Conte Sua História de São Paulo 463: a tristeza do palhaço, no Butantã

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

Recordo que na minha infância passada no Jardim São Domingos, no Butantã, zona Oeste, era comum periodicamente instalarem-se circos e parques nos terrenos baldios existentes em abundância naqueles anos de 1960. Região ainda em formação, distante do centro, era praticamente um descampado com poucas residências e um comércio capenga, formado por uma única avenida que abrigava a padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e ainda as mesas de bilhar.

 

Se o luxo e as chamadas coisas boas de consumo não eram acessíveis para nós garotos da periferia, a felicidade era farta. Tudo nos contentava: o jogo de bola no campinho ao lado de casa, a pipa com a armação de varetas de bambu, o carrinho de rolimã, o jogo de taco, a bolinha-de-gude, o peão e outras brincadeiras de custo zero.

 

O circo me fascinava, cuja paixão perdura até hoje. Lembro-me que freqüentemente se instalavam por vezes parques de diversões com brinquedos limitados, em precárias condições de segurança, e por outras alguns circos mambembes.

 

Dos parques tenho na memória as falas do serviço de alto falantes que repetidamente dava a nota:

 

-“Venham se divertir e passar horas agradáveis no Parque de Diversões Flor da Serra”

 

– “Agora, no intervalo musical uma canção que alguém presente no recinto oferece à garota trajando blusa cor de rosa e saia preta como prova de admiração.”

 

Com relação ao circo, além da fascinação, está vivo na memória fato ocorrido num domingo à tarde, quando o Circo e Teatro Jóia, do palhaço Rebian, estreava as novas lonas impermeabilizadas com um produto inflamável.

 

O locutor Ditinho anunciava as atrações:

 

“Grande tarde hoje no circo Jóia. No picadeiro: Rebian, o palhaço que fez rir mais de 5 mil crianças no ginásio do Ibirapuera, e no palco o astro do rádio e da televisão, o ídolo da mini guarda, Ed Carlos. Quem não vier o que é? É goiaba!”

 

Casa cheia, mas naquela tarde não pude ir, não tinha como pagar. O espetáculo se desenrolava com atrações variadas antecedendo o ídolo que à época ainda fazia sucesso. De repente gritaria geral:

 

Fogo! Fogo!

 

O caos é instalado. Do campinho onde jogávamos futebol, víamos a fumaça cinza se elevando, corremos em direção ao circo. Na contramão encontrei com o estimado amigo Eugênio, ainda mais branco em desabalada carreira rua abaixo. Quando nos viu parou para dizer:

 

Pegou fogo no circo.

 

Os bombeiros não chegaram a tempo de apagar o incêndio. Sobrou apenas o mastro central. Dentre todos os espetáculos que eu presencie em um circo aquele foi o que mais me marcou: no centro do picadeiro, Rebian abraçado à mulher grávida, com os filhos ao redor, choravam desolados. Nunca mais me esqueci de Rebian e sua família encenando a tragédia da vida real naquele picadeiro, em meio às cinzas que outrora proporcionara tanta alegria.

 

Essa é uma pequena homenagem ao palhaço Rebian, o Carioca, do Circo e Teatro Jóia, que me fez soltar muitas gargalhadas na infância e contestar desde então a frase que diz que “alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”.

 

É não!

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: com medo, quase perdi a festa do IV Centenário

 

Por Denise Gimenez Ramos
Ouvinte-internaura da CBN

 

 

A cada estouro enfiava-me ainda mais entre as ferragens de baixo do banco traseiro do grande Buick preto de meu pai. O ar rarefeito, com cheiro de pólvora queimada, entrava por trás do pinico branco que minha tia Maria levou, no caso de uma “emergência”. O parque do Ibirapuera era longe. Banheiro nem pensar. Os homens ainda tinham as árvores, mas as meninas…

 

Entre explosões e aplausos choviam prata e ouro.

 

– Oh! Nossa! Olha lá! Olha! Ohhhhhhhh! Nossa, que lindo! Mais um!

 

Era uma pirotecnia interminável, mas para mim, uma tortura sem fim.
Contaram que quando tinha um ano, um balão de gás estourou bem no meu rosto, e desde aí, nunca mais me recuperei do susto com rojões.

 

Mas naquele dia, de vez em quando, tantas eram as exclamações de espanto, que me atrevia a levantar a cabeça. E, puxa: que espanto! Não sabia que era possível o céu ficar tão bonito; o vermelho tão rubro e as estrelas tão perto. Quase podia tocá-las. Mas, para isso…

 

Sai daí menina! Mas que boba! Sabe quando você vai ver isso de novo? Daqui 100 anos! Sabe o que é isso, menina? Cem anos?

 

Fazia as conta: – Seis + 100 … quanto é mesmo? Ó Diváa, quanto é mesmo 6 + 100? Será que vou estar muito velha? É verdade que se não olhar agora, talvez nunca mais?

 

Eu confiava na Diva, minha prima mais velha. Mas, ela estava lá longe maravilhada e achando no mínimo ridículo aquele “medaço” todo.

 

Ainda bem que a Márcia, minha outra prima, companheira de esconderijo e medo, cochichando baixinho, quando tudo parecia silêncio, num gesto de extrema coragem, me puxou pelo vão entreaberto, e, agachadas na relva, ficamos lá, no deslumbre de uma noite que impregnou a memória e o orgulho de ser centenária. De ser da cidade que sabia sonhar alto, que sabia construir para baixo, que recebia os de fora e acolhia os de dentro.

 

Mais chuva, agora de triângulos prateados. Centenas, milhares. Corríamos pelas ruas maravilhadas. Quantos você pegou? Quantos? Ei, São Paulo, ei São Paulo, São Paulo da garoa prateada. Estávamos ricas. Cheias de prata.

 

Corro ansiosa pro armário. Que alívio! Lá está ele, lá no fundo, entre papéis amarelados, letra redonda, tesouros rabiscados, o triângulo de prata guardado. Bem guardado.

 

Meu pai já se foi. Ele era um paulista paulistano. Típico. Herdeiro de tradições europeias juntadas em solo indígena pintado de africano. Ensinava, mais pela ação do que pelo discurso, que ser paulistano era ser da turma dos ideais, da força transformadora, da criatividade ética, da luta, da integração, da honestidade e da cordialidade. Orgulhoso, ah isso ele era, muito. Orgulhoso de sua cidade, às vezes inconformado, mas acima de tudo esperançoso, crente. Isso ele tinha certeza.

 

Cria que tinha jeito e que devagar, mas sempre, persistentemente, os paulistanos caminhariam e um dia chegariam lá.

 

Mais chuva prateada, por favor!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, 10h30, no CBN SP. Tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: as enchentes na época do verão de 1929

 

Por João Batista de Paula
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Gostaria de falar um pouco da minha cidade São Paulo, da charmosa garoa, das noites escuras da serração do viaduto do Chá, da av. São João do Bar Automático, da Catedral da Sé. São Paulo das serenatas e dos cancioneiros das madrugadas. Do Largo do Piques, ponto de carroceiros com suas belas parelhas de cavalos que faziam mudanças e entregas.

 

Falar da sempre acolhedora São Paulo é falar de pessoas vindas dos quatro cantos do mundo, falar da minha Rua Fernandes de Abreu, ex-Mário de Castro, onde eu nasci no velho e bom Itaim bibi, que nos anos 40 e 50 era um interior dentro de São Paulo.

 

Quero falar para quem não viu as enchentes na época das chuvas de verão de 1929. Uma enchente de grandes proporções atingiu a cidade. As águas do Tietê não deram vazão  suficiente pelo rio Pinheiros, cobriram as várzeas. Dizia-se que a Light controlara a vazão das barragens existentes demarcando, assim, as áreas inundadas, que passariam a ser propriedade sua. Para demarcar casas e terrenos atingidos pela cheia, em uma rápida pesquisa constatei também que a Light providenciou a instalação de pequenas placas, como a que existe até hoje na Rua Porto Seguro. Por seu valor histórico, esse pequeno marco integra o Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos. Minha mãe contava que essa enchente inundou parte da várzea do Policarpo que era no final do bairro do Itaim bibi.

 

Quero falar um pouco das brincadeiras da época, dos meninos que rodavam pião, nadavam nas lagoas e com forte imaginação montavam em fogosos cavalos de cabo de vassoura. Nos dias de chuva, saíam em disparada nas lamacentas ruas, brandindo no ar  espadas imaginárias. As meninas nos portões de suas  casas montavam  suas  casinhas e imitavam suas mães se fazendo passar por severas donas de casa. Eu era um menino solitário, ficava zanzando nessa imensidão toda.

 

Quando éramos jovens, costumávamos ir ao cinema no cine Dom Pedro ll, depois ir comer um pastel no Bar Automático.

 

Nesse tempo,  tudo era uma aventura!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, 10h30, no programa CBN SP, a sonorização é de Cláudio Antonio e a narração Mílton Jung

O reajuste do “salário” dos vereadores de São Paulo: legalidade x moralidade

 

Márcia Gabriela Cabral
Advogada, especialista em Direito Constitucional e Político
Integrante do Adote um Vereador

 

 

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A polêmica do reajuste do subsídio dos vereadores paulistanos despertou a questão em relação aos princípios constitucionais adstritos à Administração Pública. São eles:

 

  • legalidade
  • impessoalidade
  • moralidade
  • publicidade
  • eficiência.

 

Aqui trataremos somente dos pertinentes à questão.

 

A repercussão da medida “bombou” negativamente nas redes sociais e na grande mídia – principalmente devido à crise econômica – pressionando os vereadores a se posicionarem a respeito de seu voto favorável ao reajuste.

 

Diante da repercussão negativa um vereador justificou sua conduta alegando que seguiu parecer do seu setor jurídico e da CMSP, que indicaram a constitucionalidade do Projeto de Resolução 12/2016.

 

Uma vereadora divulgou nas redes sociais nota com o título “justificando o injustificável”, onde declara que seguiu a orientação da bancada de seu partido, contrariando sua posição pessoal. Tardiamente, esta bancada soltou nota esclarecendo que a Resolução é legal já que a Lei Orgânica do Município estabelece que compete à Câmara fixar o subsídio dos Vereadores. Ainda, defendeu que o aumento ficou abaixo da inflação do período, respeitou os limites constitucionais e o impacto deste reajuste é ínfimo no orçamento da Câmara.
Com posição contrária ao aumento, um outro vereador argumentou que “a aprovação [do reajuste] é inoportuna neste momento de redução de arrecadação da prefeitura”.

 

Diante dos argumentos, fica nítido que o legislativo está restrito a embasar seu ato na legalidade, ignorando a questão da moralidade. Moralidade que assim como a legalidade é princípio constitucional no qual a Câmara está vinculada.

 

Perante a polêmica decisão, foi ajuizada uma Ação Popular em face da CMSP, onde foi suspensa liminarmente os efeitos da Resolução 12/2016, determinando a manutenção dos vencimentos anteriores, pois se entendeu que não foi respeitado o prazo estabelecido na Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

Em nota, a CMSP alega a constitucionalidade e legalidade do aumento e que tomará as devidas providencias jurídicas pertinentes ao caso.

 

Esta decisão põe em cheque a narrativa dos vereadores acerca da legalidade, pois o juiz entendeu que não foi observado o prazo estabelecido em lei específica, já que não pode ocorrer aumento de despesa com pessoal nos 180 dias anteriores ao final do mandato, bem como que tal conduta gera danos à municipalidade.

 

Ainda que a conduta dos supostos representantes do povo esteja respaldada na legalidade é patente que diante da situação econômica, tal medida é imoral. Diante disso entende-se que “a legalidade de uma ação não pode ser justificativa quando sua moralidade é questionada”.

 

Aparentemente há conflito de princípios, pois sua aplicação acarreta decisão antagônica, já que a preservação de um deles pressupõe a preferência ocasional sobre o outro. Assim questiona-se, qual princípio prevalecerá nesta questão? Cena dos próximos capítulos.

 

Fato é que o direito é interpretativo, portanto, obviamente se interpreta da forma mais conveniente e benéfica a si próprio.

 

Essa é mais uma questão que foi judicializada e será decidida nos Tribunais. Evidente que se prevalecer à tese da legalidade, a vereança paulistana sairá beneficiária, caso por um lapso de consciência, seja invocado o princípio da moralidade e a Câmara não recorra da decisão, será a sociedade a beneficiária.
Outro ponto a ser analisado é a questão da eficiência da Administração Pública, que também é princípio constitucional.

 

Se o Legislativo for eficiente, provavelmente a população não se revoltará com o aumento expressivo dos nobres vereadores.

 

Destarte, sendo a legalidade, a moralidade e a eficiência princípios constitucionais, cabe ao legislativo paulistano o cumprimento de todos estes princípios e não apenas o cumprimento de um ou outro.

 

Aos olhos da população, o Legislativo paulistano não demonstrou sua eficiência, o que fez com que sua atitude, embora legal, seja imoral.

Diga aos vereadores o que podem fazer com os 26% de aumento que aprovaram para os seus próprios salários

 

 

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Menos dinheiro para a limpeza pública, muito mais para obras na Câmara Municipal.

 

Reajustes mínimos para servidores públicos, e aumentos robustos para os próprios vereadores.

 

 

Em duas frases, um resumo do comportamento da maioria dos vereadores de São Paulo.

 

 

No Orçamento do Município aprovado terça-feira (20/12), eles tiraram R$ 88 milhões da verba da limpeza urbana; parte deste dinheiro, cerca de R$ 30 milhões, será usada para tocar obras na sede do próprio legislativo. Por um prédio mais legal, teremos ruas mais sujas.

 

 

Na mesma sessão, eles aprovaram aumento de 26,3% para os seus próprios salários (ou subsídio) e, assim, no ano que vem, passarão a receber R$ 18.991,68.

 

 

A cara de pau deles é tal que no site da Câmara a notícia que trata do reajuste não informa o valor do novo salário e tem como destaque na manchete: “vereadores aprovam subsídio abaixo da inflação” . Na nota, lembram que eles não tiveram aumento nos últimos quatro anos, período em que a inflação, medida pelo IPCA, foi de 28,49%.

 

 

Pobres coitados!

 

 

Vão além: “o subsídio aprovado também minimiza a ausência de benefícios. Vereadores não recebem férias ou décimo terceiro salário, como a maioria dos trabalhadores assalariados” – é o que escrevem.

 

 

Estão de brincadeira!

 

 

Vereador não é profissão. É encargo.

 

 

É cargo público para o qual eles se candidatam por vontade própria e sem prejuízo as demais funções, mesmo em uma cidade como São Paulo.

 

 

Se acham que ganham pouco, vão trabalhar noutra freguesia.

 

 

Será que como médico, advogado, comerciante ou professor, profissões que alguns deles exerciam ao se candidatar, teriam direito a verba indenizatória, gabinete com 17 funcionários, carro, motorista e mordomia?

 

 

Os vereadores falam ainda que “na prática, o aumento apenas recompõe o que foi perdido com a inflação corrente”. Não tiveram a mesma sensibilidade quando se tratava do salário dos servidores públicos. A maior parte dos funcionários do município teve reajuste de menos de 1% no mesmo período, informa a OAB-SP.

 

 

Que fique claro. Defendo que vereadores tenham salários compatíveis as atividades que realizam. Estou fora do grupo dos que entendem que deveriam trabalhar de graça. Considero inviável no caso de grandes e médias cidades. No entanto, além dos parâmetros já existentes na Constituição, que impõe teto de 75% dos vencimentos de deputados estaduais, ao discutirem seus subsídios, os vereadores deveriam se pautar por duas outras regras: a arrecadação do município e o bom senso.

 

 

Os aumentos concedidos a eles próprios não deveriam ser superiores ao aumento da arrecadação da cidade.  Conforme previsão da prefeitura, no ano que vem São Paulo vai arrecadar 5,9% menos do que neste ano. Faltará dinheiro para investimentos, faltará dinheiro para a saúde … faltará dinheiro para limpeza pública, porque eles decidiram gastar parte em obras na Câmara.

 

 

Respeitar a regra do bom senso já seria suficiente. Mas parece muito para os vereadores, uma gente que estava até agora há pouco nas ruas em campanha eleitoral. Gente que teve contato com o trabalhador comum. Ouviu deles as dificuldades que o cidadão tem enfrentando para se manter empregado. Muitos aceitando receber menos para garantir algum no fim do mês. Outros nem esta sorte tiveram. Estão desempregados.

 

 

Estavam interessados mesmo em ganhar mais um voto, e pouco em ouvir a insatisfação popular.

 

 

Como cerca de 70% desses vereadores se reelegeram e voltarão à Câmara Municipal no ano que vem, cabe aos paulistanos ficarem de olho no que eles pretendem fazer. Controlar cada ato e projeto aprovado. Entender como estão se comportando diante dos temas fundamentais para cidade.

 

 

Uma das maneiras de fazer esta cobrança é enviando mensagens pelas redes sociais ou por e-mail. O endereço deles está na página da Câmara Municipal de São Paulo.

 

 

Aproveite a sua indignação e mande um recadinho a cada um dos vereadores de São Paulo. Por exemplo, diga a eles o que você gostaria que fizessem com os 26,3% de reajuste que aprovaram para os próprios salários? Mas diga com todo o respeito, é lógico: talvez assim, eles entendam o recado das ruas e parem de brincar com a nossa paciência.

Conte Sua História de SP: Terra da garoa, terra de gente boa

 

Por José Maria Pires

 

 

Terra da garoa

Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa

Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé

Terra também do café

 

Terra da Independência

Terra com Jurisprudência

 

Terra de nações e suas crenças

Terra em paz com suas diferenças

 

Terra das artes e das Ilusões

Terra de oportunidades mediante as ações

 

Terra que riqueza produz

Terra que a pureza conduz

 

Terra de muitos amores

Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil

Um pedaço desse continente chamado Brasil.

 

 

Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Claudio Antonio e narração de Mílton Jung. Você participa enviando textos para milton@cbn.com.br

Adote um Vereador: Vai pegar geral!

 

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Ao contrário do que possa imaginar, com base no título deste texto, aqui não escreverei sobre a Lista da Odebrecht e o estrago que fará em quase todos partidos políticos brasileiros, apesar de o assunto que será tratado ter a ver com a necessidade de fiscalizarmos a atuação dos políticos que elegemos. E não me venha com esse papo de que “eu não votei nesses aí”. Se participamos do processo eleitoral – e todo brasileiro, a partir dos 18 anos, é obrigado a participar -, somos responsáveis pelo resultado das eleições.

 

“Pegar geral” foi a expressão que me veio a cabeça assim que recebemos à mesa do café do Pateo, centro de São Paulo, um grupo de jovens interessados em desenvolver o projeto Adote um Vereador, na cidade de São Bernardo, no ABC Paulista. Neste segundo sábado do mês, como fazemos desde 2008, nos encontramos para conversar sobre a experiência que cada um vivenciou no exercício da cidadania.

 

A turma de São Bernardo, formada pela Isabela, Sarah, Emerson e William, chegou bem intencionada e esperamos que siga com este ânimo todo. Queriam saber como levar o Adote para a cidade e qual estrutura deveriam criar para o projeto ser aceito na cidade. E pela Câmara Municipal.

 

Uma das ideias que surgiram foi de convencerem 28 moradores de São Bernardo a participarem do Adote, pois assim teriam um “padrinho” para cada vereador que assumirá o cargo no dia 1º de janeiro. Um desafio e tanto se levarmos em consideração a dificuldade para se mobilizar pessoas em torno dessa causa. Mesmo que a maioria de nós pragueje o tempo todo contra os políticos, e motivos não nos faltam, poucos estão dispostos a reservar um tempo da sua semana para fiscalizar o trabalho deles e cobrar decisões que atendam a necessidade do cidadão.

 

Quando surgiu, o Adote tinha a pretensão de colocar um ou mais cidadãos atrás de cada um dos 55 vereadores da capital paulista. Criaríamos uma rede de informação que ajudaria outros cidadãos a entender melhor o que cada vereador fez (ou deixou de fazer) em seus quatro anos de mandato. Até hoje é comum as pessoas quererem saber quantos vereadores estão adotados. No sábado mesmo, o Ricardo, em nome de mais dois amigos, esteve com a gente pela primeira vez para saber se uma das vereadoras que eles querem acompanhar já tinha “padrinho”. Não, não tinha, e mesmo que tivesse, isso não os impediria de fiscalizar o trabalho da dita cuja. Quanto mais gente de olho, melhor.

 

Mesmo que alguns ainda sigam este ou aquele vereador – e é bom que o façam -, faz algum tempo que percebo ser muito mais prático desenvolver ações em conjunto, ou seja, olhar para a Câmara como um todo, às vezes focando em algum parlamentar que se destaque por iniciativas absurdas ou por comportamento estranho ao parlamento (confesso que fiquei em dúvida quanto a expressão “comportamento estranho”, pois alguém haverá de pensar que estranho no parlamento é fazer o dever de casa). Ou seja, diante de nossos limites, creio que a iniciativa possa ter resultados mais efetivos se decidirmos “pegar geral”!

 

Há um outro projeto em andamento na cidade de São Paulo: no Gabinete 56, criado pelo hacker Pedro Markun, a ideia inicial é mobilizar cada cidadão a escolher um vereador, o que retoma a pretensão inicial do Adote e pode ter resultado positivo a medida que a organização está baseada em tecnologia, o que sempre facilita a vida das pessoas. Ainda não sei quantos aderiram ao projeto e tenho a expectativa de que seja um tremendo sucesso.

 

Além da turma de São Bernardo que ficou de nos atualizar com as informações do trabalho que vão iniciar na cidade, e do Ricardo, que saiu do Pateo decidido a começar o controle de uma das vereadores paulistanas, todos os demais que sentaram ao nosso lado são velhos conhecidos de guerra cidadã: Eliana, Alecir, Rute, Gabriela, Lucia, Nina e Silma.

 

Este foi nosso último encontro de 2016.

 

Em 2017, vamos “pegar geral”!

Conte Sua História de SP: o reencontro com Dona Philomena e seu método inusitado de corte e costura

 

Por Ana Rosa dos Santos
Ouvinte da CBN

 


 

 

Eu sou Ana Rosa dos Santos, nascida na cidade de Caetité, Estado da Bahia, e quero participar do programa “Conta sua História de São Paulo”.

 

Cheguei nesta cidade no início de janeiro de l968, com 12 anos de idade e fui morar com minha mãe e cinco irmãos menores na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, próximo à Avenida Paulista. Nessa avenida, no sentido bairro Paraíso, existe o Grupo Escolar Rodrigues Alves e lá cursei o ginásio.

 

Nos anos que estudei de 1970 até 1975 aconteceu coisas boas com os colegas e com os professores. A gente realizava atividades dentro e fora da escola, assim como ir participar do auditório em programas de televisão.

 

Dentre as matérias normais do currículo, existia uma que era Artes e Ofícios lecionada pela Professora Therezinha. Essa professora ensinava corte e costura e modelagem com o método criado pela mãe dela (de nome Philomena) e posteriormente aperfeiçoado por ela, o qual consistia no uso de um esquadro com o nome de “PhiloMétrico” e passou a nos ensinar a modelar, tirar as medidas do corpo, cortar e costurar à mão as peças de roupas que queríamos fazer. Além da costura, a professora ensinava outros feitos da Arte. Daí, quem desejasse seguir na costura, adquiria o material que era o esquadro junto com a apostila, pois era muito fácil de aprender!

 

Eu me lembro que fiz os moldes com as medidas do meu corpo de adolescente que aprendi naquelas aulas e os guardei por vários anos. Com o tempo, perdeu a apostila e os moldes, porém, eu conservei o esquadro. E, às vezes, eu imaginava o que faria com ele se não sabia usá-lo sem a apostila e o guardava outra vez.

 

Foi passando o tempo e eu fiz outros cursos com outros métodos e o “PhiloMétrico” lá…

 

Certa ocasião eu pensei: será que pelo nome do Esquadro “PhiloMétrico” procurando na internet eu acharia alguém ou escola que saberia esse método? Quando no mês de julho ou agosto de 2015 eu acessei o You Tube, digitei o “PhiloMetrico” e surgiu na tela a professora com aquele rostinho mimoso e o mesmo jeito, ensinando com o esquadro elaborado e feito por ela, após quarenta anos. Entrei em contato, na Rua Pitangueiras, Metrô Praça da Árvore; nos reencontramos e voltei a ser sua aluna, eu agora com 60 anos de idade.

 

“Eh! São Paulo, só você para nos dar essas oportunidades.”

Conte Sua História de SP: da longa jornada a bordo do América-maru à minha nova cidade

 

Atsushi Asano
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Faz mais de meio século, desde que abordo do América-maru, atracado no porto  da cidade de Santos, coloquei meus pequeninos pés no chão da minha nova nação.

 

Acompanhado da minha irmã mais velha e do mais novo, e, claro, com os meus pais, em busca das promessas, riquezas, da ideia de que existe esperança de mudança de vida com o trabalho nas terras paulistanas.

 

Como criança em viagem pelos mares e oceanos atravessando a longa jornada, nada lembro do navio, após estudar e trabalhar mais de 40 anos.

 

Há dez anos, sou taxista da cidade de São Paulo. Conheço muitos lugares que são ricos, pobres, mansões, favelas, modernos, antigos, arborizados, abandonados … porém as lembranças desta cidade chamada São Paulo são aquelas que provocam nostalgia e boas recordações. As ruins ficam de lado.

 

Meus pais levavam-me ao Cine Joia, Niterói e Nippon para assistir aos filmes japoneses da época. Foi quando conheci Toshiro Mifune, Akira Kurosawa .…

 

Uma cena que lembro bem ao andar pelo bairro da Liberdade: era muito divertido passar por cima das grades de ventilação dos prédios. Aos olhos de uma criança,  inocência e curiosidade.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O programa vai ao ar aos sábados, no CBN SP.

Avalanche Tricolor: era clássico, mas não era Copa

 

São Paulo 1×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi/SP

 

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O Grêmio tá de olho mesmo é na Copa  (foto LUCAS UEBEL/GremioFBPA)

 

Esqueci não! É falta de tempo mesmo. Assim respondi a alguns amigos que, como você, caro e raro leitor deste blog, percebeu a demora na publicação desta Avalanche.

 

A quinta-feira foi gorda e me afastou do Morumbi, apesar de morar tão próximo do estádio. Já a sexta foi rica e corrida. E mal consegui sentar para escrever.

 

Nosso cotidiano tem sido tomado por compromissos. E precisamos privilegiar uns em detrimento de outros. Aprendi no tempo que a ideia do ser humano multitarefa é lenda urbana. Foi criada por gestores dispostos a nos impor cada vez mais trabalho.

 

Por mais que consigamos realizar muitas tarefas ao mesmo tempo, tenha certeza que apenas uma delas será feita com afinco e precisão. As demais correm no piloto automático.

 

Isso não quer dizer que deixei de assistir ao Grêmio neste que é um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.

 

Independentemente da situação que as duas equipes estejam na competição, ver os tricolores gaúcho e paulista frente à frente é sempre esperança de bom jogo e lembrança de grandes conquistas. Para provar isso, ouvi o locutor da televisão informar que partidas entre os dois clubes não terminam em 0x 0 faz um catatau de anos. E o jogo de ontem manteve a escrita com o 1a1 final.

 

Em deslocamento de uma cidade a outra, aqui na região de São Paulo, assisti ao jogo pela tela do meu celular e diante do que vi, sempre que a conexão permitiu, o resultado pode ser explicado de maneira simples: um time jogou no primeiro tempo e o outro, no segundo. Além disso, fomos de uma precisão singular: um chute no gol, um chute dentro do gol.

 

Claro que tem outros aspectos que precisam ser levados em consideração.

 

Por mais que os dois pontinhos que deixamos de ganhar fossem importantes para nos colocar na zona de classificação da Libertadores, imagino o quanto tem sido difícil convencer jogadores – e a própria torcida – de que existe alguma coisa a ser conquistada além da Copa do Brasil.

 

Pede-se empenho no Brasileiro e na cabeça do cara vem a imagem da partida final da Copa do Brasil. Exige-se um esforço extra para recuperar a bola e aparece o temor de uma lesão capaz de afastá-lo da decisão. Quer-se uma vaga na Libertadores e o jogador logo pensa que está prestes a conquistá-la por outro caminho e com direito a levar a taça.

 

Como lembrei: até podemos fazer várias tarefas ao mesmo tempo, mas tendemos a priorizar apenas uma. E essa uma, no caso do Grêmio, você sabe bem qual é.