Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

De volta ao trabalho!

 

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Foi-se o tempo da redação de volta às aulas quando a professora nos oferecia a oportunidade de contar por escrito algumas das aventuras vividas nas férias. Imagino que, atualmente, ninguém mais seja levado a fazer essa tarefa, mesmo porque, diariamente, estamos compartilhando nossos passos nas redes sociais. É selfie publicada no Instagram, instantes captados no Snapchat, textos mal rabiscados no Facebook e tudo automaticamente transformado em link no Twitter. Chega-se na sala de aula e a turma toda já sabe o que fez graças as informações trocadas no grupo do WhatsApp. Novidade? Só a senhora não sabe, professora!

 

Apesar de distante do hábito e da idade desse pessoal que já nasceu sem noção do que é vida privada, sem exagero, também divido algumas coisas que encontrei no caminho das férias com os caros e raros leitores deste blog e todos os demais que se dão ao trabalho de me “seguir” especialmente no Twitter e no Instagram. Por mais que busco preservar-me, fico instigado a enviar uma imagem que me conquistou e contar um caso que me chamou atenção. Por isso,quem teve paciência, viu o filhote de beija-flor no jardim da casa que me abrigou nessas férias (reproduzido neste post), assim como o pôr-do-sol que, a cada fim de dia, pintava de forma diferente o céu na minha frente. Encontrou, também, alguns personagens da praia, já que preferi sair em busca do verão, em plenas férias de inverno (é só entrar no Instagram).

 

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Das obrigações do blog, mantive apenas uma, deixando o restante por conta e risco dos nossos colaboradores, fiéis e sem férias, como o Carlos, a Biba, a Malu, o Ricardo e o pai – que, registre-se, continuaram mandando muito bem e, por isso, faço questão de agradecê-los publicamente. A mim reservei o prazer de escrever sobre o que mais gosto, o meu Grêmio, até porque a safra foi boa. Cheguei pensar em falar com você sobre coisa mais séria, pois as notícias aqui no Brasil e lá fora estiveram em ritmo alucinante, mas se levasse à frente minha intenção, provavelmente não estaria com as energias renovadas para essa nova fase.

 

Por óbvio que pareça, a volta das férias deve ser um recomeço, momento para rever alguns hábitos e relacionamentos, tentar novas fórmulas, talvez arriscar um pouco mais. Especialmente, retomar a paciência que o estresse do cotidiano nos leva embora. Ser mais tolerante, um desafio diante de tanta intolerância que assistimos em todos os campos.

 

Nessa proposta de renovação, para este segundo semestre que já começou, o que posso dizer por enquanto é que, em breve, o Jornal da CBN trará novidades para o ouvinte.

 

Eu, particularmente, terei o prazer de lançar, ao lado da colega e fonoaudióloga Leny Kyrillos, o livro “Comunicar para liderar”, pela Editora Contexto, no qual explicamos como usar a comunicação para comandar sua empresa, sua equipe e sua carreira – um recurso que pode, inclusive, mudar sua qualidade de vida. Aproveite e anote na sua agenda: Leny e eu temos um bate-papo marcado com você na sexta-feira, dia 24, às 18h, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo. Em seguida, haverá sessão de autógrafos.

 

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Feita aqui a minha redação de “volta às aulas”, agora é matar a saudade dos colegas e ouvintes e contar com sua participação diária no Jornal da CBN.

 

Até mais!

No Conte Sua História de SP: minha primeira redação na escola

 

Por Maurício de Oliveira

 

 

Nasci em 1960, no Bairro de Vila Brasilândia, na rua Virajuba, num cortiço chamado Catimbó. Um bairro marcado pela violência e a criminalidade.

 

Sou o quinto filho numa família de seis: cinco meninas e um menino. Meus pais eram pessoas simples e analfabetas. Minha família era muito pobre e apesar das dificuldades, nunca nos faltou amor.

 

O amor foi determinante na minha criação e educação. Estudei o primário na Escola Municipal Raul Fernandes iniciando em 1968. O Brasil vivia em plena Ditadura. Não existia liberdade de expressão e até o pensamento era censurado.

 

A maior lembrança que tenho da minha escola, aconteceu no 2 º ano primário. A professora disse que aprenderíamos uma lição nova: redação. Podíamos escrever qualquer tema, desde que tivesse começo, meio e fim. Olhei para uma colega de classe e escrevi:

 

“Vera Lúcia, você vai crescer, namorar, casar e ter filhos”.

 

Estava completa a minha redação. Li várias vezes em pensamento antes de entregá-la. Será que isso é redação? – pensei comigo. O aluno da carteira de trás, levantou-se pegou a minha redação e disse em voz alta: – professora, ele terminou a redação!

 

A professora leu e ficou chocada com o texto. Eu não tinha a menor consciência do que havia escrito: – levante-se e me acompanhe até a diretoria.

 

As crianças tinham uma fantasia naquela época. Imaginavam que na escola haviua um quartinho onde vivia uma cobra, quando alguém fazia algo proibido era colocado de castigo lá dentro. A cobra picaria o aluno e a pessoa morreria.

 

O diretor da escola era um tirano, um ditador. Comecei a chorar desesperadamente de tanto medo. Na minha cabeça, imaginava o terror ao qual seria submetido e meus pais não teriam conhecimento. Havia assistido ao filme Cleópatra e me lembro quando ela tirava uma serpente de um cesto cheio de morangos e se suicidava. Pensava que a mesma cobra que matou a Cleópatra iria me matar na escola.

 

Perguntei ao diretor:
– Por que estou aqui na diretoria?
– O que eu fiz de errado?

 

Ele respondeu:
– Você escreveu uma redação de fundo sexual.

 

Para mim, toda linguagem que não fosse compreensível era língua de médico. O diretor me disse que ele não poderia responder a minha pergunta porque eu não tinha idade e capacidade para entender o que era fundo sexual. E me advertiu:

 

– Você ficará em observação por um ano e se escrever outra redação como essa, será expulso dessa escola e não estudará em nenhuma outra escola do bairro, da cidade e do país.

 

Conclui que a professora e o diretor se formaram na faculdade da inquisição. Se eu escrevesse: Vera Lúcia, você irá crescer, envelhecer, ficar doente e morrer, não estaria errado. O erro foi escrever que ela teria filhos.

 

Ainda bem que esse fato não bloqueou a minha capacidade de escrever redação, a ponto de eu estar hoje aqui escrevendo esta história de São Paulo.

 

Maurício de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br

A história do Chapeuzinho Vermelho no rádio

 

Tem uma brincadeira antiga na qual uma mesma notícia é apresentada em diferentes versões, adaptada ao estilo editorial de cada jornal, revista ou programa de televisão. Um exercício para entender melhor a mídia e mostrar como a forma de pensar do veículo e o próprio público-alvo podem influenciar a abordagem do assunto. A primeira vez em que me deparei com este texto a notícia em questão era o fim do mundo e havia coisas curiosas como acusação contra partidos políticos, destaque para as perdas econômicas e até uma, nunca esqueço, que destacava em letras garrafais: “O Rio Grande do Sul vai acabar“. Claro, se referia a um jornal gaúcho.

Nessa segunda-feira, recebi e-mail do ouvinte-internauta Joaquim S. Falcão Neto mostrando como a história de Chapeuzinho Vermelho seria contada na imprensa brasileira. Já conhecia este texto, também. Mas havia uma provocação interessante na mensagem copiada por ele: “E na CBN, como vocês noticiariam?”

A pergunta me permite falar um pouco sobre algo que me incomoda há bastante tempo no rádio brasileiro: o texto. Com as exceções de praxe, deixamos de lado o desenvolvimento de uma escrita apropriada para o veículo, o que significa dizer, apropriada para o ouvinte. E o que vem a ser isto? Escrevi no livro Jornalismo de Rádio, editado pela Contexto, sobre o assunto:

O jornalista catalão Iván Tubau, professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro Periodismo oral (Paidós, 1983), ensina que ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala. O redator de rádio tem de levar em consideração que a notícia será falada; não pode se prender ao texto escrito do jornal, da agência de notícias ou internet, fontes de sua redação. Precisa recriá-lo. No rádio, assim como na televisão, a compreensão tem de ser imediata. Não se dá ao ouvinte o mesmo direito que o leitor tem de voltar atrás sempre que alguma ideia for percebida.

Mais adiante, reproduzo outro ensinamento de Tubau:

Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua.

Digo tudo isso para, finalmente, responder ao interesse do Falcão Neto. A notícia do Chapeuzinho Vermelho no rádio, muito provavelmente, seria “copiada e colada” de algum outro veículo de comunicação, infelizmente, como ocorre na maioria das vezes, sem nem mesmo se atentar para o interesse editorial que moveu o veículo-fonte.

Haverá aqueles colegas de rádio que lerão este post – é pretensão minha acreditar que algum deles lê este blog? – e logo pensarão consigo mesmo: “eu não faço assim” ou “na minha rádio, não”. Se for verdadeira a reação, parabéns. Você é um dos poucos que ainda se lembram do ouvinte ao redigir para o rádio.