Exultação

 


Por Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

Exultais povo de São Paulo que habitas na capital. Exultais e fotografais todo o brilho e parafernália da avenida mais famosa, com seus carros “bibelôs de asfalto”.

Árvores a competir em tamanho e grandeza vos contemplarão do alto dos seus patrocinadores. Tudo o que reluz é ouro? Ouvireis jingle e buzinas a cada esquina. Exultais. É chegada hora da messe e aquisições por impulso. Xing Ling ou não, os sinos badalam em sua glória.

Exultais ainda que sejais contristados por várias provações no trânsito caótico, sob um sol incandescente. Um rebanho a clamar pelo tempo que se foi e pelo ano que já vem. A luz emoldurará as cãs e a neve da decoração surreal refrescará toda alma natalina.

A falta de bois, jumentos, reis ou incenso será compensada com lojas abarrotadas e apelo irresistível. Não reduzireis o consumo. Não reutilizareis as embalagens. Não reciclareis os resíduos. Não recusareis o que não é necessário. Entretanto, repensais esta atitude e sereis perdoados de todo egoísmo praticado no ano que se vai.

Os fogos espocando e suas luzes, como idéias reluzentes, acalentarão corações e mentes. Exultais e também orais. Com o advento da temporada das chuvas e das enchentes, virão escorregamentos. Na São Paulo de inundações, o medo das bactérias da urina do rato, será ofuscado pelo brilho incontido das luzinhas multicoloridas.

Exultais que por ora, prevalece o espírito natalino. Exultais que neste advento, as doações são mais generosas e os sentimentos mais fraternos. Exultais que é tempo de celebrar.

Exultais e orais, para que o festim pantagruélico, não corroa o fígado cansado de guerra. Orais para que se precisar, os doutores estejam lúcidos e não transformem seu diagnóstico em simples virose.

Na contramão do Ficha Limpa

 

Os deputados estaduais do Rio de Janeiro aprovaram projeto de emenda constitucional que institui a exigência de ficha limpa para ocupar cargos comissionados (nomeados) nos três poderes do estado. Estas vagas não poderão ser assumidas por quem foi condenado pela Justiça em segunda instância. A Câmara de Vereadores do Rio e o estado de Minas também aprovaram projetos com o mesmo objetivo.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin perdeu boa oportunidade de demonstrar seu interesse em qualificar os quadros do Estado e implantar o projeto Ficha Limpa. Conforme nota publicada no Painel da Folha, escrito por Renata Lo Prete, Alckmin desistiu de incluir em pacote sobre transparência um decreto que instituiria a Ficha Limpa para o funcionalismo paulista. A medida forçaria o afastamento de José Bernardo Ortiz, aliado histórico do governador na Fundação para o Desenvolvimento da Educação, pois ele tem condenação em segunda instância.

Se Alckmin tivesse tomado a mesma precaução que os deputados do Rio não pagaria este mico. Lá, a lei só vale para quem for nomeado a partir da sua promulgação, portanto não pega quem já garantiu seu emprego.

Conte Sua História de SP: O manequim do Mappin

 

Alex Periscinoto nasceu em 1925 na cidade de São Paulo e, após passar por vários empregos e funções, se tornou publicitário. Um dos lugares onde trabalhou foi a antiga loja de departamentos – famosa na capital paulista – Mappin. Foi nessa fase de sua carreira que ele viveu a história que contou ao Museu da Pessoa, em 1994, e se transformou em mais um capítulo do Conte Sua História de São Paulo, na CBN:


Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonirada pelo Cláudio Antônio

Eu já era casado e tinha um cunhado – tinha muitos cunhados, se você precisar de cunhados fala comigo. E cunhado, você sabe: acho que Deus inventou cunhado para jogar buraco, porque todos os cunhados se reúnem para jogar buraco. Ele era um deles. Era muito linguarudo e via publicidade na televisão, via a Sandra Bréa e cutucava a minha esposa. Ele achava que, como eu trabalhava em publicidade, tinha chance de sair com a Sandra Bréa. Vê se a Sandra Bréa ou qualquer atriz ia dar confiança. Não tinha relação nenhuma, mas ele era diabólico. 



Eis que um dia eu estou no Mappin trabalhando e estava chovendo. Chuva miúda e inclinada. Eu tinha um Coupê Mercuri 48. Todo mundo, na época, tinha carro usado, não podia comprar carro novo. Meu carro era velho. O vidro oposto ao motorista virava a manivela, mas não subia, estava quebrado. E eu não tinha dinheiro para consertar, ficava assim mesmo. Nesse dia, eu saio do Mappin e a Sônia, uma funcionária, irmã de um diretor do Mappin: 



– Alex, você vai lá para a Vila Clementino?


– Vou.


- Você me leva?


- Claro, vamos, está chovendo…



Então, eu subo a rua Augusta e paro no sinal. Chovendo. Eu ouço:



- Fiu, fiu!



Quando eu olho, a Sônia falou:



- É com você!



Era meu cunhado, que sempre inventou histórias. Eu transpirei: “mas, meu Deus do céu, todos menos esse”. Eu olhava e ele fazia um gesto, com a Gazeta Esportiva feito telhado na cabeça, como quem diz: “Abre aí que eu pulo, abre a porta”. E a Sônia:



- Abre, porque senão ele vai fazer todos os gestos possíveis – ela meio tonta, já limpando a chuva onde ele ia sentar.



Falei:



- Não, não, esse não!



Abriu o sinal e eu fui embora, deixei ele lá. Você imagina a situação que eu criei. Deixei a Sônia e ela falou:



- Alex, mas você está preocupadíssimo, vou lá falar com a tua mulher, eu conheço tua mulher, você estava me levando pra casa!


- É, Sônia, isso aí é uma outra história.



Eu deixei a Sônia, peguei o carro e voltei para o Mappin. Cheguei lá e falei para o Zé Paródia – ele era o meu subordinado na área de vitrine: 



– Zé, coloca um desses manequins de gesso, vestido, no assento da frente do meu carro.


Sabe esses manequins que ficam na vitrine com dedos tortos, de gesso, peruca de naylon? Ele pôs um bicho de gesso e eu fui segurando para casa. Caía aquilo, e eu segurando até chegar em casa. Mais tarde, eu falei pra minha mulher: 



– Olha, eu demorei porque eu tenho que comprar um manequim lá para o Mappin, umas duas dúzias de manequim e tem um mostruário aí. Ela, pela janela da cozinha, olhou e falou: 



– Bonitinho, né? Eu acho bom você tirar isso daí senão vão dizer que você ‘tá’ andando com mulher no automóvel…

Eu falei:
– Boa ideia. 



Ela me ajudou a desatarraxar e botamos tudo atrás do carro. Jantamos, e eu falei:



- Vamos jogar buraco lá na casa do Sabião?


- Vamos. 



Nem deu outra, ela entrou na minha frente, estava um passo na minha frente, quando eu vi…



– O Alex…

Louco, ele contou tudo, com todos os detalhes, entregou mesmo. Ele acabou de falar, a minha mulher nem sequer olhou para ele. Olhou para a irmã, que nós somos casados com duas irmãs, e falou assim:



- Você fala pro seu marido tomar cuidado, porque ele é muito linguarudo. Era um manequim, eu ajudei a tirar do carro… Ele fica inventando essas histórias do Alex… Agora eu tive provas que ele inventa.

Ele olhava para mim e dizia assim:



- Como é o negócio?



Nós jogamos buraco naquela noite, ele dava a carta para mim assim: “O manequim”.

Passados dois anos, eu estava pescando no barco dele, no clube Samambaia, no Guarujá. Eram dez horas da noite, estava sentado no barco, pescando sossegado, ele meteu o pé nas minhas costas e me jogou na água. E eu só ouvi: 

- Manequim, é?



Ficou atravessado dois anos aquele negócio. Foi engraçado. Quando eu levei a história para os meus colegas do Mappin, que conheciam a Sônia, o caso ficou famoso.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. Você pode contar a sua história, também. Ou procura o Museu da Pessoa e grava em áudio e vídeo, ou manda por escrito para mim no milton@cbn.com.br.

Aristóteles, Platão, Juvenal e o Itaquerão

 

Por Carlos Magno Gibrail

Que a democracia nasceu na Grécia todos sabem, embora muitos desconheçam que Aristóteles e Platão eram contra o regime do povo. Aristocratas, assim como Juvenal. Os intelectuais gregos não conseguiram barrar a democracia. Juvenal conseguiu.

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, clube originalmente democrata, encabeçou o retrocesso político. Aumentou o mandato enquanto presidente e usufruiu da própria mudança para se manter no poder durante três períodos então aumentados, alegando que o novo estatuto zerava o passado. A partir daí o enredo é similar a todas as ditaduras. Embora convencional por estar inserido no futebol. Atividade apaixonante, mas eivada de instituições autocráticas, com frios cartolas e vivida no momento de Copa do Mundo.

Juvenal após destratar o maior cliente tenta o confronto com Ricardo Teixeira e se dá mal. Fica sem Andrés Sanches, o cliente maltratado, sem a Globo, sem a FIFA e acreditando em Kassab e Lula.

A FIFA, que já sinalizara seguir o COI na preferência pelos BRICS quando fez a China, emergente poderosa, gastar fortunas , deixava claro o indício da estratégia de exigir os mais altos investimentos nos eventos a serem realizados. A Rússia na preparação para a Copa 2018 já faz os maiores gastos da história em preparativos. O estádio Luzhniki de Moscou, de acordo com o Estadão de domingo, cinco estrelas pela UEFA, terá que investir 2 bilhões de reais para atender a FIFA.

Juvenal somava aos desafetos o estádio do Morumbi, um entrave nas pretensões da FIFA e da classe política, ávidas por maciços gastos públicos. Restava apenas o trunfo da cidade de São Paulo, única capaz de receber a abertura. Eis que o “inculto”, mas certamente experiente Andrés Sanches, já habilitado nas lides com os russos e Kia, e, evidentemente apadrinhado pelo “iletrado” Lula, equacionam o Itaquerão. De graça para o Corinthians, o inimigo numero 1 do Juvenal.

Aristóteles e Platão, embora aristocratas, deram à humanidade seus conhecimentos. Juvenal perdeu a chance de fincar a bandeira da democracia nesta aristocracia do futebol. O esporte mais popular do mundo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: O sorriso do Campeão

 

Grêmio 1 x 0 São Paulo
Brasileiro – Olímpico Monumental

Jogadores com a cor do Grêmio estarão sempre na nossa memória. E Tarciso é um desses. Sua imagem nos leva a um passado de incríveis resultados, tempos em que superar adversários de Rio e São Paulo ainda eram vistos como feitos quase impossíveis. E, também, está ligada a uma fase de transição do Imortal Tricolor, momento em que deixávamos de ser um time apenas para consumo interno para sermos temidos pelos grandes clubes do País. Era ele o ponteiro direito do time campeão brasileiro em 1981, treinando pelo meu querido padrinho Ênio Andrade, que conquistou o título após duas difíceis disputas contra o São Paulo.

Hoje cedo, antes da partida com o mesmo São Paulo, Christian, meu irmão, e Fernando, meu sobrinho, que moram em Porto Alegre, tiveram a feliz oportunidade de encontrá-lo próximo do Estádio Olímpico. Se apresentaram e pediram para tirar uma foto. Nada mais natural para fãs que encontram seu ídolo. Na conversa, Tarciso soube que eram filho e neto de Milton Ferretti Jung, o homem do Gol-gol-gol, que você, caro e raro leitor deste blog, conhece seja pela própria história dele, seja pelos posts de toda quinta-feira. Na mesma hora deu aquele sorriso que meu irmão definiu como o de Campeão do Mundo. Sim, Tarciso também fez parte daquele time que conquistou o Planeta, em 1983. E mandou “um abração para o velho Milton”. Abraço enviado.

Foi Milton, o pai, quem o batizou de Flecha Negra, apelido que refletia bem a velocidade com que Tarciso escapava dos adversários e chegava na cara do gol. Uma característica que, aliás, o levou para o Grêmio após marcar um gol contra o próprio, na época em que ainda vestia a camisa do América do Rio, em 1973. Durante os 13 anos em que jogou pelo Grêmio sua postura em campo, a forma como se entregava em cada jogada e as disparadas com a bola no pé o transformaram em eterno ídolo.

Tarciso é um exemplo para todos estes que hoje jogam no nosso time. Sei lá quantos deles serão capazes de repetir a mesma história e serem lembrados para sempre pelos torcedores. O que sei é que a disposição de cada um, desde que Celso Roth assumiu o comando, tem um pouco da raça, da determinação, da coragem e da personalidade com as quais apenas alguns foram capazes de se consagrar. E, tenha certeza, Tarciso foi um desses.

Nenhum comentarista viu, os narradores não falaram, o adversário jamais poderia imaginar e duvido que o atual elenco tenha percebido. Mas o espírito de Tarciso estava em campo nesta vitória que reforça a Avalanche Tricolor recém iniciada, que só vai sossegar quanto estiver de volta a Libertadores.

N.B: Os números estranhos (tema da última Avalanche) estiveram de volta no jogo de hoje. Nada porém supera a criatividade dos pais de alguns jogadores de futebol no momento de batizá-los. Um dos zagueiros do São Paulo, estava grafado na camisa, se chama Rhodolfo. Assim mesmo, com um intrometido “h” na primeira sílaba. Haja imaginação!

Foto-ouvinte: Os dois lados de São Paulo

 

Sala São Paulo

A visita a Sala São Paulo e estação Júlio Prestes rendeu boa foto e más lembranças ao ouvinte-internauta Eduardo Mucillo. Foi lá no fim de semana e ficou impressionado com o aspecto no entorno do local, onde a cultura se mistura à degradação:

O cheiro de urina por toda a praça e em frente da estação empestiava o local… fora o lixo espalhado pela rua como se há pouco tivesse acabado uma feira e, para piorar, centenas de andarilhos, isso mesmo centenas, espalhados pelas sarjetas consumindo o lixo e as drogas, pelos gestos provavelmente crack, como se nada pudesse detê-los.
E não pode!

Conte Sua História de SP: Ao lado da cidade grande

 

João Augusto Barbosa O personagem do Conte Sua História de São Paulo é João Augusto Barbosa que nasceu em Itapevi, interior do Estado, morou em Osasco, região metropolitana, mas tem todas as lembranças marcadas pela cidade de São Paulo. Aos 65 anos, ele gravou depoimento ao Museu da Pessoa no qual descreveu alguns dos bons e interessantes momentos que viveu por aqui.

No Conte Sua História de São Paulo, ele diz que guarda com carinho os primeiros namoros nos anos de 1960, uma época de revolução cultural e de costumes.

Ouça a história de João Augusto Barbosa, sonorizada por Cláudio Antônio e editada pelo Julio César

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às10 e meia da manhã, no CBN SP.

Avalanche Tricolor: Por amor

 

São Paulo 3 x 1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi (SP)

Morumbi

Por ser casado com uma ex-repórter de esportes e eu ser muito ligado ao futebol – ao Grêmio, para ser honesto -, era de se imaginar que os estádios fossem lugares comuns à família. Porém, desde que ela trocou de pauta e passou a ser repórter de geral – como chamamos os jornalistas que cobrem uma variedade de temas, da política à polícia, da moda à educação – nunca mais fez questão de passar próximo de um campo. Nem assistir aos jogos na TV tem vontade.

De minha parte, a falta de conforto e insegurança me transformaram em torcedor de pay-per-view. Desde que cheguei em São Paulo, em 1991, raras foram as vezes em que fui ao campo. Com pouco esforço de memória sou capaz de lembrar das partidas de futebol que acompanhei na arquibancada como torcedor – a época em que narrei jogos pela Rede TV! não conta, pois era pago para ir ao estádio. A primeira foi a final de um Copa São Paulo de futebol júnior, na qual Dener, que morreu precocemente, jogou de maneira tão brilhante que o aplaudi mesmo tendo sido responsável pela vitória arrasadora da Portuguesa sobre meu time de coração.

Assim, quando comentei que havia recebido dois convites para assistir ao jogo da noite de sábado, em um camarote do Morumbi, foi uma gratificante surpresa ouvi-la dizer que me faria companhia, se este fosse meu desejo. Sem titubear nem esconder meu prazer, aceitei a proposta.

Até momentos antes do horário marcado para seguirmos ao estádio, confesso, tive dúvidas se a disposição dela persistiria. O recuo seria razoável e compreensível. Esse sábado prometia temperatura baixa e era a sua folga na redação, fatores que combinam com ficar debaixo das cobertas, ler um bom livro, assistir a um filme divertido de locadora, beber vinho ou, simplesmente, dormir.

Devidamente paramentada, boné de lã, casaco elegante fazendo par com as botas de couro e o cabelo realçado pelo brilho dos cremes que costuma usar, lá estava ela, , na hora marcada, a minha espera. Havia ainda os brincos e o colar que me chamavam atenção no rosto levemente maquiado. Singelamente maquiado.

De mãos dadas e abordo de um táxi seguimos para o Morumbi, estádio que fica a poucos minutos de casa. Nem mesmo o fato de o motorista ter pensado que eu era são-paulino, me tirou o humor: “esse é jogo bom de ver porque é jogo de uma torcida só e o São Paulo é lider”- disse ele sem perceber meu sorriso amarelo no retrovisor.

A bola começou a ser tocada de pé em pé – na maior parte das vezes para o pé errado – e nós sentados um do lado do outro em uma confortável cadeira vermelha (por que se importar com a cor?). O frio aumentava a medida que a noite avançava e isto a fez mais próxima de mim. Encostou a cabeça no meu ombro, pegou minha mão com mais força ainda. Nos separávamos apenas para um gole de bebida ou saborear os petiscos oferecidos. Tudo muito rápido e devidamente compensado com um beijo, uma bochecha sorridente, um carinho.

As coisas aconteciam no gramado, jogadores tropeçavam na qualidade, sacrificavam o bom-senso com suas escolhas e, de vez em quando, conseguiam um drible decente, um passe interessante e um chute em gol. Um gol, dois gols, três gols. Chegaram a marcar quatro gols. Dois do lado de cá do campo, dois do lado de lá. A maioria tive de conferir na tela da TV, pois enxergar o jogo dos camarotes não é tarefa tão bem definida assim.

Nada do que ocorria lá dentro, de bom e de ruim, a fez mudar de postura. Foi, aliás, nos piores momentos que se fez mais presente. Cúmplice do meu sofrimento, usava de subterfúgios para desviar minha atenção, me fazer sentir melhor. Dava sinais de que estava preocupada com os meus sentimentos futebolísticos, dado o desenrolar da partida. Tentou disfarçar com a leitura de faz-de-conta de uma revista de variedades.

Mal sabia ela que nada daquilo que ocorria lá adiante me incomodava. A falta de talento à disposição do técnico, a insistência dele em escalar jogadores fora de posição, a defesa incapaz de impedir o assédio adversário, o passe desleixado do suposto craque e a ineficiência dos atacantes (ou do atacante) não eram suficientemente importantes diante daquele momento que eu vivia.

A paixão que o sacrifício dela me despertou fez superficiais o futebol jogado pelo meu time e o resultado final. Seu gesto e presença ratificaram compromisso que assumimos há pouco mais de 17 anos – não que estes fossem necessários para tal, afinal tantas outros coisas muito mais legais vivemos juntos até aqui. Mas, com certeza, a presença dela ao meu lado era a melhor das sensações que eu poderia ter em um jogo de futebol em uma fria noite paulistana, véspera do Dia dos Namorados.

Consulado gremista promove churrasco em São Paulo

 

A preliminar de Grêmio e São Paulo será em uma churrascaria paulistana, neste sábado, quando o projeto da Arena Tricolor será apresentado em encontro promovido pelo consulado gremista e uma camisa oficial e autografada será sorteada.

Antes que seja tarde, uma explicação, caro e raro leitor deste blog, provavelmente torcedor de algum outro clube. O Grêmio mantém nas principais cidades do mundo – e em algumas sem relevância, também – consulados formados por apaixonados e abnegados. Grupo de torcedores, com direito a eleição e cargo, que passam a ser representantes no local onde se estabeleceram.

Foram os consulados fundamentais para a construção do Olímpico Monumental, pois mobilizaram os torcedores na campanha de arrecadação de tijolos, que eram levados de caminhão para Porto Alegre.

Aqui em São Paulo, a equipe do consulado é formada por Fernando Leite, Maria Fernanda Martins Costa, Marzil Filho – Zizo, Katiene Gheller e Pedro Coutinho. Turma que está organizando churrascada para o meio-dia, desse sábado, na South’s Place, que fica quase em frente ao Shoping Morumbi, na av. Roque Petroni Junior, 850. O almoço terá preço promocional: R$ 30 mais bebida, por pessoa.

“Nossa intenção é aproveitar a oportunidade e integrar os membros de todos os Consulados da Região de São Paulo, nos conhecermos ao vivo, aqueles que ainda não se conhecem e, também, trocar ideias de ações que podemos fazer em conjunto aqui em São Paulo”, me escreveu Marzil.

Os gremistas que quiserem comprar ingresso para o jogo com o São Paulo podem contar com o Consulado. Para saber mais, envie e-mail para consuladogremiosp@gmail.com.

Não sei se poderei participar do almoço, pois neste sábado também tem a reunião mensal do Adote um Vereador, mas contém com meu espírito por lá e no Morumbi.

Uma realidade quase apocalíptica

 

São Paulo é cenário de histórias construídas pelo poeta Alceu Sebastião Costa, ouvinte-internauta do CBN SP. O texto enviado ao programa foi ponto de partida para outros escritos “focados na figura simpática dos catadores de rua, pelos quais tenhos grande carinho e respeito” – conforme contou em e-mail. De nossa parte, o agradecimento pela gentileza de compartilhar com os leitores do Blog uma dessas histórias:

Por Alceu Sebastião Costa
Poeta-parkinsoniano Feliz

No cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, jazia o anônimo cidadão. Só a matéria estava ali presente, pois a alma embarcara apressada no trem para o infinito. Premida, talvez, pelas contingências da próxima escala.

Segundo as testemunhas, o atropelamento se dera por volta de 11horas da noite de garoa fina, que lembrava a nostálgica São Paulo de antigamente.

As horas seguintes caminharam preguiçosas. Desfizeram-se rodas e rondas de curiosos. Muita cachaça rolou, enquanto o hoje virava ontem, dando vez a um novo amanhã.

Apesar de solitário, ao morto não faltaram preces colhidas, pelos misteriosos anjos da noite, do acervo de uma piedosa e insone mãe, moradora em Jaçanã.

Quando os gorjeios melancólicos do sabiá-laranjeira, oculto no arvoredo da Praça da República, anunciaram a alvorada, o agito diurno começava a dominar a cena na esquina famosa, imortalizada por Caetano nos versos boêmios de “Sampa”.

Pouco a pouco, o local foi sendo ocupado por figuras maltrapilhas e silenciosas. Ordeiras chegavam, ordeiras estacionavam as suas carrocinhas, de forma a não atulharem o leito da via pública.

Logo, mais de meia centena ali estava para o resgate do companheiro, fazendo por solidariedade o que a autoridade por dever não fazia.

Quatro deles, no devido tempo, tomaram a dianteira e colocaram aquele corpo inerte e enrijecido sobre o que restara da respectiva e bem cuidada carrocinha. Então, respeitosamente beijaram e depositaram sobre o seu peito a surrada bandeirola verde-amarela, que algum desajeitado torcedor lançara ao vento e ele recolhera, guardando-a como se um troféu sagrado.

Circundando o cadáver, o estranho grupo ouviu atentamente o pronunciamento emocionado do líder Adoniran:

“Minha querida São Paulo, fria, vela o corpo de mais um humilde e anônimo colaborador, tombado pelo desvario do corre-corre diário. O falecido passa agora a figurar, com louvor, do honroso quadro estatístico de acidentes fatais no trânsito da Paulicéia. O momento é de profundo pesar e oportuniza séria reflexão. Não chore por mim nem por ele nem por você, São Paulo!

A época ainda é boa para o plantio. Temos que amolecer a terra com o suor. Deixemos as lágrimas para as alegrias das colheitas. O pouco de dignidade que nos resta é a garantia da nossa crença na melhoria do porvir. Palavra dos “Catadores de Rua”.

Todos os companheiros presentes ergueram as mãos para os céus e se curvaram em reverência. Ato contínuo, como chegaram, ordeiros se retiraram, levando o defunto, sob a teimosa garoa dos bons idos paulistanos.

Uma suave brisa beijava e balançava o surrado pendão da esperança, agora desfraldado, encimando a carrocinha que abrigava o corpo, à frente do cortejo. Pena não ter o inocente catador de rua consolidado o seu anseio de ver o lábaro ostentando o fulgor estelar dos Demônios da Garoa, seus devotados ídolos, cujos autógrafos almejara um dia obter.

Curiosamente, a chuva fina e o canto triste do sabiá marcavam presença solene naquela manhã cinzenta, como que buscando exorcizar a cidade grande dos seus demônios.