Conte Sua História de São Paulo: a saudosa maloca virou quadra de beach tennis

Vinicius Moura

Ouvinte da CBN

Quando São Paulo fazia 397 anos, em 1951, Adoniran Barbosa escrevia Saudosa Maloca. Muito tempo depois, foi marcante, ao comemorar meus 20 anos, arriscar-me a cantá-la num karaokê da Liberdade. Era 1985, e Sampa estava com 431 anos. Eu segurava o microfone com a responsabilidade que uma música clássica pede. Mas não imaginava do que falava a música. Curiosamente, quando a “terra da garoa” fez 460 anos, foi que o assunto veio à pauta: a maloca, a saudosa maloca, estava sendo demolida.

Não moro em uma cidade que olha para trás. Lá em 1951, éramos 2,6 milhões de pessoas. Os homens usavam chapéus e os tiravam para acenar em respeito ao funeral que passava. Quem era? O que empreendeu? Que missão teria cumprido neste seu tempo? É possível que se perguntassem em silêncio, enquanto o gesto gentil ainda se sustentava no ar. É o que ainda fazemos — não o gesto, claro, mas as perguntas. Só que nossa cidade não tem vocação para lamentar o que passou.

Seu Antenor nasceu quando São Paulo completava 391 anos — 1945. Sua casa é remanescente de uma incorporadora que lamenta não ter conseguido fechar negócio, e a casa antiga se sustenta espremida entre os muros altos de uma moderna torre de studios. Mas saiba que o Sr. Antenor não vende, contrariando a urgência dos filhos. Este aposentado com problemas de mobilidade crê não precisar de mais nada. Mantém o saudosismo da velha vila e a lembrança dos vizinhos que se foram. Era isso que eu ouvia dele em 2019. Sampa é uma cidade de muitas histórias.

Contudo, sei que, mais do que tudo, lá no fundo, o Sr. Antenor — e tantos outros — mantinha o desconforto de ter vindo do interior de Minas e de ter trabalhado na construção civil, lá nos anos 60, para essa mesma construtora que agora quer seu pequeno pedaço de chão. E foi justamente o rendimento deste trabalho que lhe permitiu comprar seu pequeno lote. Que ironia: hoje, os netos do seu antigo empregador querem que sua casa se transforme numa quadra de beach tennis e agregue valor. São Paulo é uma cidade que olha para cima.

Em 2025, São Paulo fez 471 anos, e eu acabo de me mudar para o vigésimo terceiro andar de um desses prédios que esmagou algumas das antigas casinhas. Me enche de orgulho enxergar tão, tão distante através da grande vidraça. É festa aos olhos observar o céu alaranjado no fim de tarde, contrastando com o fundo escuro das árvores no Ibirapuera. Quantos podem pagar por essa vista? A terra da garoa cobra caro.

Por mais incômodo que pareça, Adoniran falava disso: vamos colocar quem não pode pagar num lugar um pouco mais afastado. Foi esse o motivo da demolição da Saudosa Maloca — e é o motivo pelo qual ela continua sendo demolida até hoje. São Paulo sempre olha para o retorno do investimento futuro.

Quando São Paulo fez 420 anos, fui com meu pai conhecer o metrô, em sua inauguração. Era a promessa sendo cumprida para quem tivesse ido morar longe: o metrô traria com rapidez. São Paulo sempre tem pressa. São Paulo não é unanimidade: é feia para uns — para quem está nas periferias, principalmente. E é bonita para outros — para quem está nos bairros bacanas, principalmente. É a cidade que permite executar novos sonhos ao mesmo tempo em que asfalta suas antigas histórias. São Paulo não tem tempo a perder.

Tenho certeza de que, assim como eu, o Sr. João Rubinato amava de paixão esta cidade de muitas tradições e enormes contradições. Quem é João Rubinato? Sabe não? É o nome de batismo de Adoniran. Já o Sr. Antenor era Antenor mesmo, um vizinho que morreu de Covid. Seu imóvel é hoje uma quadra de beach tennis. Será que os filhos do Sr. Antenor estão mais felizes?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vinicius Moura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio.
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Mundo Corporativo: Roberto Valério, da Cogna, fala do uso estratégico da inteligência artificial na educação

Entrevista no estúdio de podcast da CBN com Roberto Valério Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Se eu não conheço os processos, não consigo tomar decisões para tornar minha organização mais competitiva.”
Roberto Valério, Cogna

A inteligência artificial está mudando o modo como se aprende — e também como se ensina. Em um país marcado por desigualdades de acesso à educação e com enormes desafios na retenção e no engajamento dos alunos, a personalização do aprendizado por meio da IA deixou de ser uma promessa distante para se tornar um projeto em curso em larga escala. A maior prova disso vem de dentro da maior empresa de educação do Brasil. Esse é o tema da entrevista com Roberto Valério, CEO da Cogna Educação, no programa Mundo Corporativo.

Do hype à implantação

Em março de 2023, Valério esteve no South by Southwest, em Austin, nos Estados Unidos. A efervescência em torno da inteligência artificial generativa o fez voltar com um alerta: “Apesar de atentos, estávamos lentos”. A partir dali, liderou um processo de capacitação interna e redesenho de processos com foco na aplicação da IA. “Fizemos um mapeamento dos mais de 1.500 processos da empresa para entender onde aplicar com mais eficiência a tecnologia”, relatou.

Segundo ele, a IA só é produtiva quando usada com clareza de propósito. “O uso da inteligência artificial só pode ser feito se o executivo ou líder conhecer os seus processos”, enfatizou. Ao aplicar essa lógica, a Cogna criou um “marketplace interno” com mais de 120 agentes de IA em funcionamento — metade voltados à operação, 30% à educação e o restante a novos negócios.

Educação personalizada em escala

A grande aposta da empresa é na personalização da aprendizagem. “Se conseguirmos fazer com que a inteligência artificial construa esse modelo de forma que o tempo das pessoas seja produtivo, cada hora de estudo será realmente útil para aquele aluno”, afirmou. Essa abordagem se concretiza em ferramentas como a Plu, agente de IA da plataforma Plural, que auxilia professores na montagem de aulas e alunos na construção do raciocínio, sem fornecer respostas diretas.

No ensino superior, a IA atua de forma semelhante. “Se o aluno de engenharia tem dificuldade em cálculo 1, o sistema identifica que a origem da dúvida está no ensino médio e oferece, naquele momento, uma revisão contextualizada”, explicou Valério. A medida tem dado resultado: alunos que utilizam a ferramenta com regularidade têm desempenho acima da média da turma.

Riscos e cuidados

Implantar IA em empresas e escolas exige estrutura. “A tecnologia está disponível, mas para funcionar bem é preciso uma base de conhecimento organizada e medidas de segurança”, alertou o CEO. A Cogna evita, por exemplo, que conteúdos sensíveis apareçam nas respostas, e adota uma política rígida para evitar o risco de “alucinações” dos agentes.

Além disso, o executivo destacou o risco da automatização sem supervisão: “Criar com IA e publicar sem revisar é uma armadilha. Nenhuma empresa pode abrir mão da gestão de qualidade do que entrega”.

A preparação das equipes também foi um ponto central da transição. “Começamos com dois ou três entusiastas internos e, a partir deles, construímos um programa de letramento em inteligência artificial com consultorias e encontros semanais para debater aplicações e estrutura de execução”, contou.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: mais do que uma cidade, é uma experiência de vida

Nelson Sganzerla

Ouvinte da CBN

É impossível falar de São Paulo sem destacar sua essência vibrante, marcada pela diversidade cultural, pela inovação e pelo espírito acolhedor que abraça a todos que chegam com sonhos e esperança.

Ao longo dos séculos, São Paulo transformou-se no coração pulsante do Brasil, uma metrópole que dita tendências e inspira o país.

Seus arranha-céus — como o próprio nome diz — tocam o céu, simbolizando a determinação e o trabalho incansável de milhões que fazem da cidade um lugar único e dinâmico.

Cada bairro conta uma história, desde as tradições do centro histórico até a modernidade da Avenida Paulista; cada rua respira história e inovação.

A gastronomia é um capítulo à parte, oferecendo uma viagem ao redor do mundo sem sair da cidade. De feiras de rua a restaurantes premiados, São Paulo é um banquete de sabores e culturas que representa o espírito cosmopolita que define essa metrópole.

Além disso, São Paulo é um celeiro de arte e cultura. Seus museus, teatros e galerias são palcos de expressões artísticas que encantam e provocam reflexões. A cidade respira arte urbana, música e literatura, sendo um farol cultural que ilumina não só o Brasil, mas o mundo.

São Paulo é mais do que uma cidade; é uma experiência de vida. Com seus 471 anos, continua sendo uma terra de oportunidades, onde as histórias se encontram, sonhos são realizados e o futuro é constantemente reinventado.

Com toda sua grandeza e complexidade, segue sendo um símbolo de força, resiliência e esperança, inspirando todos que têm o privilégio de chamá-la de lar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nelson Sganzerla é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva gora a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br  Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog, miltonjung.com.br, ou acesse o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quatro lições de Lady Gaga para a construção de marcas

Mais de dois milhões de pessoas se reuniram nas areias de Copacabana para assistir ao show de Lady Gaga — um espetáculo que, além da música, ofereceu uma poderosa lição sobre o que significa ser uma marca com presença, propósito e comunidade.

Esse foi o tema do comentário do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN. O fenômeno Lady Gaga serviu de ponto de partida para uma análise sobre a forma como marcas podem se conectar de maneira genuína com o público.

Cecília destacou que, ao longo da apresentação, Lady Gaga emocionou-se diversas vezes, abrindo espaço para mostrar fragilidade e emoção diante da multidão. “Ela está lá intocável no palco, mas é gente como a gente, que sofre, que ri, que chora, que pula”, afirmou. Essa postura reforça o que ela chama de “marca humana”, que assume suas vulnerabilidades e se torna mais acessível.

Ainda segundo Cecília, a artista construiu uma verdadeira comunidade em torno de si: os Little Monsters, nome oficial dado aos fãs. “Mais do que fãs, os Little Monsters são parte da identidade da própria marca Lady Gaga”, observou, ressaltando os valores de inclusão, diversidade e autoaceitação que unem o grupo.

Jaime Troiano ampliou a discussão ao dizer que a força da marca Lady Gaga vai além do palco. “Ela não apenas promove um show, ela promove toda uma experiência de marca, desde figurinos, luzes, interação com fãs, até ativações de patrocinadores”, disse. Para ele, são essas experiências multissensoriais e emocionais que tornam a marca inesquecível.

Ele acrescentou ainda que Lady Gaga constrói sua presença em múltiplas plataformas e linguagens, o que amplia seu alcance e profundidade. “Ela se comunica e abre novos canais para se expressar — hoje em dia, em construção de marca, isso é fundamental.”

A marca do Sua Marca

Lady Gaga é apresentada como uma marca que se conecta emocionalmente, forma comunidades fiéis, entrega experiências marcantes e se comunica por múltiplos canais. Quatro pilares que sustentam não só o sucesso de uma artista, mas de qualquer marca que queira relevância e longevidade.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: a adolescência nos Jardins

Fabio Lemmi

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

Nasci na Pró Matre paulista há 75 anos. Meus pais moravam na tranquila avenida Nove de Julho, quase na Lorena. Com a morte de minha mãe em 1956, fui morar com meus avós na Peixoto Gomide, esquina da Tatuí. Foi lá que vivi o fim da infância e o início da adolescência – um tempo feliz.

Nos anos 50 e 60, o bairro era feito de casas, vilas e ruas calmas. A Tatuí, com seu único quarteirão asfaltado, virou nosso campinho: jogávamos taco, pingue-pongue, patinávamos, soltávamos bombinhas e, claro, jogávamos futebol. Era o nosso forte.

O time da Tatuí enfrentava, com frequência, os meninos da José Maria Lisboa. O clássico virou rotina e, aos poucos, a rivalidade virou amizade. Da Tatuí: Paulo Carioca, Paulo André, Gui, Garaude, Carlinhos, Augusto, Osvaldo, Dandado. Da Zé Maria: Cido, Tabela, Alex, Wilson, Bubi, Frederico e Antonio. Ainda nos encontramos, de vez em quando.

Tinha também o Boris, mais velho, apresentador na rádio Santo Amaro, que organizava partidas em campos improváveis: Pacaembu, Hebraica, Santa Cruz… Sempre jogávamos, quase sempre perdíamos. Dali saíram dois nomes da imprensa: Guilherme Ivo Cunha Pinto, o jovem Gui, editor no Jornal da Tarde e na revista Playboy, e o próprio Boris, Casoy de sobrenome.

Entre travessuras, lembro de uma coleção de 400 garrafinhas de bebida que ficou pra trás após um divórcio. Aos poucos, “degustamos” todas. Criamos habilidades em repor os líquidos sem levantar suspeitas. Ninguém virou alcoólatra. Até onde sei.

Outra figura: João Grandão, magro, alto, com um Fusca, que adorava seguir balões juninos. Virou, dizem, um personagem exótico e loiro que exibe sua excentricidade sobre um conversível em avenidas paulistanas.

E teve a Bic, minha primeira paixão. Dorothèe, uma francesa vizinha. Quando ela terminou o namoro após férias na França, repeti de ano. Três meses depois, a moça estava na capa da revista Realidade e desfilando para Denner. Eu? Tinha de vê-la todos os dias nas bancas, nas fotos gigantes do Center 3. Adolescente sofre.

Entre os vizinhos: os irmãos italianos Marco e Fabio, que ouviram o assassinato de Kennedy em rádios de bolso; e Bruce, filho de diplomata americano, frustrado por nunca conseguirmos construir o carrinho de rolimã. Mais tarde virou diplomata no Caribe.

E mais: o rotundo guarda noturno Seu Antonio; o carteiro João e suas frases para o diabo; Ataliba, o vendedor de biju que jogava bola; o padeiro das cavacas anotadas em caderneta; o verdureiro empurrando a carroça; o tintureiro japonês; o milionário garoto do Aero Willys; e o eterno comprador de roupas usadas, gritando: “compá ropá”.

Os Jardins de 60 anos atrás. Ainda sem prédios. Ainda cheios de histórias.

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Conte Sua História de São Paulo: fui office-boy com pastinha de plástico na mão

Carlos Assis

Ouvinte da CBN

Foto: Ouvinte da CBN Ricardo Biserra

Meu pai tinha uma firma de material industrial na rua dos Andradas. E minha mãe ajudava fazendo os pagamentos nos bancos. Antigamente, um título do Bradesco — título, era assim que chamávamos os boletos — só podia ser pago no Bradesco. O do Banco do Brasil só no Banco do Brasil. E havia bancos em São Paulo com apenas uma ou duas agências. Então, a gente tinha de ir ao centro velho, na rua Boa Vista, na São Bento, na Quinze de Novembro … E fazia tudo a pé. Não tinha metrô. Desse modo, conheci bem a cidade. 

Passei dezenas e dezenas de vezes no viaduto Santa Ifigênia, no viaduto do Chá, no Largo Paissandu. A agência do Citybank era na avenida São João com a Ipiranga, em frente ao Bar Brahma — bar que nunca visitei, apesar de passar pela frente uma centena de vezes. 

Minha mãe era uma pessoa simples e católica, o que me fez conhecer as igrejas do centro: o Mosteiro de São Bento, a Sé, a de São Francisco, a do Rosário, a de Santo Antônio.

Lembro quando fui com ela pagar um título no Unibanco, na Praça do Patriarca. Assim que entramos havia uma escada rolante. Precisávamos subir no primeiro pavimento. Minha mãe tinha medo da escada rolante, que era algo novo na cidade. O segurança teve de desligar a escada para a gente subir e depois descer. 

Com uns 13 anos, já era office-boy e andava com aquela pastinha de plástico na mão. Mas não me atrevia a fazer malabarismos como os garotos maiores. Minha diversão era entrar por uma rua e sair em outra, passando por dentro de prédios. Adorava andar na galeria da Avenida São João, passar pelas lanchonetes, sentir aquele cheiro de comida no ar, e sair na 24 de Maio. 

Entrava nas Lojas Americanas e Brasileiras, na rua Direita, e saia na rua José Bonifácio, do outro lado. Entrava no Banco de Boston, no Vale do Anhangabaú, e alcançava a Libero Badaró — essa agência foi a primeira a ter porta automática e era m luxo ver a porta se abrindo sozinha. Outro atalho que usava era entrar no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, e sair na Basílio da Gama. Ou entrar na Galeria Metrópole para chegar na praça da Biblioteca Municipal.

Além de pagar contas, eu fazia entregas de documentos, cartas e cotações. Frequentava os Correios para passar telegramas e despachar cartas. Os Correios tinham máquinas automáticas que selavam as cartas. Eu levava centenas de cartas em uma mochila. E lá era o único lugar em que se podia fazer isso. Entregava cotações paras as empresas. 

A CSN Companhia Siderúrgica Nacional ficava na avenida Senador Queirós; a Petrobras na Barão de Itapetininga; a Petrobras Distribuidora ficava no Edifício Andraus. Sim, eu estive no vigésimo-segundo andar do mesmo prédio que pegou fogo. Dei sorte. E algumas vezes, ia na avenida Paulista entregar cotação na Liquigás, no Conjunto Nacional. Fui dezenas de vezes nas Indústrias Matarazzo, na Água Branca, e a na Companhia Antártica, na Borges de Figueiredo. Uma vez fui na Bayer, em Santo Amaro. Acho que demorei quase duas horas para chegar lá. 

Certa vez, passando o farol fechado —- office-boy não esperava o farol abrir —, na rua Xavier Toledo, em frente ao Mappin, levei um apitaço do Guarda Luizinho. Meus ouvidos ficaram zunindo. Nem entendi o que ele disse. Só vi as pessoas rindo. Daquele dia em diante, aprendi a usar a passagem subterrânea que tinha do lado do prédio da Light — acho que por pura vergonha. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias como essa, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: sete maneiras de sabotar sua própria marca

Prometer e não cumprir, ignorar o cliente, mudar o que deveria ser preservado e agir como se uma marca fosse indestrutível são caminhos certos para levá-la à ruína. Foi sobre isso que tratou o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo, que desta vez inverteram a lógica da construção de marca para alertar: muitas empresas estão falhando justamente por não perceberem os erros que elas mesmas provocam.

“A primeira grande falha é não ter uma identidade clara. Quando a marca não sabe o que quer significar, ela pode ser qualquer coisa”, alertou Cecília Russo. Ao lado disso, ela destacou a incoerência na comunicação — desde o silêncio até a mudança constante de tom verbal ou visual — e o distanciamento em relação ao consumidor: “Criar produtos sem entender as dores do cliente é fatal”.

Na sequência, Jaime Troiano apontou que o problema vai além da falta de coerência e entra no campo da frustração: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão”. Para ele, marcas que prometem e não cumprem quebram a confiança e perdem espaço sem chances de retorno. Além disso, Troiano listou ainda o descaso com o atendimento e a resistência às mudanças. “Tão perigoso quanto mudar o tempo todo é não mudar nunca e perder o bonde da história”, explicou, lembrando que a inovação deve respeitar o ritmo e a essência de cada setor — especialmente no caso de restaurantes, onde pratos icônicos são parte da marca.

Em um tom provocativo para ironizar práticas comuns de má gestão de marca, Jaime sugeriu, por exemplo, que se você quer mesmo sabotar sua marca, basta “reduzir o investimento em comunicação” ou “mudar constantemente de agência”. Cecília completou com outras atitudes igualmente prejudiciais, como jogar fora os elementos tradicionais da identidade, ignorar pesquisas e recorrer ao improviso amador no design. “Você sempre tem uma sobrinha com um Mac em casa…”, disse com humor crítico.

O jogo dos sete erros

  1. Falta de identidade clara: A marca não sabe o que quer significar. Sem clareza, transmite confusão e não gera expectativa consistente no público.
  2. Incoerência na comunicação: Mudança constante de tom verbal, identidade visual, mensagens desencontradas ou mesmo o silêncio comprometem a credibilidade da marca.
  3. Desconexão com o consumidor: Criar produtos ou campanhas sem entender as dores e desejos dos clientes mina a relevância da marca e impede a criação de vínculos duradouros.
  4. Promessas não cumpridas: Entregar menos do que o prometido destrói a confiança. Como disse Jaime: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão.”
  5. Descaso com o atendimento Ignorar feedbacks, demorar para responder ou tratar mal o cliente gera prejuízo imediato e ecoa negativamente nas avaliações públicas.
  6. Resistência à inovação (ou mudança sem critério) Marcas que não se atualizam perdem relevância. Por outro lado, mudar tudo sem preservar elementos essenciais prejudica a identidade.
  7. Desvalorização da marca como ativo estratégico Cortar investimento em comunicação, ignorar pesquisas, improvisar no design e não cultivar relacionamentos duradouros com agências leva ao esquecimento e ao sucateamento progressivo da marca.

A marca do Sua Marca

O programa desta semana defendeu que mais importante do que saber o que fazer é reconhecer o que não deve ser feito. A marca do comentário é o alerta direto: erros aparentemente pequenos ou decisões econômicas equivocadas podem causar prejuízos profundos e irreversíveis à reputação de uma empresa.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: Carol Dias, da Kraft Heinz, propõe um novo modelo de líderes

Carol Dias na gravação online do Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente precisa aprender, reaprender para aprender de novo.”

Carol Dias, Kraft Heinz

A imagem do líder como alguém focado apenas em números, prazos e metas já não se sustenta nas grandes organizações. O que tem ganhado espaço, segundo Carol Dias, diretora de People & Performance da Kraft Heinz Brasil, é um novo modelo de liderança: mais conectado com as pessoas, aberto ao diálogo e consciente de seu papel no desenvolvimento humano.

Liderar é inspirar, não apenas gerir

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Carol defende que, embora a gestão continue sendo necessária, o verdadeiro papel do líder está na capacidade de impulsionar pessoas. “Você convida as pessoas a fazerem a gestão junto com você, mas o seu foco tem que ser muito mais na conversa, em como impulsionar os outros a pensarem diferente.”

Esse novo líder precisa desenvolver competências socioemocionais, como presença, atitude e resiliência. “Não dá mais para separar a pessoa que está em casa daquela que está no trabalho”, diz Carol, ao apontar a importância da autenticidade no ambiente corporativo.

A Kraft Heinz tem apostado em três pilares para construir esse perfil de liderança: mentorias estruturadas, projetos de autoconhecimento e repertório ampliado por meio de experiências diversas. “É difícil exigir de uma liderança algo que ela ainda não tem. Por isso, é preciso oferecer suporte, formação e espaço para crescimento.”

A Amazônia como sala de aula

Um dos exemplos marcantes trazidos por Carol foi o projeto Liderança do Futuro, que levou executivos da empresa para uma imersão de cinco dias na Amazônia. O objetivo não era apenas desconectar do cotidiano — mas reconectar-se com a própria humanidade. “Você sai do WhatsApp, do e-mail e passa a se observar, a entender como se comunica e como se relaciona com o outro”, contou.

Segundo ela, essa vivência fortaleceu o pilar do autoconhecimento e ofereceu uma nova perspectiva sobre o papel da liderança no mundo. “A gente começou a perguntar: você é líder só da sua equipe ou também da sua família, dos seus amigos, da sociedade?”

Diversidade, tecnologia e o desafio de ser mais humano

Na conversa, Carol também abordou o compromisso com diversidade e inclusão. “Ter diversidade sem inclusão não basta. É preciso letramento, representatividade e políticas claras desde o processo de recrutamento.” Para ela, diversidade é um caminho para a performance: “Você só consegue provocar e inovar quando convive com o diferente.”

Outro ponto discutido foi o papel da inteligência artificial nas estratégias corporativas. Carol vê a tecnologia como aliada: “Ela vai liberar tempo para que possamos ter outro tipo de conversa — mais humana e mais estratégica. O desafio não é a IA. O desafio é o que vamos fazer com esse tempo que ela nos devolve.”

Ao final, deixou um recado direto aos jovens que ingressam no mercado: “Não se distraiam achando que já sabem tudo. Tenham humildade cognitiva para estar sempre curiosos e a disciplina para aprender algo novo.”

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.
Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Cris Kerr, da CKZ, diz que líderes que ignoram abusos promovem assédio

Reprodução da gravação do Mundo Corporativo com Cris Kerr



“O silêncio não é neutro.”

Cris Kerr

A omissão diante de um comportamento tóxico dentro das empresas é mais do que um erro: é um sinal de cumplicidade. Quando líderes ignoram atitudes abusivas, reforçam a percepção de que certas pessoas estão acima das regras – e alimentam um ambiente que afasta talentos e adoece profissionais. Essa foi a mensagem central da entrevista com Cris Kerr, CEO da consultoria CKZ Diversidade, ao Mundo Corporativo.

Para Cris, é preciso agir de forma rápida e justa diante de qualquer conduta inadequada. “Se a gente está vendo e não faz nada, estamos dizendo: pode continuar fazendo, porque você é gerente, diretor, e nada vai acontecer com você”, afirmou. A especialista alertou que a responsabilidade recai especialmente sobre a liderança: “O comportamento da liderança dita a cultura da organização.”

Transformação cultural: urgência e ação

O caminho para ambientes corporativos saudáveis exige mudança de cultura e não apenas manuais com boas intenções. “Cultura não é o que está escrito na parede. É o que se vê nas atitudes”, disse Cris. E essas atitudes, segundo ela, começam no topo: “Muitos ainda confundem piada com agressão. E é comum ouvirmos de quem está no comando que ‘é só o jeito dele ou dela’. Não é aceitável.”

A transformação requer treinamento, canais externos de denúncia e ações concretas que demonstrem coerência entre discurso e prática. “Não adianta falar em ética se, na prática, os comportamentos são ignorados. É preciso que a liderança pare de brincar com o que não é brincadeira”, reforçou.

Cris citou o caso de um executivo que fazia comentários inadequados em reuniões, achando que criava um ambiente mais descontraído. “Ele já tinha sido citado duas vezes em canais de denúncia. Quando percebeu que sua imagem e carreira estavam em risco, entendeu a gravidade. Mas muitas vezes é tarde demais.”

Outro alerta importante foi sobre a saúde emocional das equipes. Um ambiente de assédio constante leva à exaustão física e mental. “Frequência de adrenalina e cortisol afeta o organismo. Estamos falando de burnout, depressão e até câncer. É um tema de saúde pública dentro das empresas.”

A pressão da nova geração

Segundo Cris, as empresas que não se transformarem correm o risco de se tornarem inviáveis para as novas gerações. “A geração Z, que em breve representará 30% da força de trabalho, não aceita ambientes tóxicos. Eles pesquisam a cultura da empresa antes de entrar. E se não encontram coerência, vão embora.”

Políticas de diversidade, por si só, não são suficientes. “Assinar um código de conduta no primeiro dia não muda nada. É preciso falar sobre o tema, preparar lideranças e treinar pessoas para serem agentes de transformação.”

Ao ser questionada sobre o futuro, Cris foi direta: “O dia mais feliz da minha vida será aquele em que eu não precise mais ter uma consultoria para falar sobre assédio e discriminação. Quando o respeito for, de fato, um valor vivido e não apenas declarado.”

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Conte Sua História de São Paulo: na cidade e na arte, encontrei acolhimento e inclusão

Márcia de Castro Sá

Concerto do Bem Foto: Instituo Olga Kos

Nasci prematuramente, em 7 de outubro de 1984, no Brooklin, em São Paulo— (minha mãe deu à luz quando completou sete meses de gestação. O meu pai, que trabalhava como assessor econômico em uma fabricante de automóveis; minha mãe, totalmente empenhada com os cuidados do lar e da família, assim como os meus irmãos mais velhos, acolheram-me com muito carinho. 

Nos anos 1980, durante um passeio em um clube paulistano, acompanhada de meus pais, uma prima paterna, fisioterapeuta, notou que eu não reagia a determinados movimentos como normalmente ocorrem em bebês. Logo, fui encaminhada para uma consulta médica, onde foi constatado o diagnóstico de paralisia cerebral.

Em um primeiro momento, aquela notícia surpreendeu a todos. Os cuidados para comigo passaram a ser redobrados. Adiante, recebi mais um diagnóstico: o de baixa visão no olho esquerdo; e miopia no olho direito, o único ainda com capacidade de visão. Digo isso, pois recentemente fui diagnosticada com catarata no olho direito e terei que me submeter a uma cirurgia. Isso sem contar que há mais de 20 anos aguardo uma vaga de uma cirurgia para sanar uma escoliose severa.

Empenhada em superar barreiras em função de minhas deficiências e contando com o apoio familiar total, segui e sigo adiante, em busca de encontrar vias que ajudem a me motivar.

Em 2009, entre minhas sessões de reabilitação, uma fisioterapeuta me apresentou o Instituto Olga Kos. Um momento marcante, pois me abriu portas e ajudou a ressignificar o meu cotidiano, fazendo aflorar algumas aptidões artísticas, como a minha identificação com música, canto e pintura sobre telas.

Recordo que por meio do Instituto, participei de projetos como o “Pintou a Síndrome do Respeito”, que abriu a oportunidade de eu produzir releituras de artistas renomados da pintura nacional.

Desde então, fui sendo inserida em outros projetos, como o “Cor e Ritmo – Arte Inclusiva”, que, além das artes, fez-me notar como música e canto regam minha vida positivamente.

Mais recentemente, outros registros inclusivos são as minhas participações no “Concerto do Bem”, que já teve três edições, sendo a última no Memorial da América Latina, um dos cartões postais de São Paulo, com recorde de público.

Faço questão de observar que todas as atividades que participo ocorrem em locações na cidade de São Paulo, um berço cultural. Não consigo imaginar viver em outra cidade.

Quanto ao Instituto Olga Kos, agradeço pelo acolhimento e por todas as oportunidades que me deram e, certamente, darão. O Olga, como é carinhosamente chamado, desenvolve projetos artísticos e esportivos, além de pesquisas pela inclusão de pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade social. A minha história espelha, inclusive, a alma desse instituto, que é trabalhar por um mundo mais inclusivo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Márcia de Castro Sá é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.