Avalanche Tricolor: erga-se a estátua

 

Juventude 0x6 Grêmio
Gaúcho — Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

 

 

Teve gol de peito, de falta, de cobertura, de carrinho e até gol de Marcelo Oliveira —- aliás, foi dele o gol que abriu a goleada nesta tarde, no estádio Alfredo Jaconi, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho. Gol que surgiu depois de o adversário ter um de seus defensores expulso por jogada violenta, em uma tentativa desesperada do marcador de impedir mais uma chegada com velocidade pelo lado esquerdo. A expulsão foi aos 18 minutos do primeiro tempo e o primeiro gol foi sete minutos depois.

 

Daí para frente, o Grêmio tocou bola com qualidade, superando até mesmo as irregularidades do gramado. Seus jogadores trocavam de posição, apareciam para receber, recebiam e davam sequência à jogada — às vezes com mais um bom passe e em outras com um ou dois dribles. Assim como a superioridade numérica em campo fazia sobrar espaço de um lado e de outro, a superioridade técnica fazia sobrar talento.

 

O desavisado haverá de desmerecer o placar elástico dizendo que contra 10 é mais fácil. É mesmo. Bem mais fácil, especialmente se o seu time souber jogar com a bola. Mas essa facilidade só se torna possível porque o Grêmio provoca as expulsões —- e não é de hoje nem com violência. Lembro de já ter tratado do assunto na Libertadores, de 2017, e no Gaúcho, de 2018, nesta mesma Avalanche.

 

A velocidade das jogadas, a forma como o time se movimenta em campo, a quantidade de passes trocados e a precisão desses passes faz com que os espaços se abram. Por mais esforçado que seja o adversário é preciso correr mais, dobrar a marcação e ser muito cirúrgico na roubada de bola —- escrevi há cerca de um ano e mantenho minhas palavras. Na ânsia de retomar a bola e parar de correr atrás do nosso time, o marcador erra no bote e na batida. Cartão vermelho. E surge mais espaço para o Grêmio esbanjar qualidade técnica.

 

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O sorriso no rosto de quem gosta de jogar bola, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Esse Grêmio que fazia o olho brilhar, em 2016, nos fez ser o maior da América, em 2017, e teve seu futebol reverenciado, em 2018, é o Grêmio que tem a assinatura de Renato —- um técnico com a capacidade de levar para o vestiário o espírito vitorioso que o acompanhou na carreira de jogador.

 

Mais do que isso: um cara que, a despeito de suas frases de efeito e provocações verbais, entendeu a importância de estudar as mais modernas táticas do futebol, analisou cuidadosamente as estratégias usadas pelos times de melhor desempenho no mundo, montou uma comissão técnica capaz de identificar jogadores com potencial e que se encaixavam na sua ideia de futebol e, com tudo isso em mãos, agregou seu carisma e identificação com o torcedor gremista.

 

Como jogador nos deu os maiores títulos que sonhamos: a Libertadores e o Mundial, de 1983; além de ter sido campeão Gaúcho, em 1985 e 1986. Como técnico praticamente repetiu a dose: campeão da Copa do Brasil, em 2016; campeão da Libertadores e vice do Mundo, em 2017; da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Gaúcho, em 2018; e da Recopa Gaúcha, em 2019.

 

Mais do que todos os títulos que conquistou —- mas também graças a eles —-, Renato quando voltar para a praia no Rio de Janeiro terá deixado um legado na maneira de o Grêmio jogar bola.

 

Acabou a era do brutamonte que tanto nos fez vibrar, chorar e sofrer —- e nada contra aquelas batalhas campais, pois sei que foram elas que forjaram nossas conquistas históricas. Sei também que não fugiremos à luta se assim for necessário no amanhã para alcançarmos novas vitórias.

 

Renato deixou para trás os tempos em que se despachava a bola pra qualquer lado porque não se sabia bem o que fazer com ela; em que se deixava os adversários jogarem, torcendo para que em uma bobeada deles fizéssemos o gol salvador; em que o gol era apenas um detalhe na nossa trajetória.

 

O Grêmio de Renato nos ensinou a gostar do jogo bem jogado, a se deslumbrar com o talento, a não ter medo do drible e a valorizar a técnica em detrimento a brutalidade.

 

O Renato do Grêmio nos ensinou a sorrir — e a sorrir com o mesmo sorriso que estará estampado em seu rosto, na estátua que será erguida nesta segunda-feira, dia 25 de março, na Esplanada da Arena.

 

Ali, pertinho de onde conquistamos nossos últimos títulos, sob o comando de Renato, estará a imagem de nosso atacante, em bronze e com quatro metros de altura, no momento em que ele comemorava um dos gols do Mundial de 1983. Uma homenagem ao maior nome que já passou pelo Grêmio. Para lembrar a cada um de nós, gremistas, porque somos o Imortal Tricolor.

 

O Renato merece essa estátua. O Grêmio merece Renato.

Avalanche Tricolor: a escolinha do professor Renato

 

 

Grêmio 3×0 São José
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Renato abraça o pupilo Darlan em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A imagem de Renato em sala de aula chamou atenção dos jornalistas há algumas semanas. Obrigado a participar de curso promovido pela CBF para ter direito a treinar uma equipe na primeira divisão do futebol brasileiro, Renato foi considerado exemplar pelos colegas de turma. Participativo, colaborador e de bem com a vida. Foi como descreveram nosso treinador, que teve de assistir às aulas já com a temporada rolando porque se negou a interromper suas merecidas férias no fim de dezembro. No que tem todo meu apoio — férias são uma instituição a ser respeitada.

 

Pelo histórico recente, Renato estava “jogando” em posição trocada. Em lugar de sentado na carteira dos alunos, deveria ter ocupado a mesa de professor, desenhando na lousa as estratégias e técnicas que aplicou no Grêmio desde que retornou ao clube, em 2016. Um conhecimento que o levou a conquistar a Libertadores, a Recopa Sulamericana, a Copa do Brasil e o Campeonato Gaúcho.

 

Mais do que os próprios títulos —- mas talvez apenas por tê-los conquistado —-, nestes quase 30 meses em que está no comando gremista, Renato deu aula de sabedoria. Soube recuperar a autoestima de alguns jogadores, trouxe de volta a categoria que outros tinham esquecido e foi paciente com os mais jovens. Contrariou o pedido de torcedores que gostariam de ver alguns talentos recém-surgidos já entre os titulares. Puxou a orelha do garoto ansioso tanto quanto do craque consagrado. E o fez com cátedra —- como dizem os mais antigos.

 

O jogo bem jogado do time titular — com toque de bola em velocidade, passes precisos, troca de posição intensa, marcação sobre pressão e forte competitividade — contaminou o clube como um todo. Quem entra na equipe, segue a mesma apostila. Se muda toda a equipe, todos se esforçam para reproduzir o mesmo modelo. Na base, os guris entenderam o recado e fazem a lição de casa. Na escolinha do professor Renato, todos têm de ter na ponta da língua os conceitos que fazem o futebol um espetáculo a ser assistido.

 

Um bom exemplo foi o que vimos nesta noite de sábado, na Arena, quando Renato escalou o time alternativo, já que na terça-feira temos mais um desafio pela Libertadores. Que prazer estar na plateia diante de um equipe que é capaz de encantar desde o primeiro minuto, mesmo que este time não seja o que consideramos titular.

 

O primeiro gol, aos 28 minutos de partida, é de dar orgulho a qualquer pai de aluno. Juninho Capixaba e André tabelaram pela esquerda. Nosso atacante deu um passe perfeito, completado pelo corta-luz de Jean Pyerre, que deixou Montoya em condições de abrir o placar.

 

A gente ainda curtia a beleza do gol inicial quando, dois minutos depois, André —- mais uma vez ele —- deixou seus dois marcadores sem ação ao passar de calcanhar para Pepê. O guri, com cacoete de goleador, encobriu o goleiro adversário. Nota dez.

 

Para completar a goleada, aos 31 do segundo tempo, Diego Tardelli, recém-chegado, foi hábil ao deixar a bola passar para André, que enxergou Pepê entre os zagueiros, que matou no peito, livrou-se da marcação e cruzou em direção ao gol. André —- ele estava merecendo deixar sua marca —- completou para as redes.

 

Descrevo os três gols porque mostram de maneira mais expressiva os ensinamentos de Renato. Poderia, porém, lembrar de outros momentos, como a condução de bola de Matheus Henrique, 21 anos, a personalidade de Darlan, 20 anos, que está aparecendo somente agora na equipe, e a forma como Thaciano, 23 anos, se impõe no meio de campo. Todos alunos exemplares.

 

Com a bola no pé, Renato foi mestre. Pensando futebol, é Ph.D.

Avalanche Tricolor: Renato é a cara do Grêmio

 

 

Brasil PEL (0) 0 x 3 (4) Grêmio
Gaúcho – Estádio Bento Freitas/Pelotas-RS

 

 

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Renato é a cara do Grêmio. O Grêmio é a cara de Renato.

 

Mistura inspiração e transpiração. Luta pela vitória com a garra que se espera dele. Trata a bola com a generosidade que ela merece. É debochado quando necessário. Paciente para decidir. E definito quando precisa.

 

Renato fez isso enquanto esteve em campo. E nos deu os maiores títulos que poderíamos almejar na nossa história. Lutava bravamente contra seus marcadores. Tinha coragem para enfrentar a violência dos que tentavam lhe parar. Da mesma forma, partia para cima deles e os driblava sem perdão.

 

Como técnico, o tempo lhe deu lições. Sua coragem, o fez persistente. Sua audácia, permitiu que novos valores surgissem e jogadores desacreditados se tornassem gigantes. Sua inteligência, reuniu todos esses fatores e nos fez campeões.

 

Houve quem duvidasse da sua capacidade de devolver ao Grêmio a hegemonia estadual diante da decisão no início da temporada de preservar o grupo principal – acertada decisão diante dos desafios de 2018. Falou-se inconsequentemente em rebaixamento e os menos atrevidos, em desclassificação. Renato apostava: decidam as outras sete vagas, uma é do Grêmio.

 

Foi do Grêmio, como apostou Renato, e com a classificação encarrilhou uma goleada atrás da outra. Chegou ao segundo jogo de toda a etapa final com a vaga seguinte praticamente garantida.

 

Nesta final, foi cruel com o Brasil: 7 x 0 no placar agregado. Fora o show.

 

O Gaúcho, conquistado nessa tarde de domingo, faz parte de um ciclo de ouro que se iniciou com o retorno dele ao clube.

 

Devolveu a Copa do Brasil ao Grêmio 15 anos depois. Nos trouxe de volta a Libertadores e a Recopa Sul-Americana após 22 anos. E agora o Gaúcho que há oito não conquistávamos.

 

O Grêmio é a cara de Renato. Renato é a cara do Grêmio.

 

E é no Grêmio que ele decidiu ficar. Obrigado, Renato!

 

Avalanche Tricolor: de volta às origens

 

Grêmio 1×1 Avenida
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Arthur comemora mais um gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O último título não faz muito tempo: foi a Recopa Sul-Americana, há pouco mais de um mês. Resultado da mais importante conquista que alcançamos neste século: a Libertadores, vencida em novembro de 2017. Um ano antes já havíamos levantado a Copa do Brasil, pela quinta vez na história. Teve ainda o vice-campeonato Mundial, em dezembro do ano passado.

 

O círculo virtuoso que estamos experimentando desde 2016 nos leva de volta às origens quando nos credencia a disputar a final do Campeonato Gaúcho, que se inicia na Páscoa.

 

Verdade que, pela dimensão alcançada pelo Grêmio, estar na final de uma competição estadual não é mais do que sua obrigação. Sabemos, porém, que a necessidade de atender compromissos maiores nos fez deixar o Gaúcho em segundo plano nos últimos tempos.

 

Mesmo neste ano, iniciamos a competição com um time bastante jovem que pagou muito mais caro do que merecia diante da falta de experiência e entrosamento. Um fato que nos impôs desafio ainda maior para chegarmos onde chegamos.

 

Sempre bom refrescar a memória do leitor, especialmente aquele que pregou o desespero. Lembra que você falou em rebaixamento – isso mesmo, Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho? Ou quando você, menos exagerado, não apostou um tostão furado na nossa classificação?

 

Pois é, entramos em sexto lugar, despachamos o co-irmão, resolvemos a fatura ainda no primeiro jogo da semi-final e agora estamos prontos para disputar o título.

 

Aliás, disputar mais um título (que se dê a devida ênfase a esta frase) …

 

Há algum tempo, Renato chegou a dizer que havíamos formando um grupo que não tinha medo de vencer. Ontem à noite, diagnosticou o Grêmio com uma doença “saudável”: estamos viciados em ganhar.

 

E por louco que somos em ganhar é que nosso treinador dedicará todo seu esforço e do grupo para levantar este caneco que, como escrevi, marcará o retorno às nossas origens.

 

Foi no Rio Grande que iniciamos nossa trajetória.
Nos campos gaudérios, fizemos história.
No nosso rincão, forjamos esta personalidade guerreira.

 

Que seja o Gauchão nosso próximo título!

Avalanche Tricolor: com Renato, vamos acabar com o Planeta!

 

 

Direto de Abu Dhabi

 

 

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Chegou o dia … finalmente chegou o dia. Aqui já é sábado, 16 de dezembro. A ansiedade é tanta que o dia de decisão começa antes. Já é madrugada quando publico esta Avalanche. Já é dia de “acabar com o Planeta”, lema que nos embalou durante a Libertadores e nos segue no Mundial.

 

 

E não se fala em outra coisa aqui em Abu Dhabi. Depois de acabar com as Américas – afinal somos os campeões das Américas, vencemos a Libertadores e despachamos o Pachuca, do México, na semifinal do Mundial – chegou a hora de acabar com o Planeta.

 

 

E quando digo que não se fala em outra coisa é porque não tem um canto sagrado desta terra – e eu fui a alguns -, não tem um grão de areia deste deserto que não esteja tomado de azul, preto e branco. Sei lá quantos gremistas estão por aqui, mas a turma é no mínimo vistosa. Nossas camisas estão em todos os espaços e são de todos os modelos. Tem tricolor, tem azul claro, azul escuro, tem preta. Tem retrô, tem histórica, tem sem número nas costas, com nome de craques do passado, tem as mais novas e as bem velhas. Tem de todo tipo e todos com o Grêmio na altura do coração.

 

 

Tem muita camisa 7 – e Luan que me desculpe – mas com o 7 de Renato, o Gaúcho que nos levou ao céu desconsertando os alemães na final do Mundial em 1983. De Renato que infernizou a vida de técnicos, os seus e o dos adversários. Que enlouqueceu laterais, zagueiros e qualquer um que se intrometesse no seu caminho. Que aventurou-se técnico e driblou a descrença de críticos, fez embaixadinha com as palavras e brincou com a cara de que não o levou a sério.

 

 

Que me matou de ódio, a ponto de desviar-me da trajetória profissional que eu havia escolhido – e um dia conto esta história para você, caro e raro leitor desta Avalanche. Que me fez morrer (ou quase) de amor pelo Grêmio. E prometer a mim mesmo – depois daquela final de 1983, que assisti na casa de amigos em Porto Alegre – que um dia estaria ao lado do Grêmio, ao vivo, em uma final do Mundial.

 

 

Foi Renato quem me trouxe até Abu Dhabi. Seja pela promessa que fiz há 34 anos seja pelo que ele fez com o Grêmio em 2016 e 2017. Foi Renato quem me fez acreditar em novos títulos. Quem deu a toda nossa torcida a expectativa de um título. Mais do que isso: nos devolveu a Copa do Brasil, nos devolveu o orgulho de um futebol bem jogado – o mais bem jogado no Brasil, disseram os entendidos. Nos permitiu delirar a cada batalha vencida na Libertadores. Convenceu seus jogadores, todos eles – os craques, os renegados, os abnegados -, que poderiam entrar para o panteão dos Imortais. Que não teve pudor de admitir erros, mudar jogadores no primeiro tempo, substituir renomados por reservas, de incorporar-se em Everton para nos colocar na final de um Mundial, mais uma vez.

 

 

Ainda há quem questione se Renato foi melhor que Cristiano Ronaldo. Claro que foi. Só Renato foi capaz de nos fazer vibrar com um Mundial. De resgatar a Copa do Brasil e a Libertadores. Só Renato é capaz de fazer o Grêmio acabar com o Planeta!

 

Avalanche Tricolor: um cara curioso, sortudo e com muito talento

 

Grêmio 1×1 Atletico-GO
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Renato no comando do Grêmio em foto de LUCASUEBEL/GrêmioFBPA

 

 

Éramos apenas oito mil torcedores na Arena nesta tarde de domingo. Era possível identificar alguns pais e seus filhos, mães, amigas, colegas, talvez de trabalho, de escola ou daqueles que se conhecem no estádio mesmo e têm sua amizade restrita às arquibancadas. Para todos era mais um programa de domingo, sem muitas pretensões, afinal estávamos de passeio. O Campeonato termina semana que vem e estamos apenas guardando posição.

 

Verdade que ao lado do gramado via-se Renato tentando por ordem na casa, irritado com o baixo desempenho de alguns jogadores, esbravejando pelo desperdício de passes, pelo deslocamento mal feito, pela bola mal dominada. Para ele pouco interessa que o time seja do terceiro escalão: se é Grêmio tem de suar, tem de lutar e tem de vencer.

 

Nosso técnico é uma figura curiosa, mesmo.

 

Sempre passou a imagem de um playboy que apreciava tanto a bola quanto a balada. Aprontou muito na noite. Divertiu-se o quanto pode. Falou mais do que devia. Fez galhofa. Pagou pela língua. Da mesma maneira, com suas palavras e provocações foi essencial na motivação dos colegas com que jogava ou do time que comandava.

 

Em campo, com o 7 estampado nas costas, era um gigante disposto a vencer qualquer barreira. Se uma tropa de uruguaios o prensava contra a linha lateral, não se fazia de rogado. Sem mesmo olhar para o lado, despachava a bola para o alto e a jogava dentro da área. Foi assim que marcamos o gol da vitória que nos deu o primeiro título da Libertadores, em 1983. Se uma blitz de alemães se portasse diante dele, despachava-os com uma sequência de dribles para um lado e para o outro, assim como o fez duas vezes na final do Mundial, no mesmo ano.

 

Como técnico, soube se reinventar. E o fez porque estudou muito o futebol e os adversários, ao contrário do que a afirmação polêmica feita ano passado tenha dado a transparecer. Haja vista a diferença do comandante que tivemos nas primeiras passagens pelo Grêmio (em 2010, 2011 e 2013) e deste que assumiu em 2016 para conquistar a Copa do Brasil e oferecer ao torcedor o futebol mais bonito do país, em 2017. Entendeu que não haveria mais espaço apenas para chutões, jogadas diretas e chuveirinho – apesar de ter consciência de que às vezes são recursos necessários. Que o diga o gol que nos dá vantagem nesta final de Libertadores.

 

Renato percebeu que tinha de reproduzir no time que comandava a mesma simbiose que o tornou um craque: talento no drible, velocidade na jogada, precisão no passe e um desejo incrível de se superar, suar, lutar e vencer a qualquer custo. Técnica e raça. Soma-se a isso, uma pitada de sorte, aquela que costuma acompanhar os melhores. Senão, vejamos: na quarta passada, Jael e Cícero que tinham recém-entrado foram os protagonistas do gol da vitória; hoje, em jogo que sequer valia muito, quem empatou a partida de cabeça no segundo tempo? Lucas Poletto, primeira substituição feita por Renato.

 

Que nosso técnico siga sendo esse cara curioso, sortudo e, principalmente, de muito talento e inspiração para todos nós!

Avalanche Tricolor: Renato dribla mais uma vez a lógica

 

Guaraní-PAR 1×1 Grêmio
Libertadores – Defensores del Chaco/Assunção

 

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Pedro Rocha marca o gol de empate, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Confesso desde este primeiro parágrafo que não assistí a um só lance do empate gremista, nessa quinta-feira, no Paraguai. Fui surpreendido com a antecipação do horário da partida, previsto inicialmente para o fim da noite, e não havia como modificar a agenda de compromisso profissional previamente assumido.

 

Estou em Gramado, de volta à minha terra, onde apresentei a palestra magna do 32º Encontro Internacional de Audiologia, ao lado da colega de trabalho Leny Kyrillos. E enquanto estava no palco, o Grêmio entrava em campo em Assunção.

 

O celular foi minha fonte de informação. E por ele soube da escalação “alternativa” escolhida por Renato – imagino que após discussão com a comissão técnica e a própria diretoria. Colocar um time de reservas na Libertadores é jogada arrojada demais para ser decidida por apenas uma pessoa, mesmo que esta seja Renato, alguém que já deu provas de quantas loucuras é capaz de fazer para conquistar a vitória.

 

Mesmo com um histórico de arrojo e coragem, ainda há quem duvide da capacidade de nosso técnico. Ao encerrar minha palestra, procurei um táxi, e o motorista vestia a camisa do Grêmio(coincidência?). Ele estava incomodado. Tínhamos perdido um jogador expulso e o adversário havia marcado seu gol.

 

“Estamos perdendo!?” – comentei para que ele percebesse que falávamos a mesma língua e torcíamos pelo mesmo time.

 

“O Renato pediu, né!” – foi a resposta que ouvi em tom de descrença devido a decisão de entrarmos na partida com apenas dois titulares.

 

Quase caí na conversa dele. Ainda bem que minha mulher, que acompanha o futebol por força do casamento e apenas de revesgueio, interveio:

 

“Mas não é domingo que tem jogo importante?”

 

Tinha toda razão, por mais contraditório que pudesse parecer.

 

Pela lógica, Renato colocaria os titulares na Libertadores – o que poderia ser mais importante do que isso? -, e o que resistisse em pé, ele escalaria no domingo quando jogaremos pelo Campeonato Gaúcho. Mas Renato construiu sua história driblando a lógica.

 

Fosse lógico, Renato, acuado na lateral e de costas, jamais chutaria aquela bola para o alto e em direção a área, permitindo que César, de cabeça, nos levasse ao gol da Libertadores, em 1983. Nem arriscaria atropelar e contorcer o bando de alemães que o cercava no caminho para o gol que nos deu o Mundial, naquele mesmo ano.

 

Desta vez, sem pudor, preferiu poupar os titulares, confiando que um revés agora seria facilmente recuperado no jogo de volta, no segundo turno da fase de classificação da Libertadores. Resguardou-os para o desafio de domingo quando precisaremos vencer o Novo Hamburgo para nos mantermos na caminhada ao título do Campeonato Gaúcho.

 

Fez o cálculo certo e foi premiado com mais um gol decisivo de Pedro Rocha – aquele guri que está sempre arriscando -, que nos garantiu o empate, nos deixou na liderança do grupo da Libertadores e nos ofereceu ainda mais entusiasmo para vencermos a disputa, no domingo, pelo Campeonato Gaúcho.

 

Como disse o presidente Romildon Bolzan: “nossa prioridade é ganhar títulos”. E o Grêmio jogou com inteligência e audácia suficientes para se capacitar a vencer tanto um título como o outro.

Avalanche Tricolor: eu aposto!

 

Flamengo 2×0 Grêmio
1a Liga – Mané Garricha/Brasília

 

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Miller Bolaños pode ser a solução (foto de LUCAS UEBEL/GrêmioFBPA FLICKR)

 

Vamos combinar: você não levou este jogo de hoje muito a sério. Só mesmo meu amigo Juca Kfouri, para esquentar a partida desta noite, em Brasilia. No comentário feito no Jornal da CBN logo cedo, deixou no ar uma aposta: vitória do Grêmio ou empate eram meus; vitória do Flamengo, era dele. Estava de brincadeira, é lógico, pois assim como eu, você e toda a torcida do Flamengo sabíamos, a tal 1a Liga ainda não pegou. E parece que não vai pegar, pois os próprios clubes que a criaram estão revendo sua realização. Nossa aposta não valeria um tostão furado.

 

O Grêmio levou o time reserva para a capital federal. Perdão, o politicamente correto prefere chamar de time alternativo. Time e técnico alternativos. Nem mesmo Renato viajou. Preferiu permanecer em Porto Alegre trabalhando com os titulares e preparando a equipe para domingo quando enfrentaremos o Passo Fundo, na Arena.

 

Sabemos que nestes dois primeiros meses da temporada o foco é o Campeonato Gaúcho. Afinal, tá mais do que na hora de voltarmos a ganhar a competição estadual. A 1a. Liga, sem trocadilho, está em 2o. plano. Portanto, não dava para esperar nada muito melhor do que assistimos.

 

Tudo bem, a defesa poderia estar um pouco mais arrumada, a marcação na entrada da área mais firme, nossos zagueiros e goleiro mais seguros. A turma do meio para a frente bem que ajudaria se acertasse mais passes. Sem contar a falta de entrosamento que superava todo o esforço do pessoal para chegar ao gol adversário. Até criamos algum perigo, mas insuficiente para a vitória ou mesmo o empate, resultados que me levariam a vencer a aposta (fria) feita pelo Juca.

 

O que não estava nas nossas previsões, nem na minha nem nas do Juca, era o incidente que haveria de ocorrer durante os treinos em Porto Alegre: a lesão que deixará o maestro Douglas afastado do gramado por seis meses. Essa sim não é brincadeira. Nosso 10 foi genial na conquista da Copa do Brasil e seria essencial para o Gaúcho e a Libertadores. Não existe à disposição no futebol brasileiro jogador com o talento e a experiência dele.

 

A solução dependerá da criatividade de Renato e da audácia da diretoria em buscar alguém capaz de substituir Douglas. Ou então contarmos com aquelas peças que o destino nos reserva. Diante da perda do Maestro, da preocupação da comissão técnica e do lamento da torcida, quem sabe não descobriremos em casa o novo protagonista para comandar a equipe dentro de campo: Miller Bolaños.

 

Da mesma forma que o destino ofereceu a ele a oportunidade de marcar o gol do título da Copa do Brasil, no fim do ano passado – em um dos poucos bons momentos do equatoriano na temporada -, por que não pensar que a história lhe oferece uma missão especial neste primeiro semestre de 2017?

 

Em Miller Bolaños, eu aposto!

Avalanche Tricolor: pragmático, óbvio e classificado à semifinal da Copa do Brasil

 

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Copa do Brasil – Allianz Parque

 

 

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Jogadores comemoram classificação (reprodução da TV)

 

“Quando a gente tá com a bola ataca, quando não tá, defende”…

 

Assim Renato explicou como o Grêmio deveria se comportar em campo, ao responder pergunta feita pelo repórter da televisão, um minuto antes de se iniciar a partida dessa quarta-feira à noite, em São Paulo.

 

Foi simples, direto e objetivo, como ensina o mantra da boa comunicação.

 

Foi óbvio, também! Talvez porque tivesse como meta, naquele momento que antecedia a decisão, apenas se livrar da conversa com o jornalista, afinal o que interessava mesmo é o que viria a acontecer em seguida no gramado – no ruim gramado do Allianz Parque.

 

Por mais simples que tenha parecido a explicação do técnico gremista colocar a ideia em prática seria extremamente complexo, como se viu ao longo do jogo.

 

Nem sempre quando a bola esteve com o Grêmio, conseguimos atacar; muitas vezes tropeçamos nas nossas deficiências de movimentação e, em outras, na eficiência da marcação.

 

Nem sempre quando a bola estava com o adversário, conseguimos marcar; muitas vezes deixamos mais espaço do que deveríamos e a bola chegava com perigo dentro da área. Nos safamos de algumas boas quando só nos restava contar com a sorte e a coragem. E coragem não faltou a nossos defensores que se atiravam de qualquer maneira para evitar o gol.

 

Sem colocar em prática a obviedade proferida por Renato, torcíamos para que o relógio andasse mais rápido do que nosso toque de bola, já que o empate nos bastava. Chuleávamos para que em um lance fortuito conseguíssemos fazer um gol, o que nos levaria a respirar um pouco mais.

 

O gol saiu, mas não foi do nosso lado. Foi contra nós, e pelo alto, como sempre.

 

O resultado já não nos interessava mais. O relógio que parecia bater em um ritmo lento, começou a rodar com rapidez. E o nosso futebol não andava lá essas coisas, apesar de algumas chances criadas.

 

Isso não quer dizer que havíamos desistido de lutar … afinal, ainda assim, nos bastava apenas um gol, não mais do que isso para a vaga estar garantida.

 

Foi, então, que aos 15 minutos do segundo tempo, Renato mais uma vez usou a lógica e colocou em campo aquele que não nos tem faltado nas últimas partidas: Everton.

 

Nosso atacante foi o personagem da classificação: foi dele o lance que resultou na expulsão que fragilizou o adversário, assim como foi dele o lance que desnorteou a defesa, deslocou o zagueiro e abriu espaço para fazer o gol.

 

Everton entrou em campo e cumpriu a ordem de Renato: quando a gente tá com a bola, ataca. O que permitiu que o restante do time fizesse a outra parte: quando a bola não tá, a gente defende.

 

Com o pragmatismo de Renato, a dedicação do time e o talento de Everton estamos na semifinal da Copa do Brasil, mais próximos da Libertadores e de um tão desejado título.

Avalanche Tricolor: os nossos “alternativos” mandaram bem, na Vila

 

 

Santos 1×1 Grêmio
Brasileiro – Vila Belmiro SP/SP

 

 

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Renato em foto do arquivo no Flickr de LUCASUEBEL/GREMIOFBPA


 

 

Havia quem esperasse pouco do time escalado para jogar neste domingo. Eu, por exemplo. Você, talvez. Quero acreditar que o próprio Renato não apostaria todas suas fichas em um resultado positivo.
 

 

O time era o alternativo, como repetiu o repórter de campo durante a transmissão da televisão. Não sei se no rádio disseram o mesmo. Chamou-me atenção porque no meu tempo costumávamos dizer que este era o time reserva.
 

 

Bem que gostei da ideia de batizá-lo como alternativo. Creio que isso seja coisa do Renato e os jornalistas estejam apenas levando à frente. Nos dá um olhar diferente sobre os jogadores que estão em campo. Não os impõe a pecha de segundo escalão, apenas de diferentes.
 

 

E foram diferentes em campo. Surpreendentes, eu diria.
 

 

Além de se fecharem bem na defesa, sem vergonha de admitir a diferença em relação ao adversário, usaram o contra-ataque como poucas vezes vimos na competição. Capacidade que se revelou logo no início da partida com gol que surgiu de jogada na qual Everton soube combinar sua velocidade com domínio de bola e precisão no chute. Coisa rara de se ver no futebol.
 

 

Conter a pressão de um time pouco acostumado a derrotas em seu campo seria tarefa das mais complexas. Por isso, o gol que tomamos de cabeça parece que já estava mesmo na nossa conta. E veio para ratificar que se a zaga principal parece ter se ajeitado por cima, a alternativa ainda tem o que melhorar.
 

 

O segundo tempo, apesar de nosso gol não ter saído – e foi por detalhe -, voltamos a surpreender. A marcação foi mais alta, na saída de bola do adversário, e isso desorganizou a chegada do ataque deles. Mudança, com certeza, que teve o dedo de Renato.
 

 

Estivemos sob fogo cruzado boa parte do jogo, mas vimos nossos defensores se multiplicarem para segurar o empate. Em alguns casos chegamos a ter dois jogadores marcando a mesma bola. Houve aquilo que a turma gosta de chamar de entrega total em campo.
 

 

Ao fim da partida Maicon definiu o empenho da equipe: “se não vai no entrosamento, vai na vontade”.
 

 

Os nossos alternativos demonstraram muita vontade e estão de parabéns, pois neste domingo, jogando pelo Campeonato Brasileiro, seguraram a onda da turma que descansou para, na quarta-feira, “jogar a vida” na Copa do Brasil.