“Sentir raiva é pecado”, “Raiva é um veneno”, “Raiva mata”.
Então… já pequei, já fui envenenada, já morri.
E, vez ou outra, faço tudo de novo.
Você já sentiu raiva?
Se sim, me conta: você teve escolha?
Te pergunto porque do lado de cá, na minha mente e no meu corpo, a resposta é… não.
A raiva nunca me perguntou se poderia chegar, entrar, ficar. Ela sempre me atropelou tipo um trator desgovernado. É assim até hoje.
Revolta, incômodo, angústia… explosão.
Raiva é emoção pura, visceral, animal. Não existe escolha.
Fome, sono, respiração… Natureza mostrando quem manda. A raiva está nesse grupo aí – é espontânea e independente da nossa vontade.
A raiva é seu corpo e seu cérebro te dizendo:
“Presta atenção, estão te invadindo, estamos sob ameaça, olha o ataque!”
No fim, ela quer te proteger. Pra você sobreviver, ela te enche de noradrenalina e de cortisol e te faz uma máquina potente, pra lutar ou pra fugir, mas morrer – jamais.
Então… Sinta a raiva!
Quando ela aparecer: perceba que ela chegou; dê nome pra ela; ouça de qual ameaça ela está te alertando.
Depois: dê um tempo, enquanto convoca seu córtex frontal, a “Sra. Razão”; construa um diálogo entre os dois.
Uma hora a Raiva fala, em seguida a Razão argumenta… a Raiva se revolta, a Razão pondera…
Pronto. A partir daí, a decisão está tomada – enumere as atitudes, uma a uma, que vão te levar ao resultado que você precisa: se distanciar, conversar num outro momento, tentar outro caminho (porque soltar é mais eficaz que insistir)…
Seja o que for, a Raiva chegou, fez o papel dela – te alertou do perigo – e se foi.
Não precisa temer. A Raiva não é inimiga, nem pecado, nem veneno e, muito menos, morte.
A Raiva é a Vida querendo sobreviver.
Sinta a Raiva. Depois, chame a Razão. E, depois, crie seu plano e caminhe pelo mundo, orgulhoso do seu autoconhecimento e do seu autodomínio.
Os fortes, os sábios, os bons… sentem Raiva, mas fazem dela um motor de Vida.
E então, me diz… Você faz o quê com sua Raiva? Foge… ou sente e vive?
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung
Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
Nós lemos emoções nos rostos, lemos sinais
climáticos nas nuvens, lemos o chão,
lemos o mundo, lemos a vida”
Mia Couto
Se eu não fosse psicóloga, acho que seria contadora. Não dessas que cuidam das finanças e patrimônios de pessoas e empresas, mas uma contadora de histórias.
Em vez de contos sobre fadas e princesas, as minhas histórias preferidas remetem a personagens reais: gosto de contar sobre pessoas, sobre o mundo e a vida.
Então, vamos lá!
Quando eu era criança, nossas provas escolares eram feitas pelos professores em mimeógrafo. Se você não viveu na década de 80 nem deve saber o que era isso. O mimeógrafo era uma espécie de copiadora. Os professores escreviam as atividades numa folha estêncil que continha carbono, colocavam essa folha com os escritos voltados para cima e, ao girar a manivela, o texto era passado para outras folhas de papel sulfite, graças ao feltro umedecido com álcool que ficava nessa máquina.
Na escola que eu estudava, as folhas chegavam com aquele cheirinho fresco de álcool e a parte mais bacana, pelo menos para mim, era colorir a capa da prova que já vinha com um desenho “impresso”, geralmente com ilustrações temáticas, como páscoa, festa junina ou comemorações pela chegada da primavera.
Naquela época, as condições financeiras lá em casa não eram as melhores e comprar o material escolar era quase um luxo. Com muito esforço, meus pais conseguiam garantir o básico para que eu pudesse realizar as atividades escolares.E quando digo básico, era o básico mesmo.
Minha caixinha de lápis de cor, por muitos anos, era composta por lápis pequenos, com cerca de uns 8 a 10 centímetros — o que exigia que não se apontasse muito ou eles acabariam rapidamente — e com apenas 6 unidades, sendo que duas dessas cores eram o branco e o preto. Vamos combinar que o branco não poderia ser considerado um lápis de cor! Isso me garantia 5 cores para toda a minha arte.
Felizmente, minhas colegas de turma mais afortunadas tinham estojos com lápis coloridos maravilhosos, daqueles que eu me perdia em suas nuances de cores, mas sabia exatamente suas quantidades: 24, 36 e até mesmo 48 unidades.
Digo felizmente, porque nossa turma tinha por volta dos 8 anos de idade e isso garantia que minhas amigas me emprestassem algumas cores.
Verde água! Essa era a minha cor favorita.
E foi assim, que num dia de prova, ao me deparar com uma capa repleta de elementos para serem coloridos, pedi o lápis de cor verde água emprestado para a colega que estava sentada atrás de mim. Feliz da vida, quase pegando o lápis, fui surpreendida pela voz alta e tom severo da minha professora que disse: “se você não tem lápis de cor, isso não é problema de outra pessoa. Não incomode sua colega”.
O jeito foi pintar com aquelas 5 cores mesmo, com cuidado para que não fugisse aos contornos do desenho.
O tempo passou, e mesmo com muitas dificuldades, que não se limitaram ao ensino fundamental, pude concluir meus estudos com êxito. Pode parecer clichê, mas não tenho dúvida de que a educação formal mudou a minha vida. Me permitiu possibilidades que eu nunca imaginaria alcançar.
Mas me permita voltar ao lápis de cor.
Não faz muito tempo, fui comprar um livro para dar de presente e me vi, em plena livraria, encantada com as diversas caixas de lápis de cor que estavam dispostas numa prateleira. Pensei que poderia comprar para mim, e agora eu poderia mesmo, uma caixa com o maior número possível de cores. Com todos os tons de verde água ou, se preferir mais atual, azul Tiffany.
Não comprei, mas me lembrei dessa história de 40 anos atrás.
E quanta história cabe numa folha de papel… E quanta história cabe numa página de pôr do sol, numa página de xícara de café quentinho, de sorriso, de abraço, do barulho da onda que bate nas pedras, do rosto de quem amamos…
A vida não vem delineada com as margens que devemos seguir. O colorido? Isso será por nossa conta.
Penso na vida como um livro de histórias que vamos construindo: algumas com enredos felizes; outras marcadas por desafios, tropeços e dificuldades.
E não seria isso o significado de viver?
Se a gente busca uma vida que seja sempre feliz, a chance de experimentarmos a frustração é gigantesca. Vida sempre feliz, glamourosa, plena é apenas um recorte da realidade estampada nos posts que vemos por aí.
Aproveite os bons momentos. Eles passam
Busque soluções para os problemas. Eles passam.
Compreenda que coisas acontecem e estão fora do nosso controle. Elas também passam.
E o que fica?
Isso vira história. Isso se torna a sua história.
Como diz Mia Couto: “Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar”.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
Você gosta, cuida, demonstra amor. Então, você para e espera – O que será que vem por aí, o que vou ganhar de bom?
Vazio. Silêncio. Nada.
A pessoa só segue a vida, se arrumando no espelho, com olhos fixos no celular, fazendo o relatório do trabalho… Você espera mais um pouco, mais umas horas, mais uns dias… Vazio. Silêncio. Nada.
“Que ingratidão. Não valorizou meu esforço, minha dedicação. Isso não é amor.” – Esses pensamentos pulam na sua cabeça e martelam infinitamente (é ensurdecedor). Afinal, amor de verdade é quando é correspondido, dizem… Será?
O amor nasce de um sentimento de respeitar e gostar junto de uma decisão de cuidar e desejar o bem. Sim, amor é construção da pessoa dentro de si; ela tem um objeto-alvo ou uma outra pessoa-alvo, porém, o amor é dela e quem sente é ela.
As consequências boas do amor são o peito preenchido, o suspiro doce, a sensação de um cobertor aconchegante. Então, sentir o amor é bom, porque é bom. A gente sente e saboreia!
Você não precisa ser correspondido, não precisa que criem isso dentro de você – está nas suas mãos, no seu corpo… no seu coração.
Vamos aos exemplos…
Você se ama porque sabe da luta que trava todos os dias pra levantar da cama, resistir à preguiça, fazer coisas que precisa, mas não gosta;
Você se ama porque sabe da luta entre o bem e o mal, a generosidade e o egoísmo, a coragem e o medo… A luta entre a luz e a sombra que trava aí dentro, quando as coisas dão errado, quando se compara com outras pessoas, quando toma decisões sobre sua carreira ou seu relacionamento.
E, pelos mesmos motivos listados acima, você ama pessoas ao seu redor.
Você merece ser amado por resistir, por seguir tentando, por lutar pra ser melhor. As pessoas merecem ser amadas por isso também.
Não precisa de retorno. Não precisa ganhar algo em troca. É respeito, admiração, consideração: por si mesmo e pelos outros. É amor.
Então, se você amar e não vier nada em troca… Siga amando.
Ame soltando – Porque estar ali oprime e sufoca.
Ame colocando limites – Porque o outro precisa aprender e você precisa se manter íntegro.
Ame sendo você uma pessoa melhor – Seja compassivo, compreensivo e sábio e entregue o melhor ser humano possível, se colocando como referência e como eixo para outras pessoas que não sabem amar.
O amor verdadeiro não é correspondido.
O amor verdadeiro é autossuficiente, se preenche e se basta – É amor e ponto.
Não economize. Ame.
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung
Um dia você acorda com uma vontade enorme de ficar na cama. Está chovendo, você tem uma apresentação para fazer na empresa, e dá um frio na barriga só de pensar! Você passou quatro semanas trabalhando nesse projeto, mas julga que não ficou tão bom como gostaria. Se recorda da apresentação de outros colegas e tem certeza de que não está à altura dos demais. Pensa que talvez fosse melhor enviar uma mensagem para seu chefe, arranjar uma desculpa… Mas isso seria ainda pior. O que os outros pensariam sobre você? Ah, sim! Teriam certeza de que você é uma farsa ou perceberiam sua incompetência. Então, decidi ir para a empresa, faz a apresentação e, apesar do ótimo feedback, julga que usou duas ou três palavras de maneira equivocada e as pessoas só não perceberam suas falhas, porque talvez estivessem dispersas ou pouco interessadas no conteúdo.
Por que será que isso acontece com tantas pessoas? Por que será que, mesmo diante de situações que evidenciam sucesso ou competência, elas se julgam incapazes ou fracassadas?
Desde a infância, desenvolvemos determinadas ideias sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo que nos cerca, especialmente através da interação com a família e com aqueles que estão à sua volta. Para os psicólogos Greenberger e Padesky (2017), essas pessoas ensinam coisas como “o céu é azul”, “isto é um cachorro” e “você é inútil”. Apesar de muitas mensagens serem corretas e precisas, as crianças acreditam em tudo o que é dito, mesmo que isso tenha sido uma expressão inadequada, que não corresponda à realidade.
Além disso, as crianças tiram suas próprias conclusões a partir de suas vivências. Algumas podem ouvir “você é inútil” e perceberem que uma outra criança é mais valorizada na sua família ou na sala de aula, por exemplo, por ter mais habilidades para os esportes. Essa experiência poderia gerar um entendimento de que aquelas crianças não são tão boas quanto a outra, sendo essa ideia armazenada na mete delas como “sou incompetente ou um fracasso”.
As crianças pequenas não têm habilidades mentais para pensar de maneira flexível e, ainda que essas ideias negativas não sejam reais ou precisas, serão assimiladas como verdades absolutas: as crenças sobre si mesmo.
Como essas crenças auxiliam na compreensão do mundo em fases precoces do desenvolvimento, se tornam desajustadas ou problemáticas quando são mantidas como absolutas e inflexíveis até a vida adulta, impedindo que possamos ver a nós mesmos de maneira mais realista.
Como lentes que distorcem a realidade, quando essas crenças negativas estão ativas, há uma interpretação também negativa das situações, nas quais a pessoa se vê, por exemplo, como incapaz, fracassada, incompetente, inferior às outras ou insuficiente para realizar algo.
Diante disso, alguns comportamentos são adotados como estratégias para se lidar com a carga emocional despertada, de modo a evitar ou compensar as situações que ativam essas crenças. Alguém que acredita ser preguiçoso ou incompetente poderia evitar algumas situações, recusando desafios ou adiando o término de um trabalho, por exemplo, por temer a crítica. Outra pessoa com uma crença semelhante, poderia adotar um comportamento de supercompensação, trabalhando exaustivamente ou de maneira compulsiva, como estratégia para “mascarar” suas dificuldades.
As duas estratégias seriam desadaptadas ou desajustadas, uma vez que não solucionam o problema, não permitem testar as crenças disfuncionais negativas com novas experiências, mantendo ou reforçando a crença original.
Todos temos crenças positivas e negativas sobre nós mesmos. A diferença é onde colocamos a nossa lupa. Sim, uma lupa, que muitas vezes ignora inúmeras características positivas que temos e foca em alguns aspectos que fogem à realidade. Uma lupa distorcida, que enviesa e distorce quem somos, nos rotulando e nos reduzindo a determinados aspectos.
Atualmente, muitas pessoas se sentem frustradas por reconhecerem que não têm todas as habilidades ou que não são competentes em tudo o que gostariam de realizar, quando se comparam com outras pessoas. Mensagens são disseminadas de que basta querer e você será tudo o que desejar.
Desculpe se vou destruir ilusões, mas nunca poderemos ser tudo. Isso é muita coisa para um ser humano, falível, imperfeito. Somos assim! Mas também podemos ser muito mais do que julgamos ser, quando acreditamos que somos menos do que os outros.
Não é sobre ser mais ou ser menos. É sobre sermos nós mesmos, com nossas características que envolvem pontos fortes e fracos.
O mundo seria muito chato e monótono se todos tivessem as mesmas habilidades, as mesmas características. Somos diversos, e aí mora a beleza de sermos quem somos. Somos experiência, vastidão, sucesso. Incompetências e fracassos também, por que não? Assim, não bastamos a nós mesmos. Precisamos dos outros. Essa é a nossa natureza!
Talvez tenhamos dificuldades para reconhecer… Porque borboleta não nasce borboleta. Nasce lagarta, mas queira ou não ela será uma borboleta. E depois disso? Depois disso vai voar!
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
A nossa memória em foto de Miray Bostancu0131 on Pexels.com
“Seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está.
Seu futuro será o que você quiser, então faça dele algo bom”
Frase do filme “De volta para o futuro”
No filme “De volta para o futuro”, Marty McFly (Michael J. Fox) é um jovem que aciona acidentalmente uma máquina do tempo, construída pelo cientista Dr. Emmett Brow, sendo transportado para o passado. No fim da trama, Marty volta para o ano de 1985 e tenta salvar o Dr. Brown, mas chega tarde demais para impedir que ele fosse baleado. Surpreendentemente, o cientista acorda e revela que ao tomar conhecimento da carta que o alertava sobre seu assassinato, se muniu previamente de um colete à prova de balas.
Longe da ficção e sem a possibilidade de alterarmos alguns desfechos em nossa vida, precisamos lembrar de pegar o guarda-chuva porque a previsão alertou que mais tarde o tempo muda. Precisamos lembrar que às 8:00 o remédio precisa ser tomado, que dia 10 vence o boleto da mensalidade da escola, que acabou o ovo e precisamos passar no mercado antes do jantar. E o livro que você pegou na biblioteca? Era para ser entregue ontem!
Pois é! Essa máquina do tempo que nós humanos temos, chamada memória, nos permite recordar eventos passados, mas também nos possibilita criar intenções voltadas para o futuro, nos orientando naquilo que ainda vai acontecer.
A memória prospectiva compreende um conjunto de habilidades cognitivas envolvidas na capacidade de planejar uma intenção e se recordar dessa intenção, em algum ponto do futuro, em momento ou contexto específico, possibilitando que as ações sejam realizadas.
Em outras palavras, significa “manter em mente” o que precisa ser feito e se lembrar disso no momento certo!
A memória prospectiva é um dos sistemas mais utilizados no cotidiano e envolve tarefas como se lembrar de um compromisso, como uma reunião de trabalho ou consulta médica, transmitir um recado, organizar os detalhes de uma viagem que vai acontecer e pagar as contas no dia do vencimento.
Diversas estratégias podem ser usadas para amenizar possíveis falhas na memória prospectiva, como recorrer a agendas, alarmes, realização de lista de tarefas e lembretes.
Apesar de tantos avanços tecnológicos e científicos, nossa capacidade de viajar pelo tempo só é possível – ainda – através dos nossos recursos mentais. Nossa mente tem essa capacidade incrível de retomar situações passadas e antecipar o futuro, através da imaginação.
Não sei você, mas eu fico pensando: se tivesse um jeito da gente olhar o futuro, saber o que nos aconteceria, será que a gente seria mais feliz? Será que a gente conduziria a vida de uma outra maneira?
Não temos spoiler. Não temos um bilhete nos alertando dos riscos, como no filme, o que nem sempre nos permite um colete à prova de balas, à prova de tristezas, decepções ou sofrimento. Mas temos a capacidade de olhar para o nosso momento presente e construir uma ponte com o nosso futuro, com sonhos e esperança.
Ainda é possível: A máquina do tempo pode travar, mas ela acaba ligando novamente! Não foi assim com o Marty McFly?
Então, faça as suas anotações, escreva um bilhete para você. Mas não coloque ali apenas a reunião ou a conta que você não pode esquecer. Das obrigações a gente até se lembra com mais facilidade.
Escreva aquilo que pode fazer a sua viagem para o futuro valer a pena. Aquilo que todos os dias você precisará se recordar, porque lhe é valioso. A sua memória do amanhã.
Dr. Brown estava certo: “seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está”. Então faça dele algo bom!
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
“Minha mãe me deu ao mundo De maneira singular Me dizendo a sentença Pra eu sempre pedir licença Mas nunca deixar de entrar”
Tudo de novo – Caetano Veloso
Na mitologia romana, Janus é a divindade que possui duas faces, uma sempre voltada para a frente, contemplando o futuro, e a outra para trás, olhando o que já passou. Nesse sentido, sua representação simboliza as transições, o caminho entre dois pontos e as dualidades do universo.
O deus romano costumava ser cultuado durante os períodos de colheita, em rituais de celebração nos quais se desejava o sucesso na renovação de um ciclo de plantio, e em eventos que marcavam mudanças nas fases de vida humana. Além disso, era o deus guardião das portas e dos portais de entrada e saída por onde passavam os soldados romanos em tempos de guerra.
Essa representação do passado e do futuro, e a vinculação às celebrações de início e encerramento de ciclos, fizeram com que o deus Janus fosse fortemente associado com as simbologias do ano novo, que remetem a mudanças, recomeços e esperança.
E não seriam esses os desejos que nos invadem nessa época do ano?
Desejamos que a vida nos permita recomeços. Desejamos uma vida com mais conexão, com mais encontros, com mais oportunidades e, porque não dizer, com mais felicidade.
Desejamos que as mudanças aconteçam e nos permitam uma vida melhor, mas buscamos do lado de fora o que possivelmente se alcança apenas dentro de nós mesmos. As portas que tanto desejamos que nos sejam abertas, possuem fechaduras internas. Por vezes, elas aparecem com o nome de novos caminhos; por outras, emolduram novas pessoas e culturas, novos olhares e novas ideias.
Cabe a cada um de nós decidir se vamos ou não abri-las. Se não abrirmos, nos manteremos seguros no lugar que já conhecemos, na famosa “zona de conforto”. É menos arriscado? Talvez. Mas restaremos atrás da porta, ignorando um horizonte repleto de novidades que está ali adiante.
É o desafio entre ter vivências ou ter certezas…
Gosto de acreditar que sempre temos os nossos recomeços, que sempre temos a oportunidade de encerrar um ciclo e começar uma nova etapa. É assim na natureza, é assim em nós: ciclos, estações, fases da vida… o nome pouco importa.
Gosto de pensar na fé como a sabedoria que nos permite reconhecer a impermanência das coisas, boas ou ruins.
Gosto de pensar na esperança como aquela força propulsora que nos encoraja a construir novos caminhos.
Gosto de pensar num novo ano com recomeços, com fé e esperança.
E eu desejo isso a você!
Que o passado e o futuro estejam diante dos seus olhos, assim como era para Janus, e que suas decisões permitam que você faça boas colheitas.
Por fim, busco na dualidade de Caetano Veloso o que espero para o ano novo: tudo de novo! Inspirada por sua música, desejo que você tenha coragem para abrir as portas que estão à sua frente. Peça licença, mas nunca deixe de entrar.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
“É o início do pesadelo. Quando o marido está assim, não importa a realidade,
ele detesta tudo e qualquer coisa. É como se fosse outro homem.
Janete se encolhe toda, olha para o colo, mal se mexe.
O tempo a ensinou como reagir. Melhor não dizer nada e esperar. Só esperar.”
(Trecho do livro: Bom dia, Verônica
de Raphael Montes e Ilana Casoy)
A violência contra a mulher é um fenômeno em todo o mundo, independentemente de fatores sociais, econômicos ou culturais, vitimizando e dilacerando milhões de vida.
No Brasil, os dados apresentados pelas Secretarias Estaduais de Segurança Pública são assustadores. Em 2021, a cada sete minutos uma mulher perdeu a vida em consequência do feminicídio e a cada 10 minutos uma menina ou mulher foi vítima de estupro.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), ao longo da vida, uma em cada três mulheres é submetida à violência física ou sexual por parte de seu parceiro ou sofre violência sexual cometida por alguém que não seja seu marido ou parceiro.
A violência física é compreendida como qualquer comportamento que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher, na qual o agressor fere a vítima utilizando-se da força física, tais como chutes, tapas ou queimaduras corporais, podendo provocar lesões internas e externas.
A violência sexual ocorre quando a mulher é obrigada a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, através de intimidação, ameaça ou uso da força; bem como atitudes que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force, contra a sua vontade, ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição.
Além desses dois tipos de violência, que de certo modo são mais visíveis, outra forma de agressão à mulher pode ser mais velada, encoberta, mas os danos causados são devastadores: a violência psicológica.
A violência psicológica é caracterizada como qualquer conduta que cause danos emocionais e psíquicos à mulher, prejudicando o seu desenvolvimento, ocorrendo através de ameaças, humilhações, insultos, manipulação, isolamento, ridicularização, limitação do direito de ir e vir. Frequentemente, o agressor proíbe a mulher de trabalhar, de se relacionar com amigos e parentes e até mesmo de sair de casa, justificando que tais atitudes visam sua proteção contra os perigos do mundo ou de pessoas que possam influenciá-la, com imposições de um saber superior ao da mulher.
Esse tipo de violência, ainda que tipificado na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006 sancionada para combater a violência contra a mulher), dificilmente é punido, entretanto, causa danos psicológicos significativos na vítima, tais como baixa autoestima, perda de confiança, apatia, tristeza, culpa, vergonha, medo, depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e síndrome do pânico.
A lista de consequências à saúde mental é longa, como reflexo da dor ou desesperança que muitas mulheres experimentam quando são vítimas da violência.
Quando a violência ocorre num relacionamento afetivo ou num contexto conjugal, em geral, ocorre num ciclo que é constantemente repetido, caracterizando uma relação abusiva. A psicóloga americana Lenore Walker caracterizou três ações que compreendem esse ciclo. Inicialmente, há um aumento da tensão, no qual o agressor tende a agir de maneira mais explosiva, como gritar, se alterar ou quebrar objetos. Em seguida, comete os atos de violência contra a vítima. A terceira fase do ciclo é caracterizada por arrependimento do agressor, alimentando, na vítima, a ideia de que possivelmente ele mudará o seu comportamento.
Isso gera um ciclo vicioso e perverso, no qual muitas mulheres se sentem impotentes, permanecendo ao lado dos agressores por medo, vergonha ou falta de recursos financeiros, na esperança que a violência termine.
Feliz será o dia em que minhas filhas poderão sair com a roupa curta sem que isso me gere preocupação com a vida delas. Feliz será o dia em que as mulheres possam usar os cabelos como desejarem, frequentar os lugares que quiserem e fazerem o que bem entenderem para si, sem medo de serem agredidas ou mortas.
Não é sobre o véu que deixou o cabelo à mostra. Não é sobre a roupa curta ou decotada. É sobre todas nós, mulheres, vítimas de violência pelo fato de sermos mulheres. Por todas elas, por todas nós!
Só é possível mudar essa realidade com ações efetivas de governos e pessoas, capazes de combater e denunciar essas situações nocivas, promovendo oportunidades de acesso à informação, à proteção e a serviços.
Não se muda a violência contra a mulher esperando que um dia ela acabe. Isso é justamente o que a mantém.
Então, querida Janete, na violência contra a mulher o tempo não é um aliado. Não é possível não dizer nada. Não é possível só esperar. A espera custa a vida.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
O conto de fadas “A Bela e a Fera”, escrito no século XVIII e adaptado pela Walt Disney Pictures, em 1991, narra a história de uma jovem, Bela, que aceita se tornar prisioneira do monstro, a Fera, em troca da liberdade de seu pai que está idoso. Bela fica no castelo e, apesar dos medos e desafios enfrentados, constrói um vínculo afetivo com a Fera. Ao saber que seu pai está muito doente, sentimentos de dor e preocupação tomam conta da personagem. Essa tristeza comove a Fera, que toma a decisão de liberar a sua Bela.
Seja no conto de fadas ou na vida humana, o que possibilita que atitudes altruístas sejam adotadas?
A empatia.
Em neurociências, a empatia está relacionada a uma capacidade de reconhecer o estado emocional das outras pessoas, compreendendo o que se passa com elas, e com a nossa capacidade de imaginar como nos sentiríamos se estivéssemos na mesma situação.
Pesquisas apontam que a empatia pode ser baseada no sistema de neurônios-espelho, aqueles que são ativados quando observamos ou imaginamos algum movimento, ou quando imitamos outras pessoas.
Um estudo de ressonância funcional sobre o possível papel do sistema de neurônios-espelho em processos emocionais mostrou que quando as pessoas observam ou imitam expressões faciais envolvendo diferentes emoções, áreas cerebrais relacionadas às próprias emoções são ativadas, gerando os estados emocionais. Assim, o simples ato de ver fotografias de caras enojadas, por exemplo, ativa regiões cerebrais que também são ativadas quando a pessoa cheira algo desagradável.
Isso é particularmente relevante ao considerarmos o impacto que o excesso de informações ou cenas com conteúdos negativos podem produzir em alguns indivíduos, uma vez que as pessoas não demonstram empatia da mesma forma e essa pode variar em diferentes graus de intensidade.
Vários fatores de modulação podem afetar o nível de resposta empática ou a capacidade de perceber a dor alheia. Há uma tendência ao aumento da empatia quando a dor observada é considerada maior do que aquela que já experimentamos; em situações que ocorrem abruptamente, como um acidente; ou quando a pessoa com quem empatizamos é próxima ou semelhante a nós.
A empatia poderia levar a um estado de caos emocional, gerado devido a incapacidade de distinguir entre as nossas emoções e a dos outros, mas isso não ocorre. Isso porque há uma tomada de perspectiva cognitiva que nos permite, inicialmente, distinguir entre nós e os outros. Em seguida, imaginamos como a outra pessoa se sente e entendemos suas intenções, desejos e crenças. Essa inferência cognitiva do estado mental da outra pessoa é conhecida como mentalização ou teoria da mente, realizada especialmente pelo córtex pré-frontal, que de certo modo nos protege do mimetismo, da imitação sem consciência.
Apesar de outras espécies também demonstrarem empatia, os humanos podem colocar suas emoções em palavras, permitindo-lhes não apenas expressar emoções, mas também relatar sobre as experiências atuais e passadas. Esses relatos oferecem uma oportunidade para compartilhar, explicar e regular a experiência emocional com os outros.
Talvez esse tenha sido o segredo para o final feliz da Bela e a Fera…
Com a capacidade de compreender o que se passa com o outro, sem julgamentos, mas sendo capaz de imaginar como se sente, Bela olha para além das aparências do monstro, se aproxima e consegue reconhecer o seu valor. E volta para salvá-lo, quando descobre que ele também está em risco.
Longe dos contos de fada, reflito naqueles que sofrem com transtornos mentais, naqueles que estão sozinhos, abandonados. Nos doentes, nos excluídos, naqueles que sofrem por falta de amor ou oportunidade. Quanto sofrimento que passa diante dos nossos olhos… Mas será que somos capazes de ver? Será que somos capazes de compreender como se sentem?
Talvez sejam apenas as “Feras”, os “monstros” que preferimos que fiquem em terras bem distantes… assim não nos causam medo. Não por eles, mas por nossa incapacidade de exercer verdadeiramente a empatia.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
“Quanto mais alto o voo, maior a queda”, diz o ditado.
Diante de experiências de vida que parecem desafiadoras, muitas vezes, relutamos em assumir riscos, desejamos garantias e, em geral, evitamos as situações por medo dos desfechos ou resultados.
Medo de quê?
Medo da perda.
Medo da perda de tempo, de pessoas, do tempo perdido com as pessoas.
Medo do arrependimento.
Desejamos certezas porque acreditamos que se o resultado não for como o esperado, que se algo der errado, nossa infelicidade será tão intensa que não seremos capazes de suportar.
Tememos os julgamentos e críticas, alheios e de nós mesmos.
Não raro, criamos em nossas mentes previsões catastróficas, exageramos na intensidade e duração de um resultado, sem antes mesmo considerar as diversas possibilidades que se abrem diante de nós, quando nos permitimos conhecer novos horizontes.
Evitamos agir e assumir riscos, como se isso fosse escudo para um sofrimento futuro, ignorando que viver uma vida aprisionados pelo medo, coloca bolas de chumbo em nossos pés, nos aprisiona.
E isso também não seria uma forma de sofrimento?
Tememos as quedas por desconsiderar que nos possibilitarão experiências, conhecimentos sobre nós mesmos que poderão nos orientar para o futuro.
Por que conseguimos tirar as rodinhas de apoio da nossa bicicleta?
Porque assumimos tolerar o risco da queda, descobrir como a gente poderia se equilibrar e, desde então, ter confiança em nossa ação.
Talvez a gente precise testar as nossas previsões, reduzir a necessidade de certeza e aumentar a confiança na nossa habilidade de enfrentamento.
E se ainda assim a gente continuar com medo, então sugiro que possamos nos inspirar nas palavras de Martin Luther King:
“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito”.
Você está pronto para decolar?
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung.
No livro “Em busca de sentido”, Viktor Frankl, médico psiquiatra e judeu, descreve sua experiência nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa obra, Frankl faz uma análise sobre a vida e os comportamentos humanos, destacando situações extremas, envolvendo sobretudo o sofrimento e a desesperança. Ele mesmo havia perdido o pai, a mãe, o irmão e a esposa nos campos de extermínio de judeus; passou fome, frio e sofreu inúmeras agressões.
A morte parecia óbvia naquela condição.
Frankl sobreviveu e nos deixou não apenas um relato, mas uma profunda reflexão sobre como as pessoas conseguem reagir e encontrar um sentido para a vida, mesmo após experiências tão devastadoras.
Pessoas que passaram pelo holocausto. Pessoas que são vítimas de violência, de guerras, de inundações e deslizamentos de terra… pessoas que muitas vezes não têm mais o que e nem como.
Não negam ou minimizam o seu sofrimento numa tentativa de discurso positivo. Ao contrário, o encaram minuciosamente. Recolhem seus cacos e descobrem que apenas uma nova versão de si mesmos possibilitará construir um novo caminho.
Caminho que demanda aceitação. Caminho que exige autocompaixão pela impotência de mudar o passado.
Com o coração rasgado em dor e um vazio na alma, experimentam uma espécie de morte, de quem se era, de quem se pretendia ser… Mas conseguem renascer.
Não é à toa que o mito da fênix é usado para explicar essa condição humana: um pássaro que após morrer ressurge das próprias cinzas, possuindo uma capacidade incrível de suportar cargas muito pesadas durante o voo.
Assim como a fênix, essas pessoas ressurgem porque não se ancoram no passado, mas porque encontram no futuro um convite à vida, numa possibilidade de ir além de si mesmas.
Buscar um sentido para a vida não se restringe ao alcance de um objetivo ou meta específica: envolve inteireza! Envolve compreender a vida em sua totalidade, incluindo o sofrimento e a morte que dela fazem parte, mas sem perder de vista as oportunidades e felicidades que ela também nos oferece.
Não há protocolos para se lidar com as fatalidades da vida. Não há preparo prévio para se lidar com o sofrimento. Cada um será capaz de reagir à sua maneira. Como nos ensinou Frankl: “Quando já não somos capazes de mudar uma situação (…), somos desafiados a mudar a nós próprios”.
Aceita o desafio?
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung.