paciente, que muitas vezes vê apenas a dor física ou a morte como ferramentas capazes de reduzir a dor emocional que carrega consigo.

Precisamos agir. São vidas, na sua maioria jovens, definidas pela dor, que se perdem todos os anos, as quais poderiam ter sido poupadas.

Favorecer o diagnóstico e intervenções precoces são importantes, porém, ainda se faz necessário que estigmas e preconceitos sejam rompidos, independente da patologia ou do transtorno mental apresentado. Obter um diagnóstico não deve rotular o paciente, escancarando suas dificuldades ou limitações, mas deve propiciar a realização de terapias direcionadas às suas necessidades.

Para além disso, somos chamados a abrir os olhos para os transtornos mentais como algo que pode acontecer com qualquer pessoa, independentemente de gênero ou condição socioeconômica. Somos chamados a abrir os olhos e sair da ignorância que nos cerca por acreditarmos que somos superiores por não estarmos adoecidos e o outro é alguém que deva ser zombado, marginalizado ou excluído.

 Revisar os papéis que cada um desempenha no ato de viver a sua humanidade pode aumentar a solidariedade e empatia, promovendo mudanças em cada um e em todos nós enquanto sociedade.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

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