Conte Sua História de SP: aqui não se consegue fugir da Marginal

 

Por Sérgio Lopes
Do Recife-PE

 

AQUI SÃO PAULO
(18/03/07)

 

Aqui ninguém é estranho
Todo mundo se convence de que tem algo a dizer
E diz
Com sua moda
Com seus modos
Ou seus medos
Com seus cabides
Suas cabalas
Seus cabelos

 

Aqui todo mundo é igual
Ao seu igual
Em sua turma
Sua tribo
Seu quintal

 

Aqui o olhar nunca é fixo
Nem sagrado é o crucifixo
Aqui não se consegue fugir da Marginal
Nem se subestima o marginal

 

Aqui se fala bastante
Se fala bastante “nossa”
Se fala bastante nossa língua portuguesa
E outras tantas mais

 

Aqui a chuva encanta
E engarrafa
Inspira
E marca
Vem de cima
E de baixo
E, às vezes,
Invade por todos os lados

 

Aqui se sorri
Se escreve
Se come pizza
Se vai ao teatro
Deixando a sensação
De que não se está fora do mundo
Permitindo entender
Porque Rita Lee é uma completa tradução
E porque Arnaldo Antunes tem tanta inspiração

Conte Sua História de São Paulo: no sonho da Cinderela

 

Por Sirlene Auxiliadora Lemos

 

Somos mineiros. Viemos para São Paulo com papai, mamãe e nove irmãos. Era 1964. Assim que chegamos, fomos morar na Rua Rio Grande, na Vila Mariana. Passava na porta o ônibus Praça da Árvore com ponto final no Anhangabaú, defronte ao prédio central dos Correios. Eu dava aulas no bairro de Santa Terezinha, no Colégio Madre Mazzarello. Minha irmã trabalha no Hospital das Clínicas e no Hospital São Paulo.

 

Nós duas andávamos de ônibus, como a maioria da população. Todos os motoristas nos conheciam. Ao passar na porta de nossa casa, diminuíam a velocidade para que minha irmã pegasse o lanche que mamãe lhe entregava para comer quando ia do Hospital São Paulo para o das Clínicas.

 

Se dormíamos durante o percurso, com era o meu caso, o motorista ou o trocador nos acordavam:

 

– tá chegando o ponto!

 

Ouça o texto de Sirlene Lemos sonorizado por Claudio Antonio

 

Aprendemos a amar São Paulo pela facilidade para estudar, pelas oportunidades de emprego, pela fartura das feiras e mercado, pelo atendimento gratuito à saúde, pelo acesso generoso à diversão. Íamos de graça a eventos por mais de dois meses todos os dias sem repetir apresentação. Os restaurantes, aquela variedade. As sorveterias, meu Deus. A da Casa Whisky, na Marechal Deodoro, e tinha ainda a da Alaska!

 

E os cinemas? Afundávamos em tapetes e poltronas. Era uma experiência de Cinderela, a cada ida aos cinemas: Marrocos, Metro, Barão, Windsor, Astor, Ipiranga e Metrópole. Lembro-me de ter visto a Noviça Rebelde bem ali no Cine Olido (ou era o Ritz?). A rua Barão de Itapetininga, maior chique.

 

E as casas de chá, com música ao vivo. Um sonho de fim de tarde! Os concertos matinais do Municipal, o planetário e o Museu do Ipiranga. As compras no Mappin, na Sloper, na Mesbla e na Sears.

 

Gente, e as padarias? Existe pão mais gostoso do que o de São Paulo? E o pastel de feira?

 

Ainda escuto o roncar dos carros dos Fittipladi passando pela rua Rio Grande., antes do sucesso nas pistas.

 

Daquele tempo para cá, fomos nos integrando ainda mais à cidade com os casamentos na família, com o nascimento dos sobrinhos e, principalmente, com a nossa participação nas atividades da comunidade. Esta cidade nos fez saber que somos há mais tempo paulistanos do que mineiros.

 

Este texto faz parte do livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo, em 2004.

Conte Sua História de São Paulo: meu coração batia mais forte nos Twin-Coaches da época

 

Por Rubens Cano de Medeiros

 

 

Sou paulistano faz 68 anos. Contemporâneos, eu e a CMTC. Ela, de julho; eu, dezembro. Ela, “já era”, enquanto eu, afortunadamente, estou aqui. Surgi na Maternidade São Paulo que, como a CMTC, virou pó…

 

Anos 50, molequinho, encantam-me os vermelhões da CMTC, bondes e ônibus (até os elétricos), assim como os outros ônibus, concorrentes da CMTC, os das “empresas particulares”, dizia-se. Estes, cores vistosas, belas pinturas, os ônibus particulares, ostentavam acima das janelas (aliás, menores que as atuais) o nome
daquela operadora. Sim, lembro, caprichosamente pintado em “letra de mão”: Viação Cometa, Expresso Brasileiro, Alto da Mooca, Guarulhos, Vila Esperança…
Vim a saber mais tarde: aqueles nomes eram o trabalho manual – e artesanal – de funcionários pintores “letristas”, que belo! Cada passeio, o moleque descobre uma pintura nova!

 

Naquele 1947, em que nascemos – eu e a CMTC – meu pai é operário das oficinas do Cambuci, da Light. E o foi por 35 anos. Sabemos, os bondes, naquele ano, migraram da Light para a CMTC. Menos os 75 belos Gilda, americanos, comprados diretamente da Broadway. Bondes que sempre foram
imorredouros – até que a obsolescência os convertesse em pó, durante os anos 60.

 

Só que, ônibus daquele meu tempo, o que fazia meu coração arregalar os olhos – ah! – era um, “aquele”! Um no qual eu viajava vez ou outra – 33 – Quarta Parada; 109 – Lins de Vasconcelos. Ou Estações 5 e 6. Um ônibus de suave balanço – o molejo, explicavam. Ele era lindão, hein!

 

Motor, um silêncio, um zumbido, lembro. Ficava sob o piso, me falava alguém. Americano, pintura vermelho-luzidio. Para-brisa incomum: saliente, seis partes de vidro na armação “tetraédrica” – e sob ele a indefectível grade daquele modelo, tal qual a “asa” sobre a porta dianteira, de saída, àquele tempo distante… Destacava-se na paisagem.

 

Ah! Luzes de freio – e eu lá sabia? – acendendo em Inglês: STOP! Interiormente, acima das duas janelas do fundão, a plaquetinha – que eu, nos meus 6 anos, sequer entendia – “Fageol Twin-Coach; Kent, Ohio”! Eu: que troço, será?

 

O tempo me elucidou. Ônibus do suave balanço, molejo que o fazia gingar – de leve – até quando nele entrávamos ou descíamos, ele parado. Era o mesmo em que algumas vezes eu ia a Santos, no azul-e-creme da Cometa! Saudadizinha inesquecível, daquela São Paulo mais bela, magia do IV Centenário – tempo dos Twin-Coaches – marca desta fábrica criada pelos irmãos Fageol, no estado americano de Ohio

 

Ê, São Paulo… Ê, São Paulo! Da garoa, São Paulo, que terra boa!

 


Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para contar sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

Adote um Vereador: tem sempre alguém envolvido em alguma coisa

 

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“Esse pessoal do Adote tá sempre envolvido em alguma coisa”.

 

Frase perigosa nestes tempos de gente graúda metida em falcatrua, mas dita na forma como foi, por um dos convidados do Adote um Vereador, no encontro desse sábado, revela outra verdade. Estamos, sim, envolvidos; melhor, estamos, sim, engajados em coisas ou causas diferentes: todas cidadãs.

 

Uma pega as notas fiscais do bar que nos serve café para ajudar instituição de assistência que atende crianças, na cidade. A outra está metida até o pescoço na defesa do parque do bairro em que mora. Tem mais uma que não se cansa de cobrar informações da prefeitura e da Câmara por meio da Lei de Transparência. E há aquela que participa de todas as reuniões do conselho de segurança à associação de moradores, e quando dá tempo vai ao encontro de políticos que querem dar palpite na região.

 

Usei exemplos femininos porque era mulher a maioria dos que estavam sentados na mesa do café do Pateo do Collegio, centro de São Paulo, onde nos encontramos todo segundo sábado do mês. Os homens, além de minoria, mais ouviam do que falavam. Até nisso nossa mesa é diferente. E quando todos falaram, um tema dominou a conversa: a decisão do TSE que safou o presidente Michel Temer de “perder o emprego”.

 

Causou indignação a forma como o Tribunal Superior Eleitoral tratou as denúncias de corrupção envolvendo o presidente Michel Temer e a ex-presidente Dilma Roussef – esses dois, sim, envolvidos no sentido de enrolados, enredados, comprometidos.

 

O voto do ministro Herman Benjamin foi histórico mesmo que derrotado, e sua frase foi lembrada por nós: “recuso o papel de coveiro de prova viva, posso até participar do velório, mas não carrego o caixão”. Quem da nossa mesa conhece o trabalho jurídico do ministro, diz que desde o começo de carreira fazia boas argumentações em defesa do consumidor. Desta feita, em defesa do cidadão.

 

O cidadão, porém, não foi respeitado pela maioria dos ministros desse tribunal, que tem a responsabilidade de garantir que a disputa pelo nosso voto seja legítima; que os poderes político e econômico não desequilibrem a corrida eleitoral, beneficiando este ou aquele grupo. Não pense que nos iludimos com a ideia que na eleição todos os candidatos têm a mesma chance. Não têm. Mesmo com o fim do financiamento de empresas – que entrou em vigor na eleição do ano passado – partidos e coligações reservam boa parte do dinheiro arrecadado aos candidatos de sua preferência. Para eles é colocada à disposição a estrutura partidária, eles têm maior exposição no rádio e na TV e conseguem ter destaque na campanha de rua.

 

As delações premiadas de donos de empreiteiras, as provas coletadas pela força tarefa da Lava-Jato, as informações levantadas pela Procuradoria Geral da República, no entanto, deixaram evidente a maneira criminosa como autoridades públicas, políticos e partidos se comportaram na eleição de 2014. Só o TSE não as levou em consideração. Diante disso, na tarde fria de sábado, esquentou a conversa entre nós questionando a existência de uma justiça eleitoral que permita injustiça na eleição.

 

De volta ao nosso envolvimento em causas cidadãs: a constatação, feita por uma das participantes do nosso encontro, que todo o pessoal do Adote participa de alguma outra ação, ratifica ideia que venho defendendo há três anos em palestras e conversar sobre nosso movimento. O Adote mais do que uma organização que fiscaliza a Câmara – e talvez não o faça com a devida competência, por limitações próprias -, é um ponto de convergência de pessoas interessadas em ver sua cidade melhor.

 

Gostaria muito que ao nos aproximarmos dos 10 anos de Adote – a serem completados em outubro de 2018 – encontrássemos fórmulas capazes de aumentar a participação das pessoas, a fiscalização sobre os atos dos parlamentares e a divulgação de fatos que ocorrem na política municipal.

 

Confesso, porém, que mesmo diante de nossas carências, sempre sinto uma ponta de orgulho ao ver aquela gente entusiasmada em volta da mesa do café acreditando na sua capacidade de transformar o ambiente urbano no qual vivemos.

Conte Sua História de São Paulo: a elegância dos passeios no Centro com carrões americanos, terno e chapéu

 

Por Douglas de Paula e Silva

 

 

Nasci em 1955 na Lapa, na Rua Faustolo. A casa era pequena, existe até hoje, e ficava em frente a uma mercearia, tão comum naquela época. Lá só existia o comércio de rua e alguns poucos magazines, no centro. Morávamos próximo da Praça Cornélia, onde fica a Igreja de São João Vianei, onde meus pais se casaram. Minha avó materna morava na mesma praça. A família de meu pai, de origem italiana, calabresa, morava na Av. Celso Garcia, no Brás.

 

São Paulo era meio europeia. Isso ficava claro quando íamos ao Centro, normalmente de lotação, naqueles carrões pretos americanos da década de 1940, ultra-espaçosos, em que cabiam seis a oito pessoas facilmente.

 

Todos se vestiam muito bem. As mulheres com vestidos rodados, casacos, salto alto; os homens, preferencialmente de paletó e chapéu. A grande maioria, homens e mulheres, fumava muito, independentemente de onde estivessem. A cidade era ordeira, bonita.

 

As minhas lembranças do corte de cabelo na Clipper, loja de departamentos que ficava no Largo Santa Cecília, do Bazar Lord e do Mappin são ainda muito claras.

 

Já tínhamos televisão, algo raro e caro naquela época.

 

Meu pai trabalhava no Aeroclube de São Paulo e tinha como amigo um piloto que ia rotineiramente para os Estados Unidos. Num belo dia, ele apareceu com uma TV usada, que tinha uma tela pequena, num móvel de madeira enorme, onde assistíamos à TV Tupi e à Record. Havia um ponto de ônibus em frente de casa e as pessoas ficavam olhando para dentro da nossa sala maravilhadas.

 

No inicio dos anos 60 meus pais começaram a construir uma casa num bairro distante chamado Planalto Paulista, na Avenida Ceci. Quando íamos para lá, acompanhar a obra, era uma aventura já que a maioria das ruas ainda era de terra, excetuando algumas principais como a Avenida Indianópolis, que ligava o Parque do Ibirapuera à Avenida Jabaquara, onde estava a Igreja de São Judas. O bairro era próximo do Aeroporto de Congonhas e da TV Record, que ficava na Avenida Moreira Guimarães. O caminho natural da zona Oeste para a Sul era pela “Estrada das Boiadas”, atual Avenida Diógenes Ribeiro de Lima ou pela Av.enida Brasil, Henrique Schaumann, Heitor Penteado e Aurélia.

 

Quando mudamos para lá havia poucas casas ainda. Eu, acostumado com um bairro urbano como a Lapa, de repente me vi num lugar que tinha poucas opções. Tínhamos como vizinhos um vila humilde, com casas pequenas, todas juntas num único corredor estreito. Fiz amizade com aquelas crianças que se divertiam muito nas brincadeiras de rua. Algumas delas, com sete, oito anos, já fumavam e meu pai, também fumante inveterado, ficava muito preocupado. Me chamavam de “menino rico” e, apesar da distância social, convivíamos muito bem. Numa das vezes, fui almoçar na casa de um dos meninos da vila e comi torresmo pela primeira vez na minha vida. Era realmente muito bom.

 

Ficamos muito pouco tempo naquela casa. Depois de um temporal nossa casa, que ficava na parte baixa da rua, ficou com dois palmos de água com lama e só me lembro da minha mãe e as vizinhas removendo aquela lama toda. Meu pai ficou desgostoso e vendeu a casa. Nos mudamos para um conjunto de sobradinhos, na Alameda dos Uapés, a duas quadras da onde estávamos, onde minha mãe com 91 anos mora até hoje.

 

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Conte Sua História de São Paulo: o gorila que gostava de gravata

 

Por José Carneiro de laia

 

 

Chegando a São Paulo, em dezembro de 1969, vindo de Belo Horizonte, não via a hora de chegar junho de 1970, quando completaria 18 anos e poderia conseguir o meu primeiro emprego formal, nesta que para nós era a terra das oportunidades. Só com o ginasial completo, precisando trabalhar para ajudar meus pais, e continuar estudando à noite para concluir na época o chamado colegial – claro que teria que ser à noite.

 

Sem muita exigência ou seleção, consegui o meu primeiro emprego com registro em carteira profissional: cobrador de ônibus na Empresa de Auto Ônibus Alto do Pari. Mas um senhor cobrador, que na época tinha uma indumentária toda especial e característica; um boné, gravata, camisa e calça, na cor cinza claro, com sapatos pretos, impecáveis e bem engraxados, nada de tênis.

 

Diferentes de nós eram os cobradores da extinta CMTC, que também usavam os uniformes, mas na cor azul claro. Os motoristas também acompanhavam o mesmo uso, e para todos nós, cobradores e motoristas, era motivo de orgulho e responsabilidade trabalhar no transporte público de uma já grande cidade, embora não chegasse ainda a 5 milhões de pessoas.

 

Por três meses, trabalhei na linha Nº 81, que circulava entre o Correio central e Vila Maria Baixa, fazendo o seu ponto final ao lado de um pequenino zoológico que existia por ali. Nas paradas de alguns minutos para irmos ao sanitário ou tomar um cafezinho, um dos cobradores, como muitos outros faziam, entrou rapidamente no minizoológico, e parou em frente a jaula de um pequeno gorila, que era a atração principal. Mas por uma aproximação e distração, não recomendadaS, o animal lançou os seus longos braços e agarrou a gravata do cobrador. Passou a puxar fortemente, quase enforcando o colega que só foi salvo por outras pessoas que o puxaram de volta para trás. Foi um enorme susto para ele e uma boa advertência para mim.

 

Visitar um zoológico, por menor que seja, de gravata, seja social, ou de trabalho, é bom não se aproximar de nenhum animal, principalmente quando eles são quase do nosso tamanho.

 

Felizmente, fiquei por poucos meses neste meu primeiro emprego em São Paulo, mas a lembrança do gorila que não gostava de gravata, sempre ficou gravada em minha mente, ao longo desses 64 anos, 48 deles, morando nesta capital…

 

José Carneiro de Laia é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br 

Conte Sua História de São Paulo: um argentino conquistado pela Capital

 

Por Fernando Andina
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte-internauta Fernando Andina:

 

 

Ainda lembro que meu primeiro contato com São Paulo foi assustador.

 

Nas escolas argentinas de começo dos anos 1980, havíamos estudado um pouco a história brasileira, sabíamos da importância do Rio de Janeiro, e que Brasília, a nova capital, tinha sido erguida do zero. Muitos argentinos tiravam férias em Florianópolis e Búzios, mas para mim, um adolescente ainda no colegial, São Paulo era uma absoluta desconhecida.

 

Em 1985, viajei por intercâmbio para Europa, e o avião saindo de Buenos Aires, faria escala em São Paulo. Na era pré-internet não havia muita informação disponível – pelo que durante o voo fiquei me perguntando que classe de cidade seria essa para termos que pousar lá. Logo saí da minha ignorância. Enquanto a aeronave se aproximava da pista em Guarulhos, percebi com espanto as dimensões imensas da metrópole, os inúmeros edifícios se erguendo, e uma cidade que se revelou de extensão infinita para mim. Aí fiquei curioso. Afinal, que cidade é esta?!

 

No ano seguinte programei tirar férias nas praias do Rio, mas passando primeiro por São Paulo, para conhecê-la no nível do chão. Fiquei maravilhado com o dinamismo das pessoas, a movimentação das ruas, e admirado com a força econômica do interminável cordão industrial das cidades vizinhas. Tomado pelo verdadeiro espírito brasileiro, tive a convicção de que tudo daria certo, e eu alguma vez faria parte desse dinamismo.

 

Ainda passariam mais de 20 anos até meu desejo adolescente virar realidade. Hoje, já faz quase 10 que moro por aqui, e São Paulo demonstrou ser tudo o que prometia e mais: uma cidade de nível mundial, dinâmica, vibrante, cosmopolita, a verdadeira capital da América do Sul.

 

Saludos!

 

Fernando Andina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe você também. Envie mais um capitulo da nossa cidade para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo: o bonde da Casa Verde

 

Pedro Vitorino
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Plim, plim, plim, lá vem o bonde
Plim, plim, plim, lá vai o bonde.
De onde vem, pra onde se destina?
– Vem do Centro, Rubino de Oliveira,
Da Vila Maria, Vila Sabrina,
Como bólido, espalhando faíscas incandescentes
Sobre os trilhos e dormentes
Tortuosamente fincados nesta Terra de Piratininga.

 

Em cada parada um vaivém de pessoas aprumadas
Subindo ou descendo, soberbas, aceleradas,
Rumo ao trabalho ou sua triunfante volta ao lar:
– São paulistanos, paulistas, mineiros, baianos,
Brasileiro do sul, do norte, do leste e do oeste
E de além mar: portugueses, espanhóis, japoneses,
E muitos outros que nesta terra aportaram
E a escolheram para aqui fincarem suas raízes.

 

É quase madrugada, ainda ruas escuras,
Luzes ofuscadas pela fria e incessante garoa paulistana;
Na Praça Centenário, rostos sonolentos aguardam a vez do embarque…
Lá vem o bonde, trepidante, com seu condutor – o motorneiro –
Em seu traje de gala, triunfante!
E mais uma jornada se inicia, no seu pinga-pinga,
Em ziguezagues pelas ruas da cidade, ainda adormecida,
Mas pronta a cumprir seu destino, sem fadiga.

 

Homens, mulheres e garotos imberbes ali estão:
Gorros à cabeça, cachecóis e capas a cobrir-lhes os corpos
–  A proteção indispensável contra a garoa e o frio-
Em cada mochila, a marmita, a garantir-lhes a sustentação no trabalho.
E lá vai o bonde, descendo a Rua Inhaúma,
Ponte da Casa Verde à vista, com seus muitos campos de futebol – ladeados –
Silenciosos agora, mas repleto de vida, aos domingos,
Em sublimes momentos de intensa glória!

 

Barra Funda, Bom Retiro – o centro está logo ali;
Lá vai o bonde, no seu plim, plim, plim insistente.
Em cada curva um solavanco – um vai pra lá, vem pra cá
Despertando aqueles heróicos trabalhadores anônimos
Símbolos da grandeza desta terra que é de luta e esperança;
Ouve-se o plim, plim, plim da última passagem registrada
– “Fim da linha”, diz o cobrador, mais uma vez,
Porém, diziam as más línguas: !Não a última cobrada”!

 

Anoitece, e toda aquela gente sonolenta desse mesmo dia – no seu amanhecer –
Ali está, todos atentos ao Casa Verde,
Estampado na “testa” daquele monstro de madeira e ferro
Que logo surge, como um dragão, expelindo fogo,
Entre os trilhos e suas “patas” barulhentas
Agora em direção ao aconchego do lar,
Embalados pela sonoridade – e habilidades – do cobrador:
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim…
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim…
Plim, plim, plim…

 

Pedro Vitorino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: desde a chegada dos meus avós, a bordo do navio, em 1888

 

Claudemir Moscardi
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

No ano de 1888, no dia 31 de outubro, chegavam em Santos meus avós: Santi Moscardi e Patrina Moscardi. Casaram no navio de medo do que encontrariam no Brasil. Tiveram 14 filhos, todos na região de Jaguariúna, onde foram enviados para substituir a mão de obra escrava do café. Com a crise de 1929, o café já não valia mais nada.

 

E aí começa minha história

 

Meus avós vieram para o bairro do Ipiranga, na zona Oeste, trabalhar na tecelagem dos Jafet. Meu pai era o caçula, Honório Moscardi, com 21 anos. Casou com Maria Rosa Capone, que também trabalhou no café e nas tecelagens ,no Ipiranga. Tiveram três filhos: Vagner, eu e Antônio Carlos.

 

Vagner se formou engenheiro mecânico com 43 anos.
Antônio Carlos, engenheiro eletrotécnico.
Vagner teve dois filhos homens com Miriam.
Antonio Carlos teve dois filhos homens com Cristina.
Eu, também tive dois filhos: casal, com Regina.

 

Nós três trabalhamos na Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo. Estudamos à noite para mudar de vida. Com muita luta, nossos filhos foram estudar no Colégio Arquidiocesano, ali perto onde hoje tem a Estação Santa Cruz do Metrô.

 

Os filhos do Vagner são engenheiros formados pela Mauá, em São Caetano. Os do Antonio, um está na medicina da USP. Já é cirurgião urologista. Está nos Estados Unidos se aperfeiçoado em transplantes. O outro é designer. Estudou em Milão, na Italia.

 

Minha filha se formou na Escola de Comunicação da USP. É relações públicas. Meu filho, está no quinto ano da medicina também na USP

 

No relato desta família, que começa em meus avós, desembarcando em Santos, e segue no sacrifício de cada um de nós para que nossos filhos se formassem, agradeço a quem nos acolheu: São Paulo!

 

Claudemir Moscardi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: desembarquei no Glicério, no 1º de maio

 

Por Paulo Afonso Pacheco
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

As afinidades com a cidade começam com o meu nome e aniversário: sou Paulo Afonso Pacheco, nascido aos 25 de janeiro de 1961, em Guidoval, Minas Gerais, no dia do aniversário de São Paulo.

 

Cheguei aqui em 1º de maio de 1979, um dia marcado por manifestações de trabalhadores metalúrgicos, desembarquei na extinta Rodoviária do Glicério, começando minha Via Crucis por esta metrópole.

 

Morei em Itaquera, Arthur Alvim, Cidade Patriarca, Vila Guilhermina, Penha, Tatuapé, Mooca e agora no Centro Velho descobri meu lugar definitivo.

 

A cidade sempre me fascinou muito, prova disso é que cheguei a morar nos Estados Unidos, mas o amor pela minha São Paulo já não permitia me separar dela.

 

À São Paulo, eu devo o que tenho e o que sou, diria que até muito mais do que sou.

 

São Paulo me deu família e me deu amores.
São Paulo me deu um casal de filhos. Filhos lindos!

 

A cidade que se tornou violenta pelo seu trânsito, ceifou a vida de minha filha Mariana aos 17 anos, em 2013, em um bárbaro acidente.

 

Já que viver é preciso, me coloquei de pé e continuo vivendo, lutando por uma cidade menos violenta, e me apaixonando cada dia mais por esta cidade a qual chamo de maravilhosa sem desmerecer àquela que é dona do título.

 

São Paulo dos meus encantos e dos meus amores, obrigado pela oportunidade que tenho de desfrutar cada dia mais um pouquinho de você!
Obrigado São Paulo porque você existe.

 

Paulo Afonso Pacheco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte outros capítulos da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.