Conte Sua História de SP: na loucura da cidade, um tempo para cuidar de pessoas

 

Por Maria José Fernandes Amaral dos Santos
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Me conhecem por Zezé Amaral. Hoje sou psicóloga. Cheguei em São Paulo com 5 anos, sou da Bahia, fui criada aqui: estudei, trabalhei, namorei, casei, tive um filho e montei um trabalho maravilhoso.

 

Há 13 anos, um amigo me chamou para atendermos dependentes químicos e seus familiares. Esse trabalho existe, totalmente de graça, até hoje. Todas às sextas-feiras das oito às dez da noite, eu e mais uma equipe de seis voluntários nos reunimos e oferecemos esse atendimento, individualmente e em grupo. Desde então, já fizemos mais de 8.000 atendimentos, todos registrados, com lista de presença e ficha de cada pessoa que passou por lá.

 

Com toda essa loucura que é a cidade, conseguimos separar um pouco do nosso tempo para dedicarmos a essas pessoas. Pessoas carentes e sem perspectivas de vida. Conseguimos muitas vitórias, claro, muitos fracassos, também, pois parar de usar drogas não é fácil, é um trabalho contínuo, para o resto da vida, exige sacrifício do dependente e auxílio da família.

 

Damos assistência por telefone, internamos quando é necessário, temos alguns contatos para internação gratuita e outros quando podem e estão desesperados procuram internação paga. Ocupamos o espaço do Centro Espírita Meimei, não falamos de religião, não é este o objetivo, trabalhamos à prevenção de recaída das drogas dos dependentes e da emocional da família.

 

Porque não falamos de religião, porque atendemos qualquer uma, muitas vezes alguns evangélicos nos procuram escondidos de seus pastores, mas o que importa para nós é que não voltem a usar drogas.

 

E acredite: isso acontece na cidade de São Paulo. Nessa cidade maravilhosa que acolhe todos que chegam. Essa é a minha história, de fazer a diferença em São Paulo.

 

Zezé Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua histórias, também: envie o texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: poesia para passear pelo centro da cidade

 

Por João Coradi Neto
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, a poesia de João Coradi Neto, publicada no livro “Poesias Contemporâneas III”:

 

 

Faço sempre um giro por lá
Amo andar na XV de Novembro
De janeiro a dezembro
Percurso que faço a pé
Começo na Praça da Sé
Vou longe, vou acolá

 

Me emociono sempre
Passo pelo Pátio do Colégio
Pra mim é um privilégio
Não sou o ultimo, nem o primeiro
Desço a Ladeira General Carneiro
Feliz, alegre contente

 

Muita gente vejo no caminho
Chego ao Parque Dom Pedro
É lindo de dar medo
Continuo, aperto o passo
Caminho pela Vinte e cinco de Março
Trajeto que faço com carinho

 

A esta altura já estou com fome
Paro por hora no Mercadão
Onde como um sanduíchão
De calabresa ou mortadela
Sozinho ou com ela
Também pastel de bacalhau ali se come

 

Volto satisfeito e tranquilo
Subo a Ladeira Porto Geral
Me canso um pouco é natural
Logo ali na esquina se avista
A linda Rua Boa Vista
Com prédios gigantescos com estilo

 

Dou uma parada para descansar
Entro na igreja do Largo São Bento
Oro, medito e curto o momento
Em baixo o metrô vai pra Gardênia
Já estou no viaduto Santa Ifigênia
Não paro, vou continuar

 

Sigo em frente já descansado
Passo pela Avenida Ipiranga
Tomo um suco gelado de manga
Foi proveitoso, não foi em vão
Estou cruzando a Avenida São João
Tudo simples nada complicado

 

Continua na rua o agito
Acabo de chegar à Praça da República
Pode nela entrar, é pública
Sem apresentar documento ou crachá
Ando em cima do Viaduto do Chá
Tudo calmo, sem barulho ou grito

 

Antes tinha parado no espaço Municipal
O teatro, não pude entrar estava fechado
Que pena fiquei muito chateado
Olhei à minha direita, apontei o dedo
Para a bela Rua Xavier de Toledo
Imaginando o teatro com peças e seu ritual

 

Depois de toda essa volta
Dou de cara com a Praça do Patriarca
Acolhedora como uma matriarca
A faculdade como um obelisco
Enfeita e engrandece o Largo São Francisco
Para os advogados é a primeira porta

 

Olhando pra baixo, ali perto se via
A Brigadeiro Luiz Antonio no começo
Andei firme não dei nenhum tropeço
Para dar um alô a outra obra gigante
O viaduto Maria Paula exuberante
Ao meu encontro queria vir, parecia

 

Por fim e com tristeza evidente
Visito a Praça João Mendes
Faz bem pros corações e pras mentes
Com muita esperança e muita fé
Termino na Praça da Sé
E peço que possa fazer isto pra sempre

 

João Coradi Neto é o personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: conduzido pela bengala branca do cego

 

Por Suely A. Schraner
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Era um dia nublado quando chegamos para a primeira reunião na Fundação Dorina Nowill para Cegos. O sonho da mobilidade e maior autonomia, na ponta da bengala.

 

Bengala branca. Esta bengala é um recurso fundamental para garantir a mobilidade do deficiente visual. Mantém a postura ereta. É como uma extensão do braço. Adepta da geometria. Com sua ponta ela toca linhas retas, linhas curvas e suas subdivisões. E toca também o lixo, pernas distraídas, entulho na calçada. Encaixa copos descartáveis jogados no chão. ..

 

A bengala, muitas vezes, é rejeitada e dá medo. Remete ao preconceito. Sinônimo de velhice. Haja vista o logotipo no bilhete do idoso, aquele, simbolizado pelo bonequinho curvado, segurando uma bengala e simulando dor nos quadris. Ai, ai…

 

Sensibilizar os espaços. Desafiar inseguranças, vencer o medo. Compartilhar vias públicas e multiplicar respeito, um desafio permanente.

 

Na sala de reuniões, um grupo ávido por mais autonomia para finalmente poder circular por aí.

 

Um disse que a mobilidade está dentro da gente. Outro sonha ter três bengalas: uma para direcionar, outra para apoiar, e uma terceira para buzinar. Ideal de outro com as vistas avariadas: nunca fazer sinal para o caminhão do lixo parar pensando que era o ônibus.

 

Aprendi que, na Atividade Vida Diária (AVD), a terapeuta ocupacional, dá condições ao deficiente visual para fazer o que quer, com mais segurança. Por exemplo, fritar um ovo sem se queimar.

 

Na Fisioterapia, o objetivo é fortalecer os músculos e desenvolver um bom padrão de marcha, ou seja, pisar primeiro o calcanhar e em seguida a planta do pé. Além disso, trabalhar a lateralidade: esquerda e direita.

 

No Programa de Orientação e Mobilidade, a importância da auto-segurança. Enfim, todas as áreas estão interligadas.

 

Neste compartilhar, um olhar mais apurado pela região da Vila Clementino. Uma legião aflui para aquele quadrilátero hospitalar: ruas Borges Lagoa, Pedro de Toledo, Marselhesa, Napoleão de Barros, Botucatu e Diogo de Faria.

 

Brigando com postes, saídas de garagem, reformas e calçadas esburacadas. Superando preconceitos. Construindo dias melhores.

 

Na condição de Guia Vidente. Aprendo a verbalizar a lateralidade: ao invés de dizer de dizer “tem um lugar aqui”, falar: “tem um lugar à sua frente, à direita”.

 

Que a pessoa com deficiência visual, deve segurar na altura do cotovelo do guia vidente, no pulso ou ombro, dependendo da diferença de altura entre ambos. Facilitar a acessibilidade.

 

Eu e ela atravessamos as mesmas ruas, percorremos estes caminhos. A geografia do cego é um mundo visto pelos ouvidos, vozes, cheiros e toques.

 

Não é um cajado de Moisés ou um cetro de Reis. É a sua bengala branca que a conduz. Segue compartilhando a via pública, os pisos táteis. Tateando vida afora, multiplicando respeito. Driblando preconceito e a falta de respeito de alguns. Ser incluída é poder circular pelo mundo com desenvoltura.

 

Outro dia, pedi a uma jovem no ônibus para dar o lugar para ela. A moça recusou dizendo que o banco para cegos era o outro, mais atrás. No fim, uma senhora que estava lá, levantou-se espontaneamente e cedeu o lugar. Percebi depois, que além de idosa ela estava indo para uma quimioterapia, no Hospital São Paulo.

 

Dias destes, ouvi de uma deficiente visual:  “tenho a preferencial, mas, se não me cuidar, me derrubam no chão”. Há néscios dos direitos e da solidariedade .Há também os que multiplicam respeito. Menos mal.

 

No quadro da recepção da Fundação há uma inscrição que diz mais ou menos isso: a melhor maneira de agradecermos por enxergar é ajudar quem não vê. Uma maneira inefável de levar a vida. Na guerra contra o preconceito, compartilhando a via pública e multiplicando respeito.

 

Nota: “Uma em cada cinco vítimas de quedas atendidas no Hospital das Clínicas, (em agosto de 2012), se acidentou nas calçadas de São Paulo.”FSP 05.11.2012

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Claudio Antonio e narração de Mílton Jung. O programa vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP.

Avalanche Tricolor: de olho na Copa do Brasil, Grêmio empata no Brasileiro

 

São Paulo 1×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi/São Paulo SP

 

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Pedro Rocha comemora mais um gol pelo Grêmio (reprodução  Canal Premiere)

 

 

Vivo em São Paulo desde 1991. Cheguei a trabalho, fiz carreira, casei, construí família e em um exercício de futuro é por aqui que me vejo nos próximos longos anos que pretendo viver. Minhas raízes com o Sul nunca serão esquecidas, mas, depois do pai e dos irmãos, é o Grêmio o que mais me identifica com o Rio Grande. A maioria dos que me conhecem aqui sabe para quem torço, aproveita-se disso para provocar sempre que jogamos contra times paulistas e caçoar quando o resultado permite. Típico do futebol.

 

Neste ano, a tarefa dos caros e raros amigos que mantenho na cidade tem sido árdua, mesmo que, por coincidência, tenhamos perdido mais pontos para os times daqui do que de outros Estados, neste Campeonato. O jogo jogado pelo Grêmio, além de encantar nossa torcida e os cronistas, tem ganhado a admiração dos adversários. Os elogios são frequentes; as referências, constantes; e boa parte prefere não me desafiar para apostas – talvez devesse, pois costumo não ter muita sorte em palpites (meus resultados no CartolaFC que o digam).

 

Hoje, voltamos a jogar bem e impor o futebol moderno que tem chamado atenção de todos. A bola passava de pé em pé, com precisão e velocidade. O deslocamento do meio de campo para frente era muito bem feito e as chances de gol começaram a aparecer aos poucos. 

 

Abrimos o placar antes da marca dos 20 minutos do primeiro tempo, o que tem sido padrão no time de Renato. Um gol resultado da boa articulação, posicionamento e marcação: a bola foi roubada por Geromel, lá na defesa, que conseguiu em apenas um toque colocar Pedro Rocha em disparada pelo lado esquerdo. Nosso atacante foi veloz e talentoso para se livrar de um marcador com um drible para dentro da área e bater forte.

 

Houve novas oportunidades e se mantivéssemos o mesmo ritmo a possibilidade de ampliar o placar ainda no primeiro tempo era grande. O Grêmio não marcou e teve de suportar um adversário pressionado pela tabela e empurrado pela torcida. Mesmo assim, os riscos eram poucos até o gol de empate. Bem que tentamos voltar a jogar e os minutos finais deram sinais que se tivéssemos insistido com o nosso jogo um pouco mais cedo, haveria a possibilidade de sairmos com os três pontos.

 

Em condições normais de pressão e temperatura, o empate fora da casa, seria festejado. Renato e seu time, porém, nos acostumaram mal e nos deixaram pretensiosos diante da possibilidade de vencer sempre – mesmo em um campeonato que não está entre nossas prioridades. 

 

Que saibamos dar o verdadeiro valor para este ponto ganho em São Paulo e voltemos logo nossas atenções para Copa da qual somos Rei. Quinta-feira tem decisão!

 

 

Conte Sua História de São Paulo: da rua da Mooca sai para conhecer minha cidade

 

Por Paula Bueno
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 70 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.
 

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors. Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).
 

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxerga-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.
 

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.
 

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: Para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.
 

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!
 

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.
 

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Envie seu texto sobre a cidade para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: do rolimã à motocicleta, conheci a cidade

 

Por Heltinho Cerqueira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu sou capixaba. De Vitória, Espírito Santo. Cheguei em São Paulo em 1982 com apenas um ano de idade. Minha família se instalou na casa de uma tia irmã da minha mãe, no Jardim Paineiras, Zona Norte, onde segundo os antigos havia uma gigantesca paineira que morreu, mas antes deu origem ao nome do bairro.

 

Cresci por ali, era um bairro em desenvolvimento, um pouco afastado do centro. Ainda havia uma fazenda ou o resquício do que tinha sido: gado, cavalos e um casarão. De manhãzinha, o orvalho estava em todas as plantas e árvores que minha tia cultivava em uma horta onde tinha taiobas, couves, milho, abacate, …podíamos ouvir o canto de pássaros, até das incômodas arapongas. Nem se fala do rugido dos bugios. Estávamos bem ao pé da maior floresta urbana do mundo: a Serra da Cantareira. As ruas, em sua maioria de barro. Só as principais vias tinham asfalto, como a Avenida Francisco Machado da Silva, onde por volta dos meus 5 anos andei pela primeira vez em um carrinho de rolimã. De vez em quando a garotada resolvia fazer um carretão, emendando um carrinho no outro. Eu por ser muito novo tinha que ficar de fora, pois na maioria das vezes ao fim da viagem acabavam cada um pra um lado e com arranhões por parte do corpo pra contar estória.

 

O tempo passou e do rolimã fui para a bicicleta. Andava o bairro todo. Reuníamos a galera pra andar no Horto Florestal, tínhamos muita energia. Andávamos o dia todo. Foi uma juventude incrível. Aos 15 anos encontrei no mesmo bairro aquela que seria o amor da minha vida. Eu estudava na escola Estadual Elza Saraiva Monteiro e trabalhava como office boy em uma editora que ficava na Pamplona, travessa da Paulista. Anos depois fui ser motoboy. A partir deste trabalho comecei a conhecer outros lugares desta grande e fantástica cidade que havia acolhido a mim e a toda a minha família anos atrás.

 

Hoje, depois de 34 anos da minha chegada, encontro-me casado com Aline e temos um filho, lindo e paulistano, o Vinícius. Moramos agora na Freguesia do ó. Não ando mais de moto, mas ainda percorro toda a cidade, tocando minha bateria nos bares e festas. Quem sabe a gente não se encontra por aí.

Conte Sua História de São Paulo: o número da sorte

 

Por Olga Pereira

 

Meu pai era vendedor de bilhetes de loteria federal. Toda manhã ele pulava da cama cedo, Fazia café para os filhos. Engraxava os sapatos. Escovava o terno e o chapéu. Jamais esquecia da gravata. E saía para vender os bilhetes. Antes, ainda passava em uma igreja e assistia à missa. Sua freguesia era nos jardins América, Europa e Paulistano.

 

Meu pai era português – veio muito menino -, e minha mãe brasileira. casaram, tiveram quinze filhos e criaram treze; viveram 57 anos juntos em São Paulo e em algumas cidades do interior. Nos educaram muito bem. Nos deixaram como herança a honestidade, a responsabilidade e o trabalho. Foi assim que ele conseguiu ter uma vida digna na cidade.

 

Ouça o texto de Olga Pereira que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Claudio Antonio

 

Em janeiro de 1969 – não lembro bem o dia, sei que era um sábado – ele saiu como de costume para vender seus bilhetes. Já tinha bastante idade e seu ponto era na Augusta. Ali tinha vários clientes, um deles o radialista Miguel Vaccaro Neto.

 

No fim do sábado, a pedido do próprio Miguel, meu pai sempre passava na Galeria Ouro Fino e vendia a ele os bilhetes que haviam sobrado. Foi que naquele dia meu pai não encontrou o Miguel. Tentou deixar o bilhete com o barbeiro da galeria, mas ele não aceitou para não ter de assumir a responsabilidade de pagá-los, afinal o Miguel não havia dito nada ao barbeiro.

 

Meu pai voltou para casa e com ele ficaram um bilhete inteiro e mais alguns redações que não conseguido vender.

 

Às seis da tarde, ao conferir pelo rádio os números sorteados, ele descobriu que um dos números que estavam encalhados em sua mão havia saído no primeiro prêmio: 25 mil cruzeiros. Um bom dinheiro naquela época, que lhe garantiu uma velhice mais tranquila ao lado de minha mãe.

 

Este texto foi publicado no livro Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo)

Conte Sua História de SP: meus passeios no centro, nas décadas de 40 e 50

 

Por Elvira Soubihe Tocci

 

 

O centro da cidade de São Paulo era, literalmente, o centro do nosso mundo. Na nossa infância, adolescência e juventude tudo de importante que fazíamos ou vivíamos, passava pelo centro da cidade. Percorríamos o centro para irmos à escola, para fazer as compras, para nos divertir, para encontrar os amigos e, depois, mais tarde namorar… Para ir ao centro colocávamos as melhores roupas, o centro para mim tinha um cheiro especial: era colorido, claro, brilhante e repleto de surpresas…

 

Quem não se lembra dos tecidos comprados na “Casa Fortes: a que é forte nos preços baixos!” e os lindos tecidos dos nossos vestidos de baile e de noiva da Tecelagem Francesa?

 

Qual jovem poderia se esquecer das bijouterias da Casa Slopper?

 

A voz do ascensorista, enumerando as mercadorias de cada andar e do famoso “Chá da tarde do Mappin Stores”…

 

Quem não se lembra dos eternos sapatos escolares da Casa Clarck e da Casa Eduardo e os lindos calçados iguais aos das estrelas de cinema da Casa Sutoris.
Qual a criança daquela época, nunca cobiçou os inacessíveis brinquedos maravilhosos da Casa Fuchs e São Nicolau.

 

Quem nunca provou a geléia de mocotó e o Milk Shake da Leiteria Pereira.

 

Naquela época tudo era consertado, até as meias nylon de minha avó e de minha mãe! Acompanhávamos admiradas a moça colocar a meia desfiada em uma perna de madeira, e com uma espécie de agulha elétrica puxar o fio e consertá-la, rapidamente. Tudo isso, adivinhem onde: lá no centro da cidade na encantadora e movimentada Casa Henrique.

 

Qual jovem noiva não teve ao menos uma peça de seu enxoval da Casa Valentim, assim como o pai teve um pijama da Casa Kosmos e um chapéu ―que todos os homens usavam ― da Casa Prada ou da Ramenzoni?

 

Quem não comprou óculos na Casa Fretin e viu lá, pela primeira vez, uma lupa ou um binóculo…

 

Ou nunca comprou linhas, lãs, sinhaninhas, elástico para calcinhas na Casa Genin.

 

Quem nunca tomou os remédios homeopáticos da Veado d’Ouro ou das Farmácias do Dr Alberto Seabra.

 

Qual menina-moça não teve seu primeiro soutien “Mourisco”, comprado nas Lojas Ethan ou nas Lojas Cisne?

 

Quem não se lembra da Casa dos Dois Mil Réis, que depois virou Lojas Americanas e nós nos sentíamos verdadeiras “americanas” saboreando um hot-dog, praticamente, na calçada!

 

Lá no Centro da cidade de São Paulo, aprendíamos a viver e fomos envolvidos, sem perceber, por algumas das melhores sensações de nossa juventude…

 

Elvira Soubihe Tocci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe com suas lembranças: envie o texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: aqui não se consegue fugir da Marginal

 

Por Sérgio Lopes
Do Recife-PE

 

AQUI SÃO PAULO
(18/03/07)

 

Aqui ninguém é estranho
Todo mundo se convence de que tem algo a dizer
E diz
Com sua moda
Com seus modos
Ou seus medos
Com seus cabides
Suas cabalas
Seus cabelos

 

Aqui todo mundo é igual
Ao seu igual
Em sua turma
Sua tribo
Seu quintal

 

Aqui o olhar nunca é fixo
Nem sagrado é o crucifixo
Aqui não se consegue fugir da Marginal
Nem se subestima o marginal

 

Aqui se fala bastante
Se fala bastante “nossa”
Se fala bastante nossa língua portuguesa
E outras tantas mais

 

Aqui a chuva encanta
E engarrafa
Inspira
E marca
Vem de cima
E de baixo
E, às vezes,
Invade por todos os lados

 

Aqui se sorri
Se escreve
Se come pizza
Se vai ao teatro
Deixando a sensação
De que não se está fora do mundo
Permitindo entender
Porque Rita Lee é uma completa tradução
E porque Arnaldo Antunes tem tanta inspiração

Conte Sua História de São Paulo: no sonho da Cinderela

 

Por Sirlene Auxiliadora Lemos

 

Somos mineiros. Viemos para São Paulo com papai, mamãe e nove irmãos. Era 1964. Assim que chegamos, fomos morar na Rua Rio Grande, na Vila Mariana. Passava na porta o ônibus Praça da Árvore com ponto final no Anhangabaú, defronte ao prédio central dos Correios. Eu dava aulas no bairro de Santa Terezinha, no Colégio Madre Mazzarello. Minha irmã trabalha no Hospital das Clínicas e no Hospital São Paulo.

 

Nós duas andávamos de ônibus, como a maioria da população. Todos os motoristas nos conheciam. Ao passar na porta de nossa casa, diminuíam a velocidade para que minha irmã pegasse o lanche que mamãe lhe entregava para comer quando ia do Hospital São Paulo para o das Clínicas.

 

Se dormíamos durante o percurso, com era o meu caso, o motorista ou o trocador nos acordavam:

 

– tá chegando o ponto!

 

Ouça o texto de Sirlene Lemos sonorizado por Claudio Antonio

 

Aprendemos a amar São Paulo pela facilidade para estudar, pelas oportunidades de emprego, pela fartura das feiras e mercado, pelo atendimento gratuito à saúde, pelo acesso generoso à diversão. Íamos de graça a eventos por mais de dois meses todos os dias sem repetir apresentação. Os restaurantes, aquela variedade. As sorveterias, meu Deus. A da Casa Whisky, na Marechal Deodoro, e tinha ainda a da Alaska!

 

E os cinemas? Afundávamos em tapetes e poltronas. Era uma experiência de Cinderela, a cada ida aos cinemas: Marrocos, Metro, Barão, Windsor, Astor, Ipiranga e Metrópole. Lembro-me de ter visto a Noviça Rebelde bem ali no Cine Olido (ou era o Ritz?). A rua Barão de Itapetininga, maior chique.

 

E as casas de chá, com música ao vivo. Um sonho de fim de tarde! Os concertos matinais do Municipal, o planetário e o Museu do Ipiranga. As compras no Mappin, na Sloper, na Mesbla e na Sears.

 

Gente, e as padarias? Existe pão mais gostoso do que o de São Paulo? E o pastel de feira?

 

Ainda escuto o roncar dos carros dos Fittipladi passando pela rua Rio Grande., antes do sucesso nas pistas.

 

Daquele tempo para cá, fomos nos integrando ainda mais à cidade com os casamentos na família, com o nascimento dos sobrinhos e, principalmente, com a nossa participação nas atividades da comunidade. Esta cidade nos fez saber que somos há mais tempo paulistanos do que mineiros.

 

Este texto faz parte do livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo, em 2004.