Mundo Corporativo: Maurício Adade, da DSM, diz como investimento em nutrição tem reduzido impacto ambiental na pecuária

 

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“Não existe espaço hoje para nenhuma corporação se esconder atrás de vitrines de sustentabilidade. Tem que atuar. E sustentabilidade é um ótimo negócio”.

Maurício Adade, DSM

O segundo e o mais danoso gás emitido no Brasil é o metano. Boa parte — enorme parte — é emitida pelo arroto do boi. Cerca de 72% das emissões de metano vêm da agropecuária, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Remoções de Gases de Efeito Estufa. Se há um desafio para o Brasil alcançar as metas que assumiu na Conferência do Clima (COP-26), eis aí um dos maiores: reduzir a emissão de metano no campo, especialmente pela importância deste setor na economia.

Uma das soluções é o investimento na ciência, na pesquisa. E a nossa conversa no Mundo Corporativo ESG traz um pedaço dessa história que está sendo construída. Entrevistamos Maurício Adade, presidente da DSM América Latina, uma empresa global que surgiu há 150 anos e, atualmente, trabalha com nutrição humana e animal ou, como a própria se define, uma empresa de saúde, nutrição e biociência:

“Nós somos os maiores produtores, por exemplo, de vitaminas do mundo isso faz com que a gente atue no campo de nutrição animal e humana com ingredientes e soluções para os nossos parceiros estratégicos, parceiros comerciais  … e temos um negócio também que está relacionado com cosméticos”.

A marca DSM é pouco conhecida do público em geral. Não está na gôndola do supermercado nem na plataforma de comércio eletrônico. Mas está na margarina da mesa do café da manhã, no omelete e no cafezinho de cada dia. É, também, uma das líderes mundiais no fornecimento de vitaminas para a indústria de cuidados pessoais e cosméticos, estando entre as  principais indústrias em princípios ativos para emulsificantes, filtros UV e cuidado com a pele.

Dito isso, voltemos ao arroto do boi, que abriu a nossa conversa. De acordo com Maurício Adade, a DSM criou um aditivo para ração de vacas, ovelhas e cabras, com o qual é possível reduzir as emissões de metano. O cálculo que Adade faz é que se essa solução alimentar um milhão de animais seria o equivalente a plantar 45 milhões de árvores.

“Em setembro do ano passado, para orgulho nosso, o Brasil foi o primeiro país a registrar essa solução que chama Bovaer, uma solução que reduz pelo menos em 30% do gás metano em gado de leite e no gado de corte chegamos até 90% de redução de emissão de gás metano. E é uma solução muito simples, totalmente segura, ela foi aprovada recentemente pela comissão europeia, agora em fevereiro, e é muito simples”.

Simplicidade é algo que Adade dá sinais de gostar muito. Em meio a entrevista, quando pedi para que ele nos oferecesse outros exemplos de ações relacionadas ao tema da sustentabilidade, o CEO disse o seguinte:

“Eu gosto de coisa simples, porque complexidade normalmente gera custo e algum tipo de problema”.

Deixo a frase aqui registrada como sugestão para quando você estiver falando com outras pessoas ou pensando em soluções na área em que atua: seja simples!

De volta a entrevista.

Além do desenvolvimento de produtos para parceiros de negócio, pautados pelo tripé ESG, a DSM também investe em economia de baixo carbono internamente. Por exemplo, toda vez que surge a ideia da criação de uma nova fábrica ou nova linha de produtos, inclui-se no cálculo a pegada de carbono, usando como preço básico da tonelada o valor de 150 euros. Segundo Adade, sugestões que aparentemente eram boas deixaram de ser consideradas porque a pegada de carbono era muito grande.

Outro parâmetro dentro da economia de baixo carbono: toda inovação proposta têm de ter pegada de carbono menor do que a da tecnologia que será substituída.

Na área da diversidade e inclusão, Adade destaca o programa de combate a desnutrição que se inicia em pequenas regiões do Paraná e próximo de Lima, no Peru. A DSM oferece transferência de tecnologia e conhecimento para pequenos e microfazendeiros, capacitando-os a produzir ovos, que são usados na alimentação própria e para a venda. 

“Nós já conseguimos produzir oito milhões de ovos e esses ovos têm sido consumidos. Estamos fazendo agora um estudo de impacto nutricional. O que isso tem representado nessas pequenas comunidades. E a nossa ambição é ter, quando esse piloto estiver realmente consolidado, uma diminuição de pelo menos uns 30% da desnutrição na América Latina”.

Assista à entrevista completa do Mundo Corporativo ESG com Maurício Adade, CEO da DSM na América Latina:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Conte Sua História de São Paulo: quem não ama a Paulista de domingo?

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O Conte Sua História de São Paulo traz neste mês de agosto, poesias escritas pelos ouvintes da CBN. Começamos a série com Maria Carolina Prado:

Paulistan@

Quem nunca viu um buraco na calçada

na rua

no caminho?

Quem não comeu milho de panela no ponto,

pastel na Benedito,

pastel no mercadão?

Quem não correu no Ibira,

na marginal Pinheiros,

ou com os bicicleteiros?

Quem não ama a Paulista de domingo,

as ciclovias,

o minhocão?

Quem não gosta de pôr do sol na laje,

boteco de esquina,

padoca, café e pão?

Quem não esperou no trânsito,

esperou o trem,

esperou o busão?

Quem não pegou uma fila,

brigou na fila,

furou de antemão?

Quem nunca reclamou da violência,

do asfalto,

da poluição?

Quem não ama e desama,

foge do caos,

sente falta dessa imensidão?

Quem não quer mais céu,

mais gentileza,

mais amor e natureza?

Quem vem pra cá é aventureiro ou empreendedor,

mágico ou palhaço,

honesto ou mentiroso,

corajoso, feminista,

hater, ou elitista

farofeiro,

pacifista,

motoqueiro ou

sonhador

Quem é de Sampa

sabe o que quer,

onde comprar

e onde vender

Quem vem daqui

tem pressa, tem fome

tem sede,

tem garra,

tem malícia e gratidão

Quem é de Sampa já viu de tudo

e mora aqui

só pela emoção.

Maria Carolina Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: gere valor e se livre das amarras do preço

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“O trabalho de branding, é, em certa medida, a construção de valor e por isso ele carrega tanta responsabilidade”

Jaime Troiano

Inflação alta e renda baixa é uma combinação desastrosa para o mercado de consumo. Os clientes se afastam, reavaliam compras e se adaptam a nova realidade. Cada tostão é gasto de forma cuidadosa, evitando ao máximo o desperdício e o excesso. Mesmo assim, muitos clientes não abrem mão de comprar determinados produtos ou usufruir de alguns serviços. Em pesquisas já se identificou, por exemplo, que uma mãe aceita comprar um produto de higiene pessoal de menor qualidade, de preço mais baixo, para continuar oferecendo ao bebê o leite em pó mais sofisticado, que tem um preço maior. A decisão explica bem a diferença que existe entre preço e valor. Para a mãe, o leite em pó da criança tem alto valor, por isso vale a pena pagar um pouco mais. 

Saber diferenciar preço e valor de uma marca é essencial aos gestores, como explicaram Cecília Russo e Jaime Troiano, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. A começar pelo fato de que quem determina o preço de um produto é o seu proprietário; já o valor, depende especialmente do cliente:

“Falamos de preço como condição absoluta e objetiva: quanto custa uma determinada marca; quanto ao valor, é o que eu atribuo de significado, relevância e utilidade àquele produto que comprei”

Cecília Russo

Uma dona de casa diante da gôndola de supermercado tem diante de si dois detergentes líquidos de marcas diferentes. Os dois custam mais ou menos o mesmo preço, coisa de R$ 2,50. Ela leva para a casa aquela marca que considera ter maior valor para o seu dia a dia. Esse comportamento ocorre na compra de produtos de preço baixo tanto quanto de preços altos.

“Pense na marca Volvo. São carros de preço alto, mas tudo indica que sejam percebidos com alto valor pelo mercado. Aliás, se uma marca não consegue gerar valor, dificilmente ela irá conseguir praticar preço alto, simplesmente porque os consumidores não pagam o preço que essa marca pede porque não veem valor nela”.

Cecília Russo

Para Jaime Troiano, o trabalho de branding  é aquilo que torna as marcas menos sensíveis a preço. Ou, aquilo que gera valor para as marcas ficarem menos reféns de preço. São capazes de manter preços mais altos na etiqueta porque têm maior valor no coração dos clientes.  

“Vamos comparar a Volvo, que a Cecília trouxe, com outra marca de luxo, Mercedes Benz, que também tem apenas carros de preço alto. Veja, não estou me referindo a nenhuma dessas marcas como cara ou barata. Sabe por quê? Isso depende do valor. Um mesmo preço pode ser considerado alto ou baixo, a depender do valor que eu atribuo a ele. Para uns a Volvo vale mais do que a Mercedes e vice-versa”

Jaime Troiano

O gestor de marca deve sempre se perguntar, considerando a qualidade e a entrega que têm o produto ou serviço:

“Estou gerando valor ou apenas estou sendo refém da minha política de preço?”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo de Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, de sábado, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: para Roberto Lunardelli, da Fazenda da Mata, ESG se planta com ‘prosperidade compartilhada’

Foto: divulgação

“Esse é o nosso caminho, né? O nosso grande desejo é esse. É trilhar um novo capitalismo. Um capitalismo muito mais consciente que traz oportunidade para todos” 

Roberto Lunardelli, Fazenda da Mata

Você já ouviu falar em “quebra”? Certamente já, mas talvez não com esse conceito que vou tratar na abertura deste texto para explicar como têm de ser corajoso e idealista o pequeno produtor disposto a ter negócios sustentáveis em todas as dimensões. “Quebra” é como os grandes mercados chamam todos aqueles produtos que estão no estoque e não são vendidos, geralmente porque não estão dentro dos parâmetros considerados ideais, e pelos quais os fornecedores são ressarcidos por valores bem abaixo do negociado (descontos de cerca de 60%). A regra nem sempre é muito clara para o produtor, até porque sabe-se que, parte daquilo que foi considerado “quebra”, segue à venda na gôndola, e sem desconto para o cliente.

Foi contra medidas como essa que o pessoal do Fazenda da Mata decidiu se rebelar e se reinventar, focando outros mercados, especialmente lá fora, e não aceitando negociação a qualquer custo. Por pessoal, estamos nos referindo a Daniella e Roberto Lunardelli, casal fundador da fazenda dedicada a produtos orgânicos, que iniciou o projeto em terras que mantinham na região de Goiânia. No Mundo Corporativo ESG, entrevistamos Roberto que falou da inspiração que tiveram quando trocaram São Paulo por Goiás:

“Logo no início, planejamos a empresa em alguns alicerces básicos. Seria uma empresa que pudesse produzir alimentos íntegros — lógico, orgânicos — a preços acessíveis a todos. E para isso nós tivemos que fazer uma produção em grande escala e preços acessíveis com disponibilidade de produtos de alta qualidade o ano todo”

Dos 400 hectares de terras que tinham à disposição, metade é preservada; a outra é dedicada a plantação dos orgânicos. Para ampliar a capacidade de negócios, se aproximaram de agricultores familiares assentados da reforma agrária, o que abriu para estes a possibilidade de levar seus produtos ao exterior. Para garantir ao mercado que as práticas usadas estão de acordo com as regras internacionais de sustentabilidade, buscaram certificação no Sistema B, a partir de um processo, bastante complexo e minucioso, que identifica se a empresa tem modelo de negócio que visa o desenvolvimento social e ambiental de comunidades e trabalha em soluções para problemas climáticos e ambientais.  

Após a frustração com as negociações feitas com os grandes compradores do país, a Fazenda da Mata entendeu que o tema da sustentabilidade era muito mais desafiador e exigia decisões assertivas. Roberto recorreu, então, a experiência da época em que era executivo de terno e gravata, em terras paulistas, e atuava com comércio exterior para encontrar parceiros lá fora. Segundo ele, especialmente na Europa, no Canadá, nos Estados Unidos e na China, antes de negociarem preços, as empresas querem saber, por exemplo, qual o nível de desmatamento na sua área, quais são os impactos relacionados ao meio ambiente ou quais as ações sociais que você promove:

“Lógico que eles vão sempre buscar a comprar com preços competitivos. Lógico que eles sempre vão buscar a melhor qualidade possível. Essa questão é negocial. Eles não vão fugir disso, mas há uma preocupação muito mais alinhada com uma agenda ESG”.

Na mudança de estratégia, a Fazenda da Mata deixou de entregar orgânicos para 80 pontos de vendas em redes de varejo no Brasil. Hoje, existe um parceiro nacional, em uma rede de mercados que tem quatro lojas, em Brasília, todas abastecidas por um programa batizado Frutos da Mata, graças aquele acordo com os assentados:

“Nós trabalhamos num formato semelhante a cooperativa, onde há um equilíbrio de ganhos. Os assentados são os produtores e nós entramos com uma estrutura que faz toda a gestão comercial, financeira, contábil, logística, etc. É uma alegria enorme dar a oportunidade a esses assentados que produzem com uma qualidade espetacular; e nós conseguimos dar acesso a um mercado que, em outras condições, talvez eles não teriam”. 

Roberto diz que o resultado deste trabalho tem atraído o interesse de gestores no desenvolvimento de politicas públicas que permitam a ampliação dos negócios das famílias de pequenos agricultores, e está sintonizado com o lema da Fazenda: prosperidade compartilhada.

“Você faz negócios com empresas preocupadas com o meio ambiente, preocupadas com questões mais humanizadas, e isso te dá uma um retorno, uma satisfação maravilhosa de você saber que você tá lidando com pessoas que tenham uma preocupação com relação ao impacto ao legado que você vai deixar para o planeta”

Assista à entrevista completa com Roberto Lunadelli, da Fazenda da Mata, ao Mundo Corporativo ESG

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: fé e crença de que as coisas podem mudar

Foto de arquivo: Arsenal da Esperança

Neste último sábado de Julho, o Conte Sua História de São Paulo completa a série de textos selecionados, de um total de 66 escritos por pessoas acolhidas durante a pandemia no Arsenal da Esperança, onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nossa ideia foi chamar atenção para a existência de pessoas que vivem em situação de rua e precisam da nossa ajuda. Leia o texto esrito por Anderson Francisco:

Nunca diga nunca. Essa é uma frase que eu escutava muito quando eu era pequeno. Você nunca pode desacreditar das coisas. Porquê? Você nunca sabe se isso pode realmente acontecer com você.

Às vezes, me pergunto o que Deus tem planejado para minha vida, e qual será o propósito disso tudo. Nós seres humanos, chegamos a um ponto que não temos mente alguma para compreender tamanho poder.

Antes de eu ouvir falar sobre a pandemia ou me falarem sobre o Arsenal da Esperança, passei por muitas turbulências conturbadas durante minha vida. Um pai alcoólatra e uma mãe doméstica por destino. Pequenos filhos, com um péssimo ensino e uma baixa renda que, de tão baixa, uma anã é gigantesca perto dela.

Apesar disso tudo, tive uma boa educação dada por eles, me amaram e me deram boas surras … que nós aprontávamos! E também nunca deixaram faltar nada dentro de casa. Meu pai era pedreiro, saiu do nordeste de Pernambuco, bem novo, com quatorze anos de idade.

Veio a São Paulo a procura de serviço, começou bem cedo na roça, ajudando os pais com as tarefas da roça, junto com o resto dos irmãos. Veio embora ao rumo de São Paulo se queixando de surras constantes que levava de outros irmãos mais velhos. Minha mãe saiu de Goiás, era bem mais velha que meu pai. Tinha dezessete anos de idade e saiu de casa pelos mesmos motivos que meu pai, surras diárias que não aguentava.

Se encontraram em São Paulo, se conheceram e tiveram três filhos, uma menina e dois meninos.

O tempo passou, nós crescemos, alguns se foram e outros ficaram e a vida continuou.

Eu me envolvi com drogas, morei nas ruas, filho pequeno. Aí entra o Arsenal da Esperança. Estou acolhido aqui fez quatro meses, no dia 18 de junho de 2021.

Arrumei uma namorada branca, ah, vocês não sabiam… eu sou negro! Mãe branca e pai negro.

Aí chega a pandemia, devastando tudo o que tem, matando milhares de vidas no mundo. Mas o que a pandemia trouxe de bom foi mais empatia com as pessoas. Saber dar valor às coisas simples da vida. A união das pessoas um com os outros, mais fé e acreditar que as coisas podem mudar mesmo.

Sei que minhas escolhas me impediram fazer certas coisas boas e (escolhas certas) que me encaminhei para um caminho bem melhor. 

E digo mais, peço desculpas pelos meus erros de ortografia, por quê? Eu não tenho me dedicado aos estudos, mas tudo que eu estou vivendo e os desafios de uma pandemia, é isso. É se esforçar ao máximo, é acreditar que você realmente pode alcançar os seus objetivos.

E sempre Deus em primeiro lugar em tudo. Abençoando os caminhos árduos que teremos de trilhar. Nunca fui bom com histórias, mais tentei fazer o melhor do possível para vocês tentarem me entender e me escutarem. Usem máscara, se cuidem assim. Mas por quê? Com a saúde não se brinca.

E com simples palavras descrevi tudo aquilo que eu senti. Por quê? Essa é mais uma história que ninguém conta.

Anderson Francisco do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a esperança chegou na primeira semana do Arsenal

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes, durante a pandemia. O texto de hoje é de Wilson Luis

Foto: Mílton Jung

Olho para os acontecimentos sem dar importância, como todos, pensando somente “mais um vírus que não vai me afetar”. Muito menos o Brasil. Esse passará longe.

Quando os noticiários ficaram mais longos e mostrando a chegada do vírus no Brasil e como já estava a Itália e a China, me preocupei, mas sem ter a dimensão do que o vírus causaria.

Quando uma orientadora do abrigo onde eu estava convocou uma assembleia dizendo que não poderíamos mais sair de lá, somente nos dias estipulado pela direção, somente para comprar, como cigarro, e médico, pois o Brasil estava fechado por 14 dias, me senti numa zona de guerra.

No abrigo, passei a conviver 24 horas com todos. Os noticiários não pararam de falar do aumento de mortos. Lembro de sair para comprar cigarro e ver a cidade deserta, somente ambulância e carro funerário na rua. Logo fiquei preocupado com minha família. Falava com eles constantemente.

O convívio no abrigo não era fácil nem pros funcionários, nem pra nós, conviventes, pois a rotina estava mudada, todos ali tinham que almoçar no abrigo, não era mais obrigado a sair e nem podia sair para resolver problemas pessoais: parei meus projetos.

Passei a criar uma rotina, passei a ler mais, conhecer mais pessoas no abrigo e me apeguei mais na fé e em Deus.

Logo, quando cheguei no Arsenal da Esperança, a esperança chegou na primeira semana, pois tomaria a vacina.

Apesar da vacina andar a passos curtos, posso notar a diferença, o comércio abrindo, as pessoas voltando ao trabalho, pessoas sorrindo novamente, revendo seus parentes, meus projetos voltando.

Não foi fácil, ainda tem um longo caminho a ser perseguido para a volta da normalidade, mas a vacina nos trouxe esperança e ver nossos filhos abraçando a mãe após um ano, nos traz a esperança.

Temos que tirar lição de tudo que a pandemia nos causou como …

Aprendizado. E o maior aprendizado para mim se chamou saudade.

Wilson Luís do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: pesquisa da Grant Thornton mostra que apenas 8% das empresas divulgam metas de ESG, segundo Adriana Moura

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“Não é mais uma questão de boas práticas, não é mais uma questão é desejável, é uma questão de sobrevivência. Precisamos todos nós fazermos as nossas partes enquanto pessoas, enquanto profissionais, e as empresas estão sendo desafiadas a ter uma maior responsabilidade corporativa”. 

Adriana Moura, Grant Thornton Brasil 

 

As empresas ainda não estão estruturadas para avançar em todos os pilares ESG nem para divulgar os dados de sustentabilidade de maneira a conquistar a confiança de investidores. Essa é uma das conclusões de auditores e consultores da Grant Thornton Brasil após estudo que avaliou as práticas e relatórios de sustentabilidade de 328 empresas de capital aberto. De acordo com a Adriana Moura, líder de governança, riscos e compliance da auditoria, a ideia foi analisar tanto a quantidade quanto a qualidade dos dados divulgados.

No Mundo Corporativo ESG, Adriana disse que pouco menos da metade das empresas pesquisadas divulgaram o relatório anual de sustentabilidade (48%), mas o  que mais chamou atenção foi o fato de apenas 8% desse material ter sido auditado ou revisado por entidades independentes.:

“Isso tem direta relação com a credibilidade que tem esses relatórios. Só para você ter uma ideia da importância dessa questão de credibilidade de uma auditoria por empresa independente: a CVM publicou uma resolução que, a partir deste ano, se as empresas optarem por utilizar um relatório integrado elas têm a obrigatoriedade de submeter esses relatórios a um auditor independente”.

No estudo, vê-se que os temas materiais são divulgados por 31% das empresas em seus relatórios ESG, porém apenas 8% informaram as metas relacionadas a esses temas, com destaque para setores de energia, transporte e saneamento. Diante disso, como saber se o caminho traçado pelas empresas está sendo percorrido na velocidade que planejaram?

“Esse é o questionamento que nós nos fazemos, quando a gente se debruça num resultado de um estudo onde as empresas afirmam o interesse e as iniciativas, publicam que existem iniciativas, que financiam essas iniciativas. Mas por outro lado não determinam metas claras e objetivas em relação as ODS. 35% da nossa amostra se compromete com um ou mais objetivo de desenvolvimento sustentável, porém a gente se questiona: sem as metas, sem as informações específicas, sem quais são os itens materiais, como essas empresas conseguem realmente aderir a esses objetivos, a essas ODS”.

A pauta “trabalho decente e crescimento econômico”  está no topo da lista dos objetivos de desenvolvimento sustentável propostas pela maioria das empresas que tiveram seus dados consultados pela Grant Thornton Brasil . Seguida de “ação contra mudança global do clima” (26%) e “indústria, inovação e infraestrutura”, (25%). 

“Estamos numa fase inicial, mas crescente. Acredito que se fizermos esse estudo no próximo ano, daqui a dois anos, os resultados serão bem diferentes no sentido positivo. Então, é um desafio de todos nós e, especialmente, de nós consultores e auditores que temos aí uma missão em em apoiar nossos clientes dessa jornada”. 

Assista ao Mundo Corporativo ESG com Adriana Moura, da Grant Thorton Brasil:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Leandro Melnick, da Even, diz como construir a ideia de sustentabilidade no canteiro de obras

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“Não é que a gente investe, a gente atua de forma sustentável, porque a gente entende que é o melhor formato. Não somos uma empresa muito preocupada com essa visão do quanto vai ser o retorno para cada projeto; nós olhamos de forma mais amplificada o resultado”

Leandro Melnick, Even

Mão de obra intensa, grande número de fornecedores e um volume considerável de resíduos são apenas alguns dos muitos desafios que o setor de incorporação e construção tem diante das demandas da pauta ESG. No caso de Leandro Melnick, entrevistado do Mundo Corporativo, uma peculiaridade se expressa nessa lista: equilibrar-se na governança de duas empresas que atuam no mesmo segmento e com participação mútua na sociedade. Leandro é CEO da Melnick, criada pelo pai dele, no Rio Grande do Sul, e da paulista Even, com quem fechou sociedade, em 2008. 

“Em um  mercado tão supervisionado e analisado, com vários bancos e entidades que cobrem as empresas de capital aberto, esse assunto tinha que ser muito transparente. Então, a gente foi exaustivo, fomos vigilantes no processo de transparência de relatórios, de comitês de apoio e de governança para dar segurança. E isso foi muito bem aceito por todos os stakeholders, o que deu muita tranquilidade para a empresa seguir o trabalho”.

Outra característica destacada por Leandro, que deve ser consideradas nas boas práticas de sustentabilidade, é o fato de as incorporadoras trabalharem com produtos de vida longa — conforme a qualidade, apartamentos e casas podem durar além dos 50 anos. Ou seja, não basta implantar sistemas que reduzam o consumo de energia ou o volume de resíduos durante a construção, é importante pensar na eficiência energética do ambiente, na arquitetura sustentável e no tipo de material a ser usado, entre outros aspectos.

A política de gestão de resíduos da Even promove o total aproveitamento da madeira que sobra nas obras, que é separada em contêineres  exclusivos, que são coletados por cooperativas, que limpam essa madeira e a fornecem para a indústria novamente para fazer, por exemplo, compensados. De acordo com o relatório de sustentabilidade da construtora e incorporadora, 98% dos resíduos gerados nas obras são reaproveitados de diversas formas. Desse total, 20% entram no ciclo da logística reversa, como é o caso da sucata  oriunda dos blocos de concreto e de cerâmica e das estruturas metálicas:

“Quando ela (a fornecedora do material) vai fazer o fornecimento de uma nova carga, ela traz para sua origem toda a sucata, todo o material que foi gerado por essa mesma industria “.

Leandro Melnick disse que ao longo dos dez anos em que essa estratégia está sendo usada, a Even conseguiu devolver ao mercado 46 toneladas de sucatas de resíduos metálicos, 100 toneladas de blocos de concreto, cinco toneladas da embalagem de papelão das cerâmicas e 15 toneladas de embalagens plásticas.

Na relação com os colaboradores, um dos objetivos é ampliar a diversidade de gênero em um setor com intensa mão de obra masculina.  Atualmente, no escritório e na gestão das obras, já existem 40% das vagas de escritório ocupadas por mulheres e 39% nas obras. Leandro destaca ainda os projetos na área da educação que oferecem ensino básico para todas as pessoas que trabalham no canteiro de obra; cursos técnicos, pelos quais já passaram cerca de 600 profissionais que começam como serventes; e a oportunidade de os colaboradores atuarem na área de voluntariado, onde aplicam o conhecimento desenvolvido dentro da empresa.

“Já temos a adesão de 26% dos nossos profissionais que participam em mutirões para reformar uma escola, para moradias populares e para dar aulas em entidades”.

Para Leandro, o investimento em ESG aumenta o engajamento dos funcionários que tendem a oferecer novas ideias para a evolução do tema no canteiro de obras e nas unidades habitacionais entregues. Uma consciência que é levada para além dos tapumes, construindo uma consciência coletiva que impactará de forma positiva as pessoas que esses colaboradores são capazes de alcançar.

Assista à entrevista completa com Leonardo Melnick, CEO da Even incorporadora e construtora, ao Mundo Corporativo ESG:

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no Canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às dez da noite e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: meu Brás, oh, meu Brás!

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes. O autor de hoje se identificou apenas como Fábio e escreve um poema sobre um dos mais tradicionais bairros da cidade:

Reprodução de foto do livro “Os desafios de uma pandemia”, do Arsenal da Esperança

Quando voltei, foi difícil acreditar.

Me bateu desespero.

Deu até vontade de chorar.

Confesso, chorei… não deu para suportar.

O que antes era um grande curral social

Hoje, chora em prantos

Ruas desertas, portas fechadas

Mais parecia faroeste, cidade fantasma

Meu Brás, oh, meu Brás!

Nas ruas onde me criei; aprendi a arte do comércio.

A comercializar, comercializo.

Devido às circunstâncias, por algum momento

Até mesmo manguear, mangueei

Meu Brás, oh, meu Brás!

Não vejo a hora disso tudo acabar.

Os que nesse genocídio

Junto com Deus, esteja a vos olhar.

E quando acabar…

Sacolas cheias novamente

Compra, vende, movimentação de gente

Das gentes, povos e etnias

Temos um arsenal de costura

Bolivianos, quem diria!

Pretos, Brancos, Pardos e Índios.

Somos o maior polo comercial.

Da América Latina.

Meu Brás, oh, meu Brás!

Coração de São Paulo.

Hoje bate por aparelhos.

A esperança renasce, no vagão do trem.

No soar da voz, de mais um marreteiro

Meu Brás, oh, meu Brás!

A metrópole comercial da América Latina.

A cidade do comércio, que antes não dormia.

Hoje descanse em paz, feitos da pandemia. 

Fábio, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as lições que temos de aprender com marcas centenárias

Arquivo: Livraria Bertrand, Lisboa

“O valor não tem a ver com idade e sim com  a entrega que se faz todos os dias”

Cecília Russo

Frágeis, fugazes e maleáveis. Assim são as relações sociais e econômicas, na visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do conceito de modernidade líquida. Diante deste cenário, imagine o desafio de marcas, empresas e serviços que se propõem à longevidade. Por isso, inspirar-se naquelas que foram capazes de superar a barreira dos 100 anos ajuda a encontrar caminhos que influenciam tanto a gestão do negócio quanto o comportamento do consumidor. Jaime Troiano e Cecília Russo foram ainda mais longe: trouxeram de Portugal a experiência de marcas com mais de 200 anos de existência.

O maior exemplo apresentado no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é o da livraria Bertrand, uma rede varejista de livros que existe desde 1732 —- sim, isso mesmo, estamos falando do século 18. Em um mundo em que as marcas nascem todos dias, assim como desaparecem, ter uma que beira os 300 anos é fantástico, especialmente porque persiste em área tão fundamental como a cultura.

Cecília reproduziu no programa, o texto escrito pelos gestores da Bertrand que diz muito do seu sucesso:

“Passa o tempo, mudam-se as gerências, mas ficam os livros. É verdade, são já quase trezentos anos de uma História que se confunde com a de Lisboa. Bertrand é hoje o nome da mais antiga e maior rede de livrarias em Portugal. A nossa História ensinou-nos a cumplicidade com o leitor, a lealdade. Fazemos questão de lhe oferecer as mais atuais obras do mercado, os best sellers do momento, mas também de ter em estante, ao seu dispor, os títulos de referência e uma variedade editorial que desafia leitores de diferentes gostos e idades. Fazemos História, estando no presente. Atuais, atentos, ainda apaixonados pelo LIVRO.”

Dessas linhas que resumem a visão da livraria sobre o seu negócio, Cecília identificou três mensagens que servem de lição aos gestores de marcas:

Compromisso com o leitor: coloque seu cliente no centro, sempre, é o que ensina a Bertrand. Tenha cumplicidade e se lembre que tudo começa com um profundo respeito e amor às pessoas.

Capacidade de evoluir, preservando: a Bertrand traz o novo e o antigo juntos, ensinando que uma coisa não “mata” a outra. Ou, cuidado para não jogar fora o bebê junto com a água do banho, como alertamos frequentemente.

Amor pelo que faz: a paixão pelo negócio alimenta o poder de uma marca. Sem que os gestores sejam apaixonados pela área, pelo que vendem ou pelo que oferecem, teremos uma gestão burocrática, mecânica e fria.

Outra referência lusitana: Porcelana Vista Alegre, fundada em 1824. Foi a primeira unidade fabril dedicada à porcelana em Portugal. E, assim como muitas outras marcas longevas, teve um fundador obstinado, José Ferreira Basto, que levou à risca o ideário liberal da época, tendo se tornado o primeiro exemplo de livre iniciativa de Portugal.

“Isso mostra uma outra face das marcas que sobrevivem ao tempo. Elas nascem de um ideal e trazer alguma ousadia desde o nascimento. Se nos transportarmos para aquela época e nos colocarmos nos sapatos do senhor João, veremos que ele foi um visionário. Marcas precisam dessa visão de futuro”.

Atualmente, é possível encontrar marcas centenárias também aqui no Brasil, cada qual com sua característica própria: a Granado que está com 152 anos; a Hering, com 142; a União, com 136; a Klabin, com 123; e a Gerdau com 120 anos. Todos persistem porque souberam alimentar a relação com os consumidores, mantiveram-se relevantes e não se descuidaram de seus produtos. 

Ouça o comentário completo do Jaime Troiano e da Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com a sonorização do Cláudio Antônio”