Fora da Área: a perda de tempo para quem chega ao Brasil

 

 

A moça de ar desolado, pendurada na barra do ônibus e esmagada entre passageiros é a imagem escolhida pela The Economist para ilustrar o Brasil que recebe turistas estrangeiros na semana da Copa do Mundo. A reportagem que está na capa do site da revista inglesa tem o título “Traffic and tempers” (Tráfego e temperamentos) e se inicia com o lamento de um restaurateur americano, Blake Watkins: “no momento em que você aterrissa no Brasil começa a desperdiçar tempo” constatou ao chegar no país pelo aeroporto internacional de Guarulhos, na manhã de 9 de junho, quando São Paulo enfrentava mais um dia de greve no metrô. O primeiro desperdício, conta a reportagem, foram os 15 minutos para conseguir uma vaga para o desembarque dos passageiros, o que, convenhamos, está dentro dos padrões brasileiros. Para tirar a paciência, mesmo dos mais mal-acostumados entre os nossos, foram as duas horas e meia esperando os táxis para a capital, que não chegavam por estarem bloqueados nos congestionamentos. O repórter estranhou que táxis que traziam passageiros retornavam vazios e descobriu que mais importante do que atender as pessoas era respeitar o monopólio que impede que motoristas sem licença da empresa que explora o serviço no aeroporto trabalhem. Não seria tão estranho se houvesse sistema de transporte público à disposição, mas a reportagem lembra que foram concluídos apenas cinco dos 35 projetos de mobilidade previstos para a Copa do Mundo. Se não me falha a memória, mesmo que fossem entregues, o inglês permaneceria na fila pois Guarulhos não seria contemplado. Após receber essas boas-vindas no Brasil, a reportagem do The Economist entendeu melhor a pesquisa do Pew Research Center que identificou haver 72% dos brasileiros insatisfeitos com a forma como as coisas estão indo no Brasil e, também, a ausência do “ouro, verde e azul” nas ruas. Ao mesmo tempo, tem consciência que o mau humor aparente possa sumir assim que o torneio se iniciar, e se a seleção de Luis Felipe Scolari tiver bons resultados em campo a alegria, considerada uma marca do povo brasileiro, será retomada, mesmo diante do grande afluxo de turistas, greves e ocasionais protestos.

 


A reportagem completa da The Economist você lê aqui

Conte Sua História de SP: o nosso apartamento da Cohab

 

Por Maria Claudia Oliveira Paiva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meus pais se conheceram em Minas Gerais. Se conheceram em um conservatório de música (sim, a arte os uniu), decidiram se amar e vieram tentar a vida em São Paulo. Morei primeiro em Higienópolis, por pouco tempo, era muito pequenininha, e em seguida fomos morar no bairro Alto da Mooca, zona leste. Tenho lembranças maravilhosas desse tempo. Apesar das dificuldades, da vida simples, naquela época eu e meu irmão brincávamos muito na rua, andávamos muito de bicicleta na pracinha que tinha próximo de casa. Meu pai era taxista e minha mãe, costureira.

 

Cresci ouvindo clássicos da música erudita por influência do meu pai. Foi por causa dele, também, que conheci o grande compositor e violonista Dilermando Reis, bem como o compositor e mestre do cavaquinho Waldir Azevedo.

 

Em um dia triste do mês de fevereiro, numa dessas fortes chuvas de verão, a parede da cozinha de nossa casa veio abaixo. Me lembro que estávamos todos juntos, minha mãe costurando, meu pai ouvindo música, eu e meu irmão brincando na mesa. Nos hospedamos de forma provisória na casa da dona do imóvel, que morava na frente, mas em pouco tempo nosso apartamento da Cohab foi liberado, e fomos morar em Itaquera, também na zona leste.

 

Lá vivi dos 7 aos 25 anos, no Conjunto Habitacional José Bonifácio. Foi a época mais marcante da minha vida, pois ali passei da infância para a adolescência, e desta para a idade adulta. Em nosso prédio aconteciam muitas festas para as crianças: dia das mães, dia dos pais, festa junina, Natal, ano novo. Um dos moradores tinha uma das paredes de seu apartamento tomada por caixas de som. Seu apelido era Deca. Nós ficávamos ansiosos esperando: “hoje o Deca vai descer o som!”. E a festa rolava até tarde. Os vizinhos não reclamavam, pois era um ambiente muito familiar.

 

Primeira surra (sim, apanhei em pleno ano novo por ter passado a noite inteira passeando pela Cohab com um namoradinho), primeiro namorado, primeiro emprego, faculdade. Minha formação aconteceu ali e até hoje guardo essas boas lembranças, inclusive das várias amizades que fiz.

 

Mas minha paixão mesmo é pelo centro de São Paulo. Quando comecei a trabalhar no Banco Real, primeiramente na Rua Benjamin Constant, do lado da Praça da Sé, e depois na Rua Boa Vista, eu fui apresentada a esse lugar delicioso. Me lembro que os happy hours de sexta-feira eram sagrados. Eu e minhas amigas explorávamos cada canto, cada bar, cada boteco, em busca de uma boa conversa, uma cerveja gelada e uma boa paquera.

 

Hoje, continuo explorando esse lugar, mas com um olhar diferente. Hoje eu observo mais as pessoas, seus estilos, a arquitetura dos edifícios e das casas, a arte e a manifestação cultural nas ruas….. Tanta coisa boa que muita gente deixa de conhecer, pois preferem ficar fechadas dentro de um shopping center.

 

Irei comemorar mais um aniversário de São Paulo, mas desta vez será especial. Conheci pela internet uma moça que mora em Governador Valadares/MG. Tenho parentes lá e me lembro de ter ido conhecê-los quando eu era muito pequenininha. Essa moça, chamada Dayse, me ajudou a encontrar meus parentes que havíamos perdido contato há mais de 3 anos. Ela virá conhecer São Paulo e ficará alguns dias hospedada na minha casa. Irei mostrar a ela um pouco da cultura, da beleza e das mazelas dessa nossa cidade, inclusive irei levá-la para conhecer um lugar que sempre me leva às lágrimas quando vou: a Sala São Paulo.

 


Maria Claudia Oliveira de Paiva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte a sua história aqui na CBN, escreva para milton@cbn.com.br. Melhor ainda, grave em áudio e vídeo lá no Museu da Pessoa. E só agendar pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net e já sai de lá com um DVD em mãos.

Avalanche Tricolor: não perdemos nada, ou quase

 

São Paulo 1 x 0 Grêmio
Brasileiro – Morumbi (SP)

 

 

Há certas amizades que conservamos para a vida e quando estes amigos querem estar ao nosso lado jamais devemos rejeitar o convite. Foi o que aconteceu neste fim de semana no qual um casal de amigos nos proporcionou momentos bastante agradáveis distante da capital paulista, o que nos impediu de estar no Morumbi, na noite de sábado. Eles não tinham obrigação de olhar a tabela do Campeonato Brasileiro nem nós de usá-la como desculpa e desperdiçar o convite que nos fizeram. Existem chances que não podemos perder de jeito nenhum na vida. E nós não a perdemos por completo. Até porque tive a oportunidade de assistir ao jogo pela televisão e acompanhado por bons copos de vinho, fator que deve ter amenizado o impacto do resultado final.

 

Tivemos a chance, e agora me refiro ao Grêmio, não mais ao prazer da companhia dos amigos, de terminar a sétima rodada do Campeonato Brasileiro como líder absoluto. No mínimo, como gostam de escrever alguns colegas do jornalismo esportivo, nós tivemos a oportunidade de dormir na liderança, expressão com a qual não concordo, pois quem dorme no ponto acaba sendo surpreendido, portanto o melhor é estar sempre à frente e atento, especialmente em competição tão equilibrada. Logo no começo, sabendo da parada que teremos na nona rodada, devido aos jogos da Copa do Mundo, cheguei a expressar aos mais próximos que o ideal era terminar esta etapa como líder ou, sem muita pretensão, no grupo dos quatro melhores. Isto certamente daria tranquilidade para Enderson Moreira encaixar melhor as peças no time, testar alternativas táticas e retomar o bom desempenho do início do ano quando arrasamos na primeira fase da Libertadores e passamos fácil até as finais do Campeonato Gaúcho. Houve uma queda de produção evidente e alguns jogadores que estavam se sobressaindo naqueles momentos quase desapareceram, incluo na lista nossa maior esperança de talento, Luan, que, parece, voltou a jogar bem ao vestir a camisa da seleção brasileira. Que seu bom futebol esteja na bagagem quando retornar ao Grêmio.

 

Ainda não jogamos fora a oportunidade de chegar à parada do Mundial em boa posição na tabela, independentemente da derrota de sábado e dos resultados paralelos deste domingo. Com seis pontos nas duas próximas partidas, quarta-feira à noite, contra o Sport, em Recife, e no domingo seguinte, contra o Palmeiras, no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, ficaríamos em lugar privilegiado, com certeza. E o tempo necessário para ajeitar o time, voltar a atacar mais, chutar mais e marcar (gols) mais seria mais bem aproveitado. Ou seja, se não levarmos em consideração a atuação de alguns dos nossos na noite de sábado, o placar não chega a ser uma desgraça, pois muita gente grande vai deixar pontos no Morumbi e o próprio São Paulo desperdiçará os seus pelo caminho.

 

Não perdemos nada neste sábado; nem o Grêmio por tudo que ainda vem pela frente; nem eu que tive o resultado consolado por excelentes amigos e bom vinho. Agora, como escrevi no primeiro parágrafo desta Avalanche: existem chances que não podemos perder de jeito nenhum na vida. Não é mesmo, Barcos!?

 

(Atualizado na segunda, 6h45)

 

PS1: e após a rodada completa vê-se que o estrago foi pequeno mesmo e lá estamos nós no G4.

 

PS2: hoje, gravo Bola da Vez, na ESPN, com nosso atacante Barcos. O que você acha que eu vou perguntar para ele?

 

A foto desta Avalanche é do site Gremio.net

Absurdo: vereador quer comércio em área exclusivamente residencial

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

As ZERs Zonas exclusivamente residenciais, representadas por 55 entidades de moradores, tem se manifestado pela manutenção destas áreas estritamente como moradia. Por isso mesmo, foi com rejeição que verificaram emenda do vereador Ricardo Nunes do PMDB propondo comércio e serviços nestas regiões. Em função disso, um dos diretores do Defenda São Paulo, o administrador e músico Sergio Reze, nos procurou para contestar a ação do vereador, principalmente em relação à justificativa apresentada na emenda, quando o “nobre” legislador coloca:

 

“A apresentação dessa emenda pretende que o PDE Plano de Desenvolvimento Estratégico da cidade esteja em total acordo com a realidade de nossa metrópole mista, compacta e necessitada de pequenos comércios e serviços que melhorem a qualidade de vida dos moradores”.

 

Sergio Reze e todos os demais moradores das 55 entidades gostariam de saber de onde o “ilustre” vereador tirou esta afirmativa. Nos últimos dois meses, as 55 entidades de moradores apresentaram claramente manifestos, diretamente às autoridades municipais e publicamente defendendo a preservação destas áreas, bem como justificando as vantagens para a cidade como um todo. Ao mesmo tempo, Sergio Reze também informa ao “ilustre” vereador, que já existem nas áreas lindeiras às ZERs comércio e serviços. Outro ponto que os moradores gostariam sempre de lembrar, e neste caso especificamente ao legislador peemedebista, é que seria melhor se preocupar com os 96% do município, pois os bairros verdes ocupam apenas 3,94% da cidade.

 

Na verdade, preocupação mesmo deverá estar na pauta de hoje para os moradores preservacionistas, pois haverá audiência na Câmara Municipal para analisar mais de 400 emendas ao PDE.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: poema da cidade

 


Por Dryca Lys
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu nasci e cresci nesta cidade maravilhosa chamada São Paulo. E com seus mistérios e sua fantástica frieza aconchegante. São Paulo é uma experiência de vida, é uma chance única de encontrar vários países em um único lugar.

 

Você pode conhecer a cultura alemã, entrar em contato com a cultura indígena, se sentir no Japão, conhecer a cultura coreana, judaica entre várias e várias culturas sem sair de São Paulo. Graças a magia que existe aqui, você pode se inspirar e difundir arte. Para o aniversário da minha São Paulo, envio este poema. É o que sinto e o que vejo nesta metrópole que chamo de lar

 


Este poema é parte integrante do livro Clube de Autores

 

São Paulo

 

Existem lugares que te fazem sonhar
outros fazem você se sentir mal
mas existe um lugar que te enfeitiça
um lugar que acende seus desejos, atiça
sua vontade de estar ali presente
um lugar único que te faz voar…

 

Mesmo caminhando nos becos escuros
as ruas brilhando como diamante
a música se espalhando e de repente
as estrelas caem e você anda pela poeira sideral
todos os cantos desse lugar parecem seguros
nem sempre… Mas um tapete brilhante

 

se estende aos seus pés, você chora
sozinho, canta em meio a multidão
nos dias de chuva, a brisa aquece
seus anseios, a noite vem, incandesce
seus desejos, a noite se esconde, vai embora
nos dias de sol você vê a sua solidão…

 

Você pode estar em vários lugares, sem sair
de dentro dela, mas não há nada
melhor do que estar lá, faça
o que for, corra, vá e volte, você pode ir
mas ela esta dentro de você, a saudade
te queimará inteiro, você sempre volta para esta cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar deste quadro enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: os pirilampos da Mooca

 

Por Cleide Cais
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Era 1954. Eu tinha sete anos. Morávamos na Mooca, bairro de preferência dos descendentes de italianos que haviam imigrado em busca de terras férteis. Minha avó, que viera de Mantova, tinha sua chácara naquele mesmo bairro, onde cultivou por muitos anos verduras que vendia e com cujo produto criou seus quatro filhos.

 

A Mooca era mágica para mim. Naquela época eu já revelava a semente de leitora contumaz, que sou. Aprendera a ler com seis anos e sempre estava procurando leitura, me recordo de que minha diversão era ler o que quer que fosse que estivesse em placas de ruas do bairro.
Meus horizontes eram a Mooca. A Rua Florianópolis onde estava nossa casa no número 629 não tinha asfalto, muito menos calçadas. Era um lamaçal quando chovia; um lamaçal lindo, onde eu afundava minhas alpargatas para horror da minha mãe.

 

Adorava a chuva, que continua até hoje a ser alvo de minha extrema paixão. Tinha uma ligação mágica com um limoeiro que estava plantado no terreno daquela modesta casa: seus frutos eram alaranjados e sua polpa também. Mas a magia vinha dos pirilampos que nele tinham sua morada.
À noite, além das estrelas e da lua, quando presente, eu tinha as luzes multi-coloridas dos pirilampos.

 

Porém uma noite foi especial: a noite do 25 de janeiro de 1954: a Cidade de São Paulo fazia 400 anos. Uma grande festa foi programada a ser realizada em um parque muito distante do Bairro da Mooca.

 

Minha mãe colocou em mim e na minha irmã, então com cinco anos, nossos melhores vestidos, meias brancas e o par de sapatos brancos de dias de festas. Fomos nós quatro: minha mãe, linda, brilhando em sua modéstia, meu pai, belo e magnífico, elegante em seu único terno.
Fizemos uma longa viagem em duas linhas de ônibus, até chegarmos ao local da festa do quarto centenário da Cidade.

 

São Paulo era, na ocasião, a maior cidade da América Latina com 2,5 milhões de habitantes. Os preparativos para as comemorações tiveram início três anos antes da data, culminando com a entrega aos paulistanos do Parque do Ibirapuera espaço com cerca de um milhão e meio de metros quadrados, cujo projeto arquitetônico foi feito por Oscar Niemeyer e o paisagismo por Roberto Burle Marx.

 

O parque foi o presente para a Cidade destinado a ser um símbolo do patrimônio coletivo e ponto de referência obrigatório da Cidade de São Paulo como constou do “Boletim Informativo da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, n. 02 – São Paulo – Brasil – Junho 1953, Arquivo Edgard Leuenroth”.

 

Chegando ao local, após a longa viagem, eu estava encantada com tudo o que via, automóveis, muita gente alegre, luzes, fogos, porém, o clímax de repente me atingiu: de um aviãozinho chovia do céu milhares e milhares de estrelas de papel prateado sobre todos nós! Eram estrelas comemorando o IV Centenário da minha Cidade! Quanta emoção ao notar todas as crianças correndo para tentar pegar aqueles lindos pedaços de papel prateado, aquelas magníficas estrelas que brilhavam como a luz dos pirilampos do meu limoeiro.

 

Por muitos anos guardei a minha estrela de papel laminado dentro de um livro. Porém, o tempo passou, para chegar aos meus 67 anos fui perdendo coisas, perdendo pessoas, perdendo bichos, perdendo amigos, perdendo até a mim mesma, e, com essas perdas se foi a estrela do quarto centenário da minha Cidade.

 

Mas a emoção eu não perdi , hoje, lembro de tudo, como se a festa estivesse se repetindo e todas as pessoas amadas estivessem ao meu lado, correndo para catar as estrelas de papel prateado que o aviãozinho derramava.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa (contesuahistoria@museudapessoa.net).

Conte Sua História de SP: prefácio da minha vida que estava para começar

 


Por Sônia Santos
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Lá pelos anos 60, numa pequena cidade do interior de Minas…

 

Quando eu era jovem havia muita gente à minha volta, muitos com quem conversar, família, as amigas do colégio, os vizinhos da minha rua.

 

Suzana e Margareth moravam na esquina, duas casas planas, cheias de luz, cercadas por um magnífico jardim e toda a nobreza de um quintal de amoras e pitangas. Cresceram ali, na companhia de numerosos irmãos mais uma dezena de primos, todos aos cuidados da avó enquanto os pais e os tios trabalhavam na fazenda.

 

A casa da Ercília e Tomas guardava certo mistério, creio, por estar quase sempre, toda fechada. Os móveis escuros, austeros, as paredes forradas de sisudas fotografias, a penumbra, o silêncio … Era o cenário perfeito aos segredos da nossa efervescente juventude.

 

Contava também com a cumplicidade da minha avó Vicentina, com quem passava eternas tardes, ela falando do seu passado de tantos risos e lágrimas como só o passado das avós sabem ser e eu, do meu insignificante presente. Foram uns poucos anos, mas duraram toda uma vida! Nada, não havia nada que fizesse despertar em alguém, qualquer curiosidade. Vida leve de adolescente sem outra preocupação que a própria felicidade.

 

Assim seguia o tempo, mudando de vez em quando alguns nomes, poucos lugares e, quase sem pensar, lá estava eu mudando o rumo dos acontecimentos. Certo dia, com o solene apoio da minha avó e o olhar espantado do meu irmão, decidimos, minha irmã e eu, ir morar em São Paulo. Era fim de ano e havia um justo propósito: Ano Novo – Vida Nova! O futuro sorria-nos maravilhoso e a cidade grande nos fascinava!
Poucos dias depois, com todos os nossos pertences numa pequena mala, partimos sem medo. Nossa vida acabara de começar…

 

Sônia Santos foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10 e meia da manhã, no programa CBN São Paulo. Você pode contar mais capítulos da nossa cidade enviando textos para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapesso.net.

Uso e abuso do barulho no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O bairro do Morumbi é local dos mais expressivos dos usos e costumes desejados na cidade de São Paulo. Visado pela riqueza das casas e pelo contraponto das favelas, moldou marca de visibilidade e atratividade. Fato fácil de constatar pela utilização do nome Morumbi a inúmeros bairros limítrofes que se designam como tal.

 

As características da região, com ruas arborizadas, silenciosas e absolutamente residenciais, formam uma reserva ecológica da cidade e para a cidade. Esta qualificação tem sido mantida graças ao esforço da coletividade residente. Edifícios, comércios, cassinos, locações temporárias para festas, etc. tem sido de certa forma bloqueada.

 

Entretanto, uma cultura local de respeito ao direito do outro tem sido transgredida por um novo fenômeno baseado na divulgação pela internet. Casas desocupadas de alto padrão estão sendo usadas para festas geridas por empresas especializadas em eventos noturnos. São iniciados às 17hs e encerrados às 3hs da madrugada. Barulho de música e de gritos se aglutina, criando verdadeira agressão sonora.

 

A solução, antes dificultada pela falta de regras municipais e ausência de equipamento policial adequado para agir, por falta de provas, está facilitada. As provas estão nos sites das empresas promotoras, à disposição das autoridades, e ao alcance dos moradores. Por exemplo:

 

 

Encaminhei os endereços encontrados na internet ao CONSEG MORUMBI, que certamente fará cumprir o respeito urbano que todos merecem.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

 


PROPRIETÁRIO RESPONDE SOBRE “USO E ABUSO DO BARULHO NO MORUMBI”

 

Na quinta-feira, dia 17 de abril, o senhor Luis Phelipe Batista, que se apresentou como proprietário do imóvel citado no post acima, publicou comentário com seu posicionamento sobre o tema que reproduzimos a seguir para sua avaliação:

 

Bom dia Sr.(s)

Sou Proprietário do imóvel e desde já informo que anúncios e informações via web detalhando realização de eventos no local (minha casa) não são oficiais. Realizei diversas festas em minha residência porém concordo que realmente comecei a quebrar a rotina de meus vizinhos o que não é ético, na semana passada passei de residência em residência deixando um comunicado sobre o fato, deixando bem claro que não irá mais ocorrer estas perturbações, pedi a colaboração de todos e um voto de confiança, após a última festa que realizei em minha casa no último dia (11/04/2014) não iremos mais realizar festas de grandes proporções, confraternizações todos temos o direito de fazer uma vez ou outra, desde que não quebre a rotina de vida de nossos vizinhos, peço desculpas e desconsidere todas e quaisquer publicidades que divulgam festas na minha residência, fiquei sabendo desta publicação através da CBN que me procurou na manhã de hoje (17/04/2014), neste anúncio contém informações que não são reais e contatos que não têm nenhum envolvimento comigo, estou entrando em contato com os responsáveis para sanar este problema, ressalto que não irá ter futuras festas de grandes proporções e todos os problemas já estão resolvidos, a repórter que está cuidando da matéria só está tendo feedback excelente referente a minha pessoa e minha idoneidade, então resumo que nem tudo que o Sr. relatou acima todos estão de acordo, mas enfim preço desculpas novamente, meu e-mail está disponível para que possamos tratar deste assunto de maneira mais eficiente.

Obrigado,

Luiz Phelipe Baptista

Conte Sua História de SP: minha festa de debutante não foi por água abaixo

 

Por Beth Russo
Ouvinte-internauta da CBN

 


 

Minha rua ficava no Bairro do Cambuci. Rua Freire da Silva. Eram os anos 50/60. No começo nem era asfaltada e o esgoto era a céu aberto. Depois veio o asfalto. Foi uma grande melhoria. Só tinha um problema. Eram os dias de chuva. Enchia a qualquer chuvinha. Todas as casas tinham um murinho na porta ou comportas para a água não entrar. Mas não adiantava. A água é poderosa e quando não “pulava” o murinho, vertia pelas paredes. Minha mãe colocava pedaços de jornal nas frestas da porta, mas também não adiantava muito. Para meu irmão e eu era uma festa: fazíamos barquinhos de jornal e ficávamos na janela vendo-os partir. Às vezes passava um caminhão na enchente e formavam grandes ondas e aí entrava nas casas. As mulheres saiam a xingar, mas as crianças adoravam ver aquele mar bem na sua porta.

 

Eu estudava no Colégio Rainha dos Apóstolos (tinha bolsa, porque era ótima aluna). Para ir para escola, os bombeiros levavam os moradores de barco até a parte seca. Era uma festa. Sentia-me em Veneza. Outras vezes tínhamos botas de borracha, cano alto. Sempre que alguém precisava sair, um familiar acompanhava até onde não havia água e trazia as botas de volta. Nunca ficamos doentes. Quando a água baixava era hora da limpeza. Dava um trabalhão. Desinfetar tudo, esperar secar, raspar o chão, escovão, etc.

 

Quando completei 15 anos, era moda fazer uma festa, com 15 pares de amigos, com velas acesas e tudo mais. Era em nossa casa mesmo. Tinha a vitrola, um bolo, pão com patê e cuba libre. Só que no dia caiu a maior chuva e encheu a rua. Não teve festa. Mas no dia seguinte apesar de tudo conseguimos reunir todo mundo e eu tive minha festa de 15 anos. Era tudo tão simples! Contentávamos-nos com tão pouco! E éramos felizes!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar sua história para milton@cbn.com.br ou agenda entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

Conte Sua História de SP: na casa do vigário

Por Sônia Maffei

 

 

Minha história sobre a querida metrópole,tem início no fim de 1940,até início de 1960, morava com minha família na cidade de Itu,onde nasci,assim que podia minha mãe,eu e minha irmã, vínhamos para a capital visitar parentes, para mim era uma alegria imensa ,quando era anunciada a viagem,e nem dormia devido a ansiedade.

 

Viajávamos apenas,eu,minha saudosa mãe,e também minha falecida irmã, papai também já em outro plano espiritual, ficava trabalhando, pois era advogado,e nunca tirava férias,pois teria que se manter por conta própria,como todo profissional liberal. Veja como as coisas mudaram em São Paulo, geralmente ficávamos hospedadas na Casa Paroquial de Santa Cecília, pois duas tias de minha mãe,minhas tias avós,tia Ditinha ,e tia Inacinha, eram funcionárias da casa paroquial,e o vigário,gentilmente permitia que parentes das empregadas ali fossem hospedadas.

 

A Casa Paroquial ,era situada à rua Frederico Abranches,e posteriormente transferida para a Fortunato,passeávamos com segurança pelas ruas das imediações, pois,o bairro dos Campos Elíseos,ali perto era onde estava a sede do governo estadual.

 

São Paulo era uma cidade bem policiada,e o trânsito organizado quando eu era criança, vínhamos de trem,para cá ,desembarcávamos na estação Júlio Prestes e caminhávamos com segurança até o bairro de Santa Cecília. O bairro já não é mais o mesmo,mas a majestosa igreja de Santa Cecília lá permanece,testemunha de nossa história.Tenho esperança de que as coisas melhorem,pois tenho fé.Graças a Deus, após minha aposentadoria consegui me mudar para esta querida metrópole,que sempre visitava nos finais de semana,e nas férias.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participartar enviando sua história para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em vídeo com o Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.