Avalanche Tricolor: a essência de ser gremista

 

Grêmio 2 x 1 Joinville
Brasileiro – Arena Grêmio

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Só quem não é gremista ou esqueceu o que é ser, imaginava que após duas vitórias retumbantes no Campeonato Brasileiro, teríamos um resultado tranquilo apenas porque estávamos diante de nossa torcida e enfrentávamos um time da zona de rebaixamento. Sem dúvida, a goleada no clássico regional, domingo passado, e a conquista alcançada na casa do adversário, que disputa o título diretamente com a gente, na última quarta-feira, seriam motivos de sobra para acreditarmos que os três pontos desta rodada eram favas contadas. Perdão, mas o Grêmio não joga com a lógica do futebol. E o torcedor do Grêmio tem consciência disso. Se não o tem, está na hora de aprender a lição. Nascemos e escolhemos torcer por esse time porque o sofrimento nos torna maior, mais gremistas ainda.

 

Tudo bem, apesar dessa saga histórica que enfrentamos, não esperávamos um time tão apático no primeiro tempo. Tão distante daquele futebol que encantou nas últimas rodadas. Parecia queremos dar razão aos críticos que ainda põem em dúvida a qualidade técnica do Grêmio e a capacidade de disputar o título. Erramos o que não vínhamos errando ultimamente: na forma de marcar, de pressionar a saída de bola e de partir em velocidade. E deixamos de acertar o que foi nosso grande diferencial nas duas últimas vitórias: o passe.

 

Sei que agora é fácil escrever, mas se nada dava certo no primeiro tempo – nosso único mérito foi contar com a sorte – tinha esperança de que no vestiário as coisas se ajeitariam. Minha esperança era Roger. Têm falado muito das qualidades estratégicas dele e da maneira como conseguiu mudar a forma de jogarmos futebol e recuperou alguns jogadores que estavam desacreditados. Essa é uma obra que se realiza no cotidiano dos treinos e foi nele que ajustou a equipe, reposicionou jogadores e implantou o estilo moderno que vemos em campo. Hoje, porém, Roger foi colocado à prova, pois precisaria mudar o ânimo e o jogo nos poucos minutos que tinha entre o primeiro e o segundo tempos, no intervalo da partida. E conseguiu.

 

O Grêmio que voltou do vestiário foi o Grêmio que nos tem feito vibrar neste campeonato. Era um time completamente diferente já no primeiro minuto quando partiu para cima do adversário com força, velocidade e prudência. Curiosamente, nossa virada se deu por caminhos que não costumamos trilhar: na cobrança de escanteio, aproveitada por Erazo, e na de falta muito bem batida por Galhardo. “Fizeram gols de bola parada”, dirão alguns na tentativa de desmerecer nosso resultado. Ledo engano. Fizemos gols porque a equipe voltou para o segundo tempo convencida, por seu técnico, da qualidade e força que tem, e sabendo de que ambas somente fariam diferença se executadas à exaustão.

 

Daqui pra frente será sempre assim. Somos um dos times a serem batidos pelos adversários. A cada partida estaremos disputando uma decisão. É bem possível que algum revés apareça. Portanto, é bom que você esteja preparado, pois ainda haverá muito sofrimento até a conquista final. Essa é a essência de ser gremista!

Avalanche Tricolor: vitória nos pênaltis e sofrimento em família

 

Grêmio 1 (6) x 1 (5) Novo Hamburgo
Campeonato Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Foi um momento raro em família. Mulher e filhos costumam ficar distantes da televisão quando assisto aos jogos do Grêmio. Talvez tenham vergonha de me ver sofrer por causa de um time de futebol. Talvez tenham dó de me ver sofrer por causa de um time de futebol. Talvez tenham piedade de me ver sofrer por causa de um time de futebol.

 

Confesso que nunca tive coragem de perguntar para eles o que sentem quando me veem angustiado por causa de um time de futebol. Provavelmente porque ficaria constrangido em ouvir a resposta. Como pode alguém sofrer por causa de um time de futebol? Só você que torce por um time de futebol, como eu, saberia explicar. Só você que torce por um time de futebol, como eu, saberia me entender. Eu sofro. Sofro muito. E nesta noite sofri mais ainda.

 

A diferença do sofrimento de hoje é que eles estavam próximos de mim. Os meninos mais do que minha mulher. Ela suportou apenas até o fim do tempo normal. Os meninos ficaram até a cobrança de pênaltis, mesmo porque tinham os computadores para se distrair. Mas estavam mais atentos à televisão do que as atrações da internet. Torciam por Douglas e não entendiam como um cara com a técnica dele era capaz de cobrar um pênalti em um poste e uma falta no outro com tanta precisão. Curtiram o sorriso de Mamute que em meio tempo fez mais do que qualquer dos gringos que vestem nossa camisa, apanhou como sempre, provocou um pênalti, dois cartões amarelos e uma expulsão, além de colocar em risco o gol adversário por mais de uma vez.

 

Eles, até mais do que este casca dura, que já nos viu desperdiçar títulos nas cobranças de pênaltis com muito mais frequência do que gostaria, jamais deixaram de acreditar que o ídolo Marcelo Grohe resolveria tudo no fim das contas. Eu, com coração sofrido e tentando amenizar a dor de uma frustração, me contive o máximo possível. Fazer vexame na frente dos filhos não é legal. A pressão diante da bola na marca fatal – como diriam os locutores de antigamente -, porém me fez perder qualquer escrúpulo (nem sei se esta é a melhor palavra, mas foi a primeira que pensei neste momento). Esfreguei as mãos no rosto, rocei as unhas no couro cabeludo, soquei o sofá, disse palavras impronunciáveis e sofri desesperadamente diante da decisão da vaga às semifinais.

 

Claro que de nada valeriam as duas defesas incríveis de Marcelo Grohe se cada um dos nossos cobradores não tivessem feito o seu papel, inclusive Douglas que se redimiu ao marcar quando mais precisávamos. Mas que as duas defesas incríveis de Marcelo Grohe me levaram a vibrar como poucas vezes, não tenha dúvida. Vibrei na mesma dimensão que sofri. E após pular e comemorar a classificação à próxima fase do Campeonato Gaúcho – que convenhamos é conquista nenhuma – olhei para os meninos e fiquei envergonhado. Mas eles, solidários, souberam como sempre me mostrar que entendem muito bem minha paixão por um time de futebol, até porque este time é o Grêmio, o Imortal Tricolor.

 

Aos meninos (e a toda a família) que me compreendem e a Marcelo Grohe que nos salvou, agradeço pela noite de hoje.

 

A foto deste post é do álbum oficial do Grêmio no Flickr

A tragédia de Santa Maria

 

 

Leio que o som dos celulares dos mortos na tragédia de Santa Maria insistiam em tocar. Era o grito de desespero de parentes que à distância mantinham a esperança de ouvir filhos, netos, sobrinhos e amigos. Uma sinfonia macabra para quem recolhia os corpos. Na tela do telefone encontrado na roupa de um dos mortos, teria 140 ligações. O número estava identificado: “Mãe”. Quantas mães sofreram a espera de serem atendidas, na madrugada passada, no interior do Rio Grande do Sul?

 

Vi na TV meninas e meninos ainda com roupa de festa caminhando sem destino e chamando o nome de amigos que jamais encontrarão. Aquelas roupas não eram apropriadas para o ambiente de desastre, mesmo porque foram vestidas para a alegria. Impróprias como o sistema de segurança, a arquitetura do ambiente e a estratégia de fuga pelo que se ouviu até aqui.

 

Soube de uma menina que teria pedido socorro pelo Facebook, último acesso que teve com vida. Morreu antes de a ajuda chegar, mas sua imagem, o que pensa, curte e compartilha permanecerá eternizada na rede social. Seu perfil assim como o das mais de duas centenas de jovens mortos continuarão a provocar nossa tristeza até serem deletados. O que não apagaremos é a dor das famílias diretamente atingidas pela tragédia. Nem o drama de pais que assistem aos seus filhos saírem de casa para se divertir, sem saber qual armadilha está sendo armada para eles.

 

Li, vi, ouvi, soube tudo pelos outros, pois estava distante de Santa Maria. Mas sofri muito como pai. E temo que o sofrimento de todos não será suficiente para aprendermos com os acontecimentos na Boate Kiss. Haverá consternação, indignação, pedidos de justiça, processo aberto e investigação. Haverá missa de sétimo dia, um ano, dois, dez anos. Tempo suficiente para que novas boates e casas de espetáculo sejam abertas e funcionem sem alvará nem responsabilidade.

 

Até a próxima tragédia !

De olhos da alma

 


Por Maria Lucia Solla



Ouça ‘De olhos da alma’ na voz e sonorizado pela autora

Quanto sofrimento atinge o povo deste planeta azul! Portamos uma tarja preta no sorriso, o fogo do coração vive ameaçando apagar, e quando pensamos: agora a tristeza vai dar uma trégua e dar lugar à alegria, ela rodopia num volteio artístico, poético – que esses atributos a tristeza também tem – e nos atinge em cheio.

Uma vez, uns poucos nos exibem a dor, uns dias uns, outros dias outros; outra, é uma cidade inteira que morre e engole, no seu último suspiro, tudo o que sustentava; e nós acreditamos ser os donos da terra. Acreditamos que a tristeza, os golpes desferidos pela foice descontrolada da morte, que tudo isso vem de fora para dentro. Nos cremos mira de arma injusta; vítimas do outro, e continuamos nos afogando no mar das certezas de que: o que vem de fora é que me deixa triste, não é parte de mim e portanto me ameaça.

Mantemos os olhos da alma fechados e escancaramos os do corpo, cada um olhando para o próprio umbigo e puxando a corda na sua direção. De que adianta condenar o bullying nas escolas e continuar a praticar em todas as camadas sociais, todas as faixas etárias, o bullying analfabeto e o bullying diplomado; na rua, na família, no trabalho?

O ser humano está doente; muito doente. Apontamos os defeitos dos outros e implodimos sob o peso dos que tentamos esconder. Escondemos os sintomas, e morremos da doença. Há! Não há nada que a medicina moderna e avançada possa fazer, nada que a economia possa sanar, que a política possa forjar e os presidentes presidenciar. É trabalho de formiguinha, cada um começando a resolver os seus próprios problemas, por mais difíceis e impossíveis de resolver que possam parecer. É trabalho de coragem, abrir bem os olhos da alma e reconhecer o caminho a tomar, que pode ser diferente do meu, mas que é o teu caminho. É trabalho de coragem, olhar de frente os anseios e seguir o caminho que leva até eles. O caminho do meu equilíbrio é fundamental para o equilíbrio de todos.

Portanto, a arrumação começa dentro de casa, e não só quando vem visita. Que bom será quando reciclarmos o medo que nos faz agredir o outro, e colocá-lo em maus lençóis – para que ele caia e eu sobressaia; que bom quando transformarmos esse medo no querer a força que nasce da união; na amorosidade, no respeito, na generosidade.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

O sofrimento dos outros

 

 

Por Abigail Costa

Ouvi numa entrevista com uma médica:

– O sofrimento mais forte do doente não é o diagnóstico.

No começo, o recebimento da doença é compartilhado por todos. Famílias, amigos. Cada um querendo ajudar de um jeito. Vale a presença física, os telefonemas, os livros de auto-ajuda, a caixa de chocolates.

Mas numa doença crônica como o câncer, o tratamento é demorado, doloroso. Uma rotina entre idas e vindas ao hospital. Outras tantas em direção à clínica. Sem contar os tratamentos complementares. Sessões de yoga, acupuntura,  reik. Uma busca voraz pelo equilíbrio.

E, assim, todos os dias vão se passando. Os meses começando e terminando. Completa-se um ano. E os amigos e a família já não tão unidos como antes.

O sofrimento até então entre as pessoas próximas vai ganhando um isolamento natural.

A médica completa:

– Primeiro, a mulher perde o seio; depois os amigos e por fim o marido.

Confesso que isso me assustou. A pergunta é inevitável:

– Como deixar sozinha uma pessoa num momento tão sofrido ?

A resposta lógica me fez parar de culpá-los. O afastamento não é por maldade. Alguns enxergam no sofrimento dos outros o próprio sofrimento. E fogem.

Como dizer para sim mesmo: esse sofrimento eu não quero para mim.

Uma posição que dispensa julgamentos.

Abigail Costa é jornalista, escreve toda terça-feira aqui no blog e transcreve o que aprende nas conversas diárias com suas fontes de informação e conhecimento.