50 debates para o Brasil: fim das saidinhas divide opiniões sobre segurança e ressocialização

Cerca de 4% a 5% dos presos autorizados a sair temporariamente apresentam alguma irregularidade no retorno ao sistema prisional. O significado desses números e os efeitos da proibição das visitas familiares foram discutidos na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.

Participaram do debate César Dario Mariano da Silva, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo e professor de Direito Penal e Processual Penal, e Renato Vieira, mestre e doutor em Direito Processual Penal e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

A saída temporária foi incorporada à legislação brasileira em 1977 e organizada pela Lei de Execução Penal, de 1984. Destinava-se a presos do regime semiaberto e permitia, mediante autorização judicial, visitas à família, frequência a cursos e participação em atividades de reintegração social.

Em 2024, o Congresso derrubou vetos presidenciais e proibiu as saídas para visitas familiares e atividades de retorno ao convívio social. A legislação manteve a autorização relacionada aos estudos. O debate, portanto, é sobre preservar essa restrição ou recuperar o instrumento com novos critérios.

Evasões e riscos para a população

César Dario afirmou que trabalhou por mais de 15 anos na área de execução penal e citou um índice de evasão próximo de 4%. Segundo ele, diante da liberação de aproximadamente 30 mil presos em cada período, o percentual representava cerca de 1.200 pessoas que não retornavam.

“Se nós tivermos mais presos na rua e a grande maioria deles sem a devida fiscalização, nós teremos o aumento da prática de crime”, afirmou.

O procurador também criticou a forma ampla como o benefício era concedido e a falta de fiscalização. Sua posição, porém, não é favorável a uma proibição sem exceções. Ele defendeu a possibilidade de saída para presos sem periculosidade, condenados por crimes sem violência ou grave ameaça, com bom comportamento, exame criminológico e monitoramento eletrônico.

Para César Dario, restringir as visitas familiares não elimina a individualização da pena, porque o condenado ainda pode progredir do regime fechado para o semiaberto e, depois, para o aberto. Ele também lembrou que a pena não tem apenas a função de ressocializar, mas procura desestimular a prática de novos crimes.

Fiscalização e retorno à sociedade

Renato Vieira reconheceu que os dados oficiais indicam irregularidades no retorno de 4% a 5% dos beneficiados. Ressalvou, contudo, que esse grupo inclui presos que voltaram com atraso. Portanto, o número não pode ser apresentado automaticamente como percentual de fugitivos ou de autores de novos crimes.

Para ele, falhas de fiscalização exigem uma resposta do Estado, e não a eliminação de um instrumento destinado a pessoas que já cumprem pena no regime semiaberto e se aproximam da liberdade.

“Quando nós cassamos esse benefício, nós estamos tirando a possibilidade de uma progressão do regime como manda a Constituição, que é a individualização da pena”, afirmou.

Renato defendeu o monitoramento dos presos e lembrou que o atraso ou o descumprimento das condições da saída pode ser considerado falta grave, com a regressão para um regime mais rigoroso. Na avaliação dele, impedir o contato familiar aproxima o regime semiaberto do fechado e pode prejudicar a preparação para a liberdade.

O confronto entre os dois argumentos expõe o centro da discussão. A saída temporária precisa proteger a sociedade, prever critérios rigorosos e permitir fiscalização. Ao mesmo tempo, o sistema penal terá de decidir como preparar o preso para voltar ao convívio social. Afinal, para a maioria dos condenados, a porta da prisão um dia será aberta de forma definitiva.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: ensino religioso nas escolas públicas divide espaço entre cultura, fé e formação básica

O ensino religioso está previsto nas escolas públicas brasileiras, mas a matrícula é facultativa e sua aplicação provoca dúvidas sobre laicidade, diversidade e prioridade curricular. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Adecir Pozzer, coordenador-geral do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso, e Claudia Costin, especialista em políticas públicas e educação.

Embora tenham partido de posições diferentes, os debatedores concordaram em dois pontos: a disciplina não deve servir à conversão religiosa e a participação do estudante deve continuar facultativa. A principal divergência apareceu na forma de oferecer esse conhecimento e no espaço que ele deve ocupar em uma grade escolar já limitada.

Adecir Pozzer defendeu o ensino religioso como uma área de conhecimento dedicada ao estudo das diferentes crenças, tradições e experiências espirituais produzidas pela humanidade. Segundo ele, as religiões influenciam a formação das pessoas, a organização das sociedades e a maneira como diferentes grupos interpretam o mundo.

Para Pozzer, esse conteúdo pode ajudar os estudantes a compreender a diversidade cultural e a conviver com pessoas que professam outras crenças ou não seguem nenhuma religião.

“Não podemos educar para a segregação, do ponto de vista da religião, mas para a integração, para a convivência”, afirmou.

Ele ressaltou que a proposta não deve ser confessional. Isso significa que a escola pública não pode ensinar os princípios de uma religião específica como verdade nem tentar conquistar seguidores. A disciplina deveria apresentar tradições indígenas, afro-brasileiras, asiáticas e de outras matrizes, com base nas ciências da religião.

Pozzer também defendeu a formação específica dos professores e a existência de objetivos pedagógicos claros. Sem esses cuidados, o ensino religioso pode deixar de promover a diversidade e passar a reproduzir preconceitos.

Claudia Costin concordou que os estudantes precisam conhecer diferentes crenças e aprender a respeitá-las. Também defendeu uma abordagem não confessional e sem proselitismo — termo usado para definir a tentativa de converter alguém a determinada religião.

Sua ressalva está na criação de uma disciplina específica em uma escola que dispõe de poucas horas para ensinar conteúdos fundamentais. Claudia lembrou que muitos estudantes brasileiros permanecem apenas quatro horas por dia na escola, enquanto sistemas educacionais com melhores resultados oferecem jornadas mais longas.

“O que me preocupa é que o Brasil tem uma jabuticaba: só quatro horas de aula no ensino fundamental. Nenhum país com bom sistema tem menos de sete”, disse.

Na avaliação da especialista, conhecimentos sobre religião, cultura e diversidade poderiam aparecer em matérias como história e sociologia. Essa alternativa evitaria aumentar a fragmentação da grade e preservaria mais tempo para leitura, escrita, matemática e ciências.

O professor no centro da questão

Os debatedores também convergiram sobre o risco de uma formação inadequada dos educadores. Para Claudia, mesmo um currículo plural pode ser prejudicado pelos preconceitos e pelas preferências pessoais de quem ensina.

O desafio, portanto, não está apenas em decidir se o ensino religioso deve permanecer na escola. É preciso definir quem vai ensiná-lo, com qual preparação e de que maneira serão representadas as crenças minoritárias, além das pessoas ateias e agnósticas.

O debate mostrou que a discussão vai além da oposição entre religião e Estado laico. A questão central é saber se a escola pública consegue transformar o conhecimento sobre as religiões em instrumento de convivência, sem doutrinação e sem retirar espaço de aprendizagens essenciais.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: casamento homoafetivo opõe igualdade de direitos e concepções sobre a família

Há 15 anos, casais do mesmo sexo podem formar uma família reconhecida juridicamente no Brasil, mas esse direito ainda não está expresso em uma lei aprovada pelo Congresso Nacional. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Maria Berenice Dias, vice-presidente nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), e Dienny Riker, doutora em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

O ponto central do debate foi se o Congresso deve incluir expressamente na legislação o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o tema deve permanecer submetido às regras atuais e à interpretação consolidada pela Justiça?

Desde 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça determinou que os cartórios não podem se recusar a celebrar casamentos civis homoafetivos ou converter uniões estáveis em casamento.

Contrária à mudança na legislação, Dienny Riker argumentou que a divergência não está no valor afetivo das relações homoafetivas, mas no próprio conceito de casamento. Para ela, historicamente o Estado regulamenta o casamento por sua relação com a formação da família, a geração de filhos e a responsabilidade dos pais.

“O Estado não tem interesse em regular a nossa afetividade”, afirmou. Segundo Riker, redefinir o casamento apenas a partir do vínculo afetivo enfraquece a relação histórica entre casamento, sexualidade e parentalidade.

Ela também argumentou que a preservação do casamento como união entre homem e mulher está relacionada à liberdade religiosa e de consciência. Na sua avaliação, pessoas que adotam essa concepção por razões religiosas ou filosóficas devem ter o direito de manifestá-la sem serem tratadas como homofóbicas.

Maria Berenice Dias contestou a ideia de que a finalidade principal do casamento seja a procriação. Para ela, essa interpretação não corresponde à realidade das famílias brasileiras.

“O casamento não tem a finalidade de procriação”, afirmou. Ela lembrou que casais heterossexuais podem se casar mesmo quando não desejam ou não podem ter filhos. Também destacou que casais homoafetivos podem exercer a parentalidade por adoção ou reprodução assistida.

Na sua interpretação, o Estado deve reconhecer relações que criam direitos, deveres e consequências patrimoniais, independentemente da orientação sexual dos integrantes do casal. “Essa é a finalidade do Estado”, disse.

Outro ponto de divergência foi o papel do Legislativo. Riker sustentou que a ausência de uma lei aprovada pelo Congresso indica que não houve consenso social suficiente para alterar o conceito tradicional de casamento. Ela questionou o fato de uma mudança dessa dimensão ter ocorrido pela via judicial e não por votação dos representantes eleitos.

Maria Berenice rejeitou a interpretação. Segundo ela, a resistência parlamentar pode refletir o receio dos congressistas de contrariar parcelas conservadoras do eleitorado, e não necessariamente a posição da maioria da população. Para a jurista, deixar essas relações sem reconhecimento expresso na legislação contribui para manter famílias juridicamente vulneráveis.

O debate coloca frente a frente diferentes concepções sobre família, igualdade perante a lei, liberdade religiosa e o papel do Congresso e do Judiciário na definição de direitos civis.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: entre o apito final e o sinal da cruz

Atlético MG 3×0 Grêmio

Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Gremio x Atletico-MG
Krovinović entrou no segundo tempo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Domingo é dia de missa. Na minha paróquia, começa às seis da tarde. Costumo ir pela manhã a outra igreja próxima de casa quando as agendas cristã e futebolística se confundem. Nas rodadas dominicais em que o Grêmio entra em campo às quatro da tarde, assisto aos minutos derradeiros na tela do celular, na porta da igreja. Só desconecto no apito final do árbitro ou no sinal da cruz do padre — o que vier primeiro.

Hoje, confesso que cometi um sacrilégio. Não com Deus. Com o meu time. Nem nos piores momentos do Grêmio aceitei a ideia de abandonar a arquibancada antes do encerramento. Hoje, quando percebi que a partida ainda se estenderia até perto das seis da tarde (ou da noite), apaguei a TV e fui rezar. Não para o meu time. A Deus.

A minha desistência antecipada deste domingo é o sinal claro da desilusão que o Grêmio insiste em impor ao seu torcedor. Após a classificação à semifinal da Copa do Brasil e a vitória de virada na última rodada do Brasileiro, cheguei a me entusiasmar — e deixe isso registrado nesta Avalanche. A chegada de dois reforços menos badalados, mas que rapidamente entregaram bom desempenho também trouxe otimismo. Refiro-me a Wallace e Caito. A ressureição de Pavón, com dois gols de falta em duas partidas seguidas, era de fazer qualquer descrente se converter. A contratação do croata Filip Krovinović, em condições de estrear hoje, alimentava a esperança de que finalmente teríamos um camisa 10 capaz de dar qualidade ao meio de campo.

Já começamos a partida cientes da ausência de Villasanti, o volante mais qualificado do time. Assim como da de Marlon, único lateral esquerdo em quem podemos confiar. Controle de carga foi a justificativa que nos deram. Sei que é preciso preservar os jogadores fisicamente, mas não me parece que o Grêmio esteja em condições de pensar no que será o amanhã. Precisa de resultado — principalmente fora de casa — aqui e agora.

A escolha de Dodi em lugar de Villasanti — com todo o respeito que este abnegado meio-campista merece — era a indicação de que Luis Castro, antes de pensar na vitória, queria evitar uma derrota. Time com três volantes e nenhum deles com qualidade para sair jogando não poderia oferecer muito mais do que nos ofereceu no primeiro tempo. Pobre dos nossos atacantes, que passaram 45 minutos à espera de um milagre. Que, como se sabe, não aconteceu. A bola mal chegava aos pés deles para que desse sequência às jogadas em direção ao gol.

No segundo tempo, Krovinović veio para o jogo. Teríamos, enfim, um meio de campo mais criativo. Kanneman substituiu Gustavo Martins, provavelmente por questões físicas. E Tetê entrou no lugar de Pavón. Não me pergunte a razão. Talvez a crença do técnico que dali viria a redenção.  

E realmente o Grêmio melhorou em relação ao primeiro tempo — não que precisase fazer muito para isso. Chegou mais próximo da área. Pressionou mais. E, aos 14 minutos, quase empatou o jogo após a única ótima jogada do time. Caito desceu com velocidade até a linha de fundo e cruzou para Amuzu completar de primeira. Esperança à vista, pensou este sempre crente torcedor.

Ledo engano. 

Em seguida, a realidade ficou escancarada. Com um volante a menos e atacantes que não sabem voltar para ajudar na marcação, tomamos dois gols de contra-ataque em três minutos. 

Houve uma época em que, mesmo sem qualquer lógica, éramos capazes de superar todos os reveses. Ao menos acreditávamos que seríamos capazes. Quem sabe uma reação que nos permitisse continuar sonhando? Um gol que nos levasse a ficar grudado na televisão, cruzando os dedos, clamando aos deuses mundanos do futebol? Um empate heroico na casa do adversário?

Desculpe, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não encontrei em campo nenhum sinal de que algo parecido pudesse acontecer. Desliguei a TV, abandonei meu time antes de a partida terminar e fui à Igreja. O desalento é tamanho que sequer tive coragem de pedir dias melhores para o meu time. Penso que Deus tem coisa mais importante a fazer. O Grêmio que trabalhe e jogue um futebol capaz de nos fazer voltar a acreditar em milagres.

O dilema do amor onipotente

Por Caio Luizetto

Foto de Szabu00f3 Viktor on Pexels.com

Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.

Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.

Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.

O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.

Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.

O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.

Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.

Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor. 

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Deus Sem Atalhos: uma teologia da permanência no caos

Por Caio Luizetto

Foto de eberhard grossgasteiger

Há quem repita, quase como um refrão automático: “Deus está vendo tudo.”
Mas se Deus fosse apenas um observador que assiste ao desfile interminável de injustiças, violências e misérias humanas, então Sua contemplação seria tão cruel quanto estéril.

Um Deus que apenas vê seria um Deus diminuído, reduzido a ídolo: um olhar distante pairando sobre um mundo em ruínas. Uma divindade assim não seria mais que um mito — um eco vazio projetado sobre o infinito.

Mas o Deus que faz sentido não é o Deus voyeur da dor alheia.
É o Deus vulnerável, o Deus afetado, o Deus que sofre.

Se o prazer de Deus está na reciprocidade — na chama que se acende quando seres humanos se reconhecem, se ajudam, se amam — então a ruptura dessa ordem amorosa fere o próprio coração divino.
O antagonismo do prazer é o sofrimento; onde o amor se rompe, Deus se dilacera.

Dizer que Deus “vê tudo” empobrece o drama divino-humanal.
Deus não contempla de longe: Ele participa.
Não paira em neutralidade: Ele se compromete.
Não observa as dores do mundo: Ele as incorpora.

Se a marca dos discípulos está no mandamento do amor — amai-vos uns aos outros — então cada vez que odiamos, negamos, ferimos ou abandonamos, não é apenas o outro que sofre: é Deus que sangra através dele.
O sofrimento humano não acontece à revelia do sagrado; acontece dentro de Deus.

Por isso, não é adequado imaginar um Deus que tudo vê.
Esse Deus seria estático, impermeável, imóvel.

O Deus vivo, porém — o Deus que vale a pena ser chamado Deus — é aquele que, ao ver, geme; ao testemunhar a injustiça, se contorce; ao encontrar violência, se rasga; ao perceber a fratura entre irmãos, agoniza.

Assim, Deus não está simplesmente vendo tudo.
Deus está sofrendo tudo.
E talvez aí resida a maior dignidade de Sua divindade: Ele não se exime do peso do mundo; Ele o carrega consigo.

Um Deus que sofre não é um Deus derrotado — é um Deus que ama até o limite da dor.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Carlo Acutis: santo de jeans, tênis e rosário

Li hoje, no New York Times, a reportagem da jornalista Elisabetta Povoledo, que me levou até Assis sem que eu saísse da cadeira. Pela tela, entrei no santuário onde está o corpo de Carlo Acutis, um adolescente que morreu em 2006, aos 15 anos, e que, neste domingo, será canonizado no Vaticano pelo Papa Leão XIV.

Enquanto lia, parecia ouvir o murmúrio das orações que Povoledo descreve — em italiano, espanhol, inglês, português. Um coro de línguas diferentes diante de um jovem que será o primeiro santo millennial da Igreja Católica.

E confesso: mais do que os dados, foi a cena que me prendeu. O corpo repousa num túmulo parcialmente transparente. Jeans. Tênis. Jaqueta esportiva. Um rosário nas mãos. Não se vê um manto dourado, não há hábito de freira ou sandálias de frade. Ali está um santo com cara de quem poderia estar passando por nós na rua, mochila nas costas e celular no bolso.

A reportagem conta que um milhão de pessoas visitaram o túmulo de Carlo só no ano passado. A média de idade dos peregrinos caiu “algumas décadas”, disse o bispo de Assis. Jovens que haviam se afastado da Igreja agora se aproximam. Por quê?

Talvez porque Carlo seja deles. Jogava videogame, tinha amigos, ria, rezava, navegava na internet. Entendeu cedo o impacto da rede e decidiu usá-la para espalhar fé. Criou um site para catalogar milagres eucarísticos, antecipando o que muitos adultos ainda não sabem: a internet é só ferramenta; o sentido está no uso que fazemos dela.

A professora Kathleen Cummings, especialista em santos, disse ao Times:

“Num momento em que a sociedade e a Igreja estão preocupadas com o impacto corrosivo da tecnologia, Carlo mostra que é possível usar o digital como ponte, não como barreira.”

Talvez seja isso que atraia tanta gente: Carlo viveu na mesma frequência dos jovens que agora se aproximam dele.

Outro detalhe chama a atenção: a rapidez com que a devoção cresceu. Desde que o corpo de Carlo foi levado a Assis, em 2019, surgiram capelas, escolas e grupos nas redes sociais dedicados a ele. Há dezenas de páginas no Facebook, lembranças espalhadas por lojas e até souvenirs com a imagem do garoto de camisa polo vermelha e mochila.

Ele se tornou símbolo num tempo em que, paradoxalmente, a fé institucional parece perder espaço. Um estudo citado pela reportagem, feito pelo Instituto Giuseppe Toniolo, mostra que 30% dos jovens italianos não têm crença religiosa — o mesmo percentual dos que se declaram católicos praticantes. Carlo, dizem os especialistas, virou um ponto de convergência entre os que buscam espiritualidade e os que se afastaram da Igreja.

Uma peregrina entrevistada pelo Times, Nerea Rano, resumiu talvez o maior segredo da atração que Carlo exerce:

“É fácil rezar para ele porque ele é jovem. Ele fala com os jovens. É como olhar para um espelho.”

Um espelho, penso eu, que devolve a imagem de um santo real, de carne, osso e tênis, com gostos comuns e linguagem próxima. Carlo não fundou escolas, não abriu hospitais, não escreveu tratados de teologia. Vivia a fé no cotidiano. O Papa Francisco dizia que “a santidade está no próximo” e Carlo parecia acreditar nisso com naturalidade.

Neste domingo, na Praça de São Pedro, Carlo será declarado santo. Não sei o que isso mudará para a Igreja — talvez muito, talvez pouco. Mas, para quem lê a história, fica a sensação de que a santidade deixou o pedestal e sentou no banco ao nosso lado.

Santo de jeans, tênis e rosário. Um garoto que entendia de internet e, ainda assim, acreditava profundamente. Talvez por isso, mais do que um exemplo distante, Carlo Acutis pareça um convite próximo: ser santo pode caber na nossa rotina, no nosso feed, no nosso silêncio.

E, de algum jeito, isso me fez pensar que a fé, como a boa comunicação, acontece quando encontramos a linguagem certa.

PS: Se você estiver na cidade em São Paulo, uma das formas de conhecer de perto a história desse jovem é visitar a exposição com informações, imagens e pertences de Carlos Acuti, no Salão Paroquial da Paróquia de Santa Suzana,  na rua David Ben Gurion, 777.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está estranho — e isso é bom

Juventude 0x2 Grêmio
Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Cristian Olivera fez o 2º gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um domingo estranho para os padrões gremistas dos últimos meses. Uma vitória por dois gols de diferença não acontecia desde o início de abril; a última vez que ganhamos três partidas consecutivas foi em janeiro; e agora completamos quatro jogos sem tomar gols — somados os resultados do Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana.

A sorte também esteve ao nosso lado, o que não víamos há algum tempo. O pênalti infantil cometido pelo goleiro adversário, ainda nos primeiros minutos, tornou o caminho da vitória mais fácil — e contou com o auxílio do VAR. O mesmo VAR que evitou que fôssemos prejudicados com o pênalti assinalado contra nós, quando ainda vencíamos por apenas um a zero — e parecia que a história de não sabermos segurar o placar favorável se repetiria.

Alguém pode dizer que o recurso do VAR não é questão de sorte. É auxílio técnico usado para ajudar os árbitros em lances difíceis e polêmicos. Primeiro: se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, pensa assim, convido-o a puxar a “ficha corrida” dos lances de arbitragem em rodadas anteriores (com exceção do jogo contra o Bahia). Segundo: que um dos jogadores adversários estivesse em posição irregular no instante da jogada em que derrubamos o atacante deles na área é sorte, sim.

Ao falar de sorte, não estou reclamando. Fico bem feliz em saber quando ela decide trocar de lado. Porque, geralmente, quando isso acontece, é sinal de que o time começa a fazer por merecer. E hoje, fizemos.

Mesmo que o adversário estivesse fragilizado, é preciso considerar que continuava sendo uma fortaleza dentro do seu estádio. Mais do que isso, o Grêmio fez sua melhor partida dos tempos recentes, a começar por um sistema defensivo mais coeso. Houve intensidade na marcação, com a participação dos jogadores de ataque. Na maior parte do jogo, preferiu-se a troca de passes e, sempre que se chegava pelas alas, nossos atacantes foram atrevidos ao driblar. O meio de campo também participou ativamente, com destaques para Villasanti e Cristaldo.

Se o que assistimos foi circunstancial ou se estamos vendo o início de uma reação gremista, sob nova direção, teremos de esperar pela resposta que o tempo nos oferecerá. O Grêmio joga mais uma partida antes da longa parada para o Mundial de Clubes — tempo em que Mano poderá, se tudo correr bem, ganhar os reforços necessários e organizar melhor seu grupo. Com isso, quem sabe vitórias seguidas, defesa mais firme e boas arbitragens deixem de causar estranheza a este escrivinhador e torcedor.

Francisco, o papa que falava como a gente

“A beleza da vida nos pequenos gestos de amor.” Essas palavras encerraram, simbolicamente, a trajetória pública de Francisco. Estavam na mensagem de Páscoa escrita por ele, lida pelo cardeal Angelo Comastri, ao fim da missa celebrada neste domingo na Praça de São Pedro. Francisco, já enfraquecido, apareceu na sacada da Basílica, acenou para os fiéis, abençoou a multidão e disse com voz baixa, mas firme: “Caros irmãos e irmãs, Boa Páscoa”. Pediu então que um colaborador lesse o restante do discurso, no qual abordava temas centrais de seu papado: a defesa da paz, o combate à desigualdade, a liberdade de expressão e a solidariedade com os que sofrem.

Mesmo sem conseguir conduzir pessoalmente a celebração, o gesto de aparecer, cumprimentar e se mostrar presente foi, em si, um ato de comunicação — e coerência. Francisco sempre entendeu que a força de uma liderança está tanto na palavra quanto no silêncio; tanto no que se diz quanto no modo como se diz.

O papa que morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, não será lembrado apenas pelas reformas internas ou pelas viagens internacionais. Seu legado está profundamente vinculado à forma como se comunicava. Francisco não discursava do alto de um púlpito inatingível. Preferia a conversa direta, o tom acolhedor, a linguagem acessível. Não erguia muralhas com palavras. Construía pontes. Ligava o sagrado ao cotidiano, a doutrina à vida, o Vaticano ao povo.

Ao contrário de seu antecessor, que simbolizava uma Igreja marcada por ostentação, lentidão, burocracia e subordinação, Francisco comunicava com o corpo o que pregava com a voz: simplicidade, agilidade, bom senso, liderança. A imagem de Bento XVI remetia à autoridade cerimonial. A de Francisco, à autoridade carismática. Um parecia paramentado pelo peso da tradição; o outro, leve — mesmo carregando nos ombros o peso do mundo.

Sua escolha de nome foi uma declaração de intenções. Ao adotar “Francisco”, evocou o santo de Assis: humilde, avesso a ostentações, comprometido com os pobres e com o diálogo. Era uma forma de dizer ao mundo: a Igreja precisava se reconectar com a essência da fé. E ele fez isso em gestos, mais do que em decretos. Recusou o trono dourado, escolheu viver na Casa Santa Marta, lavou os pés de presidiários, visitou refugiados e distribuiu doces para crianças — como fez, inclusive, poucos dias antes de morrer.

Em sua autobiografia, Esperança, publicada pouco antes da morte, Francisco revelou-se ainda mais transparente. Quis deixar, com as próprias palavras, um legado que não fosse um dogma, mas um testemunho. Falou de futebol e de fé, de chocolate e de política, de amor e de morte. Citou Borges, Bauman, Brecht e Baden Powell. Deu à palavra pontífice — aquele que constrói pontes — sua tradução mais literal.

Ao escrever sobre si mesmo, escreveu sobre todos. E nos lembrou que a autoridade espiritual não está em falar alto, mas em ser compreendido.

“O exercício da religião é fundamental nesse momento”

Com a devida autorização, reproduzo com destaque neste post, a mensagem, antes privada, enviada pelo Padre Manoel Corrêa Viana Neto, em resposta a texto que publiquei no dia 6 de abril:

Milton a paz! Enviei para ti um argumento plausível e concordo com aquilo que penso sobre a abertura das igrejas, defendida pelo Dr. Taiguara Fernandes de Souza. “Não existe sacramentos virtuais”!


Depois, a pandemia não atinge somente o corpo, mas a psique e a alma e o exercício da religião que não é apenas algo intimista, mas sobretudo comunitário é fundamental nesse momento.

Tenho atendido muitas pessoas que estão sofrendo sobremaneira na alma porque privadas da eucaristia e da participação na igreja.


Quando você fala que somos templos do Espírito Santo, invocando uma passagem de São Paulo aos Coríntios (6,19), não pode esquecer do contexto que esta passagem é citada: o problema da imoralidade e do contra testemunho de cristãos! Ou seja, com uma mentalidade mundana, é por isso que logo a seguir ao versículo por você citado, no 20, ele vai dizer que “fomos comprados por alto preço. Portanto, devemos glorificar a Deus com o nosso próprio corpo”. Isto é, pela fé autêntica e corajosa…


Você já imaginou se os cristãos dos primeiros séculos se intimidassem com a perseguição e se resignassem na sua fé, não celebrando e não se encontrando, mesmo à custa do martírio? Certamente não estaríamos aqui refletindo sobre essa situação…


Já dizia o provérbio latino: “Quot capita, tot sententiae” (quantas cabeças, tantas sentenças). O que me preocupa é o cerceamento de um direito constitucional e soberano: o da liberdade de religião, tanto no foro interno como externo.

Isto é o que eu gostaria de expressar a você no teu post.


Um abraço e que Deus te abençoe!

NB: duas outras mensagens deixadas na área de comentários do blog trazem outros argumentos contrários a minha opinião, exposta no post “É um pecado querer fiéis de joelho nas igrejas diante de um vírus que mata“. Convido-os a ler, refletir e, se entenderem pertinente, deixarem também os seus argumentos, com a mesma generosidade que fizeram aqueles que por lá passaram