Meus pais viviam da lavoura, no Paraná. Quando eu tinha cinco anos, houve uma das maiores geadas já registradas no estado. As perdas foram assustadoras. Eles trabalhavam de boia-fria, ficaram sem ter como sustentar a família e o sofrimento foi enorme. Era 1975 e tenho na memória a imagem de uma caminhonete Toyota Bandeirante azul, com carroceria de madeira, onde colocamos tudo o que tínhamos. Era do tio José Parreira que havia se estabelecido em São Paulo e foi socorrer meus pais, levando a todos nós para a capital paulista.
Ficamos em um pequeno barraco cedido pelo Tio Pedro, no Jardim Peri Alto, na Vila Nova Cachoeirinha. O pai tinha pouca leitura, aplicava injeção, cortava nosso cabelo e não tinha nenhum conhecimento de cidade grande. Ele que já costumava beber um pouco a mais, tornou-se alcoólatra, ainda assim arrumou emprego de vigilante. A mãe era analfabeta — apesar disso nunca conheci pessoa mais sábia. Ela lavava roupas para os vizinhos. A água vinha de um poço de 42 metros e servia para todos os afazeres.
Com seis anos, eu já vendia durex. O pouco dinheiro que recebia ajudava no sustento da casa. Aos oito, fui trabalhar na feira. Primeiro, na Feira de Terça, na barraca do Zezinho. Lembro daquela madrugada em que percorri as barracas perguntando se precisavam de ajudante. Quando perguntei ao Zezinho, que vendia verdura e legumes, ele me respondeu: – Menino, você é tão pequeno que não aguenta um saco de batatas. Mesmo triste, agradeci: – Muito obrigado, Deus te abençoe! Já caminhava para a barraca seguinte quando Zezinho me chamou: – Menino, não estou precisando, não; mas como você é muito educado, fica trabalhando aqui comigo.
Da barraca do Zezinho passei a fazer carretos em outras feiras usando ora um carrinho de rolimã alugado ora as próprias mãos. – Vai carreto aí moça!
Depois que conheci o Francisco e o Itamar virei vendedor de frutas, de terça a domingo. Foram alguns meses nessa função até ser contratado para office-boy da J.P. Martins Aviação, no Campo de Marte. Já estava com 17 anos e estudava muito. Na feira, tive o apoio da Dona Paula, Dona Dora, Dona Sônia, Dona Guiomar e tantos outros. Pagaram meu curso de datilografia, na escola Real, no Largo do Japonês, o que me ajudou muito.
Assim que conclui o colegial e já como encarregado do setor de cobrança da J.P Martins fui incentivado por uma amiga, Cristina Helena Dezena, a prestar concurso público para a CMTC. No início resisti a pagar a taxa de inscrição, pois pensava que era só uma maneira de a prefeita Luiza Erundina arrecadar dinheiro para a prefeitura. Foi a Cristina quem insistiu.
Em 1989, prestei o concurso e ligeiramente esqueci. Segui meu rumo até dois anos depois, minha mãe disse que havia chegado um telegrama em casa: era a convocação para assumir a vaga de escriturário na CMTC. Na época o salário da J.P.Martins já permitia ajudar e muito lá em casa. Estávamos até construindo uma de alvenaria no lugar do barraco de madeira. Ainda assim, encorajado pela Dona Luciene Santos, sócia gerente da J.P, encarei o desafio e fui para a CMTC que posteriormente foi privatizada e se tornou SP Trans – São Paulo Transporte S.A.
Hoje, 34 anos depois, olho para trás e vejo uma trajetória que só foi possível em razão do acolhimento das pessoas que vivem na cidade de São Paulo. Atualmente, vivo em Osasco e pastoreio a Primeira Igreja Unida de Osasco, desde 2005.
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Flabenilto Machado Parreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
A cassação de prêmios concedidos a uma campanha brasileira no Festival de Cannes deste ano acendeu um alerta sobre os limites éticos e a responsabilidade no uso da inteligência artificial na publicidade. A campanha da marca Consul perdeu o Grand Prix e um Leão de Bronze após denúncias e uma investigação da organização, que concluiu que conteúdos gerados por IA simularam eventos e resultados como se fossem reais.
Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. O episódio colocou em xeque não apenas a seriedade de uma peça publicitária, mas atingiu a imagem da publicidade brasileira como um todo. “De certa forma, quase que se confirma uma impressão que se tem de que é uma atividade criativa, mas abre mão de ser séria”, afirmou Cecília Russo. Ela também apontou o impacto na imagem do país: “Colocamos luz em traços da nossa identidade nacional que há anos tentamos afastar — de um país menos sério, não confiável”.
Jaime Troiano vê nessa crise uma possível inflexão positiva, ainda que provocada por um tropeço: “O trabalho ficou mais complexo, mas eu acho que vai ficar muito mais sólido, mais profissional”. Para ele, a partir de agora, os anunciantes estarão mais atentos aos cases enviados a festivais e à comunicação cotidiana, exigindo embasamento e idoneidade. Troiano destaca que a inteligência artificial não é o problema em si, mas sim o uso que se faz dela. “A inteligência humana é hoje mais do que nunca necessária. Esse é um grande alerta que a crise de Cannes acabou por estampar”.
A marca do Sua Marca
A mensagem central do comentário é clara: o uso ético da inteligência artificial é inegociável. A credibilidade da publicidade — e da marca — depende do compromisso humano com a verdade, com o caráter e com a responsabilidade profissional. Como resume Cecília Russo, “isso se tornou mandatório agora”.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
“Você precisa transmitir essa verdade na hora de fazer algum tipo de ação.”
Bibi Amarante, Hustlers.br
Criar experiências ao vivo entre marcas e consumidores é mais do que promover eventos. É sobre estabelecer vínculos autênticos, gerar pertencimento e ativar, de forma imediata, a percepção das pessoas sobre produtos, serviços e valores. Para Bibi Amarante, sócia e COO da Hustlers.br, o live marketing — que já foi chamado de marketing de experiência e promocional — evoluiu para ocupar um papel estratégico nas relações entre empresas e seus públicos. Esse é o tema da entrevista ao programa Mundo Corporativo.
“O live marketing é tudo que você possa fazer ao vivo com o seu consumidor final ou com o seu público-alvo”, explica Bibi. “Você consegue medir ali o termômetro de ‘tô indo bem, tô indo mal, estão gostando do meu produto, não estão gostando do meu produto’.” A presença ativa nas interações permite respostas rápidas e diretas, mas também cobra autenticidade de quem realiza: “Do mesmo jeito que você tem essa mensuração muito rápida, você consegue sacar mais facilmente se a marca tá sendo genuína.”
Representatividade como estratégia de negócio
A Hustlers.br, criada por Bibi e Ramon Prado, é uma agência liderada por pessoas negras e formada majoritariamente por profissionais pretos. “A gente se entende como uma agência plural, porque a diversidade, ela vem de várias questões, não só das questões raciais.” Essa visão está presente desde a escolha dos fornecedores até o perfil das equipes envolvidas nas ações. “A gente não faz só eventos voltados à diversidade, mas a gente inclui a diversidade em tudo que a gente faz.”
Entre os projetos que mais refletem esse posicionamento, Bibi destaca o Perifacon, evento geek gratuito voltado à periferia, e o Future in Black, conferência de negócios para lideranças negras. “A gente se envolve bastante, não só porque cumpre com o propósito da agência, mas também porque atinge públicos diferenciados.” Além desses, a Hustlers também atua com marcas como Natura e TikTok, criando ações para públicos diversos e com escopo nacional.
Ela observa uma mudança no mercado. “Hoje em dia a gente tem falado muito de Brasil real, né? Você se vê representado ali dentro do contexto, seja corporativo, seja publicitário, de comunicação — e isso faz a diferença. As empresas têm percebido isso.”
Ser líder, ser paciente, ser resiliente
Com mais de 20 anos de carreira, Bibi conta que sua trajetória no live marketing começou ainda na faculdade, quando se encantou pela área. Hoje, reconhece o quanto amadureceu como empreendedora. “No início da minha carreira eu era muito afoita. Hoje em dia eu tenho mais paciência, eu sou mais resiliente para entender que às vezes é só um obstáculo no meio do caminho. Você não precisa desistir de tudo.”
Para ela, liderar é saber lidar com contexto e pressão. “Ser líder, eu acho que também é isso: é você ter esse olhar ali mais resiliente, entender todo o contexto, entender tudo que tá sendo posto dentro desse cenário para que você consiga se aprimorar.” O improviso também é essencial no live marketing: “Você tem que ter o pensamento muito rápido do que vai fazer.”
E para quem está começando, o conselho é direto: “Procurem agências de live marketing. Não se inibam achando que vai sair muito caro ou que vai afastar. Qualquer tipo de empreendedor pode ter contato com especialistas.”
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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.
A árvore centenária da Diógenes Foto do ouvinte Valdir Soares de Lima
Estou com 64 anos. Sou taxista há 30. Passei minha infância, até os 14 anos, brincando e circulando pela Vila Leopoldina. Assisti à inauguração do centro esportivo Pelezão com a presença do Rei. Na Companhia Cacique de Alimentos, vi Emerson Fittipaldi e o irmão Wilson que frequentavam o local para negociar o patrocínio da Copersucar, na Fórmula 1. A presença deles se tornava um desfile festivo com os pilotos em um Dodge Dart conversível acenando para os moradores que cercavam o carro. Ao lado de onde hoje tem o SESI, havia um campo de de várzea — além dos jogos de futebol, no meio do ano, se realizava a festa do Divino Espírito Santo, que teve origem em Portugal. Lembro como se fosse hoje: sardinhas na brasa acompanhadas por tremoço ao som de Roberto Leal, que se apresentava no palco.
Na rua Barão da Passagem, quase esquina da Carlos Weber, havia uma companhia metalúrgica na qual tive o prazer de assistir à gravação de cenas do filme “Eles não usam Black Tie” com Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Ricelli. Foi maravilhoso. A lamentar o fato de que o muro em que ficávamos sentados para vermos as gravações que antes era de uma escola, onde fiz o primário, agora é do batalhão da polícia.
Por falar em lamento: que triste tem sido o tratamento dado a uma árvore centenária da avenida Diógenes Ribeiro Lima, próximo do número 2.000. Ao longo da minha vivência na região, das muitas histórias que ouvi dos moradores mais antigos, as que mais me chamavam atenção passavam por essa árvore. Ela abrigava tropeiros que seguiam a caminho de Sorocaba. A parada sob a copa desta árvore era o último descanso antes da travessia do Tietê. Por ali passavam os boiadeiros que levavam o gado para o abatedouro de Vila Mariana. Por isso, o trajeto era conhecido por Estrada da Boiada, assim como o bairro que circundava o rio, levava o nome de Emboaçava, que em tupi significa ‘lugar por onde se passava’. Infelizmente, pouco restou desta árvore e sua gigantesca e acolhedora copa: temos apenas um tronco mal tratado, cercado de concreto, já tendo sido alvo de queimadas; um tronco que, além das histórias que contamos, resiste com alguns pequenos galhos verdes
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Valdir Paulo Soares de Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Um projeto de branding pode até seduzir pela criatividade e pelo design arrojado, mas se não entregar resultados concretos, não cumpre seu papel. É essa a provocação feita no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, por Jaime Troiano e Cecília Russo. O ponto central da conversa foi a eficácia dos investimentos em branding — um tema cada vez mais cobrado por empresas que querem retorno tangível para suas decisões estratégicas de marca.
“Como disse um cliente: ‘Quero ver se com o que vocês fazem, a gente bota porco de um lado e sai linguiça do outro’”, contou Jaime Troiano, usando a metáfora para exemplificar a cobrança por eficiência nas entregas. Ele destacou que a primeira condição para medir essa eficácia é assegurar a qualidade do produto ou serviço oferecido — o que é básico, mas essencial. E lembrou a advertência de Washington Olivetto: “O pior que pode acontecer com um mau produto é ter uma boa propaganda. Dinheiro jogado fora.”
Segundo Troiano, o trabalho de marca precisa começar de dentro para fora, ouvindo o público interno. “Se a marca não for bem aceita internamente, não será em lugar nenhum. Porque os colaboradores precisam ser embaixadores e advogados da marca”, afirmou. A receptividade dentro da empresa e nos pontos de venda, onde o produto encontra o consumidor, são aspectos fundamentais para o sucesso da marca.
O consumidor é o termômetro
Cecília Russo reforçou a necessidade de se escutar quem realmente define o sucesso de uma marca: o consumidor. “É importante fazer uma consulta ou uma pesquisa independente”, afirmou. E alertou que esse trabalho não pode ser conduzido por vendedores ou representantes, pois “eles não têm uma posição independente e treinada para isso”.
Ela destacou o valor das pesquisas quantitativas e qualitativas — de questionários a grupos de discussão — como formas de captar como a marca está sendo percebida e o que ela comunica de fato. “A pesquisa é como ouvir o que falam de você quando você sai da sala”, citou, lembrando a famosa definição de Jeff Bezos.
A marca do Sua Marca
O comentário desta semana deixa claro que prometer não basta: é preciso entregar. A marca do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é a seguinte frase: “As marcas fazem promessas, mas o importante em branding é a contraprova.”
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Bastidor da entrevista on-line do Mundo Corporativo
“A cooperativa só existe a partir do associado e para o associado.” — César Bochi
César Bochi, Sicredi
O cooperativismo vem ganhando espaço como alternativa ao sistema financeiro tradicional, reforçando vínculos locais e colocando o associado no centro das decisões. Ao contrário dos bancos convencionais, o foco não está apenas no lucro, mas no desenvolvimento econômico e social das comunidades. Este foi o tema da entrevista com César Bochi, Diretor-Presidente do Banco Cooperativo Sicredi, e Moacir Niehues, Diretor Executivo do Sicredi Vale do Piquiri ABCD PR/SP, no programa Mundo Corporativo.
Bochi destacou que o modelo cooperativista “só existe a partir do associado e para o associado”, ressaltando a importância da participação democrática na gestão. Segundo ele, “o resultado, sim, é importante, mas tem que ser relevante, perene e de longo prazo”. Para o executivo, o papel da cooperativa vai além de oferecer produtos financeiros, servindo como instrumento de fomento ao desenvolvimento local.
Modelo participativo e impacto social
Niehues enfatizou que o engajamento dos associados nasce do vínculo de confiança e da proximidade. “O associado não quer apenas um cartão na carteira; ele quer relacionamento, proximidade e alguém em quem possa confiar”, afirmou. Para ele, a transparência no processo decisório e o foco no bem-estar financeiro dos associados são os principais fatores que alimentam a confiança no modelo cooperativo.
O movimento cooperativista também tem um forte componente social. Bochi explicou que as cooperativas destinam parte do resultado para projetos locais definidos pelos próprios associados, como reformas em escolas e hospitais. “É o associado quem decide para onde vão os recursos. Isso gera pertencimento real e impacto direto na comunidade”, comentou.
Outro ponto central abordado por Bochi foi a modernização das operações sem perder a essência. “Hoje, 96% das transações do Sicredi são digitais, mas as pessoas ainda precisam de atendimento humano nos momentos críticos”, disse. A tecnologia é vista como um meio de ampliar o alcance e não como um fim em si.
Niehues complementou que, mesmo com o uso intensivo de tecnologia, o Sicredi busca manter a essência de proximidade. “Nós somos modernos no tipo societário. Falamos de capitalismo consciente e economia compartilhada, mas sem abrir mão do relacionamento humano”, explicou.
Desafios e futuro do cooperativismo
Sobre os desafios futuros, Bochi apontou a necessidade de manter o foco no relacionamento e na essência do cooperativismo, mesmo com o crescimento acelerado. “Crescemos quase 30% ao ano, mas nosso maior desafio é não perder as raízes”, afirmou. Para ele, a tecnologia será sempre um instrumento importante, mas “a cooperativa está lá para ajudar o associado a refletir sobre a melhor decisão”.
Na visão de Niehues, a principal oportunidade está na expansão contínua do modelo, mantendo o equilíbrio entre crescimento e proximidade. “O modelo de negócio é muito bem recebido, e o maior pedido dos associados é: ‘não mudem o jeito de vocês fazerem negócios'”, destacou.
Ao fim, ambos concordaram que o cooperativismo é para todos, mas exige disposição para estabelecer uma relação de longo prazo, baseada em confiança, educação financeira e apoio mútuo.
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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Guilherme Marconi, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.
O vôlei brasileiro se tornou um terreno fértil para marcas que buscam associar seus nomes a um ambiente pacífico e cheio de energia positiva. Esse foi o tema do comentário desta semana no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.
“O nível do vôlei subiu e as marcas vieram atrás”, disse Cecília Russo ao comentar a relação entre os resultados expressivos das seleções e o interesse crescente das empresas. Ela destacou que, diferentemente do futebol, o vôlei se apoia no valor do coletivo, com menos foco em atletas como estrelas individuais, o que torna o patrocínio mais conectado à ideia de equipe e pertencimento.
Jaime Troiano reforçou a força desse ambiente ao lembrar que “é um clima emocional para se construir vínculos”. Ele citou o exemplo de uma final da Superliga feminina que reuniu mais de 10 mil pessoas no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em um espetáculo que, segundo ele, foi “civilizadíssimo, maravilhoso”. Para Jaime, os clubes também se consolidam como marcas fortes, com identidades construídas pela qualidade técnica e projeção internacional.
Além disso, os comentaristas apontaram o crescimento do patrocínio em outras modalidades além do futebol, como surfe, skate e ginástica, reforçando o movimento das marcas em busca de novos espaços que transmitam valores alinhados a uma vida mais saudável e vibrante.
A marca do Sua Marca
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso reforça que o sucesso de uma marca depende de encontrar o esporte, o clube e o público certos para traduzir o posicionamento que se quer transmitir. O vôlei mostra que, quando a conexão é genuína, todos saem ganhando: marcas, atletas e sociedade.
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“Liderança não pode se colocar como protagonista. Ela precisa ser um guia, ajudar, auxiliar.”
Rafael Mayrink, NP Digital
O sucesso das empresas hoje vai além das competências técnicas e depende, sobretudo, da maneira como as pessoas se comportam, se relacionam e aplicam a tecnologia a seu favor. Este é o alerta de Rafael Mayrink, CEO da NP Digital Brasil, que participou do programa Mundo Corporativo para discutir a importância das habilidades comportamentais, o papel transformador da liderança e o impacto crescente da inteligência artificial no ambiente corporativo.
Ao longo da conversa, Mayrink destacou que “a pessoa precisa ler, ser curiosa, correr atrás, aprender mais sobre tecnologia e inteligência artificial para que ela use isso ao seu favor”. Para ele, o pensamento crítico se torna indispensável em um contexto em que as decisões precisam ser constantemente revisadas e alinhadas ao verdadeiro objetivo do cliente ou do projeto. “Se eu não tiver senso crítico para entender, perguntar e conhecer quem está do outro lado, não vou conseguir entregar o que realmente é necessário”, afirmou.
Treinar comportamento desde cedo
Mayrink defendeu que as competências comportamentais não nascem prontas e podem — e devem — ser desenvolvidas desde a infância. “Soft skills têm que estar lá na escola, desde o momento em que a criança começa a formar frases”, explicou. Segundo ele, é nesse processo que se aprende a falar em público, ouvir com atenção, lidar com frustrações e desenvolver empatia.
Ao falar sobre liderança, o executivo enfatizou que o líder precisa abrir espaço para os outros, ouvir ativamente e atuar como um orientador. “Nem sempre a liderança tem razão, mas por ter mais experiência, vai saber ouvir e guiar as pessoas para resolverem seus próprios problemas”, pontuou.
Inteligência artificial e o novo marketing
A tecnologia e a inteligência artificial já estão profundamente integradas ao marketing digital, e Mayrink apontou que isso exige um novo olhar sobre as funções e as relações de trabalho. “A inteligência artificial vem para aumentar produtividade, dar mais tempo e permitir que as pessoas desenvolvam outras habilidades”, comentou. Ele alertou, porém, que as mudanças exigem adaptação contínua e capacidade de aprender novas funções.
No encerramento, Mayrink aconselhou os jovens profissionais a ampliarem o repertório: “Faça algo fora do seu dia a dia. Aprenda um instrumento, pratique um esporte, explore novas experiências. Isso ajuda a desenvolver criatividade e habilidades de comunicação, fundamentais para qualquer carreira.”
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Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:
Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada.
Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria.
O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão.
No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.
Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode.
– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos.
O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.
Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia.
Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.
Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!
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Ana Maria Oliva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu text agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Foto publicada por Fernando Sobrinho em Memorias Paulistanas
“Vila Prudente,/ bairro que nos seduz/ De dia falta água/ De noite falta luz/ Abro o chuveiro/ Oi, não cai um pingo/ Desde segunda até domingo/ Eu vou pro mato/ Oi, pro mato eu vou/ Vou buscar um vagalume pra dar luz em meu chatô”
Para iniciar essa narrativa com bom humor, eu coloquei em destaque a letra da marcha carnavalesca “Vagalume”, de 1954, autoria de Vitor Simon e Fernando Martins, trocando apenas Rio de Janeiro por Vila Prudente, bairro onde fui criado, vivi boa parte da minha vida e de onde trago muitas recordações. Ouvi muito a marchinha ser cantada, em forma de paródia, pelos antigos moradores do bairro como forma de levar a vida…
Entre buracos, balões e bolinhas de gude
Durante a infância, nos anos 1950, as famílias vilaprudentinas sofriam bastante com a falta de água e energia elétrica. O bairro era caçula da região, comparado com a Mooca e Ipiranga, ambos limítrofes, fundados no século XVI, e já bem desenvolvidos. Faltava infraestrutura, por isso muita coisa o bairro ainda carecia. Lembro da coleta de lixo em carroças puxadas por burros, que não aparecia todos os dias. Em dia de chuva, o bairro se complicava com enchentes na região próxima à estação do Ipiranga, parava tudo. Se não chovia, a porteira é que parava todo o trânsito. O problema só se resolveu quando foi construído o Viaduto Capitão Pacheco Chaves.
Por outro lado, saudades do padeiro que trazia o pão em domicílio de carroça, onde eu adorava comer as raspas que ficavam no fundo, o tintureiro nissei que buscava roupa pra lavar e levava tudo por entre o braço, os amoladores de faca com aquelas gaitinhas características, o vendedor de suspiro, o bijuzeiro com aquela placa com um som de reco-reco, o homem do realejo com o periquito da sorte, os moleques que vendiam pirulitos, que eram pura água com açúcar, com o infalível grito: “Piruliteeeeeeeeeiro! Tira dooois por um cruzeirooooooooo!!!” Promoção. Era o marketing.
Na minha rua, a Cananéia, as famílias que lá moravam, em sua maioria, vieram para realizar o sonho da casa própria, porque pagavam aluguel em bairros mais desenvolvidos e, com sacrifício, adquiriram terrenos da Cia Cerâmica e construíram suas casas. Meu avô paterno foi um deles, veio do Cambuci. No terreno, ele construiu 3 casas (mas daquelas bem improvisadas) para ele com minha avó, e as filhas já casadas e com filhos — um deles era eu.
De lá de casa eu avistava o “morrão”, onde havia muitos campos de futebol, suficientes para cada agremiação de várzea daquela parte do bairro. Atuavam no morrão: Portuguesa, Flamengo, Ouro Verde, Comercial. Mais tarde o “morrão” seria o Crematório de Vila Alpina e Cemitério São Pedro, previstos muitos anos antes. A gente não acreditava.
A infância onde tudo era campo
Para nós, moleques de rua, as dificuldades não eram tão sentidas, afinal nossas preocupações eram a de brincar o dia inteiro até escurecer, jogando bola, rodando pião, jogando bolinha de gude, empinando pipas (que também chamávamos de quadrado), brincar de pique, acusado, mãe da rua (essa era violenta…), unha na mula, maçaneta (jogo com tacos que recebia outras denominações em outros bairros)… Tomar banho? Não era algo tão relevante.
As meninas também tinham suas brincadeiras: pular corda, amarelinha, casinha, corre cipó, pique (que pronunciávamos “piques”)…
Havia uma espécie de calendário que determinava a época de cada brincadeira. Assim, nos meses de vento, a partir de julho, as pipas dominavam; antes, em junho, os balões, as lanternas feitas de lata de óleo; no início do ano, pião — e assim íamos… Já futebol era todos os dias em nosso campinho, quer realizando peladas com a nossa turma mesmo, ou jogando contra outras turmas do bairro, sempre descalços, vira 6, acaba 12… Mas para a realização dependia de termos a chamada “bola de capotão”, o que às vezes nenhum membro da turma tinha, e amargávamos férias futebolísticas, a não ser quando o adversário trazia a bola.
Existiam muitas turmas naquela região da Vila… muitas. Nós éramos da “Turma da Serragem”, porque nosso campinho ficava num terreno de uma serraria com serragem em toda a extensão e com uma certa altura, que lembrava até as dunas da cidade de Natal. Éramos bem pacatos, com time de fraco pra regular, mas cheios de garra. Outras turmas eram mais briguentas, como a da Padaria Amália e a Turma da Cananéia, ambas rivais.
A Padaria Amália era muito conhecida e virou referência no bairro, a tal ponto que, quando alguém que morasse próximo a ela era indagado onde morava, dizia: “Na padaria Amália” ou, para descer do ônibus, dizia ao motorista: “Descerei na padaria Amália”. Essa característica era muito comum de existir em bairros de São Paulo, sempre com uma referência comercial para facilitar o deslocamento e localização.
A festa junina da minha família
Na rua, ainda de terra, por ocasião das festas juninas, cada família fazia a sua festa com fogueira, canjica, pipoca e outras guloseimas, na véspera ou no dia de determinado santo junino. E todas as outras famílias participavam até a fogueira ficar em brasa para esperar as batatas-doces. A festa da nossa família acontecia sempre no dia de São Pedro, e a festa do dia 28 de junho de 1958 foi inesquecível para mim: o Brasil ganhara o campeonato mundial de futebol pela primeira vez nesse dia, na Suécia. Nunca vi tantos balões no ar, foguetório… Muita alegria do povo.
Essa convivência da rua se limitava a uma dimensão de um quarteirão. Lembro que nesse pedaço somente uma família possuía televisão, justamente do nosso lado. Claro que nós e muita gente éramos “televizinhos”. Aos domingos, os moleques iam assistir ao “Circo do Arrelia”, pelo canal 7, e logo após vinha a transmissão do futebol de partida do campeonato paulista. Daí vinham os rapazes mais velhos, na maioria palmeirenses, que se juntavam aos rapazes da casa, também palmeirenses. Nós, moleques, saíamos. Todos eles jogavam em um time lá do “morrão”, nos jogos de várzea que aconteciam aos domingos. Aliás, muitos jogadores profissionais saíram dos times lá do morro.
Eu gostava de acompanhar o Vasco da Gama da Vila Prudente, cujo campo não era no “morrão”, e sim onde hoje está situada a Igreja São Carlos de Borromeu, na Rua do Oratório, em direção à Rua do Orfanato. Meu tio me levou pra lá a primeira vez em um festival com o campo lotado, cada jogo melhor que o outro, com os times do morro participando. Fiquei extasiado com a atmosfera do evento. Eu lembro que os troféus aos times vencedores eram entregues num palanque, com erguimento, e o grito de vitória da agremiação sempre era o mesmo: “1, 2, 3… 4, 5… 6… 7, 8, 9… para 12 faltam 3… tchi bum bá… iu maracará… zum… zum… zum… rá… rá… rá!!” Uma festa que geralmente se estendia em “chopada” na sede do clube. O bicho-papão do bairro era o Búfalo, da fábrica de papel do mesmo nome.
O Vasco, embora não possuísse grande torcida, tinha um torcedor que era um espetáculo à parte. Seu grito de incentivo para o time era “Vamo Dibuiá!”, que ecoava por todo o campo. Os torcedores do barranco aplaudiam e até o apelidaram de Dibuiá. Grande figura.
Do pião à CEPAM: a vila que virou cidade
O curso primário eu fiz, como a maioria da molecada fez, no Grupo Escolar República do Paraguay, que existe até hoje, bem em frente à também antiga Biblioteca. À noite, se chamava Colégio Estadual Professor Américo de Moura (CEPAM), com curso ginasial, extremamente concorrido para os candidatos que vinham do curso de admissão. Era mais difícil que a Fuvest entrar para cursar o ginásio do estado. O curioso é que depois o colégio se mudou para a Vila Bela (subdistrito de Vila Prudente) e a sigla foi utilizada para denominação de uma padaria que hoje é a referência do bairro, talvez a maior da cidade e quiçá do Brasil: Padaria CEPAM.
Perto dela morei por alguns anos e meus filhos cresceram nessa região.
No terceiro ano do grupo, inconscientemente, fiz uma confusão danada na aula de religião, pois pensei que eu fosse de alguma religião evangélica, que o povo denominava como “crentes”, mas na verdade eu era católico, sem ter essa certeza e sem consultar previamente os meus pais. Havia aulas somente para os católicos e para os crentes. Então… eu ia às aulas dos crentes normalmente, embora estranhasse o pouco número de participantes. Um dia resolvi contar para os meus pais que, além da bronca que me deram, determinaram de forma incisiva que eu desfizesse toda essa encrenca. Minha professora, católica fervorosa, como toda a escola, vibrou de alegria quando falei que queria ser “convertido”. Fiquei até conhecido pela decisão. Um dia, sem eu esperar, perante toda a classe, ela trouxe o padre, que se dispôs a me batizar no próximo domingo. E o pior: que eu trouxesse meus pais para também serem batizados… Gelei!!… Pensei… O que vou dizer em casa?… E agora? Porém (e sempre tem um porém, como dizia Plínio Marcos), independentemente da religião, Deus me ajudou. Houve um recesso escolar e o assunto foi esvaindo, era final de ano, veio o quarto ano, outra professora. Fato marcante: nesse ano, um colega de classe, japonês, budista, recém-chegado do Japão, se converteu ao catolicismo… Eba!… Deixei de ser o único (só que ele não havia mentido…). No mesmo ano, fizemos primeira comunhão juntos na Igreja de Santo Emídio. A professora do terceiro ano me presenteou com um livro. Final feliz.
Na vila era comum aparecerem circos e parques de diversões em terreno em frente à Padaria Amália ou onde pudesse. Vi muitos acampamentos de ciganos nesses locais. Os mais velhos falavam para não chegarmos perto… Vinham também shows de artistas em início de carreira e também profissionais, como a “Caravana do Peru que Fala”, do Silvio Santos, ou a “Galera dos Bairros”, sempre em um dos 2 cinemas do bairro: Vila Prudente ou o Amazonas. Show de rua também acontecia com o “Sete Belo”, comediante da TV Record. Nesses shows, de vez em quando surgia umas briguinhas entre turmas rivais. Já políticos, em época de eleição, promoviam muitos shows. O Jânio Quadros sempre foi o preferido da rua.
Quando o asfalto chegou à nossa Vila
O bairro começava a se desenvolver e veio o asfalto. Começava a desenvolver. Nossas brincadeiras mudaram um pouco. Os carrinhos de rolemã (ou rolimã) entraram em cena, alguns moleques tinham bicicleta. As meninas andavam de patins. Jogar bolinha de gude só em terrenos isolados. Começaram construções de casas e sobrados. Rodar pião estava difícil. Carros começavam a passar pela rua em grande intensidade. Os moleques já estavam adolescentes e muitos começaram a trabalhar ou foram aprender ofício no Senai, e outros foram estudar. Minha família foi morar em Vila Salate, Penha.
Vila Prudente, sempre chamada de quintal da Mooca, principalmente pelos próprios mooquenses, crescia. Muitos anos se passaram para chegarem à conclusão de que a Ford ficava no bairro e não no Ipiranga (até a linha do trem é Vila Prudente). O crescimento vertical não tardou a chegar, inclusive na região do crematório se estabeleceu uma área nobre do bairro.
A Vila tornou-se centenária. Com muito prazer, eu, com os artistas Pipoquinha e Kakareko, participamos da festa alusiva à efeméride e o troféu representando o “Obelisco do Centenário” guardamos com muito carinho. Eu era o palhaço Xinxolim.
De repente, a Vila Prudente detém ótimos colégios, um jornal de grande circulação, dois shoppings, uma faculdade, estação de metrô. As famílias emergentes que sonhavam morar na Mooca ficaram na Vila. Há outras vilas famosas como Vila Zelina, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Diva — todas pertencentes ao subdistrito Vila Prudente — que os moradores falam com muito orgulho, mas que, no fundo, todos são vilaprudentinos. Diferentemente dos bairros do Ipiranga e Mooca, cujos nomes vêm da língua tupi e mantêm uma forte relação com os moradores e com a cidade. Mas, por tudo, viva a Vila Prudente, bairro que realmente nos seduz.
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Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.