Terapia de férias!

O sol amanhece no mar. Foto de Mílton Jung (sim, eu mesmo fiz pra relaxar)

Estou de férias. Sim, sou um privilegiado neste país em que é enorme a quantidade de pessoas que antes de pensar no direito às férias batalham pelo direito ao trabalho. Não, não sou um ‘folgado’ como querem fazer acreditar alguns amigos de redação – em especial aqueles três que batem papo comigo no ‘Hora de Expediente’. 

Deixo claro que ao escrever que estou de férias já na primeira frase desse texto, não tenho a intenção de atacar a imagem e reputação de ninguém. Nem dos que saem de férias nem dos que trabalham. Menos ainda daqueles que consideram uma acusação maldosa dizer que a pessoa está de férias, só porque ficou alguns dias afastado do trabalho, dançando funk na lancha, fazendo peripécias em jet ski, cavalo de pau em carro esportivo, engolindo camarão e passeando em meio ao aglomerado na praia. Nós sabemos o trabalho que isso dá!

Dito isso, volto ao tema que me propus escrever, na expectatica de não ser alvo de ataques dos caros e cada vez mais raros leitores deste blog.

Por mais que a ideia das férias seja descansar, desligar, desconectar e mais uma série de outros verbos iniciados pelo prefixo que significa tanto negação quanto reversão, tem hábitos que somos incapazes de abandonar. 

((Somos é muita gente, diria minha mãe. Que, aliás, tinha um conceito bem interessante para férias: qualquer coisa que não me faça trabalhar mais fora do que quando estou em casa)).

Pra colocar a frase na devida proporção: tem hábitos que EU não sou capaz de abandonar, mesmo nas férias. Se você também for assim, conta para mim, vista a camisa e entre no meu time. Levantar cedo da cama é um desses hábitos. Costumo acordar pouco depois das quatro da manhã para trabalhar. Nas férias, o relógio que move minha mente, mesmo que atrase um pouco mais, desperta por volta das cinco.  Nem sempre saio da cama neste horário. Insisto. Estico. Viro de um lado. Vou para o outro. Desisto. 

A partir das cinco, a mente começa a trabalhar independentemente do meu desejo. É como se eu não tivesse controle sobre ela. Me ajuda, Simone! 

Nos últimos dias, mesmo que aparentemente esteja dormindo, a mente teima em resolver problemas que não existem: o Juca vai entrar na hora certa? Qual o assunto do Cortella? E se não fechar a conexão com a GloboNews? É como se todas aquelas questões que se justificam no cotidiano da redação continuassem a perturbar quando eu deveria estar relaxado. Socorro, dr. Alexandre!

Leio especialistas que garantem que os efeitos das férias são evidentes do ponto de vista biológico. Dizem que, além do equilíbrio da mente (?), encontra-se o ponto ideal para os níveis de cortisol, hormônio que ajuda a controlar o estresse; reduz-se inflamações; e se melhora o sistema imunitário. Estou precisando mesmo, diante da quantidade de vírus e irresponsáveis que nos cercam.

Como ainda não falei com a minha amiga e colega de blog, a psicóloga Simone Domingues, nem escrevi para o Dr Alexandre de Azevedo, especialista em sono, que conheci em programa com Márcio Atalla e assisti no canal Dez Por Cento Mais, não tenho respostas baseadas na ciência para essa encrenca que me meti. 

Minha solução caseira tem sido bem simples: a mente começou a trabalhar, levanto da cama, a hora que for, e inicio um processo de descompressão. Observo o horizonte – um tanto privilegiado diante do local que escolhi para passar minha férias -, presto atenção no barulho do mar, na passarinhada que faz a festa no meu entorno, no sol que começa a ofuscar os olhos e, principalmente, me aprofundo no silêncio que só a natureza se atreve a quebrar.

Essa tentativa de alcançar o bem-estar mental às vezes é ameaçada pelo desejo de escrever (este texto, por exemplo), de saber o que está acontecendo no mundo ou de planejar a imprevisibilidade do ano. Em lugar da busca de uma ocupação, insisto na preocupação. É uma batalha diária. Leio que 70% das pessoas precisam de uma semana para vencê-la. Devo fazer parte da legião dos 30% que estendem a luta para duas semanas ou mais. Bem mais no meu caso. E ainda reclamam que tiro muitas férias. Minha mente precisa, gente!

Nesse embate diário, você já deve ter percebido que hoje fui derrotado. O texto que você lê é a prova do crime. Deveria estar com o pé na areia, deixando o vento e o mormaço tomarem meu corpo, mas estou aqui diante do computador, assuntando com você. Assim que der o ponto final — e ele estará logo a seguir —  espero ter descomprimido a mente, dando espaço para o prazer e o bem-estar. Se for esse o resultado, obrigado por você estar aqui comigo. Nossa conversa, se não foi rica em informação e bela em palavreado, que ao menos tenha sido terapêutica!

Se me fosse dado um ano inteiro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de abdullah . no Pexels

“Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, 

eu nem olhava o relógio”

Mário Quintana

A contagem regressiva se inicia. Os olhos estão fixos nos ponteiros, indicando que o fim do ano se aproxima… Ou seria o começo?

Esse tal de tempo é mesmo paradoxal: leva consigo aquilo que não podemos reter em nós, evidenciando a impermanência da vida; nos dá coragem para seguir em frente, com uma esperança enorme em dias melhores, em recomeço.

De tão abstrato, transformamos o tempo em horas, datas, fatos marcantes, para caber de maneira cronológica em nossa memória. O jeito que temos para armazenar aquilo que não mais existe.

De tão imprevisível, nos lançamos para o futuro através de sonhos e projetos, tentando driblar nossa incapacidade de controlar as incertezas da vida.

E agora? Agora mudamos o tempo. Apertamos o passo, perdemos os abraços e nos impedimos de ver as coisas simples da vida.

Não temos tempo. 

Ele não se intimida. Não nos dá um consolo com horas extras. Segue sua jornada e voa…

E quando nos damos conta, lá se foi mais um ano.

Há quem diga que não há nada de especial no dia primeiro do ano. Seria um dia como outro qualquer. 

Talvez aí esteja o engano: não deveria existir um dia qualquer. Cada dia deveria ser especial, com uma riqueza de experiências, de sorriso solto, de prazer em estar com quem se ama. 

Fé na vida, desejo de mudança, escolhas que nos façam felizes…

E se te fosse dado um dia? E se te fossem dados muitos dias, um ano inteirinho? O que você faria?

Pense bem. Porque esse tempo se oferece a você e ele está só começando.

Feliz Ano Novo!

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O que é realmente importante para mim?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de David Bartus no Pexels

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente,

o que fazemos para mudar o que somos”

Eduardo Galeano

O que você acha que seria a chave de mudança para você ter uma vida feliz?

Dinheiro? Carros? Reconhecimento? Filhos?

Para os gregos antigos, a sensação de felicidade e realização com a vida seria alcançada ao se viver de acordo com valores, também chamados de virtudes por Aristóteles. Esses valores seriam qualidades de caráter, tais como paciência, coragem, autenticidade, que não seriam naturais ou inatas – sobre as quais não se teria nenhuma interferência. Derivariam da prática, de ações propriamente ditas, tornando-se um hábito.

Desse modo, Aristóteles conceitualiza a virtude como algo que deva ser treinado, através de ações deliberadas, de atitudes que possam nos transformar na pessoa que desejamos ser.

A excelência nesse processo consiste em buscar um equilíbrio apropriado de cada qualidade, através da razão, numa escolha de ações e emoções que conduzam a um meio-termo, para nós e para os outros, evitando faltas e excessos. Por exemplo, a falta de coragem pode ser compreendida como covardia, enquanto seu excesso, pode significar destemor ou audácia.

Por vezes, temos uma tendência a agir pelos extremos, tornando esse caminho do meio-termo a ser percorrido um trajeto difícil.

Somos seres acostumados aos hábitos. Nos sentimos seguros em situações mais familiares. Seguir por caminhos já conhecidos, manter comportamentos que estamos acostumados a ter, por vezes é mais confortável. Não à toa, chamam a isso de zona de conforto.

Desbravar um novo trajeto, traçar um objetivo de quem desejamos nos tornar, de quais qualidades queremos ter, pode ser muito desafiador.

Caminhos antigos são largos, o solo está mais batido. Trilhas pouco exploradas exigem um caminhar mais atento, são pouco sinalizadas, estreitas… causam medo.

Se queremos levar uma vida que vale a pena ser vivida, precisaremos de coragem para desbravar novos caminhos e percorrê-los. Mais do que isso. Precisaremos escolher as sementes que queremos plantar, cultivá-las dia a dia, para que possam florescer.

A propósito, “florescimento” era o termo escolhido pelos gregos para essa mudança, para se viver de acordo com os valores, alcançando a felicidade.

Viver uma vida satisfatória não pressupõe que todas as coisas serão boas ou que nossos sonhos se realizarão. Significa viver aquilo que realmente importa para nós.

Talvez a gente se preocupe em mudar para agradar aos outros, para viver como imaginamos o que os outros esperam de nós. Talvez a gente se preocupe em mudar para sermos mais parecidos com aquilo que vemos nas redes sociais, numa exposição fantasiosa de vida perfeita ou feliz – talvez isso explique mais sobre frustração do que felicidade.

A chave da mudança está dentro de nós. Pode ser mais paciência. Pode ser mais fé. Pode ser menos raiva. Mas somente promoveremos mudanças que nos trarão felicidade, quando perguntarmos para nós mesmos: o que realmente é importante para mim? O que eu desejo fazer para ter uma vida que vale a pena ser vivida?

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A melhor vingança está ao nosso alcance

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Min An no Pexels

Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.

Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse. 

O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.

Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor. 

Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.

A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.

Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.

A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais  energia e fortalecimento do sistema imunológico.  

Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.   

Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que  quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.

Curar um coração ferido leva tempo. 

Quanto tempo? 

Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.

O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!

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Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Julianne Moore em foto-reprodução do filme ‘Para sempre Alice’

“Meus ontens estão desaparecendo e

meus amanhãs são incertos. Então, para que

eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente”

“Para sempre Alice”

            O livro “Para sempre Alice”, de Lisa Genova, conta a história de uma professora universitária que, no auge de sua carreira, começa a ter esquecimentos e a se equivocar em situações cotidianas, recebendo o diagnóstico de Doença de Alzheimer precoce, um dos subtipos de síndrome demencial.

            A síndrome demencial ou demência é caracterizada pela perda das funções cognitivas, como a atenção, a linguagem ou a memória, e pelas dificuldades significativas na realização de atividades da vida diária, como cuidar das finanças.

            Apesar de haver alguns subtipos de demência, a mais conhecida e mais frequente é a demência relacionada à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo início insidioso e pelos lapsos de memória, com evolução progressiva das perdas cognitivas.

            Dentre as principais dificuldades cognitivas encontradas na Doença de Alzheimer, as falhas de memória são as mais frequentes, caracterizadas inicialmente por dificuldades em aprender uma nova informação, como usar um novo aparelho eletrônico, esquecimentos para fatos recentes e a tendência a um discurso mais repetitivo.

            No início da doença, há uma dificuldade em encontrar palavras, tomar decisões e realizar o planejamento e execução de atividades anteriormente realizadas com sucesso.

            A medida que a doença evolui, as perdas cognitivas se tornam mais acentuadas e as alterações de comportamento, que no início sugeriam uma perda de iniciativa ou falta de motivação, se tornam mais intensas, podendo ocasionar uma mudança significativa na personalidade do paciente.

Diante da característica progressiva e irreversível da Doença de Alzheimer, uma condição frequentemente experimentada é o luto antecipado, isto é, o luto que se vivencia antes mesmo da morte.

            A percepção de que se está perdendo a memória e, com isso, toda a sua história de vida, identidade e autonomia, leva inicialmente ao luto o próprio paciente, que se vê fragilizado e impotente diante dessa condição.

            Por outro lado, com a evolução da doença, familiares e cuidadores tentam se adaptar a uma perda anunciada, que envolve o enfrentamento da morte que virá e das várias perdas ao longo do processo, incluindo perdas sociais, econômicas, de sonhos e de companheirismo.

            O professor e neurocientista Ivan Izquierdo, um dos maiores pesquisadores sobre a memória, gostava de destacar que o modo como podemos conceber o tempo é a partir do conceito de memória. O futuro ainda não existe e o presente nos permite a aprendizagem. O passado, que também não mais existe, ainda é possível ser acessado sob a forma de memórias.

            Talvez, por isso, as perdas de memória nos amedrontem: porque escancaram a impermanência das coisas, de nós mesmos.

            Para os que sofrem com as perdas de memória impostas pelo processo demencial, a vida vai se perdendo pouco a pouco da própria mente, reafirmando, para todos nós, a necessidade de se viver intensamente o presente.

            Pode ser que a gente esqueça o dia e o ano. Pode ser que a gente nem mesmo se recorde de quem somos nós. Daí a necessidade de sermos tudo o que pudermos hoje. Como nos provoca a personagem do livro, “esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: e a vida depois do túnel?

Grêmio 1 x 0 Vitória

Copa do Brasil —- Arena Grêmio, Porto Alegre

*este não é um texto sobre futebol

Jean Pyerre em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A  bola mal havia começado a rolar na Arena, e eu ainda tinha compromissos profissionais a cumprir. Online como têm sido todos os que realizo desde o ano passado. Alinhei a tela de dois computadores e mantive um olho no futebol e o outro na mesa redonda. Aliás, uma mesa bem interessante de debate —- bem mais do que o jogo que estava sendo jogado.

Debate rico, pelo tema e pelos convidados. Na série “Paisagens na pandemia”, Jaime Troiano, colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, era o técnico, escalou o time e nos botou a jogar: a Cecília Russo, pelo lado da psicologia; o Emerson Bento, da educação; e o Fernando Jucá, das organizações. Fosse vôlei, eu era o levantador. Como a analogia é com o futebol, sem o talento de Jean Pyerre, mas suando a camisa muito mais do que ele, minha função era distribuir o jogo. Fazer perguntas. Provocar a discussão, no bom sentido.

O jogo que nós estávamos jogando tinha três tempos e nós entramos no terceiro. “Religião e o desamparo humano” pautou o  primeiro capítulo da série, “Casa e família: um reencontro”, o segundo; e a nós ou aos meus companheiros de mesa redonda, coube responder a seguinte pergunta:  “E a vida depois do túnel?”.

Muito mais pela experiência de cada um do que pelas assistências que fiz, Cecília, Emerson e Jucá bateram um bolão, jogaram com  as palavras, fizeram embaixadinhas com o conhecimento e deixaram, cada um do seu jeito, um golaço registrado no placar.

A preleção foi do Jaime que, em lugar de fazer essa pobre analogia com o futebol, nos proporcionou uma viagem ao litoral paulista, em caminho que fazia quando criança, no banco de trás do carro, e para passar o tempo contava quantos túneis havia na estrada. Nunca tinha certeza se haveria, na jornada,  um outro túnel —- alguns intermináveis para ansiedade infantil , como acontece com a gente diante desta pandemia. Lembremos que não é o primeiro túnel que enfrentamos, apesar de ser o mais longo de nossas vidas. Talvez não seja o último, e Jaime chamou atenção para isso e nos propôs pensarmos que lições aprendemos para usarmos assim que este acabar e, quem sabe, um próximo túnel se apresentar.

Cecília aproveitou-se do título de um dos seus livros, “Vida de equilibrista: dores e delícias das mães que trabalham”, para, em vez de dar uma resposta definitiva, apresentar outra pergunta provocativa: 

“Sairemos do túnel com uma prática mais equilibrada da divisão de papéis entre gêneros?”. 

A persistirem os sintomas, não. Mesmo que possamos encontrar casos simbólicos em que homens, tendo de trabalhar em casa, perceberam a necessidade de assumirem uma série de tarefas que antes eram realizadas apenas pela “mulher da casa”, pesquisa do Ibope realizada, neste ano, escancara a realidade doméstica. Ao perguntar para o casal quem organizava determinadas tarefas, o instituto identificou que, de 13 atividades descritas, em apenas duas os homens apareceram como os principais responsáveis: tirar o lixo (53%) e fazer o que precisa de manutenção na casa (69%). Cuidar dos filhos (88%), dos idosos (79%) e dos animais de estimação (59%), preparar a refeição (87%), limpar (87%) e lavar (77%), ficaram por conta das mulheres.

Emerson tem a vivência de mais de 20 anos como executivo de um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, o Bandeirantes. Pegou o gancho da Cecília para lembrar que homens e mulheres, pais e mães, tiveram um choque de realidade ao serem obrigados a ficar em casa com seus filhos e acompanharem o ensino à distância. A começar pelo fato de que, na avaliação dele, muitos dos adultos usavam a escola como uma espécie de depósito de corpos, onde  deixavam os filhos armazenados em um período do dia para poderem fazer suas atividades. Houve casos em que tentou-se repetir essa estratégia, querendo que as crianças cumprissem seu horário de expediente diante do computador, com a escola reproduzindo a grade das aulas presenciais —- não deu certo, é claro. Professores e alunos foram muito mais flexíveis nas tomadas de decisões e conseguiram se adaptar bem melhor do que os pais àquela nova situação. Para Emerson, a experiência do ensino à distância e a expansão do uso da tecnologia serão suportes para o projeto pedagógico a ser realizado assim que sairmos do túnel. No entanto, ‘vai rodar’ quem não investir nas relações socioemocionais: 

“Quando sairmos do túnel, a tecnologia sustentará uma educação mais humana para os humanos”

Emerson

Pensava cá com meus botões analógicos, se seguirmos enxergando a escola como este ‘depósito de corpos’ e terceirizando a educação dos nossos filhos, que seres humanos estaremos preparando para o futuro —- que para alguns está logo ali, na saída do túnel? Nem bem tinha absorvido essa reflexão, o Jucá entrou na jogada. Pegou a bola, colocou embaixo do braço e pediu um tempo, esse produto raro no ambiente organizacional: 

“O ambiente corporativo hoje é uma máquina de fazer loucos ou um espaço fértil para nosso desenvolvimento pessoal?”

Fernando Jucá

A pergunta abriu caminho para ele contar histórias corporativas que ilustravam luz e sombra no mundo do trabalho. Dramas de pessoas que se perderam entre o “home” e o “office” quando os dois cenários se misturaram; de gente que sem ter o “olhar do dono” no cangote do escritório, tentou mostrar produtividade trabalhando muito além da conta; mas também de gestores que perceberam que as relações humanas deveriam prevalecer, a partir do desenvolvimento de uma prática até então pouco comum: a escuta ativa. Ouvir o que outro tem a dizer, auscultar sua alma e compartilhar os sentimentos — tudo aquilo que não aprendemos em anos de ensino superior, cursos de extensão, mestrados e doutorados. Boa lição desta tragédia que vivemos em sociedade.

Como era de se esperar, na conversa que durou hora e meia não se ofereceu uma resposta definitiva. Nem mesmo que tivessem acréscimos, prorrogação, cobrança de penaltis ou jogo de volta, esta reposta seria definitiva. Porque ela não existe. A começar pelo fato de que a pandemia mais do que transformar pessoas, expressou o que as pessoas têm, pensam e são, para o bem e para o mal. Ou seja, o túnel não tem uma só saída. Existem várias. Caberá a cada um de nós fazermos a escolha certa.

E aí, concluo eu, coisa que aliás não consegui fazer enquanto estava embevecido com a fala dos meus colegas: a nós cabe criarmos na família, na escola e no trabalho ambientes eticamente saudáveis porque assim, quando aqueles que estão ao nosso entorno tiverem de decidir qual caminho seguir no fim do túnel terão a oportunidade de fazerem escolhas mais qualificadas.

E quanto ao jogo? Bem, primeiro disse que esta coluna, apesar de vir sob o selo de Avalanche, não seria sobre futebol; segundo, que a vitória mirrada de um a zero contra um time que jogou metade do tempo com um a menos, não me estimulou a qualquer texto; terceiro, confesso, com cinco minutos de bola rolando no nosso debate até esqueci de olhar para a tela em que o Grêmio estava jogando. Lendo alguns comentários esportivos quero crer que ainda termos um longo túnel a percorrer.

A busca pela imperfeição

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: IONEL BONAVENTURE / AFP Site CBN

“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter;

repugna-la-íamos se a tivéssemos.

O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”

Fernando Pessoa

Esparta foi uma das principais cidades-estado da Grécia Antiga, que mantinha sua soberania pautada na austeridade e disciplina militar. A educação espartana era rígida e visava preparar o povo para as lutas, através de treinamentos físicos intensos que promovessem força e resistência, capazes de levar à perfeição e, consequentemente, à derrota do adversário. As relações sociais e familiares ficavam em segundo plano, e aqueles que não se adaptavam a esse modelo eram punidos e excluídos da sociedade.

Os ideais espartanos de disciplina, resistência e superação de limites físicos foram muitas vezes cruciais, não apenas nas guerras ou disputas territoriais, mas também nos jogos olímpicos que eram realizados na Grécia Antiga.

Desde então, muitas transformações aconteceram nas Olimpíadas, como a inclusão de novas modalidades. No entanto, as exigências de perfeição as quais muitos atletas estão sujeitos permanecem semelhantes aos padrões helenos.

É necessário ser o mais rápido. É necessário ser preciso. Não há espaço para erros. Do contrário, o atleta depara com as consequências impostas ao simples fato de ser imperfeito. A busca pela perfeição pressupõe um ciclo nocivo à saúde física e mental, não apenas de atletas, mas de milhares de pessoas em todo o mundo.

Nessas situações, é muito comum que se estabeleçam metas elevadas para si, reforçando-se a crença de que as coisas devem ser feitas perfeitamente ou então não devem ser realizadas.

O curioso é que, diante das dificuldades que surgem, há uma tendência ao aumento da autocrítica e da ideia de incapacidade, fazendo com que a pessoa aumente ainda mais a sua meta e seja negligente com suas necessidades fisiológicas e seu bem-estar psíquico, perseverando nesse ciclo.

Certa vez perguntei a uma pessoa, que estava sobrecarregada com as pressões do trabalho, o que achava que poderia fazer para solucionar isso. Sua resposta foi curiosa: “ficar algumas horas a mais além do expediente, para poder me dedicar e checar o que já fiz para ter certeza de que não vou falhar”.

O resultado desse excesso de dedicação e da negligência com o autocuidado leva ao esgotamento físico e mental e à sensação de sobrecarga e exaustão. Sentindo-se frustrada, essa pessoa acredita que é insuficiente, incompetente ou incapaz. Isso aumenta significativamente a ocorrência dos transtornos de ansiedade, depressão e burnout.

Manter o equilíbrio nas traves da vida nem sempre é tarefa fácil. Na busca por saltos duplos e triplos, somados às piruetas para driblar o dia a dia, nossos movimentos ficam pouco harmoniosos, tropeçamos na aterrisagem e nosso solo se assemelha a um campo de batalha, no qual lutamos contra pressões, inseguranças, medos e, principalmente, nós mesmos.

Há uma cobrança excessiva para que dêmos conta, impecavelmente, de uma lista extensa demais.

Precisamos ser mais como Simone Biles.

Assumir as nossas dificuldades ou vulnerabilidades não é sinal de fraqueza. Assumir que não são somos robôs ou feitos de aço, que não precisamos e não queremos ser heróis, nos aproxima da nossa natureza, da nossa humanidade.

Somos imperfeitos!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O diabo da felicidade e os demônios que fazem de Simone Biles e Naomi Osaka seres humanos

Crédito: Breno Barros/rededoesporte.gov.br

O 27 de julho olímpico foi cruel para duas das maiores atletas da atualidade. A poucos metros de distância, a ginasta americana Simone Biles, 24 anos, e a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, vivenciaram momentos de profunda tristeza e abatimento, no centro olímpico de Ariake, em Tóquio. 

A número 1 do mundo, na arena de ginástica artística, fez sua pior apresentação desde que surgiu no cenário internacional, desistiu das provas por equipe e teve de se contentar com a medalha de prata, após os Estados Unidos serem superados pelas russas. Nas quadras ao lado, a número 2 do tênis foi desclassificada nas oitavas de final pela tcheca Marketa Vondrousova, frustrando a expectativa dos japoneses de verem sua maior tenista conquistar a medalha de ouro.

Depois de afastada da equipe por ‘problemas médicos’, sem que mais detalhes fossem informados, a própria Simone Biles revelou aos jornalistas sua fragilidade psicológica para a disputa, mesmo sendo o maior nome da ginástica americana de todos os tempos —- e, talvez, exatamente por ser o maior nome da ginástica americana de todos os tempos: 

Assim que eu piso no tatame, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.

Ao ouvir Biles, lembrei do que havia dito, em maio deste ano, Naomi Osaka, ao desistir de continuar disputando o Torneio de Roland Garros, pois não queria mais participar das entrevistas coletivas, compromisso que todos os atletas são obrigados a cumprir quando aceitam as regras do jogo. Ela alegou que as perguntas feitas pelos jornalistas causavam um impacto adverso em seu bem-estar mental —- resultado de depressão que surgiu, em 2018. 

Na época em que assumiu publicamente sua fragilidade, a psicóloga Simone Domingues, publicou aqui no Blog o artigo “A grande sacada de Naomi: a coragem de confessar que tem medo” e explicou a reação da tenista: 

“Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental”

Hoje, ela estava apática em quadra, descreveram os jornalistas. É preciso um pouco mais de apuro e sensibilidade para entender se os problemas psicológicos influenciaram no desempenho de Naomi. O certo é que com sua apatia, se despediu dos Jogos muito antes do que esperavam dela. 

De Naomi sempre estão esperando mais. Não por acaso, foi a escolhida pelos japoneses para acender a tocha olímpica, na cerimônia de abertura,— protagonizando uma cena que talvez explique muito do que ela e os maiores talentos do esporte  carregam consigo a cada degrau que sobem na carreira. Por mais que o mundo estivsse ao lado dela, admirando-a naquele momento, Naomi teve de subir sozinha as escadas em direção à tocha. Levando ao alto a esperança de várias nações que enxergam nas Olimpíadas a redenção diante da tragédia desta pandemia. Pelo peso da responsabilidade, pela cultura oriental ou pela forma como encara suas obrigações, não havia um sorriso genuíno na jovem atleta.

“É claro que sempre jogo pelo Japão. Mas definitivamente sinto que houve muita pressão sobre mim desta vez. Acho que talvez seja porque nunca joguei antes as Olimpíadas”, disse a tenista após sua desclassificação.

Na voz angustiada e no jogo apático de Naomi; na revelação dolorida e no desempenho pífio de Simone; nas cenas de antes e de agora; o que mais me chocou foi perceber que por maiores, mais admiradas e respeitadas que sejam as pessoas; por mais ‘grand salms’ e medalhas de ouro que tenham conquistado; por mais próximos que estejam do que entendemos serem os semideuses; nada é suficiente se não houver o diabo da felicidade. E encontrá-la, saber cultivá-la é a grande conquista que nós seres humanos precisamos alcançar. Naomi não consegue. Simone não consegue. E nesta ausência destes astros e estrelas, nunca como antes me senti tão integrante desta mesma constelação.