Santos proíbe manifestação religiosa

 

Futebol e religião são dos assuntos que mais causam discussões apaixonadas. Quando os dois se misturam, a situação fica insuportável. Juca Kfouri que o diga: ano passado, foi alvo de um batalhão de críticas apenas porque decidiu dar sua opinião no tema. Neste início de ano, a diretoria do Santos é a responsável por colocá-los (futebol e religião) na mesma pauta. Um manual entregue aos jogadores proíbe manifestações religiosas, seja em campo ou entrevistas. Pode ser irônico que o fato seja provocado por um time com este nome, mas também pode proporcionar um espaço interessante para que os exageros sejam impedidos.

O presidente do Santos, Luiz Álvaro Ribeiro, disse que o clube é laico para justificar a medida e citou os interesses comerciais:

Ouça o que disse o presidente Luiz Álvaro Ribeiro

O advogado especializado em legislação do esporte Marcílio Krieger lembrou que nenhum código pode impedir a livre manifestação de pensamento, mas também fez ressalvas:

Ouça o que pensa Marcílio Krieger

No CBN São Paulo, fomos saber o que pensa o filósofo Mário Sérgio Cortella que, por coincidência, é torcedor do Santos (não leve isto em consideração na hora de avaliar a opinião dele):

Ouça a opinião de Cortella

E você o que pensa do assunto ?

Conte Sua História de São Paulo: O tempo e o Natal

 

Sérgio Bragatte
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “O tempo e o Natal” sonorizado por Cláudio Antonio

Natal em decoração (Luis F. Gallo)

Outro dia cheguei a seguinte conclusão: sou um velho. Sou um velho carcomido pelo tempo.

Esta conclusão se deveu em razão de que ainda gosto, e preservo o sentimento de gostar, daquilo que está em desuso hoje: escrever sobre o NATAL.

Distante das agruras de adulto, lembro-me criança, quando ansiava acontecimentos mágicos de modo a mudar a dura realidade de menino da periferia sem escola, sem quadras de futebol, sem água encanada, sem luz, sem asfalto, etc, só a violência era abundante.

Lembro das brincadeiras, onde encarnávamos os super heróis, ora éramos o super-homem, ora éramos o homem-aranha, o homem de ferro, zorro, cisco-kid e assim por diante, sempre sonhávamos o que faríamos com super poderes.

Lembro-me dos amigos crianças, das travessuras, dos maus feitos, das peças pregadas nos mais velhos, dos trabalhos esporádicos, para se conseguir uns trocados, das brigas.

No entanto, sempre foi o NATAL que afugentava os medos da infância pobre e permitiam sonhar e superar aqueles problemas, que imaginávamos serem insuperáveis.

Conta-nos a Bíblia que, tempos atrás, sobre uma cidade do oriente, chamada Belém, reluziu uma estrela quando nasceu um menino chamado Jesus. Vindos da Babilônia, três reis magos, três amigos, a seguiram até chegar a um curral, onde, em uma manjedoura presentearam um menino.

Foi o reencontro da criança com a amizade.

Nessa simbologia, concluímos que é a amizade que nos conduz àquela criança.

Sem dúvida, o Natal impregna a alma de estranha de nostalgia.

Paralelamente ao nefasto consumismo, é o caráter religioso da festa me deixa com saudades de Deus, com saudades de quando estávamos mais perto Dele: quando, exatamente, éramos crianças.
Daí o sentimento de querer acordar na manhã de 25 de dezembro e encontrar, nos sapatos, um símbolo de afeto, o afago à criança que dorme dentro de mim.

“Ora (direis) ouvir estrelas!”, canta o poeta.

São Paulo ao final do século é uma metrópole sem comparação. Temos situações antagônicas sem respostas. Temos o maior centro médico da América latina, ao mesmo tempo em que falta esgoto na periferia.
Temos toda oferta de todo tipo de tecnologia, ao mesmo tempo em que centenas de molhares de pessoas vivem na rua ou moram em favelas.

Produzimos tecnologia de engendrar vida em provetas e possuir olhos eletrônicos que penetram a intimidade da matéria e do universo, sem, no entanto erradicar a fome, a desigualdade e a injustiça.
Nossa cidade nos oferece tudo, exceto o que mais carecemos: um sentido para a vida.

Em São Paulo estamos perdidos numa vida adulta. Por vezes nossos sonhos desaparecem.

Lembro que quando pequeno ficava horas parado diante de uma árvore de natal, que se repetia ano após ano, vendo um luminoso colorido que piscava incessantemente.

Ainda hoje ao ver o piscar de luzes sinto-me remetido àquela infância dos super heróis; como se afagasse a criança dentro de mim, como me conduzisse por um leito seguro até o encontro do salvador.

“E agora, José?”

Agora, cabe a nós mudar o Natal e nós próprios. Procurar a estrela em nossas inquietações mais profundas. Descobrir a presença de ambos os Meninos em nosso coração.

E, como nos conta a Bíblia, ousar renascer em gestos de carinho e justiça, solidariedade e alegria.

Fazer-se presente lá onde reina a ausência: de afeto, de saúde, de liberdade, de direitos.

Dobrar os joelhos junto da manjedoura que abriga tantos excluídos, imagens vivas do Menino de Belém.

Viver o NATAL, não este o do consumo desenfreado, mas aquele das luzes piscando, que marcou o “tempo” de nossa infância, quando tudo podíamos e nada podia contra a gente, afinal éramos os super-heróis.

Que sejamos todos felizes e tenhamos um bom NATAL.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Envie seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br