“Adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”, diz Gilmar Mendes, do STF

Reprodução do vídeo da entrevista com Gilmar Mendes no Jornal da CBN

Que Gilmar Mendes não gosta de Marco Aurélio de Mello —- e vice-versa —- qualquer rábula sabe bem. O próprio Mello, que aposentou a toga, na hora de se despedir definiu a relação com Mendes como sendo uma convivência judicante ..  e apenas judicante. Aos demais falou em convivência fraterna. A despeito disso, na entrevista desta segunda-feira, ao Jornal da CBN, o agora decano do STF Gilmar Mendes foi bastante comedido nas palavras de despedida ao dizer apenas que desejava felicidades a Marco Aurelio.

Nos 22 minutos de entrevista, Gilmar Mendes, falando de Portugal, mediu palavras, mas não deixou de dar seus recados. Ficou claro que não esqueceu ainda seus confrontos com o ex-PGR Rodrigo Janot —- com quem travou embates verbalmente violentos na época da Lava Jato. Por outro lado, foi ameno ao comentar sobre o fato de o atual procurador, Augusto Aras, ser bastante sintonizado com o presidente Jair Bolsonaro.

Sobre Bolsonaro, com quem diz dialogar, Gilmar Mendes entende que o presidente não é um risco à democracia, apesar das constantes críticas ao STF, ao Senado e outras instituições. Para ele o presidente fala para os convertidos. 

O problema —- e aí não é mais Gilmar falando, sou eu comentando —- é que ao manter esse discurso bélico a ponto de dizer que ou tem voto impresso ou não tem eleição, o presidente incita os convertidos. Nesse ponto parece que Gilmar concorda:

“É notório que muitos dos adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”.

Justiça seja feita, se há um ponto em que Gilmar Mendes discorda abertamente do presidente Bolsonaro é quanto a tentativa de reviver o voto impresso. Lembrou até de cenas absurdas, nos colégios eleitorais onde ocorriam a apuração, de fiscais de partido engolindo cédulas para que o voto não fosse registrado na ata. Diante da insistência do presidente—- sem provas —- de que as eleições têm fraude, Gilmar disse na entrevista:

“(a notícia de fraude no voto digital) é tão consistente quanto a mensagem que diz que o homem não foi à lua”

Cássia Godoy e eu tratamos de outros temas com Gilmar Mendes que você comapnha na gravação disponível aqui no blog. Destaco só mais uma antes de encerrar: quando falamos da pressão das Forças Armadas contra a CPI da Covid, que investiga militares com patente suspeitos de envolvimento de irregularidades, Gilmar também deixou seu recado:

“Não é função das Forças Armadas fazer ameaças à CPI ou ao Parlamento”

No mais, ouça a seguir e comente se desejar:

Sua marca: seis razões para comemorar

Foto de cottonbro no Pexels

“Não abra mão de celebrar as conquistas de sua marca, isso não é ser exibido, é sim uma forma de demonstrar orgulho e planejar o que vem pela frente”

Cecília Russo

Jaime Troiano e Cecília Russo estavam animados com a ideia de celebrar a passagem de mais um ano (e de falar sobre o assunto). Não é para menos. Em tempos de empresas e negócios fugazes, estar à frente de uma organização que completa 28 anos, é motivo mesmo para festejar. No caso deles a ‘festa’ da TroianoBranding foi no dia 8 de julho —- festa entre aspas porque diante da pandemia, aglomerar nem pensar. Foi muito mais um repensar sobre conquistas, reveses e futuro, o mesmo que eles sugerem aos gestores de marcas diante de datas especiais.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime e Cecília alinharam seis razões para você comemorar o seu aniversário ou o da sua empresa. Vamos a elas:

  • 1. Celebrar o estar vivo e ativo. Sim, pela conquista de mais um ano de vida, de mais 365 dias em que a marca sobreviveu e esteve presente na vida das pessoas;
  • 2. Ter orgulho do que fez. 

“Quem nos ouve, é empresário, empreendedor, independentemente do porte da empresa, ou é gestor de uma marca, sabe o quanto é difícil fazer uma marca acontecer, mantê-la relevante”

Cecília Russo
  • 3.  Compartilhar a alegria, porque da mesma forma em que a marca celebra seu aniversário, está comemorando com quem esteve ao seu lado todos os dias: clientes, colaboradores, parceiros de negócio. Espalhar essa satisfação é preciso
  • 4. Mais do que dizer o quanto você está feliz, proporcionar felicidade aos seus clientes desenvolvendo promoções, ativações e formas de fazê-lo se sentir presenteado na data.
  • 5. Para dar uma parada, fazer um balanço da trajetória do último ano.

“Especialmente neste ano, muita coisa aconteceu nesse período e nem sempre tempos tempo para analisar o que fizemos de certo, que estratégia foi positiva e o que não foi. Assim evita-se que sejam cometidos os mesmo erros no novo ano que se inicia”

Jaime Troiano
  • 6. Momento de olhar para frente e pensar como quer estar daqui a um ano. Planejar o próximo aniversário. 

“Se você não planeja, muitas vezes sua marca é levada para algum espaço de posicionamento que não era onde você queria estar, é como ser levado pela enchente. Com planejamento, o comando do barco é seu”

Jaime Troiano

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: vou às nuvens com meus netos a bordo de um tapete voador

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte CBN Valter Santos, no Flickr

“Navegar é preciso, viver não é preciso”

Fernando pessoa

Com quatro anos, ele é meu companheiro de quarentena, pois as circunstâncias assim determinaram. Desde o dia em que o mundo parou, nossa diversão tem sido embarcar no tapete voador, inventado às pressas, para alcançarmos lugares e pessoas queridas. Visitamos castelos encantados, príncipes, princesas, praias, fazendas, a outra casa da família no interior de São Paulo, sobrevoamos a casa dos primos e até visitamos a terra dos antepassados, na  distante Grécia.

Quanta alegria e diversão para proteger o pequeno neto, Nikolas, do pesadelo que a humanidade vive! Protegendo-o, esqueço por horas seguidas o fantasma que assusta a todos. Resgato o universo da imaginação, da fantasia e das deliciosas brincadeiras. 

A quarentena atravessou o ano de 2020, já adentra 2021… e nosso tapete decola diariamente, pousando bem ao lado do Aeroporto de Congonhas, em Moema. A mesma Moema que, há alguns meses, quase não nos permitia ouvir os sons dos pássaros ou do silêncio. Ganhamos um pouco de quietude nestes tempos sombrios, o que me fez relembrar quando aqui cheguei, no início da década de 60. 

Apenas um ou outro pássaro, de aço, pousava em sua enorme pista. A avenida Moreira Guimarães permitia que a atravessássemos sem medo, quase de olhos fechados, até que um dia, num piscar de olhos, as máquinas a invadiram e abriram o grande corredor da tão conhecida Avenida 23 de Maio. Acompanhei a transformação do bairro, da cidade. E hoje, na calma triste da pandemia, revisito a transformação de mim mesma. A menina cresceu, casou-se, teve filhos e hoje, netos.

Sim, os netos são nossa oportunidade de visitar a criança que fomos.  E assim sobrevoando São Paulo e o mundo, a bordo do tapete voador, posso dimensionar melhor o tamanho da mudança. 

Lá, nas alturas encontramos nuvens e somos por elas engolidos. Lá nos diz o comandante:

“Informo aos senhores passageiros que estamos atravessando uma área de instabilidade, favor observarem os sinais luminosos de atar os cintos e seguir a orientação dos comissários”. 

Aqui, no meu espaço de proteção, respiro fundo e confio que passará logo. Tudo passa. Tudo evolui e, na “nuvem” – aquela que a tecnologia me apresentou – vislumbro meu outro neto, Joaquim, um pouco mais longe, nessa ausência imposta. 

Percebo, então, que tenho de inventar em mim outra criança. Não a que fui, mas a que ele é. Vejo e revejo suas fotos, vídeos e alegres encontros virtuais de 2020, que parecem ter acontecido em outro século. Tempos se confundem, espaços se estreitam… dias, semanas, meses ganham uma outra percepção da passagem do tempo. 

Os espaços? Ficaram vazios, atônitos. Porém, eu os vejo paradoxalmente encurtados, agora, pelo tapete voador do Nikolas, 4 anos, e pelo tapete virtual do Joaquim, 9 anos, que, com rapidez impressionante, decola, percorre avenidas virtuais, conecta-se com seus pares, brinca, joga, explora países, continentes, descobre fórmulas, faz suas aulas on-line, oferece algumas aulas à sua avó – vovó-criança, desdobrada entre o tapete voador e a quase impossibilidade do tapete virtual. 

Nessa nuvem em que tudo cabe, receio entrar. No entanto, é nela que o mundo do meu neto primogênito está. Mundo digital que vai se descortinando, dia após dia, na viagem que parece não ter fim. Sigo como uma navegante perdida em mares turbulentos. Sem bússola, navegar não é preciso, não é certo, não é seguro. Mas sigo vivendo na imprecisão e mistério infinitos da vida, só agora entendendo a filosofia de Petrarca nos versos de Fernando Pessoa. Sim, viver é navegar de olhos cegos e sem rumo. 

Mas há instrumentos, sim, meu pequeno grande comandante informa: “Coloca o “Easy”, vovó! Você vai ver, é bem mais fácil saber o caminho”. Não digo nada, só me perco no encantamento, As crianças, em sua inocência de anjos, nos fazem sempre encontrar um porto seguro, Há muitas perguntas a serem respondidas, muitas descobertas. Dizem os entendidos que “não há pergunta sem resposta no mundo da internet”. Será mesmo? Então… quando passará essa pandemia, respondam-me, por favor!!?

Volto o olhar para o Nikolas que, parecendo ouvir meu grito mudo, afirma certeiro: “Quando a gripe passar, vamos brincar lá fora, por enquanto vamos “se divertir” aqui mesmo”. E dá de ombros, num trejeito só seu.  

Nikolas e Joaquim, com suas observações e dicas, conduzem-me ao melhor porto: minha família, amigos, trabalho on-line, nossos alegres encontros virtuais. Vida. Vivendo e aprendendo, com os pequenos mestres, que as nuvens se dissiparão, o sol voltará a aquecer nossos corações e a iluminar os novos caminhos da humanidade.                                                           

Naveguemos na esperança ou na certeza de que, sob as nuvens do céu de São Paulo, há muitos tapetes voadores, driblando lindamente a tempestade. E de que há, na nuvem da internet do mundo todo, tapetes virtuais generosos, com que enganamos a saudade. 

E seguimos repetindo, como num mantra, que vai passar.

Viver não é preciso, poeta, mas é urgente.

Marina Zarvos Ramos de Oliveira  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

O que o presidente da República melhor faz, segundo um senador também da República

Presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (Foto: Pedro França/Agência Senado)

“Cada um faz aquilo que melhor faz, ele (o presidente) tem feito muito isso no governo, né!?!”

O presidente da CPI, senador Omar Aziz, foi curto e grosso na primeira resposta que deu hoje, na entrevista que Frederico Goulart e eu fizemos, no Jornal da CBN, quando perguntei a ele sobre um inusitado palavrão dito por Bolsonaro em seu “cercadinho” digital.

O que o presidente melhor faz, segundo o senador da República pelo estado do Amazonas? Para que fique claro, vamos antes a sequência de fatos que levaram à frase de Aziz, hoje cedo.

No dia 25 de junho, os irmãos Miranda —- o Luis Deputado e o Luiz Servidor — estiveram na CPI da Covid e disseram que levaram ao presidente Jair Bolsonaro denúncia de irregularidades na compra da vacina Covaxin, da Índia. No encontro que ocorreu no Palácio do Planalto, em 20 de março, Bolsonaro teria dito que entregaria o caso à Polícia Federal. Teria dito mais, segundo os Miranda: 

“Isso é coisa do Ricardo Barros. [Palavrão], mais uma vez” 

Ricardo Barros, deputado federal e líder do Governo Bolsonaro na Câmara, foi rápido no Twitter: no mesmo dia, negou qualquer envolvimento com irregularidades. 

Já o presidente, se calou. E calado se manteve. 

Diante do silêncio —- nem no cercadinho havia se pronunciado —-, a CPI entregou, ontem, dia 8 de julho, uma carta no Palácio do Planalto, assinada por Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, e o relator Renan Calheiros. Eles pediram para que Bolsonaro se pronunciasse quanto as denúncias. E o fizesse de forma ‘clara, cristalina, republicana e institucional’:

“Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição tão grave dos ombros deste experimentado político, o Deputado Ricardo Barros, o qual serve seu governo numa função proeminente.”

À noite, Bolsonaro, já no “cercadinho digital” — aquela live que realiza todas as quintas-feiras —, proferiu a frase que deve ter saído dos anais dele:

“Caguei para a CPI, não vou responder” 

Fatos relacionados e contextualizados, imagino, fica claro e cristalino —- ao mesmo tempo que pouco republicano e nada institucional —- o que o presidente da CPI pensa ser o maior “mérito” do presidente da República.

Se quiser saber mais, ouça a entrevista completa com o senador Osmar Aziz:

Vacina na hora certa teria salvado muitas vidas

Era bem cedo, 6h30 da manhã, quando o doutor João Gabardo já dava explicações na rádio sobre porque São Paulo havia relaxado às restrições ao comércio mesmo diante da informação de que a variante delta está circulando entre nós. Ele é o coordenador-executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do estado de São Paulo —- grupo que olha para índices de morte, contaminação e internações nos hospitais e avisa ao Palácio do Governo: a coisa está ruim, melhor fechar tudo; não vamos mexer em time que está ganhando porque está estável; ou, o que mais os palacianos gostam de ouvir, melhorou um pouco, pode afrouxar. Nesta semana, afrouxaram: comércio fica aberto até mais tarde, permitiu-se mais gente dentro de bares e restaurantes e se planeja eventos testes.

No mesmo horário — no relógio do Mato Grosso do Sul, que está uma hora atrás em relação a São Paulo —-, o governador Reinaldo Azambuja, atendeu ao telefone para conversar com a gente na rádio e falar de como está a situação do estado no combate a pandemia. No início de junho, Mato Grosso do Sul exportava pacientes com Covid-19 para São Paulo, hoje reduziu número de internações e tem a maior cobertura vacinal de todas as unidades da federação: 24,47% da população recebeu as duas doses. 

Azambuja disse que isso é resultado de diálogo. Eu prefiro traduzir por vacina, que é o que realmente interessa nesta hora:

“O estado está oferecendo incentivos financeiros para os municípios que aplicam mais doses do imunizante, com equipes que trabalham aos finais de semana”

São Paulo tem até agora 14,7% da população com o ciclo vacinal completo. Vai ter de acelerar. E não é para superar o Mato Grosso do Sul. É para impedir que a variante delta impulsione novamente para cima os números de mortes, contaminados e internados em estado grave.

Gabbardo disse que número de óbitos caiu 10,6% na semana passada; de novos casos, 20%; e de novas internações, 10,4%. As UTIs têm folga para atender pacientes mais graves. Na Grande São Paulo, por exemplo, a ocupação é de 62%. Foram esses os dados que permitiram o estado dar uma folga para o comércio. 

Quanto a variante delta —- aquela que surgiu na India —, Gabbardo falou que, primeiro é preciso monitorar e fazer mapeamento genético e, depois, entender como esse vírus se comporta. Lembra que o Reino Unido — onde a variante delta predomina — aumentou a circulação e transmissão do vírus e tem uma taxa de novos casos maior do que São Paulo, no entanto esse aumento não veio acompanhando de crescimento nos casos graves e óbitos. Se em São Paulo, a taxa de mortalidade é de 1,14 pessoas por 100 mil habitantes, no Reino Unido é de 0,03.

“No Reino Unido, a taxa de mortalidade é 38 vezes menor do que no estado de São Paulo, porque as pessoas mais idosas e o público mais vulnerável estão vacinados e a imunização está bem mais avançada”.

Nas duas entrevistas, ouvimos o compromisso de que SP e MS vão aumentar a velocidade da vacinação e espalhar o imunizante para a maior parte da população até o fim de agosto. 

Encerradas as conversas com Gabbardo e Azambuja, fiquei com a convicção de que se comprássemos vacina na hora certa — em lugar de criar dificuldade para ganhar pixuleco — muitas mortes seriam evitadas. Quantas? Não sei ao certo. Dia desses, ouvi, na CPI, o doutor Pedro Hallal, epidemiologista da UFPel, falar em até 400 mil mortes a menos, mas para isso era necessário ter investido de verdade nas medidas de controle, no distanciamento social e na celeridade da vacinação.

O desafio de resgatar 5 milhões de jovens que perderam o vínculo com a escola, no Brasil

 Foto: Freeimages

“A crise da educação não é uma crise, é um projeto”

A frase de Darcy Ribeiro foi lembrada hoje cedo pelo professor Mário Sérgio Cortella, em nossa Conversa de Primeira, para ilustrar a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro vai ao STF para impedir que R$ 2,5 bi sejam investidos na infraestrutura que permitiria acesso de alunos da rede pública à internet. Informação que se soma a outra publicada pelo O Globo, manchete na editoria de Educação:

“Retorno adiado: com R$1,2 bi para estruturar escolas para volta às aulas, MEC ainda não gastou nada, diz relatório”. 

Tudo isso foi dito pouco depois da entrevista que Cássia Godoy e eu fizemos com Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, que antecipou alguns dos argumentos e dados que seriam apresentados em seminário com o tema “A reabertura segura das escolas”: 

“O Brasil foi um dos países que mais tempo mantiveram as escolas fechadas e, hoje, apenas dois em cada 10 adolescentes têm algum tipo de contato com a sala de aula”.

Um número que foi registrado em novembro do ano passado —- e como nada mudou de lá para cá, tende a ser ainda pior: 5 milhões das crianças brasileiras perderam o vínculo com a escola durante a pandemia. Antes eram 1,5 milhão. 

Por aí se vê o tamanho do desafio que o país enfrenta. Esses jovens precisarão ser resgatados pelo ensino e não se vê quase nenhuma ação de governo para engajá-los. Florence sugere a estratégia da busca ativa, que já é desenvolvida corriqueiramente pelas prefeituras, que identificam as famílias que não colocam seus filhos na escola —- mesmo que alguns estejam matriculados —,  fazem contato com os pais e tentam convencê-los da importância de os filhos voltarem à sala de aula. 

“Apesar de todos os esforços feitos pelas escolas e educadores para manter a educação remota, os adolescentes mais vulneráveis não conseguem estudar”

Eis outra encrenca. Porque, mesmo que se ofereça o mínimo de segurança sanitária para que as aulas sejam retomadas —- e isso se faz urgente —, a maioria dos alunos chegará com ensino defasado, sem contar outras condições socioemocionais que podem tornar essa volta à escola mais difícil. 

A fórmula para a retomada das aulas já é conhecida, ensinou Florence Bauer: máscara, distanciamento, ventilação e diálogo com professores e toda comunidade escolar.

Ouça a entrevista completa com Flaurence Bauer, do Unicef Brasil:

Auxílio emergencial: “não fizemos nada pelos jovens e isso deixa cicatrizes”, diz Marcelo Neri da FGV Social

Reprodução Flickr

Responder o que você faria com 150 reais a mais no bolso diz muito sobre qual é a sua situação financeira. Para alguns brasileiros, esse dinheiro não paga o happy hour no fim do dia de trabalho. Para outros, será um reforço no orçamento doméstico. Para muitos, é a diferença entre comer e passar fome. Esse é valor que um trabalhador informal com renda familiar até três salários mínimos, morando sozinho, tem direito a receber de ajuda pelas regras do auxílio emergencial, criado ano passado para atender as pessoas que mais sofrem com as restrições necessárias para combater a Covid-19.

O governo decidiu agora que vai pagar o auxílio por mais três meses estendendo a ajuda para agosto, setembro e outubro. Para quem mora sozinho e tem direito ao benefício é a garantia de mais 450 reais no bolso; para mulheres que são chefe de família, mais 1.125 reais; e para os demais entrarão na conta 750 reais, parcelados em três vezes.

Vamos lembrar que no ano passado o auxílio era de 600 reais, por mês —- mulheres chefe de família recebiam até 1.200 reais —, foi interrompido em dezembro e retornou com valores menores em abril deste ano. Esse vai e vem de pagamento e sobe e desce de valores mexeu consideravelmente na vida de pessoas que vivem próximo da linha pobreza, como constataram estudos da FGV Social.

Pra ter ideia, até agosto de 2020, 15 milhões de brasileiros deixaram a situação de extrema pobreza, uma queda de 23,7% em comparação com o ano anterior, graças a essa transferência de renda. Mesmo considerando que ainda havia 50 milhões de pessoas em situação de miséria, foi o maior movimento social que se assistiu no país. 

O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, entrevistado de hoje do Jornal da CBN, calcula que a prorrogação do auxílio emergencial vai evitar que 6 milhões de pessoas voltem para a linha de pobreza. Para o economista, a medida de continuidade foi uma solução razoável: 

“Não é a cura do problema, mas uma anestesia importante”

A despeito de que toda e qualquer ajuda é bem-vinda, é preciso ressaltar que este dinheiro chegará às mãos dos mais pobres com 1/4 do seu valor comprometido pela inflação —- o aumento de preços do gás, energia e alimentos pesa muito mais nas classes sociais mais baixas.

Na conversa que Cássia Godoy e eu tivemos com Marcelo Neri ouvimos dele o alerta para o que considera ser dois pecados cometidos na pandemia: a questão da saúde, que tornou os mais pobres ainda mais vulneráveis, e a da educação, com crianças e adolescentes fora da escola, “como se isso não gerasse nenhuma perda” —- o que vai cobrar um preço caro no longo prazo, segundo o economista. 

Um dos pontos que me chamaram atenção na entrevista foi quanto a preocupação dele com a juventude que deixa de estudar e não encontra vaga no mercado de trabalho — tema que já foi assunto aqui no blog e voltaremos a tratar em breve. São necessárias ações específicas de incentivo para a contratação de mão obra mais jovem que foram os que mais perderam renda de trabalho na pandemia —- 18%, segundo cálculos da FGV Social. 

“Precisa algum tipo de iniciativa. O jovem não tem experiência e não consegue emprego. É preciso alguma coisa para conciliar trabalho e estudo. Até agora, a gente, concretamente, não fez nada com isso, embora tenham ocorrido alguns balões de ensaio … e isso deixa cicatrizes“

Ouça a entrevista completa com Marcelo Neri, da FGV Social

Saiba por que o número de pessoas com vacinação completa não passa de 12%, no Brasil

Imagem: Governo do Estado de SP

Todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficazes e, por isso, a turnê realizada por alguns brasileiros em busca do imunizante preferido é inconsequente e egoísta. Foi o que nos disse, nesta manhã, no Jornal da CBN, doutor Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, quando perguntado sobre os sommeliers de vacinas, que foi como passaram a ser chamadas aquelas pessoas que só aceitam tomar vacina de determinadas marcas seja por desconfiarem da eficiência de alguns fabricantes, seja por temerem efeitos colaterais, seja para facilitar acesso a países no exterior. 

Pior do que escolher a marca é se negar a tomar a vacina. Isso é criminoso. 

Apesar de dizer que o “brasileiro gosta de vacina” e oferecer uma visão otimista em relação a adesão ao programa nacional de imunização contra Covid-19, Juarez Cunha teme a ação dos negacionista e mostra que ao deixar de se imunizar você coloca em risco também a vida das outras pessoas:

“Não se vacinar é uma decisão egoísta”

Nem os sommeliers nem os negacionistas, porém, são o motivo de, há duas semanas, o número de pessoas vacinadas com duas doses se manter na faixa de 11 a 12% dos brasileiros.

No levantamento desta noite de segunda-feira, feito pelo consórcio de veículos de imprensa, o Brasil chegou à marca de cerca de 27,3 milhões de habitantes com vacinação completa contra a Covid-19 — esse número corresponde a 12,92% da população nacional.

Juarez Cunha explicou que a despeito de algumas pessoas não terem voltado para a segunda dose —- e isso exigirá uma forte campanha no sentido de mostrar que o ciclo vacinal precisa ser respeitado —, o índice se mantém estável porque atualmente a maior parte das vacinas distribuídas no Brasil exige intervalo de até 90 dias entre a primeira e segunda doses.  

Ao contrário da Coronavac, que prevê intervalo de apenas 28 dias, e foi aplicada em maior número no início da vacinação, atualmente a maior quantidade de imunizastes é da AstraZeneca que, assim como a Pfizer, sugere cerca de três meses de intervalo entre uma dose e outra. Por enquanto, apenas a Janssen, recém-chegada e em quantidade pequena, prevê apenas uma dose.

Ouça a entrevista completa que fiz ao lado de Cássia Godoy, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: sinto o pulso da cidade ao levantar com o sabiá

Por Fernando Dezena

Ouvinte da CBN

Foto: André Pereira/Flickr

Confesso que São Paulo sempre me amedrontou quando menino, mas, ao mesmo tempo, imantava meus pensamentos, como o canto da sereia. Há dez anos, era junho, convidado a trabalhar por estas bandas, não pestanejei. Troquei as ondas do Atlântico, que quebravam sob minha janela, pelos prédios inumeráveis.

Antes da cidade, do todo, quem primeiro me acolheu foi a Mooca. No labor, o Brás; a Letícia, nos estudos em Higienópolis pelo Mackenzie e o Lucas terminando o colegial. A Mooca guarda um pedaço que a cidade perdeu: algo de humano, de brisa, de andar pelas calçadas. Pode ser que em outros bairros aconteça assim: na Penha, na Vila Maria, em Santo Amaro, em Heliópolis; em cada canto dentro de suas verdades. A identidade do bairro sussurra, às vezes grita:

– Olhem para mim! 

Gosto — pena que o isolamento não mais permita — de encontrar a cidade.

Em alguns lugares é possível. A Avenida Paulista, reduto dos milionários do café, virou um misturador de todas as raças e credos, mas é no centro que brota algo mais forte, genuíno. Se na Paulista respiramos folhas e flores, no centro tem-se o gosto de raiz, o cheiro forte da terra, de minhocas, de rios, de histórias que construíram a cidade. 

Não é a primeira vez, mas repito que gosto de andar por suas ruas.

Aos domingos, em especial, como a cidade demora a acordar, as janelas tardam a abrir, aproveito, interiorano que sou, madrugadinha, para correr por suas ruas; depois, ao volante, ando pelos bairros como a escutar a cidade. Já fiz tal questionamento em um poema e, como na crônica, não encontro resposta.

E a cidade continua se expandindo, subindo, por vezes morrendo, alagando, alongando tentáculos de concreto, barro, tijolos, madeiras, para além de seus limites.

A cidade tem fome e vai engolindo o entorno; ela tem fome e vai ganhando os céus; muita fome e desce por sob a terra com seus túneis, metrôs em subsolos sombrios. 

São Paulo pulsa e é possível senti-lo. Não ao meio-dia, no turbilhão de milhões de pessoas à procura de sobrevivência. Quem pensa que é nesta hora, engana-se. Para sentir o pulso da cidade é preciso levantar-se de madrugadinha, junto com o sabiá, abrir a janela, colher a brisa fresca, fechar os olhos e respirar pausadamente. Ao se escutar um canto estranho, por vezes sem melodia, saiba que ele não vem das sereias, mas da coragem de teu povo que em boa parte nesta hora dorme e sonha com a luta por um dia melhor. Assim pulsa a cidade!

Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: livros que inspiram ideias

Foto de Element5 Digital no Pexels

“Branding é fruto da compreensão das pessoas. E o que lemos, além dos livros de negócios, é fonte de inspiração para entender melhor de gente. Pelo amor de Deus, não deixem de ler!”

Jaime Troinao

A cena é bastante comum. Já aconteceu milhares de vezes. Talvez até com você. Diante do entusiasmo e do prazer de estar em frente a um prato de espaguete a pomodoro, a pessoa se descuida e um pingo de molho de tomate cai na blusa que veste. A primeira reação: “que azar, sujei!”. Perceba que curioso: enquanto está no prato, ou no campo do alimento, o molho é uma delícia; no instante em que cai na blusa, uma sujeira.

O que isso tem a ver com branding? 

Cecília Russo conta essa história inspirada no livro “Pureza e Perigo” da antropóloga Mary Douglas, que fala de rituais de poluição em várias culturas e analisa a relação entre ordem e desordem, pureza e impureza, contágio e purificação. A ideia de que coisas fora do lugar podem nos remeter à desordem ou a significados diferentes é um alerta para gestores que estejam planejando a extensão da marca:

“Quando penso em outras categorias de negócios que eu posso avançar no meu produto, tem áreas em que vou entrar que podem ser consideradas “sujeiras” e outras que não, que reservam a ordem da marca”.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília e Jaime Troiano apresentaram uma série de livros que não estão na categoria de negócios —- tratam-se de ensaios, romances e contos — que ajudam os gestores de marcas a pensarem sobre o seu negócio. Uma dessas obras é “O espelho – esboço sobre uma nova teoria da alma” de Machado de Assis que conta a história do alferes que só se enxergava sua imagem refletida no espelho quando estivesse vestindo sua farda —- tema que, aliás, já foi assunto de um episódio do programa:

“O conto chama atenção para o fato de que as marcas são, sim, uma opção em nossas vidas, mas o branding não pode criar um aprisionamento”.

Fernando Pessoa também está na biblioteca de sugestões da nossa dupla de especialistas em marcas com o poema sobre o rio Tejo, em Lisboa:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

 Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Jaime vibra ao declamar o primeiro verso desse poema e ao lembrar que essa forma de pensar é pura etnografia, estudo que se faz com consumidores, pois somente convivendo com eles, nas suas ‘aldeias’, somos capazes de entender suas motivações e sentimentos.

A lista de livros e lições é longa; e você poderá entender melhor a relação de cada um com a gestão de marcas ouvindo o comentário completo do Jaime Troiano e da Cecília Russo.

Antes, deixo a lista  dos livros que citamos neste episódio do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, 7h55 da manhã, no Jornal da CBN