Onze de setembro: eram todos jornalistas

Foto Site CBN: DOUG KANTER / AFP

3a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

TODOS FALAM 

O primeiro prédio do World Trade Center, a torre sul, despencou às 10h59. Falávamos dos ataques há cerca de uma hora. Foi chocante. Naquele momento desabava a ingênua esperança de que as pessoas teriam a chance de escapar com vida, apesar de tudo. Há vinte minutos havíamos noticiado que o terceiro avião – um Boeing 757 da American Airlines – havia sido jogado sobre o Pentágono. Desse não se tinha imagem, a informação chegou pelas agências de notícias. Nem sempre é preciso ver para crer. 

No estúdio da CBN, em São Paulo, havia um número excepcional de pessoas. Ninguém mais era repórter, produtor, chefe de redação ou diretor de jornalismo. Todos eram jornalistas em busca de informação e quem a encontrasse levava ao ar. 

A estrutura do rádio não admite que os profissionais atuem de maneira segmentada. Não existe mais a figura do redator que só sabe escrever ou do locutor que só sabe ler – pelo menos, não deve existir. Os profissionais de rádio têm de dominar todas as áreas e, principalmente, saber falar ao microfone. Não há necessidade de ser um “Cid Moreira”, mas precisa ter capacidade de se expressar.

Na cobertura do 11 de setembro, profissional que estava em casa e tinha a oportunidade de apurar informação por algum canal de televisão a cabo, ou de conversar com conhecido nos Estados Unidos, ligou para a rádio. Às vezes, a notícia já havia sido transmitida; noutras, serviu de subsídio para o âncora. Em algumas situações, o próprio “informante” foi ao ar. 

Quando está na rua, o jornalista de rádio deve ligar para a emissora a qualquer instante para relatar um acontecimento, mesmo que no seu crachá apareça o cargo de apurador, redator ou editor. Pode ser o trânsito complicado em uma rua importante, a movimentação policial em um bairro, ou um prédio desabando em Nova York após ataque terrorista. 

AGENDA EM PUNHO 

A imagem do prédio transformado em poeira ainda enchia a tela da televisão quando se recebeu a notícia de que os ataques não haviam parado. Mais uma vez sem imagens, apenas as fontes a nos municiar de informações. Uma hora e catorze minutos depois de ter se iniciado a transmissão do atentado, um quarto avião é jogado ao solo. Um 757 da United Airlines que havia caído em uma área de pouca concentração urbana, Shanksville, na Pensilvânia. Não se sabia o destino que os sequestradores pretendiam dar a esse Boeing. Poderia ser a Casa Branca ou Camp David. 

Apesar da sequência dos fatos, ainda não se tinha a dimensão exata da tragédia. Produtores checavam as agendas em busca de nomes que pudessem ir ao ar para ajudar a entender o que acontecia. Ter o número de telefone de acesso direto das fontes é importante para exercer a função. Uma boa agenda se constrói com o tempo e, por isso, precisa ser iniciada o mais cedo possível, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. 

Leia publicações especializadas e artigos assinados de jornais e revistas, navegue com frequência pela internet e preste atenção nos personagens citados no noticiário. Sempre que uma pessoa surgir em destaque, anote o nome dela para em seguida procurar o número do telefone. Em pouco tempo, você terá um banco de dados invejável que lhe dará agilidade no trabalho. Nenhuma notícia vai pegá-lo de surpresa, nem mesmo um ataque ao símbolo da prepotência americana. 

SUBSTITUIÇÃO NA EQUIPE 

A cobertura do atentado era ininterrupta. Não havia nada mais a fazer, a não ser acompanhar um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade. Espaços comerciais foram abolidos. A grade de programação, esquecida. O CBN São Paulo se transformara em Rede CBN Brasil. Por falar nisso: e aquele programa que havia sido discutido no início da manhã? 

Em meio ao trabalho de apurar informações e encontrar fontes que pudessem ajudar a entender o quebra-cabeça desmontado diante de nossos olhos, havia a necessidade de desmarcar as entrevistas agendadas. O produtor tem de estar sempre em contato com as fontes e, em caso de mudança de pauta, não pode esquecer de explicar o motivo pelo qual a entrevista não será feita. Uma questão de respeito. É preciso lembrar, também, que amanhã não haverá atentado e você há de precisar daquele entrevistado. Algumas pessoas reclamam quando são informadas de que a entrevista não será feita. Se sentem desprestigiadas ao serem substituídas por outras ou porque o jornalista avaliou haver assunto mais importante. Seja como for, melhor avisá-la do que deixá-la esperando. 

Naquela situação, não foi tarefa difícil justificar o porquê da entrevista ter sido desmarcada. As próprias fontes estavam muito mais interessadas nas informações do atentado. 

PAUTA EM ABERTO 

O ataque às torres gêmeas em Nova York e ao Pentágono, em Washington, não estavam na agenda de nenhum produtor. A não ser na do pessoal da Al-Qaeda. E estes não enviaram assessoria de imprensa para avisar as redações. Tais atentados sequer faziam parte de algum planejamento estratégico de cobertura jornalística. Portanto, os meios de comunicação foram surpreendidos e tiveram de adaptar a programação à nova realidade. 

Uma das características dos programas jornalísticos ou dos radiojornais em emissoras que se dedicam 24 horas à notícia é a existência de um roteiro sempre aberto. A entrevista e reportagem discutidas antes de a edição ir ao ar podem cair no minuto seguinte. Melhor que caiam, se em seu lugar entrar assunto mais recente, mais “quente”. Pauta boa é pauta nova. 

A participação de um repórter é suficiente para pautar o restante do programa, basta que a informação seja significativa. Nesse caso, âncora, produtor, assistente de estúdio e operador de áudio têm de estar atentos ao relato da notícia. Procurar alguém que acrescente dados à informação e fazer contato com quem tenha sido alvo de críticas são compromissos dos quais o jornalista não pode abrir mão. No primeiro caso, agrega valor ao trabalho do repórter. No segundo, atende à exigência ética de quem se propõe a fazer bom jornalismo. 

O chefe de reportagem e o próprio repórter devem sugerir o desdobramento do assunto. Do estúdio, por telefone, pode-se conseguir alguém que a equipe na rua não tenha acesso. A declaração de um entrevistado feita no programa pode ser editada, posteriormente, e usada pelo repórter para fechar a reportagem. 

Leve em consideração que a pauta que vem da rua pulsa mais do que a elaborada na redação. Quem pode ser melhor pauteiro do que o repórter? O jornalista Afonso Liks, com quem trabalhei na redação do SBT, em Porto Alegre, costumava dizer que “a boa pauta está na rua da Praia”. Alusão à rua mais popular da capital gaúcha e à necessidade de os jornalistas andarem por lá, atentos ao comportamento e comentário das pessoas. 

Nada pior para a qualidade de um programa de rádio do que o produtor se considerar satisfeito porque antes de entrar no ar já fechou todas as entrevistas e sabe quais as reportagens que serão publicadas. Este, muito provavelmente, será um programa chato, modorrento e sem novidade.

Existem compromissos que devem ser cumpridos no decorrer de um programa, como a saída para os blocos locais ou de comerciais e a participação de comentaristas. Respeitar o horário colabora com a organização da emissora, principalmente se a rádio participar de uma rede, e acostuma o ouvinte que procura assuntos específicos na programação. Mas essas regras não podem engessar o programa, e o jornalista tem de estar sempre atento para saber quando transgredi-las em nome da agilidade do radiojornalismo. 

Imagine o que pensaria o ouvinte se a rádio decidisse interromper a cobertura do atentado nos Estados Unidos para chamar o bloco de esporte. 

HORA CERTA 

O presidente dos Estados Unidos em exercício, George W. Bush, estava em uma escola secundária na Flórida, diante de alunos, no instante em que os ataques se iniciaram.Retirado de lá sob forte esquema de segurança e levado para a base aérea do estado do Nebraska, meio-oeste americano, às 10h30 o presidente fez seu primeiro pronunciamento. Bush, visivelmente abatido, admitiu que o país havia sido vítima de ataque terrorista e lamentou a tragédia do World Trade Center. Naquele instante, o Pentágono ainda não havia sido atacado. 

Quando a fala do presidente americano se iniciou, estávamos com um comentarista no ar que, imediatamente, foi interrompido. Nenhuma outra informação era mais importante naquele momento. O discurso em inglês foi reproduzido na íntegra para, em seguida, ser resumido em português, no estúdio. 

No rádio deve se evitar o uso de entrevistas em língua estrangeira, pois não se tem o recurso da legenda. A tradução simultânea fica prejudicada pela mistura do som original com a voz do tradutor. E deixar para traduzir depois atrapalha a dinâmica do programa. No caso de a entrevista ser imprescindível, prefira o espanhol e o português de Portugal, recomendando ao entrevistado que fale devagar e o mais claramente possível

O programa de rádio tem de ter agilidade para mudar de assunto sempre que os acontecimentos assim o exigirem. Caso a entrevista tenha se iniciado há pouco tempo e algo urgente ocorra, o âncora deve explicar a situação no ar para o convidado, desculpar-se gentilmente, prometendo voltar ao tema em breve.  Não se pode deixar para depois a notícia que se tem agora. 

No rádio, ao contrário do jornal e da televisão, não existe deadline. Não se sai à rua com o objetivo de entregar material pronto ao fim do expediente. O prazo para o fechamento é determinado pela importância da notícia. Esperar o fim da entrevista coletiva para divulgar a informação que pode ser reproduzida ao vivo é um desserviço ao público. O repórter deve publicar o fato conforme este for apurado, ressaltando que outras fontes serão ouvidas no decorrer da programação. Ao concluir a reportagem, entrega o material consolidado para o editor. 

Deadline é a hora em que o jornalista tem de entregar a reportagem na redação do jornal ou televisão. Leva em consideração o tempo para a edição do material e sua publicação. Originalmente, a expressão inglesa significa a linha em volta de uma prisão além da qual um prisioneiro poderia ser abatido a tiros. Por descumprir o prazo, muito colegas já foram abatidos nas redações, não, necessariamente, a tiros.

Essa característica do rádio impõe um desafio sério, porque as decisões editoriais que levam à publicação de uma notícia são tomadas a todo instante. Na redação de um jornal, as reuniões de pauta e fechamento permitem reflexão mais profunda sobre os temas. Uma determinação errada tem chance de ser corrigida até o jornal sair da oficina. No radiojornalismo, entre a decisão equivocada e sua divulgação, o prazo é muito curto.

Levado pelo entusiasmo de atender o ouvinte, muita gente boa deu “barrigada, em lugar de “furo”. Apesar da exigência do veículo, é preciso comedimento. Ao ouvinte, mais do que saber antes, interessa saber o certo. Por isso, é fundamental que, para resolver qual informação será divulgada e como será feita a divulgação, o profissional tenha consciência da linha editorial da emissora e os princípios éticos que devem orientá-lo.

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Evite palavras que imobilizam o ouvinte como abscôndito fez com o poeta

Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

“Tão comodamente que estava lendo, como quem viaja num raio de luz, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO … Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se porta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: FOGO!”

Em “Trágico acidente de leitura”, Mário Quintana descreve, de forma tanto criativa quanto irônica, o seu espanto diante de palavra pouco comum para seu vocabulário —- e, pense comigo, para um poeta com a riqueza vocabular de Quintana se espantar com alguma palavra …  meu Deus! No caso dele foi “abscôndito”, que o Aurélio diz ser aquele “cuja identidade ou procedência não se quer mostrar; escondido”. No meu caso, sem a riqueza do mestre e com uma enorme implicância adquirida ao longo da carreira, encaro constantemente momentos como os relatados pelo poeta. É na leitura dos jornais ainda na madrugada, é no texto da redação do rádio logo cedo, é na audição das reportagens, é na televisão que tenta tirar minha atenção enquanto apresento o programa. Nos e-mails, releases e mensagens que chegam pelas mais diversas fontes.

Minha implicância não é com abscôndito —- que não aparece no noticiário por nossa total falta de competência —-; é com coisa bem mais simples e tão incompreensível quanto. Diante dos números absurdos da Covid —- de infectados, de mortos, de vacinas e de dinheiro roubado —-  e, provavelmente, em busca de alguma variante para o honesto “quantidade”, tão bem aprendido na escola, decidimos introduzir o “quantitativo”. Até sei de quem é a culpa. É dessa turma de mentirosos e enrolados que se apresenta na CPI da Covid. Acusados, eles atacam com “quantitativos”. Os acusadores não se dão por rogados, e devolvem na mesma moeda. Nós jornalistas, de ouvidos atentos a tudo que acontece por lá, concluímos o serviço repetindo a expressão, sem pestanejar. 

Fico eu pensando no seu Zé, lá da padaria, que todas as manhãs ouve a turma pedindo pão cacetinho. Ops, perdão, isso a gente só pode falar lá no sul. Aqui em São Paulo, é pão francês, mesmo que o padeiro seja de origem lusitana. Mas vamos ao que interessa: será que o seu Zé, alguma vez na vida, quando o freguês chegou pedindo o pão francês, contra-atacou com um insólito: “qual o quantitativo de pães que o senhor deseja?”. Claro que não, seu Zé fala a língua do freguês. Então, por que nós jornalistas preferimos falar a dos acusados?

Quantitativo à parte, a tristeza do vocabulário jornalístico não tem limite. A cada dia sofremos ‘momentos de imobilidade e apreensão’ diante de palavras ditas sem pensar. Palavras e expressões.

Recentemente sofremos com a pandemia do ‘novo coronavírus’ —- que um ano e meio depois, já com nome, sobrenome e apelido, segue sendo “novo”. A variante dessa expressão migrou para o campo do comportamento: o “novo normal” — que  costuma ser acompanhado por um lugar comum dos mais miseráveis que ocupa espaço em textos e manchetes: “nestes tempos de pandemia …’.

Tem coisa sendo digitada e reproduzida por aí, que me incomoda muito mais. O verbo disponibilizar, com todos os seus dês e bês, mesclados de instigantes is, é das palavras mais lindas do ponto de vista estético, da língua portuguesa. Hipopótamo, recôndito e proparoxítona talvez se encontrem no mesmo nível de beleza, sem contar que ao serem ditas enchem a boca de sonoridade. A despeito de sua arquitetura, disponibilizar não é verbo conjugável na língua popular. 

Lembro sempre de recomendação do amigo e jornalista Afonso Licks, com quem trabalhei em Porto Alegre: não tem pauta se não estiver na rua da Praia. A tal rua, batizada oficialmente de Rua dos Andradas, nasceu com a capital gaúcha. É a mais popular, apesar de ter perdido parte de seu charme com os centros comerciais. É lá que o povo anda. E Afonso defendia que assunto que interessa ao povo que anda na rua da Praia é assunto que tem de estar na nossa pauta. Usurpei da lógica “afonsiana” para pensar sobre o vocabulário jornalístico, em especial no rádio: não existe vocabulário se não estiver na rua da Praia.

Digressão feita, volto ao verbo disponibilizar que tem aparecido com exagerada frequência no noticiário em lugar de palavras bem mais acessíveis como oferecer, conceder e apresentar. Os governos não oferecem mais nada, só disponibilizam. Arquivos públicos também são disponibilizados, nunca estão acessíveis. A loja não vende produtos, os disponibiliza aos clientes. Pense comigo, na rua da Praia, na do Brás, no Saara ou no Mercado Modelo será que as pessoas disponibilizam alguma coisa para as outras, ou vendem, ou oferecem, ou dão? 

Sei que temos o dever de enriquecer o vocabulário, mas não elitizá-lo ou, ainda pior, desvirtuá-lo e reinventá-lo. Precisamos ouvir a rua, dar um trato na palavra, consertar seus erros e disponibilizá-la … ops, perdão …devolvê-la mais bem elaborada colaborando com a cultura nacional. 

Pequena correção, sem pretensão

Outras …

Dia desses ouvi o repórter do rádio dizer que somente algumas doenças eram aceitas por um órgão público para justificar a ausência na prova: “Covid-19, influenza, meningite e outras”. Como “outras” não é uma doença, soou-me estranha a presença dela na frase. Parecia ser apenas a reprodução de um texto burocrático escrito pela assessoria do órgão público —- se não o for, me desculpe a assessoria. Vamos concordar que o “outras” está sobrando na frase, fica feio e não informa. Uma pequena correção de rumo resolveria: “somente algumas doenças são aceitas para justificar a ausência, como Covid-19, influenza e meningite. A lista completa de doenças, você encontra no site ….”

Veio a óbito

A senhora, que não tem nome, porque nem sempre nos importamos com isso (ou o nome não é divulgado), não apenas foi vítima da Covid-19 como deu o azar de ser contaminada pela nova variante do novo coronavírus — e já que insistimos com essa denominação, apesar de a pandemia ter completado um ano, talvez fosse o caso de chamá-la de novíssimo coronavírus. Infelizmente, a senhora morreu. E ao ter a morte noticiada, foi vítima de outro mal que contamina as redações: a língua complicada. O repórter, não contente com toda tragédia, substituiu o simples e significativo “morreu” por um pernóstico “veio a óbito”. Se ainda fosse “foi a óbito”, vá la. Mas “veio a óbito”, sai pra lá, urubu!

Ninguém mais compra

Nessa crise econômica que enfrentamos ninguém mais compra nada, só adquiri. É o que se ouve nas notícias de rádio e TV. É o que se lê nos jornais e na internet. Quanto maior a importância da compra, mais o verbo adquirir é conjugado no noticiário. Governos, que usam nosso dinheiro, nunca compram nada, só adquirem: de latas de leite condensado a vacinas (estas bem menos do que aquelas). Hoje, até as famílias — sempre que citadas como instituição — são contempladas com o verbo adquirir, como se isso valorizasse o ato de comprar ou o texto jornalístico. Nem uma coisa nem outra.

Pra não cair nessas esparrelas, na hora de noticiar basta pensar o seguinte, como eu falaria para minha vovozinha.

Se você me permitir, aqui vão três sugestões para quem pretende escrever bem, simplificar a mensagem e evitar erros:

Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

De volta ao trabalho!

 

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Foi-se o tempo da redação de volta às aulas quando a professora nos oferecia a oportunidade de contar por escrito algumas das aventuras vividas nas férias. Imagino que, atualmente, ninguém mais seja levado a fazer essa tarefa, mesmo porque, diariamente, estamos compartilhando nossos passos nas redes sociais. É selfie publicada no Instagram, instantes captados no Snapchat, textos mal rabiscados no Facebook e tudo automaticamente transformado em link no Twitter. Chega-se na sala de aula e a turma toda já sabe o que fez graças as informações trocadas no grupo do WhatsApp. Novidade? Só a senhora não sabe, professora!

 

Apesar de distante do hábito e da idade desse pessoal que já nasceu sem noção do que é vida privada, sem exagero, também divido algumas coisas que encontrei no caminho das férias com os caros e raros leitores deste blog e todos os demais que se dão ao trabalho de me “seguir” especialmente no Twitter e no Instagram. Por mais que busco preservar-me, fico instigado a enviar uma imagem que me conquistou e contar um caso que me chamou atenção. Por isso,quem teve paciência, viu o filhote de beija-flor no jardim da casa que me abrigou nessas férias (reproduzido neste post), assim como o pôr-do-sol que, a cada fim de dia, pintava de forma diferente o céu na minha frente. Encontrou, também, alguns personagens da praia, já que preferi sair em busca do verão, em plenas férias de inverno (é só entrar no Instagram).

 

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Das obrigações do blog, mantive apenas uma, deixando o restante por conta e risco dos nossos colaboradores, fiéis e sem férias, como o Carlos, a Biba, a Malu, o Ricardo e o pai – que, registre-se, continuaram mandando muito bem e, por isso, faço questão de agradecê-los publicamente. A mim reservei o prazer de escrever sobre o que mais gosto, o meu Grêmio, até porque a safra foi boa. Cheguei pensar em falar com você sobre coisa mais séria, pois as notícias aqui no Brasil e lá fora estiveram em ritmo alucinante, mas se levasse à frente minha intenção, provavelmente não estaria com as energias renovadas para essa nova fase.

 

Por óbvio que pareça, a volta das férias deve ser um recomeço, momento para rever alguns hábitos e relacionamentos, tentar novas fórmulas, talvez arriscar um pouco mais. Especialmente, retomar a paciência que o estresse do cotidiano nos leva embora. Ser mais tolerante, um desafio diante de tanta intolerância que assistimos em todos os campos.

 

Nessa proposta de renovação, para este segundo semestre que já começou, o que posso dizer por enquanto é que, em breve, o Jornal da CBN trará novidades para o ouvinte.

 

Eu, particularmente, terei o prazer de lançar, ao lado da colega e fonoaudióloga Leny Kyrillos, o livro “Comunicar para liderar”, pela Editora Contexto, no qual explicamos como usar a comunicação para comandar sua empresa, sua equipe e sua carreira – um recurso que pode, inclusive, mudar sua qualidade de vida. Aproveite e anote na sua agenda: Leny e eu temos um bate-papo marcado com você na sexta-feira, dia 24, às 18h, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo. Em seguida, haverá sessão de autógrafos.

 

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Feita aqui a minha redação de “volta às aulas”, agora é matar a saudade dos colegas e ouvintes e contar com sua participação diária no Jornal da CBN.

 

Até mais!

No Conte Sua História de SP: minha primeira redação na escola

 

Por Maurício de Oliveira

 

 

Nasci em 1960, no Bairro de Vila Brasilândia, na rua Virajuba, num cortiço chamado Catimbó. Um bairro marcado pela violência e a criminalidade.

 

Sou o quinto filho numa família de seis: cinco meninas e um menino. Meus pais eram pessoas simples e analfabetas. Minha família era muito pobre e apesar das dificuldades, nunca nos faltou amor.

 

O amor foi determinante na minha criação e educação. Estudei o primário na Escola Municipal Raul Fernandes iniciando em 1968. O Brasil vivia em plena Ditadura. Não existia liberdade de expressão e até o pensamento era censurado.

 

A maior lembrança que tenho da minha escola, aconteceu no 2 º ano primário. A professora disse que aprenderíamos uma lição nova: redação. Podíamos escrever qualquer tema, desde que tivesse começo, meio e fim. Olhei para uma colega de classe e escrevi:

 

“Vera Lúcia, você vai crescer, namorar, casar e ter filhos”.

 

Estava completa a minha redação. Li várias vezes em pensamento antes de entregá-la. Será que isso é redação? – pensei comigo. O aluno da carteira de trás, levantou-se pegou a minha redação e disse em voz alta: – professora, ele terminou a redação!

 

A professora leu e ficou chocada com o texto. Eu não tinha a menor consciência do que havia escrito: – levante-se e me acompanhe até a diretoria.

 

As crianças tinham uma fantasia naquela época. Imaginavam que na escola haviua um quartinho onde vivia uma cobra, quando alguém fazia algo proibido era colocado de castigo lá dentro. A cobra picaria o aluno e a pessoa morreria.

 

O diretor da escola era um tirano, um ditador. Comecei a chorar desesperadamente de tanto medo. Na minha cabeça, imaginava o terror ao qual seria submetido e meus pais não teriam conhecimento. Havia assistido ao filme Cleópatra e me lembro quando ela tirava uma serpente de um cesto cheio de morangos e se suicidava. Pensava que a mesma cobra que matou a Cleópatra iria me matar na escola.

 

Perguntei ao diretor:
– Por que estou aqui na diretoria?
– O que eu fiz de errado?

 

Ele respondeu:
– Você escreveu uma redação de fundo sexual.

 

Para mim, toda linguagem que não fosse compreensível era língua de médico. O diretor me disse que ele não poderia responder a minha pergunta porque eu não tinha idade e capacidade para entender o que era fundo sexual. E me advertiu:

 

– Você ficará em observação por um ano e se escrever outra redação como essa, será expulso dessa escola e não estudará em nenhuma outra escola do bairro, da cidade e do país.

 

Conclui que a professora e o diretor se formaram na faculdade da inquisição. Se eu escrevesse: Vera Lúcia, você irá crescer, envelhecer, ficar doente e morrer, não estaria errado. O erro foi escrever que ela teria filhos.

 

Ainda bem que esse fato não bloqueou a minha capacidade de escrever redação, a ponto de eu estar hoje aqui escrevendo esta história de São Paulo.

 

Maurício de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br

A história do Chapeuzinho Vermelho no rádio

 

Tem uma brincadeira antiga na qual uma mesma notícia é apresentada em diferentes versões, adaptada ao estilo editorial de cada jornal, revista ou programa de televisão. Um exercício para entender melhor a mídia e mostrar como a forma de pensar do veículo e o próprio público-alvo podem influenciar a abordagem do assunto. A primeira vez em que me deparei com este texto a notícia em questão era o fim do mundo e havia coisas curiosas como acusação contra partidos políticos, destaque para as perdas econômicas e até uma, nunca esqueço, que destacava em letras garrafais: “O Rio Grande do Sul vai acabar“. Claro, se referia a um jornal gaúcho.

Nessa segunda-feira, recebi e-mail do ouvinte-internauta Joaquim S. Falcão Neto mostrando como a história de Chapeuzinho Vermelho seria contada na imprensa brasileira. Já conhecia este texto, também. Mas havia uma provocação interessante na mensagem copiada por ele: “E na CBN, como vocês noticiariam?”

A pergunta me permite falar um pouco sobre algo que me incomoda há bastante tempo no rádio brasileiro: o texto. Com as exceções de praxe, deixamos de lado o desenvolvimento de uma escrita apropriada para o veículo, o que significa dizer, apropriada para o ouvinte. E o que vem a ser isto? Escrevi no livro Jornalismo de Rádio, editado pela Contexto, sobre o assunto:

O jornalista catalão Iván Tubau, professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro Periodismo oral (Paidós, 1983), ensina que ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala. O redator de rádio tem de levar em consideração que a notícia será falada; não pode se prender ao texto escrito do jornal, da agência de notícias ou internet, fontes de sua redação. Precisa recriá-lo. No rádio, assim como na televisão, a compreensão tem de ser imediata. Não se dá ao ouvinte o mesmo direito que o leitor tem de voltar atrás sempre que alguma ideia for percebida.

Mais adiante, reproduzo outro ensinamento de Tubau:

Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua.

Digo tudo isso para, finalmente, responder ao interesse do Falcão Neto. A notícia do Chapeuzinho Vermelho no rádio, muito provavelmente, seria “copiada e colada” de algum outro veículo de comunicação, infelizmente, como ocorre na maioria das vezes, sem nem mesmo se atentar para o interesse editorial que moveu o veículo-fonte.

Haverá aqueles colegas de rádio que lerão este post – é pretensão minha acreditar que algum deles lê este blog? – e logo pensarão consigo mesmo: “eu não faço assim” ou “na minha rádio, não”. Se for verdadeira a reação, parabéns. Você é um dos poucos que ainda se lembram do ouvinte ao redigir para o rádio.