Conte Sua História de São Paulo: escolas de datilografia e bondes de teto de linóleo, eu vi

Rubens Cano de Medeiros

Ouvinte CBN

Foto: Mílton Jung

Por volta de 1960. Tenho treze anos. Mas não lembro se São Paulo já dispunha de supermercados – ao menos o pioneiro Peg-Pag, na Vila Mariana. Perto do Cine Phenix. Não faltavam mercearias, empórios ou quitandas, onde – tal qual em padarias, bares e botecos – uma plaquinha alertava. “FIADO? Quando o Corinthians for campeão”. Durou até 1977, sabemos. Osvaldo Brandão tirou as plaquinhas, das paredes.

Num incerto dia – quase noitinha, lembro – subi a escada de cimento e granilito do sobradão, ainda hoje em pé. Dobrando a esquina toda, Domingos de Morais com Rodrigues Alves, grandão! À frente do então lindo Largo Dona Ana Rosa, que mantinha resquícios, ainda, de footing… Ali, um entroncamento de trilhos e fios. Dos bondes; uns iam até São Judas; outros, até Santo Amaro. Mais um: Vila Clementino.

Então, eis-me no amplo salão de grandes janelas, onde ouvíamos o “tec-tetec”, típico, dos teclados da Escola de Datilografia Rodrigues Alves. Quando, inédita vez, meus olhos e minhas mãos acercaram-se pertinho de uma máquina de escrever – se lembro, hein! Uma Olivetti, meio esverdeada.

Aluno do curso, eu me sentava rente à janela. Donde podia ver – não antes visto – os bondes, de cima, que passavam. Algo me intrigava. Do chão, mal se notava. Era um revestimento escuro que recobria o bonde, exteriormente; todo o “teto” que suportava a alavanca de contato. Que seria “aquilo”? Perguntava-me, a mim. Alguém explicou. Era linóleo. Imensa lona que impermeabilizava o teto de madeira, do bonde, ante a intempérie. Igual aos tetos dos carros de passageiros da Santos-a-Jundiaí. Que podíamos ver na Luz, das passarelas sobre as plataformas. Jornais antigos mostram que ônibus paulistanos, de até os anos 40, também traziam revestimento de linóleo – um charme que carrocerias metálicas dispensaram, obviamente.

Todos sabem. A datilografia, a das máquinas, morreu, não? De atestado emitido – ironicamente – pela própria causa-mortis: e-mail! Digitar, no computador, eu? Não morro de amores. Sempre adorei da-ti-lo…grafar! Tanto que – inviável, descabido e anacrônico, sei bem, mas…

Deparasse eu, num jornal, com um fantasmagórico anúncio… Exatamente assim: “PRECISA-SE DE DATILÓGRAFO”, ah… Precisa-se, é? Algum rascunho de escritorinho, de fundo de corredor? Uma portinha só, uma tosca escrivaninha – puxa vida! – com uma autêntica Remington-Rand? Caramba!

Ei! Eô, eô: me chama, que eu “vô”!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quem são as celebridades com maior índice de conexão com as marcas?

Iza é a celebridade que teve maior conexão com marca Foto: Alex Santana/Divulgação

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“Tudo acontece num espaço escuro e úmido de 1 cm cúbico na cabeça dos consumidores. Entenda o que se passa aí dentro antes de sair por aí investindo”

Jaime Troiano

A relação entre marcas e celebridades segue sendo um ponto de discussão entre anunciantes e empresas de comunicação, especialmente diante dos desafios impostos pelo excesso de informação que bombardeia o consumidor. No comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo, em “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso” o tema foi revisitado para abordar a eficácia dos investimentos em publicidade que envolvem famosos e influenciadores.

Jaime destacou o que os estudos chamam de “efeito clutter”, referindo-se à confusão causada pelo grande volume de estímulos que sobrecarregam o cérebro. “Estudos americanos de Princeton mostram que o nosso cérebro está naturalmente predisposto a ordenar o caos”, comentou Jaime, explicando que o excesso de informações visuais não só cansa a mente como também dificulta o foco nas mensagens que realmente importam. Nesse cenário, marcas e celebridades tentam estabelecer uma conexão em meio a essa sobrecarga de estímulos.

Cecília Russo, por sua vez, trouxe à tona os resultados de uma pesquisa que analisou a associação entre 28 celebridades brasileiras e as marcas que elas representam. Apesar de nomes amplamente conhecidos, como Fátima Bernardes (88%), Ivete Sangalo (87%) e Michel Teló (87%), os índices de conexão efetiva entre essas personalidades e as marcas ficaram bem abaixo do esperado. Cecília ressaltou: “Iza foi a celebridade com maior índice de correlação, alcançando apenas 21%, seguida por Marina Ruy Barbosa e Fátima Bernardes, ambas com 18%”. 

Conheça o TOP 5

Quais foram as celebridades que deram índices de conexão mais altos, entre 2.300 pessoas entrevistadas? 

  • Iza 21%
  •       Marina Ruy Barbosa 18%
  •       Fátima Bernardes 18%
  •       Tiago Leifert 17%
  •       Marcos Mion 16%

Esses números surpreendem, uma vez que tanto as marcas quanto as celebridades são muito conhecidas. No entanto, Cecília sugere que o ambiente de comunicação atual, “jorrando volumes muito grandes de mensagens”, pode estar prejudicando a capacidade do público de assimilar e fazer as conexões desejadas.

A marca do Sua Marca

A principal lição que emerge do comentário é que a popularidade de uma celebridade por si só não garante uma associação de sucesso com uma marca. Jaime Troiano alerta: “Não escolha uma celebridade só porque ela é conhecida ou porque o investimento parece atraente”. O verdadeiro desafio está em entender o funcionamento da mente do consumidor e como ele processa as mensagens em um ambiente saturado de informações.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Paschoal Júnior

Entre o luto e o ouro

As emoções se entrelaçaram de forma contraditória, nestes últimos dias. Fomos levados a extremos que desafiam nossa compreensão e nossa capacidade de reação. Na sexta-feira, uma tragédia se abateu sobre Vinhedo, no interior de São Paulo, onde um avião caiu, levando consigo as vidas de 62 pessoas. Naquele mesmo instante, estávamos tomados pela euforia dos Jogos Olímpicos de Paris. Acompanhávamos em êxtase o ouro conquistado pelas atletas brasileiras do vôlei de praia, Ana Patrícia e Duda; a prata do canoísta Isaquias Queiroz; e o bronze de Alison dos Santos, no atletismo.

Essa dualidade de sentimentos, de dor e de celebração, nos coloca diante de um desafio único, tanto para o público quanto para nós, jornalistas. Eu já estava fora do ar quando o acidente aéreo foi confirmado e acompanhei à distância a tentativa dos colegas na redação em equilibrar a cobertura de uma tragédia de proporções tão devastadoras com a exaltação de conquistas esportivas que simbolizam o esforço, a superação e o orgulho de uma nação. Como transmitir a dimensão de uma perda irreparável sem deixar de reconhecer o mérito e a felicidade daqueles que, após anos de dedicação, alcançaram o topo de suas carreiras?

O escritor e filósofo Albert Camus, em sua obra “O Mito de Sísifo”, explora a ideia do absurdo da existência, uma sensação que muitos de nós experimentamos quando confrontados com situações como essas. Camus argumenta que, mesmo diante do absurdo, o ser humano deve buscar significado e continuar sua jornada. Essa visão pode nos ajudar a entender que a celebração das conquistas olímpicas não diminui a gravidade da tragédia aérea, assim como o luto pelas vidas perdidas não deve obscurecer a alegria daqueles que alcançaram o sucesso. 

Da mesma forma, o filósofo Friedrich Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra”, explora a profundidade da existência humana e os extremos que vivenciamos, como a dor e a alegria. Nietzsche nos desafia a abraçar a vida em sua totalidade através do conceito do “eterno retorno”, que propõe que cada momento, seja de felicidade ou de sofrimento, deve ser vivido como se estivesse destinado a se repetir infinitamente. Essa ideia nos convida a aceitar a convivência desses sentimentos contrastantes e a encontrar uma forma de viver que permita honrar tanto a memória das vítimas quanto celebrar o triunfo dos atletas, sem arrependimentos.

O papel do jornalismo, nesse contexto, é justamente o de ser o mediador entre esses extremos, oferecendo ao público uma cobertura que respeite a gravidade da tragédia e, ao mesmo tempo, celebre os feitos daqueles que superaram limites para representar o país no cenário internacional. Não podemos permitir que a existência de um fato desmereça o outro. A dor e a alegria, o luto e a celebração, fazem parte da condição humana e, como tal, devem ser abordados com a devida sensibilidade e respeito.

Ao final, cabe a cada um de nós, como indivíduos e como sociedade, aprender a lidar com essa dualidade, reconhecendo que, apesar de estarmos imersos em uma realidade que nos apresenta cenários tão distintos, somos capazes de encontrar força para seguir em frente, carregando em nossos corações tanto as lágrimas da perda quanto as da vitória.

Avalanche Tricolor: Jeg er allerede illuderet!

Cuiabá 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Martin Braithwaite comemora gol, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

Diga o que você quiser! Lembre-me que o adversário não vencia há sete jogos em casa. Diga que enfrentamos um time que está naquela zona-que-você-sabe-qual-é. Grite que eles nunca ganharam da gente em toda a história do futebol e, no máximo, tinham arrancado um só empate contra nós em sete partidas disputadas. 

Eu já estou apaixonado! 

Nada do que você disser mudará minha percepção. O que assisti na Arena Pantanal, no início da noite deste sábado, me deslumbrou. A corrida em direção à bola, o tranco no zagueiro, a tomada de frente na jogada, o toque para o companheiro concluir a gol, aos 14 minutos de jogo, bastaram para eu acreditar que estava diante de um jogador que chegou para fazer história no Grêmio.

Claro que estou falando do dinamarquês Martin Braithwaite, que estreou  com a nossa camisa, neste 10 de agosto de 2024. O lance que descrevi foi o primeiro protagonizado por ele em campo. Depois disso, só maravilhas. Eu sei que teve o gol contra dele. Este, porém, além de uma fatalidade, serviu para escrever com perfeição sua primeira jornada do herói no Imortal Tricolor.

Aos 33 anos, o atacante saciou a fome de gol anunciada em sua primeira entrevista coletiva ao chegar ao clube. Antes de marcar, foi o responsável pela jogada que deu início à vitória. Tabelou com Edenílson e chutou na trave. No rebote, Gustavo Nunes conclui de cabeça.

Quando a partida estava empatada, no segundo tempo, e o adversário pressionava de forma preocupante, Braithwaite foi preciso no toque da bola em direção às redes, que colocou o Grêmio na frente mais uma vez. Que se faça justiça: o autor intelectual da jogada foi Miguel Monsalve. O colombiano driblou todos seus marcadores, entrou na área e deu o gol de presente para o centroavante. 

O terceiro gol gremista e o segundo de Braithwaite, porém, foi todo mérito dele. Após mais uma assistência de Cristaldo, primeiro venceu os defensores no jogo aéreo. Diante da defesa do goleiro, não se fez de rogado: de bate-pronto e com a perna esquerda, pegou o rebote e fulminou as redes. 

Forte, preciso, talentoso, insaciável e inteligente! Adjetivos que acompanharam Braithwaite do primeiro ao último ato nesta estreia, inspirando meu otimismo com tudo que vi em campo. Tenho certeza que a maior parte do torcedor gremista comunga deste mesmo sentimento neste instante. 

Sim, eu sei que é apenas o começo. Sei o que você está pensando, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Sei que vai repetir todos os argumentos descritos no primeiro parágrafo deste texto. Pode lembrar, falar e gritar. Diga o que quiser, mas eu já estou iludido ou, como se diz na língua de nosso craque, “jeg er allerede illuderet!”

Conte Sua História de São Paulo: desci na estação errada?

Por Pedro Galuchi

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

Próxima estação: Sé…

Desembarco pela esquerda…

Na esquina da Rua Direita

Repentina suspeita:

 

Desci na estação errada?

Viro-me pé ante pé

Vejo imagem desbotada

Da imensa catedral da fé

 

A praça perdeu a cor

Uma tristeza sem par

Não tem perfume de flor

Cheiro de miséria no ar

 

Sem perna estende a mão

Suplica qualquer esmola

Rastejantes pelo chão

Pivetes cheirando cola

 

Apertado o coração

Em instante me desespero

Retratos de solidão

Multiplicam-se no marco zero

 

A chegada do metrô

Levou antiga cena

Os escritórios de dotô

Teatro Santa Helena

  

Segundos de implosão

Sumiu o Mendes Caldeira

No meio da confusão

Vanzolini sem a carteira

 

Naquele aperto da Clóvis

Não há mais separação

Faço a prova dos noves

Dolorosa conclusão

 

Desvio dos passantes

Peço licença, por favor

Fujo às escadas rolantes

Entro no trem salvador

 

Próxima estação:

Nem presto atenção

Anhangabaú… São Bento…

Pedro Segundo… Liberdade…

 

O sentido tanto faz…

Dentro do túnel o sentimento:

A velha Sé ficou pra trás

Apenas uma saudade!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Pedro Galuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: com tecnologia de identidade racial, a Diversidade.io gera oportunidades a afroempreendedores, diz Marcelo Arruda

Marcelo Arruda nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto: Letícia Valente

“A gente tem que falar a verdade, que vai ser mais difícil e isso faz parte da resiliência para quebrar padrões, para quebrar muros, mas é possível. E eu tenho certeza que o talento no final vai achar o seu espaço.”

Marcelo Arruda

Imagine um cenário onde 15 milhões de empresas de afroempreendedores representam uma massa de 60 milhões de brasileiros com uma demanda reprimida. Este é o mercado que a Diversidade.io, plataforma criada por Marcelo Arruda, busca explorar e conectar com grandes empresas interessadas em investir na diversidade e inclusão. 

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Marcelo falou dos desafios que enfrentou em sua carreira como executivo e de como essas experiências o levaram a encontrar soluções que tornasse o mercado de trabalho mais acessível a diversos públicos.

“Para as pessoas que são de qualquer recorte da diversidade e que hoje às vezes podem se limitar, achando que por pertencer a um recorte, eles não vão ter oportunidades, eles vão sim”, afirmou Marcelo.

Diversidade como oportunidade de negócio

O executivo destacou que as empresas estão percebendo a diversidade não como um ato de caridade ou filantropia, mas como uma oportunidade de negócio. “Investindo em quem tem potencial, as empresas podem crescer suas vendas e suas margens,” explicou ele. Essa perspectiva reforça a importância de criar um ambiente de negócios inclusivo e diversificado, onde todos têm a oportunidade de prosperar.

Para isso, a Diversidade.io utiliza tecnologia avançada para conectar afroempreendedores a grandes empresas, facilitando o processo de inclusão e promovendo a equidade. A plataforma oferece uma solução escalonável que pode ser aplicada tanto em nível nacional quanto internacional, identificando fornecedores pela atividade que exercem e pelo local onde estão.

Tecnologia e reconhecimento racial

Um dos desafios mencionados por Marcelo é garantir que os processos de inclusão sejam justos e efetivos. Para enfrentar essa questão, a Diversidade.io desenvolveu uma ferramenta de machine learning para reconhecimento, que ajuda a validar a identidade racial dos empreendedores. “Nossa ferramenta trabalha com uma base de 70 mil fotos e oferece uma segurança na informação que passamos para quem nos contrata,” explicou Marcelo.

Essa inovação foi apresentada em Nova York e recebeu elogios por sua capacidade de garantir a diversidade real entre os fornecedores. “Estamos preparando um ambiente seguro para que o empreendedor da diversidade possa florescer,” acrescentou ele.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: de volta!

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul/RS

Matías Arezo está chegando e fez diferença. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estava de malas prontas e nos preparativos para o retorno ao Brasil quando o Grêmio entrara em campo para uma partida fundamental diante das suas pretensões de deixar aquela zona-que-você-sabe-qual-é, e voltar a disputar de verdade o Campeonato Brasileiro. 

Precisei contar com conexões nem sempre seguras de internet e sinais de vídeo claudicantes no meu caminho até o aeroporto de Curaçao de onde partiria para o Panamá, para acompanhar em “tempo real” o nosso desempenho. A demora na atualização das informações e das imagens colaboraram bastante com a ansiedade de quem estava a espera de um resultado positivo, assim como eu e toda a torcida gremista.

O Centenário lotado sinalizava que os torcedores haviam aceitado o desafio feito pelo time, especialmente após a entrevista coletiva da sexta-feira que colocou os dois maiores ídolos da atualidade, Geromel e Kannemann, ao lado de Renato, que é o maior deles, goste-se ou não de sua forma de falar, treinar e escalar a equipe. A impressão que fiquei, desde que a bola começou a rolar, é que a entrega dos jogadores também estava sintonizada com o apoio das arquibancadas. Digo impressão porque seria injusta uma análise mais aprofundada com base no que lia nos sites que atualizam as informações do jogo e os rompantes de imagens que recebia no meu celular.

(em tempo: avise às marcas que patrocinam as transmissões que é irritante ter de esperá-las se apresentar até podermos pular o anúncio toda vez que precisamos reconectar)

Dava para perceber o esforço em fazer a bola chegar ao ataque e de reduzir ao máximo os riscos impostos pelo adversário com uma marcação forte. A falta de precisão nos chutes, porém, impedia que o domínio em campo se traduzisse em gols – este maldito gol que teima em não sair na quantidade necessária para nos dar um respiro no campeonato.

As estatísticas eram gritantes: dez chutes a gol contra apenas dois do adversário, muito mais escanteios, passes trocados e posse de bola a nosso favor. Mesmo assim terminamos o primeiro tempo no zero a zero e levamos para o vestiário o temor de que o roteiro das últimas partidas se repetiria.

Eu já despachara as malas, quando o segundo tempo havia se iniciado e o que mais buscávamos nessa partida começava a se construir. A visão de jogo de Edenílson deu início a jogada que terminaria nos pés de Soteldo, que driblou duas vezes seus marcadores para chutar de dentro da área. Pouco me importou o sinal da internet deixar a imagem travada ainda antes do chute do venezuelano. Ver o 1 a 0 no placar do APP de esportes era o suficiente aquela altura.

Enquanto apresentava o passaporte no setor de  imigração e submetia as malas ao escaner da fiscalização, minha única preocupação era que o Grêmio, lá em Caxias, não deixasse nenhuma bola passar pela nossa defesa. Pelo que ouvi dos críticos, Rodrigo Ely e Geromel — que entrou ainda no início da partida devido a lesão de Kannemann — deram conta do recado.

A caminho do embarque, minha torcida era só pelo apito final. O um a zero seria o suficiente nesta altura da viagem. Fosse meio a zero, comemoraria igual os necessários três pontos ganhos. Tudo que queria era a vitória de volta. O árbitro, então, resolveu esticar a partida por mais cinco minutos. E o sofrimento pelo tempo estendido foi compensado: o sinal de WI-FI de uma sala VIP me permitiu assistir à jogada que culminaria no pênalti.

Claro que a cobrança de Reinaldo, de pé esquerdo, forte e no alto, me fez vibrar. Mas o que mais me fez feliz no lance, foi ver a presença de Matías Arezo dentro da área. O jovem atacante, que chegou nestes dias e mal desfez as suas malas, recebeu a bola e girou com velocidade em direção ao gol, levando o zagueiro a derrubá-lo. 

Sem ilusões, quero crer que tenhamos encontrado um jogador que sabe o que significa ser um número 9. E o lance tenha sido a primeira escala de uma longa e ótima viagem do uruguaio com a camisa do Grêmio. 

Dito isso, deseje-me boa viagem, também, porque assim como a vitória, eu estou voltando!

Avalanche Tricolores: a esperança tem limites

Grêmio 2×2 Palmeiras

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Sinceridade? A expectativa era zero. A esperança, essa, sim, sempre bate forte no ritmo de nosso coração e não me falta. Esperança que se fortaleceu no serelepe Gustavo Nunes, que serviu Pavón para abrir o placar em pouco mais de dois minutos de partida. 

Esperança era o que movia nossos defensores, a cada ataque adversário. De que o drible saísse errado, de que o passe fosse desviado, de que nos anteciparíamos a cada jogada e, se nada disso funcionasse, que Deus nos salvasse. 

Rodrigo Ely e Kannemann juntos levaram nossa esperança ao extremo, enquanto estiveram lado a lado no gramado. Marchesin também se encheu deste sentimento nas bolas que desviou com o olhar, e nas que, com agilidade, impediu de entrar. 

Quando parecíamos perder força, a esperança voltou a jogar. Nos proporcionou um pênalti que, até hoje, só aceito comemorar após ver o gol no placar. Com a bola de um lado e o goleiro de outro, Cristaldo me fez sonhar. 

Mas houve quem quisesse esgarçar nossa esperança. E acreditar em alguém que sequer acredita em si mesmo. 

Diante das escolhas de nosso treinador, só esperançar não é suficiente. Às vezes, por mais que a torcida acredite, que os cânticos ecoem pelo estádio, a realidade se impõe. Há limites para a esperança, e eles são traçados pelo esforço, pela preparação e pela competência. Pune quem detém a prepotência de desafiá-la.

Não se pode esperar vitória eterna se não houver dedicação e melhoria constante. A esperança pode nos levar longe, mas não pode nos carregar sozinha até o final.

Avalanche Tricolor: saudade de ti!

Grêmio 1×0 Fluminense

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul/RS

Gustavo Nunes abraçado pelo time no gol da vitórai. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estávamos de volta ao Rio Grande do Sul. Ainda não era a nossa Arena, mas era a nossa gente. Não que nossa gente tenha nos faltado nestas duras semanas que o futebol nos proporcionou. Esteve presente em especial no Couto Pereira, em Curitiba, casa que adotamos diante da condição de desalojados que as enchentes nos impuseram. 

Não era na Arena, mas já era no Rio Grande. E no Rio Grande raiz. Do interior. Com campo maltratado, grama rala e bola quicando desgovernada. Para o clima ficar ainda mais apropriado, os termômetros marcavam aquém dos 10 graus. Tiveram de levar aquecedor a gás para o vestiário, enrolar-se em cobertor na casamata e vestir luvas. Aquele Rio Grande que nos forjou campeões do mundo.

Foi neste ambiente que conquistamos nossa primeira vitória nas últimas oito rodadas no Campeonato Brasileiro. A última vez que havíamos vencido na competição ainda estávamos no mês de abril, período pré-diluviano. De lá para cá havíamos somado seis derrotas e um empate, o que nos colocou naquela zona … aquela-que-não-deve-ser-nomeada.

Contra um adversário tradicional e ferido como nós, diante dos maus resultados, vencer era preciso. E o Grêmio venceu. Antes de chegar à vitória, mostrou intensidade na marcação, roubou bola no meio de campo, movimentou-se pelos dois lados e se aproximou da área. A carestia de centroavante, porém, seguia nos punindo. Mesmo quando estávamos perto do gol, a falta de cacoete, às vezes de tranquilidade e às vezes de talento, nos levavam a desperdiçar os ataques.

Tínhamos a impressão de que novamente seríamos punidos pelo pecado de não termos um centroavante de ofício. Até que no momento mais improvável, já no segundo tempo, em que o adversário começava a se assanhar, um jogada pelo lado direito nos fez chegar ao gol. 

Pavón, que se fez presente na maior parte dos nossos ataques, apesar da imprecisão nos chutes, deu um passe precioso para João Pedro, ala que tem se revelado um dos melhores e mais equilibrados jogadores do Grêmio. Da linha de fundo, onde recebeu a bola, João Pedro cruzou para a entrada da pequena área. Havia cinco jogadores gremistas entrando para atacar o gol. Gustavo Nunes foi quem aproveitou a oportunidade e estufou a rede com um chute de primeira. Gol merecido para um guri que tem mostrado futebol qualificado e muito superior a maioria de seus colegas.

Desde a semana passada quando empatamos no Brasileiro, tenho a impressão de que a sorte está se amasiando com o Grêmio. Em tempos recentes, chutes como o de Gustavo Nunes se espraiavam para o alto e além. Na melhor das hipóteses encontrariam o travessão. Desta vez, não. Foi certeiro. No ângulo. Gol! Gol da vitória, porque dali para a frente, contamos com a imposição da nossa defesa e marcação que impediram qualquer risco maior. O que, convenhamos, foi outro mérito que nos diferenciou das partidas anteriores.

Na tarde desse domingo, matamos a saudade do Rio Grande. Mas saudade mesmo eu estava sentido é de ti, vitória!

Conte Sua História de São Paulo: “na terra da garoa namorei, escrevi, descansei …”

Por Wilson Jesus Thomaz Dutra
Ouvinte da CBN

Photo by Caio on Pexels.com

Na minha infância querida:

Na terra da garoa vi e colhi 

chá, café, goiabas, ameixas… Delicias!

Brinquei de pega-pega, esconde-esconde, 

taco, futebol, carrinho de rolimã … Alegrias!

Estudei o primário, ginásio,

científico, faculdade… Maravilhas!

Na minha juventude querida:

Na terra da garoa trabalhei 

Na indústria, comércio, banco… Labutas!

Namorei garotas brancas, 

negras, orientais… Beldades!

Na minha velhice querida:

Na terra da garoa namorei, escrevi, 

descansei e espero morrer… Infinito!

Isto meus irmãos paulistanos 

é a minha São Paulo querida! 

Terra que proporcionou tudo isso 

a mim e a muitos outros! 

Hoje, vejo-a arruinada! 

Com uma infância sem alegria, 

parte da juventude se drogando, 

e da velhice sem sonhos e lugares para descanso e morrer

Portanto, peço a todos, que façamos uma corrente de orações,

para que os nossos governantes cuidem melhor de nossa cidade querida! 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Wilson Jesus Thomaz Dutra é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.