Conte Sua História de SP/460 anos: meu sapato de camurça

 

Por Sérgio Gigli
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meu pai, Josias Gigli, era paulistano, mas depois de casar mudou-se para Guararema, no interior. Mesmo assim conhecia muito bem a região Central, onde trabalhou em algumas empresas, e nos arredores. Eu frequento São Paulo desde meu nascimento, 1961. O movimento, o trânsito, o aglomerado de pessoas nunca me assustaram. Religiosamente, todo início de dezembro, com o 13º e abonos recebidos, meu pai levava a família para a Capital. Por volta de 1970, não sei precisar o ano, fomos eu, meus pais e minha irmã para o passeio onde sempre fazíamos compras, almoçávamos em lugares diferentes, víamos gente diferente e no fim do dia uma visita ou outra na casa de parentes. Viajávamos de ônibus entre Guararema e Mogi, pegávamos o trem para São Paulo e rodávamos pela cidade de ônibus, também. Saíamos cedo para antes do almoço já estarmos passeando na Capital.

 

Lembro-me que logo que chegamos, entramos em uma loja de calçados na região da São Bento e vi um sapato de camurça branco e azul. Em poucos minutos, já havia calçado o par de sapatos novos e estava me achando o máximo. Só que não demorou nada e veio a chuva. E nosso passeio acabou cedo. Chuva pesada. Ficamos protegidos em uma loja. Mas a chuva era mais que pesada. A água começou a entrar na loja e logo meu sapato novo estava molhado. Meus pais resolveram então que não deveríamos esperar mais e tomar o rumo de casa.

 

Todos os ônibus lotados, pontos de ônibus idem. Muita chuva. Os bueiros não suportavam mais toda aquela água. E nós continuávamos procurando algum transporte que nos levasse ao Brás onde havia o trem de volta para casa. Não conseguimos nada, nem ônibus nem táxis. Fomos caminhando completamente molhados. A tarde toda. Quando a noite chegou, meus pais perceberam que não chegaríamos em tempo na estação. Decidimos mudar a direção para a zona Norte, Santana, onde ainda vivem parentes de meu pai.

 

Quando o ônibus para o novo destino apareceu, subimos os quatro, e meu pai deu a seguinte instrução: “todos para a frente, vamos descer no ponto final”. Eu mais na frente, minha mãe um pouco atrás, seguida pela minha irmã e meu pai. Algum tempo depois do início da viagem pergunto ao motorista se era o ponto final. Entendi que era … desci. Olho de um lado não vejo ninguém da minha família. Olho do outro, também não. Atrás tampouco. Olhei para o ônibus indo embora com as luzes internas acesas e enxerguei meu pai.

 

Saí correndo seguindo o ônibus de perto, atrapalhado pelo trânsito. Nos primeiros passos ainda cuidei de preservar o sapato novo. Mas logo esqueci os sapatos e me concentrei em não perder o ônibus de vista. Corri até a parada seguinte, quando minha família desceu.

 

– O que você está fazendo aí?, perguntou meu pai.

 

Contei para eles que, a princípio, não acreditaram. Nem eu estava acreditando. Graças a Deus tudo acabou bem. Chegamos na casa da família já perto da meia noite, e retornamos para Guararema no dia seguinte. Quanto ao sapato de camurça colorido, acredite ou não, me acompanhou por um bom tempo. Não se fazem mais sapatos como antigamente.

 

Sérgio Gigli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: lembre-se de onde você nasceu

 

Por João Victor Correa de Almeida Salles

 

 

São Paulo, como eu desejei e desejo te ver transformada.
Eu te conheço São Paulo.
Já peguei metrô às seis, conheço seu vai e vem.
Já fiquei te observando, conheço seus meandros.
Conheço seu coração São Paulo, tenho visto seu agir, sua transformação não virá da mão de homens que só buscam te iludir.

 

São Paulo olhe pra si mesma, busque refletir, por mais que esteja errada, não deixe de assumir.
São Paulo, eu te conheço, eu vejo catadores de lata,
Ó relógio egoísta, essa cultura é que te mata.

 

São Paulo, São Paulo,
tem cultura da garoa,
do “primeiro eu”,
Terra onde as motos cantam como passarinhos, onde as motos não tem freios,
Terra onde existem “vagas reservadas para os mais espertos”,
Onde é melhor trocar de faixa sem dar seta,
Terra onde admitimos o “rouba mas faz”,
Até ouvi, “pior que tá não fica”,
E eu sei, essa é a cultura da terra, cultura de um povo cansado, cultura deste reino.

 

Por isso sou Paulistano Peregrino.

 

Lembre-se São Paulo de onde você nasceu,
Lá no Pátio do Colégio sobre o Reino aprendeu,
Lembra, lá no Reino não é assim, na cidade Celestial a cultura é outra,
Lá praticamos o amor ao próximo como a si mesmo,
Lá praticamos o confiar que o Senhor fará justiça,
Lá o homem que deseja ser o primeiro, este sirva a todos,
Lá o respeito é sincero e genuíno, não acontece apenas por convenção social,
Lá o que tem menos honra, a este damos honra, pois entendemos que somos um só.

 

São Paulo, São Paulo, pare um pouco, pense no que diz, que mudança você quer, a real ou só verniz?
Se São Paulo é você, vou perguntar de novo, que cultura você quer, a do Reino ou a do Povo?

 

João Victor Correa de Almeida Salles é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: o Aparador de Sonhos

 

Por Gabriel Fernandes
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 

A parda palidez da poltrona de vime já estava oculta, desde cedo, pela Hercília, a velha e prestativa babá, sob um oleado esbranquiçado reservado para essas ocasiões. Aquele era um dia especial, mas o estado de espírito da garotada não era o mesmo. O caçula comprovadamente não gostava daquilo; os dois do meio se submetiam sem criar grandes dificuldades; como primogênito, eu tinha direito a algumas regalias.

 

O colorido tapete redondo de ráfia, que contrastava com a sobriedade geométrica do piso de ladrilhos hidráulicos da varanda, jazia enrolado em um canto, prudentemente afastado pela Hercília. A criançada espreitava do corredor enquanto o papai falava no telefone. Aquela conversa, que se repetia a cada dois meses em alguma manhã de sábado, já era esperada e temida. Não tínhamos como escapar do que viria a seguir. Revezávamos na vigia da porta da sala de visitas à espera do convidado indesejável. A estridência metálica da campainha não tardaria a romper o silêncio apreensivo da sala.

 

Priiiiim! Priiiiim! Priiiiim

 

Todos correm para a maçaneta da porta, mas é a Hercília quem a abre e anuncia para o papai: “Seu Eduardo, o Seu Ubaldo chegou!”. O papai deixa a sala. Seu Ubaldo sobe a escada que serve o jardim, atravessa a aspereza cinzenta do curto caminho cimentado que leva à casa. Sua silhueta obesa é recortada na tela luminosa de um dos arcos da varanda. Para nós, ele é um homem velho, de mais de 40 anos, pele morena de árabe, bigode fininho como linha de lã sob o nariz pontudo, voz estridente de trompete. Sempre traja o mesmo sovado jaleco branco, com cheiro de Aqua Velva misturado a um odor ardido de suor, que tem o condão de cobrir-lhe o arco convexo da volumosa barriga. Hálito de salsinha, a gente prendia a respiração até não poder mais.

 

As crianças não gostavam dele, eu acho. Ninguém gosta de tomar remédio amargo ou de ser picado por uma agulha de injeção, mas Seu Ubaldo fazia coisa pior. Como de costume, ele traz sua surrada maletinha marrom e seu cabelo crespo emplastado de brilhantina.

 

“Bom dia seu Eduardo, a criançada está crescendo, deveras!”. E passa a mão na cabeça da gente, despenteando nosso cabelo. Carrega, infalivelmente, uma tábua forrada com um desgastado couro sem cor e um sorriso sarcástico, talvez: “Quem é o primeiro?”

 

O Dario é sempre o primeiro. Caçula não tem direito a nada, não tem escolha. Ameaça abrir um berreiro, mas Seu Ubaldo já vem prevenido. De sua maleta de couro marrom, saca um pirulito e lhe oferece a vermelhidão açucarada da guloseima em forma de chupeta. A propina sempre funciona. Seu Ubaldo coloca a tábua estofada sobre os braços da poltrona de vime e senta o menino ali. Cobre o pequeno com um desbotado pano azul, deixando-lhe de fora apenas a cabeça. O inocente chupa o pirulito enquanto o barbeiro destrói seu cabelo com a infernal máquina manual: “Escovinha, né, seu Eduardo?” O caçula é o que mais sofre. Fica com a cabeça raspada como a bacia de comida do Lippy, nosso cachorro. Só resta um chumacinho de pelos curtinhos nos arrabaldes da testa, menor do que o do Cascão.

 

Vez ou outra, a voraz máquina de cortar cabelo mordia um pescoço inocente. Aí, as desculpas eram poucas e a choradeira profusa. Os dois do meio, o Eliseu e o Davi, já não se deixam seduzir pelo vermelhão adocicado da guloseima. Negociam com o papai não se sentar na tabuinha estofada e permissão para um corte mais civilizado. Condescendente, o papai cede quanto ao corte, mas eles ainda não têm estatura para se livrarem da tal tábua. Os pobrezinhos passam a exibir um vistoso corte americano: máquina um nas laterais até bem acima das têmporas e uma faixinha de cabelos curtinhos que se estende da testa até o cocuruto. Os bobinhos se dão por satisfeito.

 

Como o mais velho, eu tinha meus privilégios. Nada de pirulito vermelho de chupetinha, nada de tabuinha. Meu sonho de um cabelo como o do Elvis, cruzado na nuca com Gumex e um belo topete, porém, desfaz-se na geometria intrincada do chão de ladrilhos. Tudo que eu consigo é um corte meio-americano: uma raspadinha com a máquina dois logo acima das orelhas e um pouquinho mais de pelos no alto da cabeça.

 

Quando cortei meus cabelos, despedindo-me de minha vida de solteiro, foi o Ubaldo a quem procurei. Seu salão ficava na Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, bem defronte à chácara dos irmãos maristas, do Colégio Arquidiocesano, onde, em dias de ócio, junto com meus irmãos, costumava surrupiar algumas frutas. Ele foi meu barbeiro desde os tempos da varanda de ladrilhos geométricos. Eu não sabia, ainda, que aquele seria um corte de despedida. Seu Ubaldo morreria alguns dias depois.

 

Por irresistível pressão familiar, me resignei a ir ao meu cabeleireiro habitual em uma galeria na Avenida Paulista. Teria preferido entrar na Martins Fontes que, do outro lado do corredor, tenta seduzir os frequentadores do salão com caos irresistível de suas vitrines coloridas. Deixei que o Antônio me tosasse a cabeleira, como costumava fazer o Ubaldo. Enquanto ele cometia seu desatino, o salão me pareceu, como num sonho, se transformar na velha varanda de casa. Pude rever meus irmãos, ainda crianças, e o rosto benevolente de meu saudoso pai. O Ubaldo confirmava com papai se, realmente, o meu poderia ser um corte meio-americano…

 

A lembrança me apertou o peito e a saudade quase se desprende de meus olhos como uma solitária lágrima. Se eu a deixasse cair, fundir-se-ia aos meus cabelos que, como sonhos aparados, jaziam no chão.

 

Gabriel Fernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: construímos nossa vida na Zona Leste

Por Cláudia Elisabete da Silva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


             

 

                                                                         
Às sete horas anunciei que estava para chegar, mas minha mãe não entendeu que meu dia havia chegado. Às sete horas os trabalhadores já estavam na luta, de trem, de ônibus, sonhando nos “enlatados” com o metrô em construção que, um dia, iria encurtar as distâncias para todos – ou para alguns privilegiados lá da zona sul. Só o tempo diria, já que até hoje o metrô não atende a toda a cidade. Meu pai e nosso tio já haviam saído para seus respectivos empregos. Minha mãe, no entanto, não quis incomodar ninguém, e ficou ali, sofrendo sozinha, achando que eu poderia esperar mais um pouco. A coisa foi ficando apertada e em pouco tempo não foi mais possível segurar. Ela chamou minha tia, que morava no mesmo terreno, na casa da frente. A tia, recém-chegada na Paulicéia, não sabia nem por onde começar.

 

“Um táxi, tia, chame um táxi lá na Itinguçu”, minha mãe pedia. Morando na Vila Ré, cujas ruas ainda estavam sendo asfaltadas, essa era a única forma de tentar chegar a um hospital em tempo suficiente para que eu não viesse ao mundo no meio da rua, em meio a essa gente apressada, correndo para o que der e vier, como diria a canção de tom entusiástico e em ritmo acelerado – “vambora, vambora, olha a hora”…

 

São Paulo não podia parar: este era o mote lá no início da década de 1970, quando vi a luz, só por volta das cinco da tarde – na hora do “rush”, da volta para a casa, tinha que ser! O hospital ficava na Avenida Celso Garcia, a alguns metros do Parque São Jorge – o destino já estava traçado: mais uma corintiana na face da Terra!

 

Aprendi a ler antes de frequentar a escola, decifrando os outdoors do corredor Radial Leste-23 de Maio-Rubem Berta, que percorríamos semanalmente, eu, minha mãe e meu pai, para visitarmos os parentes no Jabaquara. Tentamos morar nesse bairro em 1979, mas não aguentamos mais do que nove meses, por causa do barulho dos aviões que decolavam e aterrissavam em Congonhas. Voltamos para a zona leste, onde construímos nossas vidas ali, na região da Penha, um dos bairros mais antigos da capital, antigo lugar de peregrinação à igreja do século XVII que abrigava a santa padroeira da cidade. A Penha era o centro comercial para toda aquela gente que, quando era preciso “ir à cidade” (o Centro Velho), dependia exclusivamente dos ônibus que seguiam, demoradamente, pelas avenidas Amador Bueno da Veiga, Celso Garcia e Rangel Pestana.

 

Nos anos 1980 veio o metrô, que facilitou a vida dos trabalhadores e estudantes da região. Fui fazer o 2º grau no Tatuapé, e foi então que a cidade começou a se descortinar diante dos meus olhos.  Centro velho, República, Anhangabau, 24 de Maio e Barão de Itapetininga, com suas livrarias e lojas de discos, as galerias Barão e “do Rock”, os cinemas, as lojas de pedras brasileiras, os prédios da virada do século XIX para o XX.

 

Entrei na USP para estudar História e venho testemunhando da janela do ônibus as transformações da rua Augusta ao longo dos últimos 20 anos; trabalhei no Museu Paulista (vulgo Museu do Ipiranga), onde pisei pela primeira vez ainda criança, levada pelo meu pai; fiz alguns freelancers na região da Santa Cecília, Higienópolis, Perdizes e Lapa. Pesquisei nas bibliotecas da São Francisco, na Mário de Andrade, nos arquivos Municipal e do Estado, e tornei-me uma professora absolutamente apaixonada por São Paulo e sua história. Hoje, e já há alguns anos, tenho a sensação de que São Paulo precisa parar de crescer, para que a verdadeira cidadania seja conquistada por todos. Apesar de tudo, posso dizer que não saberia viver noutro lugar.

 


Cláudia Elisabete da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Conheça outras histórias de São Paulo no meu blog, o blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: o casarão mal-assombrado

 

Por Clarindo Oliveira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Cada um ao seu estilo, meus pais eram excelentes contadores de histórias. Meu pai, senhor José Américo de Oliveira, falava da sua infância na roça em Minas Gerais e da batalha diária pela sobrevivência na cidade grande na década de 1950. Ele, inclusive, já teve um episódio imortalizado no “Conte Sua história de São Paulo”, da CBN.

 

Minha mãe tinha nome de cantora: Dalva de Oliveira. E também uma linda voz! Vivia cantando as músicas da xará, da Cláudia Barroso e da Angela Maria. Era fã número 1 do Agnaldo Rayol. Quando acabava a energia em casa, ela acendia o lampião a querosene, reunia os filhos na sala e contava fábulas infantis. Eu adorava aquela da Dona Baratinha que não parava de chorar porque o Dom Ratão caiu na panela de feijão.

 

Eu já não tenho esse dom. Trabalho na área de informática, onde a lógica predomina. Ingressei na área na década de 1980, no CPD de um tradicional banco paulista, o Mercantil de São Paulo, na Freguesia do Ó. Foram tempos corridos para mim. Cruzava a cidade todos os dias. Saía da Vila Joaniza, na zona Sul, para trabalhar na zona Norte e à noite estudava na PUC em Perdizes, na zona Oeste.

 

Foi nessa época que conheci o Vasquinho, um sujeito que tinha dois empregos. À noite ele trabalhava num prédio na avenida Rio Branco. Ficava praticamente sozinho nesse local, operando os computadores. Dizia que atrás do prédio existia um casarão com fama de mal assombrado. As pessoas comentavam que o fantasma de uma freira aparecia de vez em quando e que se ouviam barulhos estranhos por lá. Lembro-me de ter comentado que nunca trabalharia num lugar desses!

 

Alguns anos depois, fui trabalhar na Porto Seguro, nos Campos Elíseos. Era um casarão antigo da rua Guaianases, tombado pelo Condephaat e belissimamente restaurado pela empresa.  Havia um jardim enorme, que hoje deu lugar a um prédio muito moderno. Era o tal casarão da história do meu amigo do banco. Estive lá muitas madrugadas, corrigindo erros dos programas, nunca presenciei o fantasma. Calejado pela exatidão dos bits e bytes, acho que os barulhos estranhos seriam de ratos que viviam em tantas construções antigas da região. Já a visão da freira talvez fosse apenas a estátua de um cisne que havia no jardim, envolto pela névoa que baixava. 

 

Mas vai saber…

 

Clarindo Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net. Para ouvir outras histórias de São Paulo, visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: coisas que não existiam no Egito

 

Por Nadine Vogel
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Dia 17 de setembro de 1957.

 

Chegamos em Santos, após uma viagem de 25 dias. Eu tinha 2 anos. Ficamos atordoados com a quantidade de gente no cais: homens, mulheres, crianças, brancos, negros. Isso não havia no Egito. País que por questões políticas havia nos expulsado.

 

Viemos para cá porque minha tia, irmã mais velha de minha mãe, estava aqui. Ela nos havia jurado que São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades. Meus pai vieram muito ressabiado, trouxeram uma bagagem enorme e dentro delas latas de óleo, louça, máquina de costura. Nunca havíamos ouvido falar de Brasil e muito menos de São Paulo.

 

Meus tios foram nos pegar em Santos, mas tivemos que deixar nossas 25 malas num guarda malas, pois não cabiam no ônibus. Pegamos a estrada e depois o bonde e chegamos na Vila Mariana, onde minha tia morava, lá no Edifício Amarante.

 

Meu pai disse em árabe:
-Essa cidade é grande!

 

No dia seguinte saiu de casa para procurar emprego. Saiu apenas com o número dos ônibus que deveria tomar e com o endereço do edifício Amarante. Número de telefone? Apesar da pujança da cidade, telefone era só para pessoas muito ricas.

 

Estávamos assustados, era noite, e meu pai não havia chegado. Até que a campainha tocou e seus alhos azuis brilhavam muito. Não era um brilho só de agradecimento, era de surpresa. Ele nos contou que havia tomado o ônibus errado e se desesperou. Um padre franciscano ofereceu-se para ajudá-lo. E o acompanhou até a porta.

 

Meu pai gritava, em árabe:
– Essa cidade é maravilhosa!

 

As coisas melhoraram. Conseguimos alugar um pequeno apartamento na 9 de julho. Era demais morar próximo do Viaduto do Chá, do Vale do Anhangabaú – afinal era lá que todos faziam suas compras. O bairro era ótimo. Íamos as festa na Rua Avanhandava, Manuel Dutra, Rocha e voltámos de madrugada a pé. A cidade era segura, apesar da iluminação amarelada da avenida. Um dia alguém entrou em nosso apartamento enquanto estávamos passeando na Praça 14 bis, mas isso não abalou nossa confiança.

 

Minha irmã começou a trabalhar, minha mãe, também, como balconista na Augusta, uma rua super luxuosa. Meu pai vendia canetas tinteiro. Mais tarde, passou a vender esferográficas. Em época de férias, eu saia com ele pelo centro e visitava todos os caneteiros, seus clientes. Era divertido, aquele centro apinhado de gente num vai e vem que atordoava a todos. Olhava as mulheres chiques chegando de carro para tomar o chá no Mappin; a variedade de mercadorias nas lojas If, Modélia, Americanas e no Esportes Moura, me enlouquecia.

 

Quando eu me mostrava assombrada diante da vitrine, meu pai dizia, em árabe:
-A cidade é grande e maravilhosa!

 

Eu andava de mãos dadas com ele, com medo, mas segura; eu fazia parte dessa grandeza.

 

O fim de semana era demais. Ia aos Sábados na feira. Lá na Praça Roosvelt. Tinha de tudo; frutas, verduras, roupas, sandálias, mas as bijuterias eram irresistíveis.

 

– Que cidade! Tem tudo que precisamos!
Cada vez mais tinha a certeza que éramos muito felizes aqui.

 

O domingo era meu dia preferido. Minha mãe e minha irmã ficavam em casa preparando comida e costurando nossas roupas na máquina Singer, que veio conosco do Egito. E eu me aprontava logo cedo. Era dia de visitar a TV Excelsior e assistir ao programa de auditório “Jardim Encantado” apresentado por Clarice Amaral e Vicente Leporace. Andava feliz na rua com meu vestido novo, cheio de babados, e o sapato comprado nas lojas do centro. O trajeto era longo, e longa era a fila que deveríamos enfrentar para assistir ao programa, mas isso não importava, afinal estávamos em São Paulo.

 

Nadine Vogel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra aqui no Blog.

Resultado com faixas exclusivas de ônibus causa desânimo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A CBN, há uma semana, dentro do programa de análise do primeiro ano da gestão Haddad, entrevistou o engenheiro e mestre em Engenharia de Tráfego Prof. Sergio Ejzenberg da USP, que trouxe significativos subsídios ao tema da mobilidade urbana na cidade de São Paulo. Com o objetivo de ampliar o uso do transporte coletivo, Haddad aumentou a área destinada aos ônibus através de faixas e corredores exclusivos, chegando a 290 km. Ao mérito de atacar um dos principais entraves da cidade, o desânimo do resultado, pois não houve progresso, talvez retrocesso.

 

À complexidade do problema, o Eng. Ejzenberg simplificou a solução. Segundo ele, o aumento da área de circulação dos ônibus apenas trouxe mais rapidez aos atuais passageiros, o que não resolveu a questão da mobilidade, pois não houve acréscimo na frota. A meta não é a velocidade, é a capacidade. Para aumentar a capacidade é preciso aproveitar melhor o espaço colocando de 500 a 600 veículos por hora em cada uma destas áreas reservadas, enquanto estão sendo usados apenas os mesmos 30 ônibus por hora. O ônibus chega ao destino em menos tempo, mas não sai outro a seguir. Ao ocupar mais espaço com o transporte coletivo, Haddad reduziu o espaço para os automóveis. Além de não conseguir a transferência de passageiros dos automóveis para os ônibus, piorou as condições de tráfego para os usuários do transporte privado. Fato grave, não tanto quanto ao discutível aspecto econômico, pois são as pessoas que movem valores maiores no trabalho, mas pela quantidade. Metade da população usa transporte coletivo e metade usa transporte privado.

 

E como desgraça pouca é bobagem, ainda poderemos ter a proibição dos táxis circularem pelos corredores. Já são subutilizados e poderão ficar ainda mais, enquanto os automóveis disputarão espaços cada vez mais reduzidos.

 

Esse farto e valioso material deixado pelo Eng. Ejzenberg nesta entrevista à Fabíola Cidral ainda provou que ninguém é perfeito, porque o Professor depois de apontar tantas falhas deu nota 8 ao primeiro ano da gestão Haddad.

 

Ouça aqui a entrevista que foi ao ar no CBN São Paulo:

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: as carroças da Visconde de Parnaíba

 

Por Darcy Gersosimo
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Durante oito anos de minha vida, de 1942 a 1950, moramos na Rua Visconde de Parnaíba, no Brás. Naquela época, São Paulo era tão diferente … A Visconde de Parnaíba era tida como muito movimentada devido ao tráfego de automóveis, caminhões, carroças puxadas a burros ou cavalos de padeiros, leiteiros, verdureiros, que trabalhavam nas empresas Matarazzo e Souza Cruz. Além da linha de ônibus Belém, número 24, cujo ponto era na Praça Clóvis Bevilaqua, defronte ao Palácio da Justiça.

 

Era uma alegria quando mamãe, por algum motivo nos levava para as avenidas Celso Garcia e Rangel Pestana, andando para ver as vitrines das lojas que estavam em toda sua extensão. Eram de calçados, tecidos, armarinhos, presentes, vestidos de noiva, chapéus para senhoras e senhores, flores de seda. Tinha a Pirani -a Gigante do Brás -, as Americanas … Passávamos pela Igreja de São João Batista, em cujo Largo havia um bebedouro para cavalos. Na esquina da Rua Bresser, no bar “O Garoto”, comíamos um pedaço de pizza feita na hora. Que delícia…

 

Nessas avenidas existiam cinemas famosos como o Universo, Roxi, Brás Politeama, Piratininga. Havia também a Escola Normal Padre Anchieta, com as normalistas vestidas de azul e branco, como cantava Nelson Gonçalves, e o Grupo Escolar Romão Puiggari, com seus alunos uniformizados. Os “studios” fotográficos registravam nosso desenvolvimento físico, anualmente. Tenho diversas fotos do “Foto Stúdio Progresso”, na rua de mesmo nome. Às vezes, chegávamos até o Largo da Concórdia, onde as quermesses eram realizadas com barracas de jogos de argolas e do coelhinho que entrava na casinha (ou não). Ali ficava o Teatro Colombo e bem próximo o tristemente famoso Cine Teatro Babilônia. Eu admirava um lindo palacete na Celso Garcia onde estava instalada a 8a. Delegacia de Polícia. Hoje, o imóvel está em completo abandono, que pena! Antes de ir para casa, fazíamos uma rápida visita à Tia Izabel que morava no número 900, da mesma avenida. Nesse imóvel, na frente da casa, meu tio montara uma loja de venda de discos e conserto de rádios (aqueles de válvulas). Ainda não existiam LPs, nem TVs.

 

Depois do cafezinho, voltávamos para casa.

 

Darcy Gersosimo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net. Ouça outras histórias de São Paulo aqui no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: os Paulos de Paulo e o ensino de São Paulo

 

No Conte Sua História de São Paulo trago, hoje, dois personagens:

 

 

Começo com Paulo Henrique que quer conhecer alguém mais paulistano do que ele. Filho de mineira e de baiano, dona Irias e seu Claudemiro, Paulo nasceu em São Paulo, no dia de São Paulo, e no Hospital São Paulo. Para dar sequência à história, torce para o São Paulo e já morou na Vila São Paulo. Como se tudo não bastasse, teve um filho no mesmo dia de São Paulo, que só não se chama Paulo porque aí a mãe já estava achando coincidências de mais.

 

Nosso outro personagem é Alci Cortezi que não nasceu em São Paulo, mas declara todo seu amor pela cidade que, pelo visto, foi à primeira vista, pois diz que começou, em 1971, quando chegou com toda a família: os pais e os irmãos,Alfredo, o mais velho, e Terezinha, a do meio. Veio da mineira Capiniópolis, onde trabalhava tirando leite de vaca e na lavoura. Os tios que já estavam por aqui, vendo as dificuldades na roça, mandaram carta convidando o pai dele para vir à São Paulo. Os irmãos ficaram na casa de uma família, na Capital. Enquanto o pai, a mãe e ele, o caçula, foram morar em São Roque. Alci chegou com apenas o quarto ano primário e assim que pode voltou à cidade grande, fez Madureza, curso técnico, faculdade, tem um escritório contábil, três filhos e está casado pela segunda vez.

 

Alci e Paulo Henrique são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Mande o texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídieo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias da nossa cidade, você ouve e lê aqui no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: guiando por uma São Paulo que foi embora

 

Por Rodrigo youssef
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Uma historia que lembro foi da época em que estava tirando carteira de motorista.
Era 1994. Meu instrutor tinha 85 anos. Enquanto rodávamos a cidade, ele me fascinava com seus relatos de como era São Paulo quando ainda era criança.

 

A Avenida José Maria Withaker, no bairro da Saúde, contava, era um riacho onde ele nadava com os primos. O cavalo do tio dele aparava o mato alto de onde hoje é a Avenida Paulista. A 23 de Maio tinha muita terra vermelha nas sua margens havia um riacho, também, e, consta, seu solo era muito bom pra plantar milho.

 

Cada pedaço de asfalto e construção era um invasor, uma tampa de bosques e ribeiros, que se encolheram sob a minha cidade.  Fiquei tão impressionado com aquelas histórias que lembro até hoje do senhor magro de pele escura, contando devagar sobre uma São Paulo que parecia surreal para mim.

 

Rodrigo Youssef é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.