IA na mídia: inovação e desafios no limiar do digital

Foto de ThisIsEngineering

O Sora escandalizou com suas imagens que extrapolam o limiar entre o real e o digital. A nova ferramenta de inteligência artificial, para criação de vídeos com até um minuto, da OpenAI, nem foi aberta ao público e tem causado alvoroço entre entusiasmados e céticos digitais. Independentemente de qual “torcida” você faça parte, o certo é que a velocidade com que os avanços da IA estão ocorrendo são de tirar o fôlego e prejudicam nossa capacidade de interpretação dos fatos. Sequer conseguimos perceber, menos ainda explorar, as potencialidades do ChatGPT, criado há menos de um ano e meio. 

Na edição desta semana do Cartograma, newsletter criada por dois ex-colegas de redação, Leonardo Stamillo e Leandro Mota, ambos com passagem pelo Twitter, encontrei referência a artigo que discute a necessidade de os grupos de mídia – leia-se, aqui, nós jornalistas – trabalharem juntos para explorar a IA de maneira produtiva e criativa. Ainda que mal comparando: como se reproduzissemos o consórcio de veículos de mídia, criado, no Brasil, para a divulgação diária de número de mortes e casos de covid-19, mas agora para estudar e entender o avanço da IA . “A IA é uma grande oportunidade para a mídia noticiosa. Não vamos estragar tudo” (em tradução livre) foi escrito por Vivian Schiller e Trei Brindrett  e publicado na Columbia Journalism Review.

Os autores demonstram a preocupação de os grupos de comunicação desperdiçarem as oportunidades oferecidas pela IA generativa com discussões tão improdutivas quanto já perdidas que visem barrar o desenvolvimento dessa tecnologia por temerem o fim do que ainda resta das mídias.  

“Desta vez, a indústria noticiosa não tem tanto tempo para resistir à revolução da IA e ignorar a mudança nas expectativas dos consumidores. A  tremenda velocidade das mudanças desde que o ChatGPT desencadeou uma corrida armamentista generativa de IA exige que avancemos agora. Não fazer isso pode significar ceder o futuro da descoberta e criação de notícias a novos players tecnológicos.”

Vivian Schiller e Trei Brindrett 

Sete áreas em que as mídias devem discutir o uso da IA

Diante do fato que startups e grandes empresas da tecnologia já experimentam  ferramentas que ‘mineram’ o noticiário, mixam reportagens e transformam em novos artigos, Vivian e Trei questionam se os grupos de mídia estão dispostos a se unirem em busca de soluções que preservem seu ecossistema – leia-se, aqui, os nossos empregos. Têm dúvidas se o nível de concorrência entre as organizações permitiria essa inédita união para a sobrevivência do negócio. 

Intrigados com seus próprios questionamentos, os autores conversaram com editores e executivos de redações, elencaram sete áreas em que as empresas de comunicação devem pensar em agir, e apresentaram questões que precisam ser respondidas por quem busca uma saída honrosa da mídia em meio ao caos que as IAs provocam. 

  1. IA na redação: discute como a IA generativa pode mudar operações, funções e a criação de conteúdo nas redações.
  2. Propriedade intelectual e grandes modelos de linguagem:  reúne questões de direitos autorais e compensação pelo uso de conteúdo jornalístico no treinamento de modelos de IA.
  3. Transformação do modelo de negócios: avalia o impacto da IA generativa nos modelos de negócios existentes e novas oportunidades de receita.
  4. Protegendo contra preconceitos: enfatiza a importância de mitigar preconceitos nos resultados gerados por IA para garantir a equidade e precisão.
  5. Tecnologia e produtos para o consumidor: considera novos produtos e serviços que as redações podem oferecer, aproveitando a IA para atender às expectativas dos consumidores.
  6. Diretrizes editoriais para construir confiança: destaca a necessidade de diretrizes claras sobre o uso de IA para manter a confiança do público.
  7. Políticas públicas: aborda a necessidade de envolvimento em discussões políticas sobre a regulação da IA generativa no jornalismo.

Vou ater meus palpites a apenas duas das sete áreas.

IA na redação 

A integração da IA generativa nas redações pode transformar profundamente os métodos de trabalho, introduzindo eficiência na coleta e redação de notícias, além de criar possibilidades para a geração de imagens e conteúdo personalizado. 

As funções atuais podem evoluir para incluir a curadoria e supervisão de conteúdo gerado por IA, enquanto novas funções podem surgir para gerenciar a interação entre IA e processos jornalísticos. 

Os repórteres já têm à disposição ferramentas para automatizar tarefas rotineiras, permitindo mais tempo para o jornalismo investigativo e a análise profunda. Claro que aqui sempre cabe a pergunta: se usamos ferramentas que otimizam nosso tempo, saberemos como tornar produtivo o tempo conquistado?

Algumas tarefas que podem ser automatizadas por IA nas redações incluem a coleta e compilação de dados para reportagens, a geração de rascunhos de artigos sobre eventos rotineiros, a análise de tendências em grandes volumes de dados, a transcrição de entrevistas, a identificação do humor do seu público, a partir da avaliação dos comentários, e a criação de conteúdo visual básico.

Uma atividade a ser explorada é a criação de infográficos utilizando IA. Essas ferramentas podem analisar grandes volumes de dados para identificar tendências, padrões e ideias significativos, que depois podem ser transformados em infográficos visualmente atraentes. Além de automatizar a análise de dados, a IA também pode ajudar no design de infográficos, sugerindo layouts, cores e tipos de gráficos baseados em melhores práticas de design e na natureza dos dados. Isso permite aos repórteres e designers focar na narrativa e na precisão da informação, ao mesmo tempo em que aproveitam a eficiência e a criatividade impulsionada pela IA.

Tecnologia e produtos para o consumidor 

As empresas de notícias podem explorar produtos inovadores baseados em IA, como newsletters personalizadas, assistentes virtuais para fornecer notícias e análises sob demanda, plataformas interativas para exploração de dados jornalísticos, e aplicativos que utilizam IA para adaptar conteúdo ao comportamento e preferências do usuário.  Estas são áreas onde a IA  já tem mostrado potencial significativo. 

Referências como o “Digital News Report” do Reuters Institute fornecem ideias sobre tendências de consumo de notícias digitais e a aceitação de tecnologias baseadas em IA, transformando-se em excepcionais guias para a elaboração desses novos produtos.  

Além disso, há casos como o The Washington Post que criou o AI Hub, uma equipe operacional que coleta ideias relacionadas à IA de toda a organização e cria provas de conceito para as ideias mais promissora. O tradicional jornal ilustra como a inteligência artificial pode ser empregada na produção de notícias automatizadas e personalizadas, demonstrando o equilíbrio entre inovação, proteção de dados e manutenção da confiança do usuário. 

Estes exemplos sublinham a importância de complementar o trabalho humano com a IA, focando em nichos de mercado e na qualidade do jornalismo para competir efetivamente com empresas de tecnologia. Complementar e não substituir o trabalho humano – leia-se, aqui, o meu trabalho. 

Vivian e Trei estão comprometidos em levar as questões emergentes da IA generativa para uma discussão ampla com acadêmicos, líderes de mídia e jornalistas, buscando soluções profundas e inovadoras.  Eles, assim como toda a sociedade interessada no debate plural e público, que os meios de comunicação proporcionam, enfrentam o desafio urgente de encontrar respostas eficazes antes que as rápidas inovações em IA transformem ainda mais o cenário da mídia, levando-o para o que poderíamos chamar de ponto de não retorno.

Avalanche Tricolor: a esperança entrou em campo!

Grêmio 6×2 Santa Cruz

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Du Queiroz e Pavón comemoram em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Veio do banco o ânimo que o torcedor do Grêmio buscava para ter esperanças de uma boa temporada em 2024. Faltando três rodadas para o final da fase de classificação, mesmo sem ter corrido nenhum risco e estar disputando a ponta da competição desde o início, havia um burburinho que expressava a desconfiança com o elenco. 

Mal acostumados com a excepcional contratação de Luis Suarez, no ano passado, os gremistas sinalizávamos decepção com os poucos reforços que haviam chegado; sem contar a frustração com a lesão de Soteldo, que despontava como o grande destaque no início da temporada.

Antes de fechar a janela de contratação, porém, a direção trouxe Diego Costa, Du Queiroz e Cristian Pavón – os três com status para serem titulares. Se o primeiro ficou no camarote, enquanto recupera a forma física, os dois últimos já estavam à disposição do time e assistiram do banco o primeiro tempo instável da equipe. 

Após dois gols marcados rapidamente, pelos pés de Gustavo Nunes (que baita guri, hein!) e Cristaldo, o time cedeu o empate e revelou a fragilidade no esquema defensivo. O muxoxo do torcedor aumentou assim que os jogadores deixaram o gramado no intervalo. 

Na volta do vestiário, Pavón e Du Queiroz estavam escalados. E, em campo, demonstraram um entusiasmo que contagiou os colegas e a torcida. 

O atacante argentino infernizou o jogo pelo lado direito com dribles, velocidade, passes qualificados e disposição na marcação. Enquanto isso, o meio campista recém-chegado da Rússia se aproximou de Pavón, tabelou, distribuiu bem a bola de um lado e de outro, apareceu dentro da área, criou chances de gol e desarmou quando foi exigido.

Pavón saiu de campo aplaudido por todos após marcar o gol que colocou o Grêmio à frente do placar e dar duas assistências para consolidar a goleada, que nos eleva à liderança parcial do campeonato, com melhor ataque e melhor saldo de gols. 

Na entrevista, ao fim da partida, o argentino disse estar feliz com a estreia. Felicidade esta compartilhada por todos nós torcedores que estávamos apenas a espera de algum sinal para voltar a acreditar no potencial do Grêmio. Os sinais foram vistos hoje à tarde na Arena! 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como fica o cliente diante da fusão que remodela o mercado da moda brasileira

Foto de cottonbro studio

“A ambição que está por trás (dessa fusão) é garantir no fundo perenidade e geração sustentável de valor do negócio”

Cecília Russo

Em um movimento sem precedentes no mercado da moda brasileira, a fusão entre os grupos Arezzo Co. e Soma promete redefinir o panorama nacional, unindo mais de 30 marcas sob um único “guarda-chuva”. Este evento foi o centro das atenções no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN. A união destas gigantes não apenas sinaliza um novo capítulo para o setor, mas também levanta questões importantes sobre o futuro do branding, da perenidade dos negócios e, mais crucialmente, do impacto sobre o consumidor.

Cecília Russo destaca a magnitude deste acordo, citando a expectativa de que as receitas brutas da fusão vão ultrapassar ou chegar perto de 12 bilhões de reais: 

“Uma das falas dos líderes, o Alexandre Birmann, diz o seguinte: “nós tivemos diversas marcas e sempre crescemos, com a soma não será diferente”. As possibilidades de crescimento são ainda maiores”

A discussão levantada pelos comentaristas não se limita ao crescimento e às sinergias operacionais esperadas dessa fusão. Ela se aprofunda nas implicações para o consumidor, seja em termos de diversidade de escolha, qualidade dos produtos ou mesmo identidade das marcas envolvidas. 

Jaime Troiano expressou a preocupação pela ausência de falas sobre como ficará o cliente diante desta fusão. E foi buscar nas redes sociais a reação do público que variou desde o otimismo com a capacidade da união em “levar a moda brasileira para o mundo”, até preocupações sobre a perda de identidade das marcas e os possíveis impactos negativos de um mercado menos competitivo: 

“No fundo, fala-se muito de marcas serem ‘consumer centric’, que o consumidor tem de estar no centro dos planos de uma empresa; ou seja, guiadas por ele. Mas na hora de falar de um mega negócio que tem esse valor a partir da relação construída, fala-se muito pouco do consumidor”

Cecília Russo, por sua vez, enfatiza a importância de manter o consumidor no centro dessas transformações, argumentando que “só constrói marca forte quem entende de gente”. O que nos remete a ideia de que há a necessidade de uma abordagem mais humana e centrada no cliente em meio às estratégias corporativas.

A marca do Sua Marca

A essência desse comentário reside na importância de colocar o consumidor no centro das decisões empresariais, especialmente em meio a fusões e aquisições que têm o potencial de alterar drasticamente o mercado. A transparência, a comunicação eficaz e a manutenção da essência de cada marca sob a nova estrutura corporativa são cruciais para mitigar as preocupações e especulações dos consumidores.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo, que trazem análises profundas e debates sobre os mais recentes fatos no mundo do branding e do marketing. A sonorização é do Paschoal Júnior:

Avalanche Tricolor: o que ganhamos nesta Quarta-feira de Cinzas?

Ypiranga 0x0 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim/RS

Gustavo Nunes em foto de Guilherme Testa/GREMIO FBPA

Quero ganhar sempre! Na vida e no futebol. Quero ganhar até no toss — como chamávamos antigamente o sorteio que acontece antes de a partida se iniciar para escolher “bola” ou “campo”. Jogar com o que houver de melhor disponível, portanto, será sempre minha opção. O fato, porém, é que minha única responsabilidade em relação ao clube pelo qual torço é de torcer, torcer e torcer. E torcer para ganhar! 

Quem precisa administrar o clube, gerenciar o elenco, planejar a temporada e selecionar prioridades não pode pensar como um torcedor. Sua responsabilidade é muito maior. Extrapola o resultado de uma partida de futebol. Tem de pensar a longo prazo. Fazer escolhas e identificar prioridades. 

Diante disso, não condeno a decisão do Grêmio e seus gestores para a partida da noite desta quarta-feira, em Erechim, cidade que fica há cerca de 370 quilômetros de Porto Alegre. De ônibus, uma viagem com mais de cinco horas de duração. Um desgaste físico que não condiz com a prioridade do resultado na oitava rodada do Campeonato Gaúcho. 

Considerando o que nos interessa em 2024 e o próprio regulamento da competição que disputamos, que classifica os oito primeiros colocados de 12 participantes à fase seguinte, manter o time principal retomando o fôlego e treinando por mais tempo, em Porto Alegre, faz todo o sentido. 

Ao torcedor que quer ver seus principais jogadores em campo e vencer sempre e a todo custo, resta ter paciência. Esperar os momentos decisivos para cobrar desempenho mais apurado, esforço redobrado e resultados condizentes com a história do clube. 

Foi, assim, com complacência que assisti à disputa desta Quarta-feira de Cinzas, no Colosso da Lagoa. E, apesar de mais um empate, que nos mantém na segunda colocação do campeonato e invictos a sete jogos, saí da partida com a expectativa de que a “maquininha” de fabricar ponteiros esquerdos segue ativa pelos lados de Humaitá. Depois de Pedro Rocha, Everton, Pepê e Ferreirinha, fomos apresentados a Gustavo Nunes. 

O atacante tem apenas 18 anos, nasceu no litoral paulista, e chegou no clube em 2021. Foi destaque no ano seguinte na campanha de finalista do Grêmio no Campeonato Brasileiro Sub-17. Em 2023, conquistou o Campeonato Gaúcho Sub-20. Fez sucesso na Copa São Paulo de futebol júnior, em 2024, com três gols e duas assistências em seis partidas disputadas. 

No jogo passado, partiu dos pés dele a assistência para o gol de empate do Grêmio. Hoje, só deu Gustavo Nunes: encarou a marcação forte, demonstrou habilidade no trato da bola e se impôs aos adversários com velocidade. Mais não fez porque estava cercado de colegas que estão aquém do seu futebol, sem contar a nítida falta de entrosamento.

Saímos de Erechim com apenas um ponto a mais na tabela de classificação, e a esperança de que ganhamos mais um atacante. E eu quero ganhar sempre! 

Avalanche Tricolor: tributo ao Seu Ênio

Grêmio 1×0 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre.RS 

Era bem cedo ainda quando uma mensagem em rede social me fez o coração apertar. Era o perfil do Grêmio, no Instagram, celebrando o aniversário de Ênio Andrade. Lembrar dele é sempre um instante de alegria tanto quanto de saudades. Seu Ênio foi campeão como jogador e um dos técnicos mais vencedores do futebol brasileiro. No particular, foi das pessoas mais influentes na minha adolescência. Falei dessa minha admiração e respeito em Avalanche de 2014:

A experiência mais gratificante que tive com um técnico de futebol foi com Ênio Andrade quando, pela primeira vez, treinou o Grêmio, em 1975. Anos difíceis aqueles, nos quais o título gaúcho era quase uma utopia e sequer tínhamos direito de sonhar com o Brasil ou o Mundo, apesar de já estar escrito pelo destino que haveríamos de conquistá-los. Foi, por sinal, o próprio Ênio quem abriu caminho para essas vitórias quando voltou a ser nosso treinador nos anos de 1980, mas este foi outro momento da nossa vida como torcedor. 

Seu Ênio, como sempre respeitosamente o chamei, foi muito mais do que o técnico do meu time de coração. Adotei-o como padrinho pelo carinho que sempre teve comigo desde que fui apresentado a ele por meu pai, Milton Ferretti Jung, que você, caro e raro leitor, conhece muito bem. 

Além de acompanhar a todos os treinos do Grêmio ao lado do gramado, tinha o privilégio de assistir às conversas que eles travavam ao fim dos trabalhos em uma mesa que lhes era reservada na cozinha do bar que funcionava dentro do estádio Olímpico. 

Aprendi muito sobre futebol naqueles tempos e não apenas sobre estratégias em campo, mas do jogo de tramoias e injustiças que se desenrola na maioria das vezes distante dos olhos do torcedor. 

Convidado por ele, me travesti de gandula para funcionar como “pombo-correio” do técnico que, na época, não podia sair da casamata, como era chamado o banco de reservas. Seu Ênio me passava as instruções e eu corria até atrás do gol gremista para transmiti-las ao goleiro Picasso. Inúmeras vezes, percebia que a orientação tinha um sentido e jogávamos a bola para o outro. 

O aprendizado mais importante se deu no campo pessoal: foi ele o responsável por me convencer de que eu seria muito mais honesto se procurasse meu pai para contar-lhe que havia rodado de ano na escola, notícia que eu relutava em anunciar, apesar de todos na família já saberem.

Honestidade, amizade, correção, companheirismo, criatividade, inteligência, e bom humor. Alguns dos muitos valores que Seu Ênio dividiu com todos que tivemos o privilégio de conviver com ele. Alguém que sempre fará falta ao futebol, ao Grêmio e ao meu coração. 

Na noite em que o Grêmio venceu e assumiu a liderança do Campeonato Gaúcho, mesmo tendo sofrido muito mais do que deveria, em sua casa, dedico esta Avalanche a Seu Ênio, um treinador e um ser humano que deveria ser referência a todos que vestem a nossa camisa.

Conte Sua História de São Paulo 470: a revolução das estudantes do Maria Imaculada

Maria Elisabete Fonseca Marun

Ouvinte da CBN

Loja Sears em foto publicado no site Os Anos 50

Eu morava na rua Amâncio de Carvalho, perto do ponto final do ônibus 48, linha Paraíso-Anhangabaú. Estudava no Colégio Maria Imaculada bem perto da Praça Osvaldo Cruz.

É na praça que começa a avenida mais famosa de São Paulo: a Paulista. Alguns saudosos podem contestar porque a Avenida São João também é um local muito admirado pelos paulistanos até em música.

A Osvaldo Cruz era uma linda praça onde havia a escultura de um índio com sua lança, pronto para pescar algum peixe do pequeno lago que ali existia. Muitas vezes, após as aulas, eu e minhas colegas chegávamos até perto da água para nos refrescar.

A grande novidade naquela região foi a inauguração da loja Sears Roebuck, onde hoje funciona o Shopping Paulista. Seu slogan era impactante: “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Sensacional! Tendo chegado em 1949, a Sears revolucionou o varejo na cidade.

O acontecimento gerou uma revolução na disciplina do Colégio Maria Imaculada. As alunas cabulavam as aulas para visitarem a Sears. No térreo, o cheiro de amendoim torrado e açucarado, rescendia pela loja.  Nenhuma de nós resistia a um pacote.

No andar inferior onde se vendia discos havia uma pequena cabine na qual se ouvia as novidades do Rock and Rool. Logo, as irmãs da escola proibiram que ouvíssemos aquele ritmo. As freiras nos seguiam e éramos obrigadas a ouvir reprimendas em plena loja. Assim que elas apareciam, era um correria só para fugir da punição que seria certa.

O Maria Imaculada ainda está lá. Hoje atende meninas e meninos. A Sears, o cheirinho de amendoim, os produtos que ficavam a mostra e a música dos discos  permanecem na minha memória.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Bete Marum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva a sua história de São Paulo e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Avalanche Tricolor: dia de festa

Grêmio 4×1 São José

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.

Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.

Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez. 

Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque. 

Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.

O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo. 

Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico,  comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”. 

Conte Sua História de São Paulo 470: lições de meu pai pelas ruas da cidade

Álvaro Gomes Severino

Ouvinte da CBN

Foto de Kaique Rocha

Em novembro de 1978, nasci em Jacareí, embora meus pais vivessem na capital paulista. Cresci no Ipiranga, ouvindo histórias do meu pai, um “menino de rua, sozinho no mundo”, como ele dizia. Cuja vida por São Paulo inspirou meu amor pela cidade.

Minha infância foi marcada por travessuras a caminho da escola na Praça Pinheiro da Cunha. No trajeto, andava por cima do muro mesmo sob a reprimenda de minha mãe.

Aos sete anos, iniciei a escola Teotônio Alves Pereira, lembrando sempre da tia Helenice, minha primeira professora.

Brincadeiras de rua, carrinho de rolimã e passeios de bicicleta pelo parque da independência faziam parte do meu dia-a-dia.

Na pré-adolescência, trabalhei com meu pai, entregando encomendas pela cidade, o que fortaleceu meu amor por São Paulo. Aprendi a navegar pela metrópole com um guia detalhado, antes da era do GPS. Os fins de semana eram reservados para os bailinhos, onde a moda era calça baggy, blaser com ombreiras e tênis.

Com a mudança dos meus pais para o sul de Minas nos anos 90, fiquei a 190km de São Paulo. Hoje, como marceneiro, visito a cidade frequentemente, relembrando os lugares da minha infância com carinho e nostalgia. Para mim, São Paulo não é apenas uma cidade, é o lugar que definiu minha felicidade e orgulho, a capital do meu coração.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Álvaro Gomes Severino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi inspirado na história contada pelo Álvaro. Agora, eu quero ouvir a sua história de São Paulo. Escreva e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo 470: o Ipiranga que nos uniu

Alex Albergaria 

Ouvinte da CBN

Foto de Manoel Junior

Essa história começou em São Paulo e muitos anos depois atravessou o mundo e promoveu um encontro improvável. Nasci numa maternidade no Ipiranga e desde criança morei na região. O recém reformado Museu do Ipiranga foi parte da minha infância. Aos fins de semana, eu e meus amigos fazíamos corrida de carrinho de rolimã na descida que liga os dois extremos do parque, brincávamos de pega-pega por entre as árvores que cercam a Casa do Grito e pelos jardins de estilo francês, que sempre atraíram turistas. 

Aos 18 anos, me mudei a trabalho para o Japão. Foi onde passei a praticar snowboard. Um dia, convidado por um amigo, me juntei a um grupo para visitar a uma pista de esqui famosa a umas quatro horas de carro de onde morávamos. No grupo uma garota chamou minha atenção. Apesar de ser a primeira vez que eu a via, tive a sensação de que a conhecia. Nas conversas descobri que ela também era brasileira. Descobri que éramos de São Paulo. Havíamos morado no Ipiranga e nascidos na mesma maternidade.

O destino nos uniu no Japão. Nos casamos. E voltamos para o Brasil. Perdi a conta de quantas vezes estive com nossos três filhos no Parque da Independência: andamos de skate, jogamos bola, escorregamos nos corrimãos gigantescos de mármore, observamos os macacos e pássaros que moram na mata, ao fundo do Museu. 

Hoje, estamos novamente no Japão. As crianças já não são tão crianças. Têm uma vida bem diferente aqui em Yokohama. Mas cresceram com as memórias do parque e do museu do Ipiranga que seguem  vivas em suas mentes.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Alex Albergaria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: que baita saudade de ti!

Caxias 2×1 Grêmio

Gaúcho – Centenário, Caxias do Sul/RS

A bela foto de Lucas Uebel/GremioFBPA registra o gol de Gustavo Martins

Foram 44 dias desde a última vez que vi o Grêmio jogar. Que jogo! Lembra? Impossível esquecer: foi a despedida de Suárez, que marcou dois gols no Maracanã, na vitória sobre o campeão da Libertadores. 

Desde lá, a  bola só rolou em campos alheios e por aqui deu espaço para o irritante jogo das especulações. Vende um, contrata outro e negocia com um terceiro. O torcedor se ilude com a promessa do craque, se decepciona com a transferência do ídolo e tem pouco a comemorar com renovações de contrato nem sempre inspiradoras.

Ao mesmo tempo, o coração, acostumado ao sofrimento do jogo jogado, dói pela ausência do futebol de verdade. Como se sofresse com a abstinência da adrenalina que somente nosso time é capaz de nos fornecer. A ansiedade faz tabelinha com a saudade. E as duas dominam o peito e a mente do apaixonado que somos.

Até que o árbitro trila o apito e a bola começa a rolar novamente. O Campeonato Gaúcho começa. E começa em um dos estádios mais tradicionais do interior. O Centenário, palco de pelejas das mais duras e emocionantes já disputadas no Sul do País, oferece à vizinhança vista privilegiada, em camarotes improvisados nos telhados das casas, e aos torcedores, arquibancada de cimento, contrastando com as arenas do Campeonato Brasileiro.

Fiz alguns jogos na Serra Gaúcha, em um tempo no qual os repórteres de rádio tinham acesso ao gramado e correr atrás do craque do jogo era obrigação ao fim da partida — não existia essa coisa de assessor de imprensa escolher quem vai falar e entrevista com palco cheio de patrocinadores. Sinto saudade daqueles momentos, o que não significa que queira voltar.

Foi com saudade e sem pretensão que me sentei à frente da TV para assistir à transmissão do jogo desta tarde de sábado. Sei que o Grêmio está apenas iniciando a temporada. A reapresentação foi há 12 dias e tem jogador com a perna dura para correr — tem também os pernas de pau que nunca vão aprender. A vontade é muito maior do que o fôlego e o que a cabeça pensa nem sempre o corpo é capaz de executar. 

Para minha surpresa foram necessários apenas seis minutos para matar a saudade do grito de gol, que surgiu em um cruzamento após cobrança de escanteio e no cabeceio de Gustavo Martins, zagueiro jovem e uma das boas promessas para a temporada. A lastimar que foi aquele o único gol que marcamos, insuficiente para impedir uma derrota logo na abertura da competição.

Para os saudosos, como eu, de um ponteiro esquerdo driblador e atrevido, o recém-chegado Soteldo deu sinais de que poderá ser um dos pontos fortes do time na temporada. O venezuelano de pernas pequenas e ágeis passou com facilidade por seus marcadores – perdão, pelo tanto que apanhou não foi tão fácil assim. Fiquei com a impressão de que não nos fará sentir saudades dos ponteiros que se foram. Mas é melhor não se precipitar.

Contemporizando as ausências no time e as lacunas no elenco; o pouco tempo de treino e a preparação física precária; a falta de entrosamento e a carência tática de início de temporada; ao fim dos 90 e tantos minutos, uma última saudade ainda permanecia em mim. Uma saudade que jamais serei capaz de deixar para trás: a de Luis Suárez. Que baita saudade de ti!