Conte Sua História de São Paulo: os banhos no lago do Villa Lobos

 

Por Claudio Menezes

 

 

Descendente de imigrantes portugueses e italianos, minha família quase toda é do Alto da Lapa, na zona Oeste de São Paulo.

 

Meu bisavô ao lado dos filhos e de funcionários – ou de colaboradores, termo que costumam usar nos dias de hoje – participaram do trabalho de construção da Estrada da Boiada. Dizem que a Estrada era o caminho para ligar Santo Amaro a Pinheiros. Hoje, muitos de nós passamos por lá, sem boi, é claro: é a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima.

 

Dentre outras obras importantes que meu avô e sua turma participaram está a Praça Panamericana, aquela enorme e verde rotatória, um marco do Alto de Pinheiros.

 

Na rua em que nossa família morava havia uma feira livre. Isso nos permitia embolsar uns trocados extras. Eu e outros meninos fazíamos carreto para os clientes da feira. Nós também aproveitávamos para pegar os barbantes que serviam para fechar sacos de feijão que eram feitos de estopa. O barbante era usado depois como linha de pipa que soltávamos lá pela região do parque Villa Lobos.

 

O parque ainda não existia. Lá havia lagoas. E, sem saber nadar nem noção do perigo, pegávamos pedaços de isopor para nos refrescar nos dias quentes.

 

Cláudio Menezes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar a sua história aqui na CBN: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 463 anos: minha padaria em Higienópolis

 

Por Paulo Mayr

 

 

Estou em Higienópolis e na minha padaria tem de tudo.

 

O João, homem experiente de uns 70 e poucos anos, já me contou emocionado que mais de uma vez, quando era estudante, havia apenas um ovo na geladeira para o jantar. Formou-se em Direito. Desde sempre, trabalhou. Começou como boy. Quando se formou, já era gerente na área administrativa e não quis voltar à estaca zero no Direito. Aposentou-se como Diretor. Nunca redigiu uma única petição na vida, mas não sai de casa sem o anel vermelho de doutor.

 

O Reinaldo formou-se na Poli. Também se aposentou em alto cargo, mas em empresa pública. Executivo dinâmico de outrora, hoje a primeira, a segunda, a terceira e a milésima impressão que se tem dele é de que vive para polemizar. Seja o assunto que estiver em baila, ele sempre tem uma opinião, a que dê mais margem para discussões intermináveis. Não pense que entro no jogo dele, não: ele diz uma coisa, seja qual for, eu concordo lacônica e monossilabicamente.

 

Os donos da padaria são o pai e dois irmãos. De manhã, o irmão mais velho, um encanto de pessoa, se desdobra em dez. O irmão da tarde chega a ser famoso no bairro: não há um único cliente com quem ele já não tenha se desentendido. O da manhã bate escanteio e corre pra área pra cabecear. A primeira coisa que o da tarde faz ao chegar é tirar uma atendente do balcão e bota ela no Caixa. Ele vai para a calçada acende um cigarro e lá permanece.

 

Com frequência, alguém estaciona ocupando duas vagas. O segurança não tá nem aí. Certamente, imagina que a função dele é evitar um novo 11 de setembro.

 

A Drika, hoje minha amiga, que toda semana janta em casa, é loira, magra, muito bonita, filha de comerciante famoso e rico, bem estabelecido na José Paulino.
Apesar de toda mordomia, prefere ganhar a vida como sacoleira: vende roupas para funcionárias e clientes da padaria, além das balconistas das lojas vizinhas.

 

A figura mais curiosa: um cara que está sempre de óculos escuros e falando ao celular. O assunto, digo, a cifra é sempre a mesma: ou está comprando empresas de alguns milhões de dólares, ou está vendendo empresas de outros milhões de dólares. Eu imaginava que fosse um milionário exótico que, em vez de fechar negócios no escritório, que, certamente, tinha no prédio mais sofisticado da Faria Lima, ficava ali mesmo na padaria tomando decisões de tal envergadura. Pois bem, garantiram-me que nunca há pessoa alguma na outra ponta da linha do celular. Ele está sempre falando sozinho, só para impressionar a plateia.

 

Faça chuva ou faça sol, bato ponto diariamente na padaria. Onde mais me divertiria tanto sem pagar um único centavo de couvert artístico?

 

Paulo Mayr é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar também sua história na cidade: envie o texto para milton@cbn.com.br. 

No aniversário de SP, uma galeria de fotos para destacar a beleza da cidade

 

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(texto e foto de divagação)

 

A cidade de São Paulo tem uma galeria só para ela e que fica na loja 22 da área comercial do símbolo da cidade, o histórico edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer.

 

São fotografias do skyline da Avenida Paulista, aéreas do centro, prédios históricos como o Martinelli, o Itália, o Altino Arantes (antigo Banespa), o São Vito (demolido em 2011), o Teatro Municipal, a Catedral da Sé, além de vistas do Copan, que também é retratado pelas lentes do premiado fotógrafo RenattodSousa (dois Nikon Photo International e dois Prêmios Abril de Jornalismo).

 

A foto galeria exibe uma exposição permanente de imagens de São Paulo, impressas e montadas em diferentes materiais como canvas (tela de algodão), metacrilato, molduras tradicionais, echarpes, entre outros.

 

No aniversário de São Paulo a galeria estará aberta. A visitação é gratuita.

 

Serviço

 

RenattodSousa Foto Galeria
Endereço: Avenida Ipiranga, 200, loja 22, edifício Copan.
Telefone: (11) 3237-0056
Funcionamento: de 2ª a sábado, das 11 às 19 horas.
Visitação gratuita.

Conte Sua História de São Paulo 463: as cores dos ônibus que rodam na cidade

 

Por Sérgio Slak

 

 

Nasci na Vila Prudente, há 59 anos, e morei até os sete anos na Vila Ema, tudo na zona Leste. Com o falecimento do meu pai mudamos para a casa dos meus avós em Moema, na zona Oeste. Em frente de casa, tinha o ponto inicial da linha 670 – Moema – Praça da República, da Viação Moema. Eram ônibus nas cores vermelha, verde e branca. Lá perto tinha, também, o ponto inicial da linha 77 Vila Uberabinha-Rodoviária, da Viação Caribe. Eram amarelo, vermelho e branco.

 

Comecei ali meu fascínio pelos ônibus. E o que me encantava é que havia muitas empresas e cada uma com suas cores. Algumas com apenas uma linha. Por exemplo, achava maravilhosos os ônibus da Viação Útil, que faziam a linha Barra Funda – Bosque da Saúde, nas cores azul e cinza. Tinha a imagem de um cachorro atravessando o numero 969.

 

É claro que existiam as empresas com mais linhas de ônibus, como a Bola Branca que tinha as cores branco e vermelho. Não podemos nos esquecer do azul e bege da CMTC. Lá na gestão do prefeito Jânio Quadros, havia os Vermelinhos e os Fofões de dois andares.

 

Adorava olhar aqueles ônibus circulando, numa festa de cores e estilos de pintura.

 

O cenário passou a mudar no fim da década de 1970 quando criaram os consórcios de empresas de ônibus, as menores foram compradas. Na gestão da prefeita Luisa Erundina ocorreu a municipalização e todos os ônibus passaram a ter as cores branca e vermelha. Na de Marta, criaram-se oito consórcios e aí ficaram apenas oito cores em toda a cidade.

 

O transporte público evolui muito. Temos bilhete único, corredores, terminais, veículos articulados, biarticulados, com ar-condicionado e até wi-fi. Mas sinto uma saudade danada daquelas cores rodando por São Paulo.

 

Quando estou em um ponto, fecho os olhos e imagino que o ônibus que está chegando traz a marca da CMTC ou o colorido de algumas das velhas empresas.

 

Sergio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br e conte a sua história da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo 463: a costureira do Brás

 

Por Meire Theodoro

 

 

Nasci no Jaçanã. Em 22 de março. Tenho 40 anos e sou de família humilde: meus pais vieram do Nordeste muito jovens e moravam na cidade vizinha: Guarulhos.

 

Um dos meus primeiros empregos foi no Brás, na rua Monsenhor de Andrade. Era uma fábrica de confecção de lingerie onde se fazia desde o corte do tecido até a embalagem das peças. Trabalhar no Brás, um dos bairros de comércio mais movimentados de São Paulo, era curioso. Gostava de ver aqueles ônibus enormes com placas de todas as partes do Brasil que estacionavam a espera das sacoleiras.

 

Tinha 18 anos e gostava muito de tudo aquilo. Fui admitida como ajudante de produção e para bater o cartão às 7h10 da manhã, acordava às cinco e pegava o busão. Não tinha ainda a estação Tucuruvi do Metrô. Descia no Terminal Rodoviário do Tietê e embarcava no ônibus Museu do Ipiranga.

 

Com o tempo na confecção, aprendi a costurar. Meus pais, separados. Então, eu, uma das irmãs mais velhas, percebi que a vida era cheia de surpresas e responsabilidades. Aos 21 anos, fiz vestibular e com o salário da costura paguei meu curso de pedagogia. Era difícil conciliar mas eu queria muito … Gostava de falar. Percebi já no 2o Grau. Nas aulas de apresentação tirava boas notas e sonhava ser professora.

 

Era uma rotina difícil. Trabalho e faculdade. Saía às cinco da manhã, chegava às 11 da noite. Namoro nem pensar. O tempo passou rapidamente. Leciono há 20 anos na prefeitura, na Educação Infantil e Pós-graduação, em Educação Inclusiva. Sou casada, mamãe de um casal de filhos adolescentes lindos.

 

Moro em Guarulhos, acesso fácil a São Paulo, para onde vou todos os sábados sempre para descobrir algo interessante.Deixo o carro na região da 25 de Março e faço um “tour” por aí.

 

Meire Theodoro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais uma capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP: o prédio

 

Por Suely A. Schraner

 

 

A tarde trazia consigo melancolia de pôr-do-sol. Andara o dia todo.
As têmperas latejando. Britadeira batucando do outro lado da rua.
Demolira planos. Rompera ilusões. Nadara em águas revoltas. Nebulosas da memória. Mistura de vinho com Rivotril, as suas sinapses poéticas.

 

Ávidos edifícios o espreitam.

 

Pele de vidro e frita aves. Caleidoscópio lancinante. Lugarzinho inabitável. Áreas descomunais. A planta letal. A vida por um fio é que dá força para amar. Certificar o nada.

 

O desespero a um passo da felicidade.

 

Deu por si e estava diante dela.

 

“Não esperava te encontrar aqui”. “Ah, bem sabe que minha vida é nos cascos”. “Sei, nos sapatos e na cama”. “Andou chorando?”

 

Abaixa os olhos. “Cisco”.

 

Sinto que gostaria de me beijar. “Diga-me, será que desta vez conseguiremos? “O não, nós já temos. Agora, é tentar o sim”.

 

Passam despercebidos.

 

No andar, começara a sentir-se mal. “Você está doente? “Cisco”. Tá brincando! “Sinta o cheiro”. De morte? “Não amole, é cheiro de felicidade”.

 

Embolados. “Sabia que o corpo fala? Ás vezes faz bem ficar doente”. “É a vida chamando a atenção da gente”. Tem o dinheiro?

 

“Daqui dez dias”. “Dez dias não é possível. Até lá…”

 

Saem.

 

O sol se escondera detrás do prédio.

 

Espelhado e colorido.

 

Caleidoscópio onírico. Na planta ou próprio para morar. A vida alucinada. Certificação AQUA- alta qualidade ambiental. Áreas comuns generosas.

 

A felicidade a um passo do desespero.

 


O predio ou Suely Schraner é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Esta história foi reproduzida no CBN SP há dois anos, porém jamais havia sido publicada no blog. Aproveito o aniversário de São Paulo para compartilhar com você

Conte Sua História de SP 463: o cheiro das coxinhas na padaria da Consolação

 

Por Miguel Chammas

 

 

Primeiramente, Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanan; depois Colégio Comercial Frederico Ozanan – boate Ozanan para os detratores. Reduto e fonte de ensino para todos os alunos.

 

Fui admitido em suas fileiras nos primórdios da década de 1950 para cursar o antigo Admissão. Fui aluno, atleta, diretor do Grêmio, fundador e membro da fanfarra, diretor artístico do GATO, membro efetivo de diversas comissões pró-formatura, professor substituto de Contabilidade Básica e, finalmente, diplomando do Curso Técnico de Contabilidade, em 1965.

 

Comecei minha vida na escola quando ela estava na Praça Franklin Roosevelt, 123, e a acompanhei até meados de 1967 já na Rua Augusta 423.
Eu era de família humilde e mesmo antes da conclusão do curso básico, por necessidade de trabalhar, estudava no curso noturno. Para economizar, minha ida para a escola ao fim do expediente de trabalho era metade a pé e a outra, andando.

 

O grande obstáculo que eu tinha de vencer, diariamente, era o quarteirão entre as ruas Caio Prado Jr. e Marquês de Paranaguá. Nessa esquina, pouco antes da escola, estava, ou melhor, ainda está a Rotisserie Bologna. O aroma de seus quitutes nos encontrava metros antes de seus portais. Ato contínuo, inebriados pelo cheiro, consultávamos nossos bolsos, quase sempre vazios, na busca de alguma moeda que nos permitisse saciar nossa gula com mordidas nas coxinhas de paladar inigualável. O tamanho não era nada avantajado, mas ganhavam da maioria das coxinhas vendidas na velha Sampa. Secas de gordura, com um creme consistente e saboroso, e um pedaço considerável de frango.

 

Era o alívio da nossa fome durante os estudos da noite. Isso quando encontrava algum dinheiro no bolso.

 

Quando os trocados não nos permitiam fazer loucuras gastronômicas, nos contentávamos em entrar na loja e sentir o cheirinho das tais coxinhas de frango. Pra disfarçar, íamos ao balcão da sorveteria, abríamos a torneira e tomávamos um copo d’agua estupidamente gelada.

 

Triste consolo para este pobre estudante!

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos juntos comemorar mais este aniversário da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP 463: O monstro da trilha do Tremembé

 

Por Ozair Lessa

 

 

O ano era 1961. Eu com cinco anos e meio morava na avenida Sezefredo Fagundes, antiga Vila Zilda, bairro do Tremembé, zona norte da cidade. Morava na parte de cima do sobrado. Embaixo, ficava a Pensão Fartura, nome do restaurante que minha mãe, meu irmão e minhas três irmãos administravam. Naquela altura, meu pai tinha saído pelo mundo em busca de uma situação financeira mais confortável para depois levar toda a família.

 

O restaurante era frequentado por motoristas de caminhões e ônibus que por ali acessavam a rodovia Fernão Dias, em direção a Minas Gerais. Com a família formada majoritariamente por mulheres, abaixo do letreiro com o nome do restaurante uma frase era sempre retocada para que nenhum freguês pudesse argumentar que não tinha notado: “AMBIENTE RIGOROSAMENTE FAMILIAR, RESPEITE PARA SER RESPEITADO”.

 

Para os mais distraídos ou que não sabiam ler, minha mãe deixava sempre bem visível um cassetete de borracha, presente de um primo integrante da antiga Força Pública. E quantas vezes vi aquele cassetete “cantar no lombo” de engraçadinhos que se enganavam com a aparência frágil da dona Benedita!

 

Eu era só uma criança muito feliz que, morando na entrada de uma grande reserva florestal, fazia dela meu quintal e passava o dia trepado em árvores dando asas à imaginação. Ali, eu e mais dois ou três amigos, cavalgávamos como o Roy Rogers, o garoto Rusty de Rin-Tin-Tin e o Zorro e Tonto. Às vezes, voávamos como o Nacional Kid.

 

Fui estudar no Grupo Escolar de Vila Bortolândia, hoje Escola Estadual Judith Guimarães dos Santos, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Para me ensinar o caminho mais curto, meu irmão entrou por uma trilha batida dentro de um matagal. Na sua companhia até achei o caminho divertido.

 

Quando tive de ir sozinho, a história foi diferente: a trilha parecia interminável e cheia de ruídos estranhos. Foi que em um dia, um desse ruídos veio em minha direção e um “monstro” saiu de uma moita rangendo os dentes de forma ameaçadora. Quadrupliquei minha velocidade até ele desistir de correr atrás de mim.

 

No dia seguinte, o ritual para sair de casa foi mais lento: acordar, vestir o uniforme, preparar a lancheira com um sanduíche de pão com ovo e o frasco com suco ou água.

 

O que está esperando menino? Vai … se não você se atrasa!

 

Mas e o “monstro”? – pensei comigo. Não, não vou contar. Como explicar que eu, um homenzinho feito, que enfrentava os incas venusianos invasores da terra, estava com medo? E assim foram os dias: entrava na trilha, o monstro aparecia e eu chegava à escola suado e com taquicardia.

 

Numa das idas, já atrasado, esqueci de passar a alça da lancheira pela cabeça e quando o “monstro” apareceu corri e ela caiu no chão. O “monstro” parou de me seguir e foi direto na lancheira onde encontrou o pão com ovo preparado pela minha mãe. Entre uma mordida e outra, olhava para mim e parecia esboçar um sorriso de agradecimento.

 

Passei fome naquele dia, mas fiquei feliz e aliviado por descobrir o verdadeiro objetivo do “monstro” da trilha. Minha mãe também, pois a partir daquele momento pedi para que ela fizesse dois sanduíches.

 

“Tá crescendo este menino, tá com uma fome de leão!”

 

Mal sabia ela que o segundo sanduíche era o salvo-conduto, cobrado pela cachorrinha que vivia solta por ali, e de tão bem tratada ficou minha amiga.

 

Ozair Lessa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. E a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo 463: as cocheiras dos Matarazzo, na Pompeia

 

Por Osnir G. Santa Rosa

 

 

Vi e participei de fatos dignos de nota desde que nasci na capital de todos os paulistas. Isso lá no início dos anos de 1940. Naquela época, milhares, milhões de famílias vinham para a cidade de São Paulo. A luta por moradia era terrível. Ainda não havia favelas. As pessoas se amontoavam em horrorosos cortiços.

 

Meu pai ingressou nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na Vila Pompeia, zona Oeste da cidade, para dirigir os caminhões da Ford que substituiriam, como de fato substituíram, os veículos de tração animal.

 

Lá, havia 80 cocheiras muito bem preparadas para os muares que seriam, diríamos assim, despedidos. Ao mesmo tempo, a dona da casa em que nasci, na rua Duílio, no bairro da Lapa, também zona Oeste, pressionava minha família a devolver o imóvel porque havia quem estivesse disposto a pagar mais …

 

Meus pais estavam em polvorosa.

 

Foi quando meu pai soube que os animais já tinham sido dispensados do trabalho. Ele voou para lá a fim de assegurar uma das 80 cocheiras onde entendia ser possível viver com a família até conseguir outra casa.

 

Teve uma das maiores decepções de sua vida, que seria repleta de tantas outras decepções: todas as cocheiras já estavam ocupadas por outras famílias que, assim como a nossa, não encontravam um lugar decente para morar.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung.

Cidadão é capaz de barrar irregularidades se souber usar a Lei de Acesso à Informação

 

Por Marcia Gabriela Cabral
Advogada, especialista em Direito Constitucional e Político,
Conselheira Participativa Municipal
Integrante do Adote um Vereador.

 

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A Constituição Federal determina em seu art. 5º, XXXIII, que “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade”.

 

Portanto, a Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), conhecida como LAI, regulamenta este dispositivo constitucional. Assim, a LAI regula o acesso às informações dos órgãos públicos integrantes da administração direta dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, incluindo os Tribunais de Contas e o Ministério Público (art. 1º, I). Bem como a administração indireta, que compreende as autarquias, as sociedades de economia mista e demais entidades controladas direta ou indiretamente pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios (art. 1º, II).

 

Ainda, aplica-se a LAI às entidades privadas sem fins lucrativos que recebem, para realização de ações de interesse público, recursos públicos (art. 2º).

 

Com a finalidade de cumprir o princípio da publicidade e a nova visão de uma gestão transparente, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios criaram o Portal da Transparência, local onde os órgãos públicos divulgam suas informações de forma ativa, ou seja, por iniciativa própria, sem a solicitação de qualquer cidadão (transparência ativa).

 

Entretanto, no caso de informações não publicadas de forma ativa, cabe ao cidadão requerer a informação junto ao órgão competente, a fim de obter tais informações. Portanto, quando o cidadão provoca a Administração Pública para franquear a informação, trata-se da transparência passiva.

 

Para solicitar informações, cabe ao interessado (pessoa física ou jurídica) se cadastrar no Sistema de Informação ao Cidadão (SIC) e pleitear a informação. A Administração Pública tem o dever de responder, atendendo os procedimentos e prazos estabelecidos na legislação pertinente a cada tipo de órgão.

 

No caso específico, do município de São Paulo, a Prefeitura disponibiliza o Portal da Transparência  que trata-se da transparência ativa. Dentro deste Portal há o ícone “Acesso à Informação” (e-SIC), que refere-se à transparência passiva, local onde o interessado solicita suas informações. Ademais, a solicitação pode ser feita pessoalmente nos órgãos da Administração.

 

A título de ilustração, comento um caso real de controle social, por meio da atuação individual de uma cidadã, realizado através da Lei de Acesso à Informação.

 

Trata-se de uma solicitação de esclarecimento acerca de uma obra que estava sendo realizada, porém, não continha a placa indicativa da obra, requisito obrigatório nas obras públicas. Além disto, após alguns meses, a obra encontrava-se abandonada.

 

O órgão competente, informou que a obra tratava-se do “Marco da Paz” e que a Subprefeitura teria cedido o espaço público para que a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) realizasse tal obra. Contudo, a Administração Pública informou que não tinha qualquer documentação a respeito, alegando que não sabia o valor da obra, a empresa que a executava, nem o prazo e, que obteria estas informações somente após a conclusão da obra, quando a ACSP apresentaria tal documentação.

 

Diante da resposta imprópria, devido ao fato da Administração estar adstrita ao princípio constitucional da legalidade, houve recurso conforme os procedimentos estabelecidos pelo decreto municipal que regulamenta a LAI no âmbito da cidade de São Paulo.

 

A Comissão Municipal de Acesso à Informação (CMAI), que consiste na 3ª e última instância, proferiu decisão publicada no Diário Oficial da Cidade (DOC), concluindo que a autoridade requerida não pode alegar que houve a cessão do espaço público sem qualquer formalização e solicitou que a Subprefeitura complemente as informações, conforme decisão a seguir:

 

 

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Diante disto, a referida Subprefeitura instalou Comissão de Apuração Preliminar a fim de verificar os serviços referente ao caso em comento, conforme publicado no DOC:

 

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Essa Comissão tem prazo para concluir a apuração da suposta irregularidade. Verificada a responsabilidade de servidor, este poderá ser apenado conforme o disposto no Estatuto dos Servidores Públicos do Município de São Paulo. Há a possibilidade de abertura de Processo Administrativo Disciplinar ou até Sindicância, conforme a gravidade da falta cometida, respeitando o direito a ampla defesa e ao contraditório.

 

Embora a situação ainda não tenha sido esclarecida em definitivo, é notório que uma simples solicitação de informação junto à Administração Pública, gerou uma “investigação”, pois devido aos esclarecimentos incoerentes da Subprefeitura, patente que há algo de irregular na execução desta obra ou nesta tal “cessão” do espaço público.

 

Este fato, demonstra a necessidade da sociedade acompanhar a execução dos serviços públicos, das obras em áreas públicas, de conhecer o orçamento público, para quem sabe conseguir “barrar” certos abusos e desvios cometidos por servidores públicos e/ou pela influência de empresas privadas.

 

O próprio Ente Público tem a obrigatoriedade de exercer o controle institucional, por meio do controle interno, isto é, aquele realizado por órgãos da própria Administração, como a Controladoria Geral. Já o controle externo institucional é feito pelo Poder Legislativo, com o auxílio do Tribunal de Contas.

 

A sociedade deve exercer o controle social da Administração Pública, que pode ser feita por cidadãos e/ou organizações organizadas ou não.

 

Há a necessidade de uma maior conscientização da importância da participação dos cidadãos no acompanhamento do trato da gestão pública. Aos cidadãos existem diversos instrumentos e meios de fiscalizar de forma individual. O caso mencionado é um ótimo exemplo disto. Afinal, por meio do direito de acesso à informação, verificou-se uma irregularidade em relação à execução de uma obra.

 

Portanto, os cidadãos podem e devem se utilizar dos órgãos de controle, não importando se eles são de controle interno ou externo, pois podem ser acionados, para que determinada situação seja averiguada.