Não lugar: entre a exclusão subjetiva e a dor social

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Mulher idosa e pedestre
Imagem criada com IA

O termo “não lugar” designa espaços nos quais não predominam relações duradouras de identidade, memória e pertencimento. Em contraste com o lugar antropológico, constituído por relações sociais, acontecimentos históricos e referências compartilhadas, o não lugar caracteriza-se pela circulação, pelo trânsito e por interações predominantemente impessoais e temporárias. A expressão foi utilizada pelo antropólogo francês Marc Augé pela primeira vez em 1992, em seu livro Não lugares.

Aeroportos, autoestradas, hotéis, centros comerciais e determinados espaços de consumo são exemplos dessa condição. O não lugar, entretanto, não constitui uma categoria absoluta. Um mesmo espaço pode ser lugar para algumas pessoas e não lugar para outras, dependendo dos vínculos, significados e experiências que nele se estabelecem.

Essa compreensão desloca o olhar das características exclusivamente físicas do ambiente para as relações que se constroem entre pessoas, espaços e coletividades. As transformações decorrentes da globalização modificaram os modos de circular, permanecer e interagir, produzindo ambientes nos quais o indivíduo é frequentemente reconhecido por funções, códigos, documentos, contratos ou práticas de consumo.

Neles, é possível estar fisicamente presente sem, necessariamente, estabelecer vínculos de pertencimento, reconhecimento ou continuidade.

O envelhecimento passa a transformar a relação cotidiana com o espaço à medida que a mobilidade, a percepção, a autonomia, os ritmos de deslocamento e as possibilidades de participação social se modificam. Apesar disso, grande parte das cidades ainda é organizada a partir de referências associadas a um corpo considerado padrão: autônomo, produtivo, veloz e fisicamente capaz.

A partir do momento em que o ambiente não considera a diversidade dos corpos e de seus modos de experienciar a cidade, as barreiras deixam de ser exclusivamente físicas e passam a alcançar dimensões simbólicas, afetivas e sociais.



É nesse contexto que o não lugar pode ser compreendido também como uma experiência de não pertencimento. Uma calçada que dificulta a circulação, uma praça que não oferece condições adequadas de permanência, um transporte público pouco acessível ou um equipamento que desconsidera diferentes necessidades corporais podem transmitir, ainda que silenciosamente, que aquele espaço não foi pensado para determinado corpo.

A pessoa está presente, mas encontra dificuldades para reconhecer o ambiente como parte de sua experiência cotidiana e, sobretudo, para sentir-se reconhecida por ele.

Tal experiência torna-se significativa quando relacionada à solidão e ao isolamento social na velhice. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1 em cada 10 pessoas idosas vivencie solidão, enquanto 1 em cada 4 esteja socialmente isolada. Embora os conceitos não sejam equivalentes — a solidão corresponde à experiência subjetiva de insuficiência ou ausência de conexões significativas, enquanto o isolamento social se refere à reduzida frequência ou quantidade de relações e contatos sociais —, ambos podem ser agravados por condições que restringem a mobilidade, a convivência e a participação na vida coletiva.

É nesse ponto que a noção de dor social, discutida pela neurociência afetiva, amplia a compreensão dessa experiência. A dor social refere-se ao sofrimento associado à rejeição, à exclusão, à perda ou à ruptura de vínculos. Estudos baseados em evidências indicam que experiências dessa natureza envolvem circuitos relacionados ao processamento do sofrimento e da dor, incluindo regiões como o córtex cingulado anterior e a ínsula.

Contudo, isso não significa que a dor social e a dor física sejam neurologicamente equivalentes. Pesquisas posteriores demonstram que essa relação é mais complexa, embora sustentem a existência de mecanismos neurobiológicos associados ao sofrimento produzido pela desconexão social.

Sob essa perspectiva, o isolamento não pode ser compreendido apenas como ausência de companhia. Ele pode representar uma experiência prolongada de redução das oportunidades de encontro, participação e construção de vínculos.

A permanência dessas restrições pode repercutir sobre a qualidade de vida. Ambientes que reduzem a autonomia, dificultam a orientação, produzem insegurança ou limitam as oportunidades de convivência favorecem estados de tensão e vigilância. Quando essas condições se articulam à solidão, ao isolamento social e à perda de autonomia, contribuem para a manutenção de estressores ambientais e sociais, com repercussões sobre o bem-estar físico, psicológico e cognitivo.

O estresse, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma resposta individual, mas como fenômeno produzido na interação entre corpo, ambiente e contexto social.

Em oposição a essa experiência, o lugar pressupõe a possibilidade de estabelecer vínculos, reconhecer referências e construir relações de continuidade com a própria história. Para a pessoa que envelhece, isso significa poder circular, permanecer, descansar, encontrar outras pessoas, recordar, participar e sentir-se parte da vida cotidiana. Bancos, percursos legíveis, iluminação adequada, vegetação, referências visuais, diversidade de usos e espaços de convivência podem contribuir para essa experiência quando concebidos a partir das necessidades e dos modos de uso das pessoas.

A relação entre lugar, não lugar, dor social e corpo envelhecente evidencia que a qualidade de vida também se constitui nas relações entre pessoas e espaços. Pertencimento não significa apenas estar fisicamente presente, mas poder reconhecer-se no ambiente e ser reconhecido por ele.

Projetar para o envelhecimento, portanto, ultrapassa a eliminação de barreiras arquitetônicas. Implica criar condições espaciais para que diferentes corpos possam circular, permanecer, se encontrar, participar e estabelecer vínculos.

O desafio consiste, assim, em compreender a arquitetura e a cidade como estruturas relacionais.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Ciro escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando as marcas ajudam a transformar solidão em pertencimento

A solidão deixou de ser apenas uma experiência individual e passou a ser tratada como um problema social e de saúde pública. Essa transformação também coloca novas questões para empresas e marcas, como destacaram Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

A discussão parte de uma característica básica das relações humanas: quando consumimos, nem sempre procuramos apenas produtos ou serviços. Também buscamos reconhecimento, convivência e a sensação de pertencer a algum grupo.

É nesse espaço que, segundo Cecília, as marcas podem desempenhar um papel que vai além da venda. “A gente não busca apenas produtos quando a gente vai comprar, mas a gente busca também aquele espaço de reconhecimento, de pertencimento.”

Um exemplo está nos grupos de corrida organizados ou estimulados por marcas esportivas. As pessoas chegam interessadas em exercício, saúde ou desempenho, mas muitas permanecem pela convivência. Aos poucos, surgem amizades, hábitos compartilhados, formas de vestir e até um vocabulário próprio. A corrida deixa de ser apenas uma atividade individual e se transforma em experiência coletiva.

Para Cecília, essa convivência tem impacto direto na relação com as marcas. A publicidade pode ajudar a comunicar valores e reforçar uma identidade, mas a experiência compartilhada cria outro tipo de memória. “A memória afetiva nasce dessa convivência e a marca precisa estar nesses espaços e promover essa visão de viver em grupo.”

Autonomia não substitui conexão

Jaime Troiano chama a atenção para um paradoxo. Durante anos, empresas investiram para dar autonomia aos consumidores. Vieram caixas eletrônicos, aplicativos, autoatendimento e, mais recentemente, ferramentas baseadas em inteligência artificial. Ganhamos independência para resolver tarefas sem depender de outras pessoas. Isso não significa, porém, que tenhamos deixado de precisar das pessoas.

“Embora a gente adore a autonomia, a gente precisa, de alguma forma, de conexão para viver bem”, diz Jaime.

O Sesc aparece como exemplo dessa capacidade de promover encontros. Esporte, cultura, shows, viagens, cursos e oficinas são atividades oferecidas pela instituição, mas seu efeito vai além de cada serviço isoladamente. Esses espaços aproximam pessoas, estimulam relacionamentos e produzem memórias.

Jaime recorre à própria experiência para ilustrar essa relação. Durante dez anos, frequentou com a família a colônia de férias do Sesc em Bertioga, litoral paulista. Dali ficaram amizades e lembranças construídas pela convivência. Ele também cita a Osesp e a Sala São Paulo como espaços em que a experiência cultural é acompanhada pelo encontro com outras pessoas.

A questão para as marcas, portanto, não é substituir produtos por relacionamentos nem transformar empresas em responsáveis por resolver a solidão. É perceber que, ao lado da eficiência, da tecnologia e da autonomia, existe uma necessidade humana que nenhuma tela consegue eliminar por completo: a de estar com os outros.

A marca do Sua Marca

Preço e tecnologia podem ser reproduzidos pela concorrência. Relações, memórias e senso de pertencimento são mais difíceis de copiar. A principal marca deste comentário é justamente essa: empresas capazes de criar experiências que aproximem pessoas podem construir vínculos que ultrapassam a relação tradicional entre consumidor e produto. Quanto mais a tecnologia nos permite fazer tudo sozinhos, maior pode ser o valor de uma marca que nos dê bons motivos para estarmos juntos.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Carecemos de presença

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Khoa Võ no Pexels

Queria escrever um texto suave que falasse de esperança e prosperidade.

Queria escrever sobre meninos correndo livres pelas ruas e praças.

Sobre pessoas e abraços apertados. 

Mas há uma ausência de palavras.

O tempo, que antes parecia um aliado, agora nos escapa, nos confunde.

O presente, marcado por escassez de novidades, reforça em nossas memórias uma melancolia sorrateira, daquelas que precisamos vigiar para não enveredar.

É preciso um certo esforço para que o coração seja acalmado. É preciso um certo esforço para evitar que ele retenha feridas de uma face da realidade, ainda pouco conhecida.

Resistimos.  E pouco a pouco, com esperança tímida, imploramos ao futuro que se encarregue das mudanças que nos permitam sorrisos, afagos, encontros.

Somos equilibristas nessa tal linha da vida…

O que nos sustenta? Não estamos sós. 

Somos a somatória das pessoas que passam por nós. Por vezes, esquecidas ou distantes, mas nunca ausentes; porque de certo modo, carregamos cada uma dentro de nós.

Sua presença repercute em nossas crenças, medos e expectativas. Sua presença ressoa no olhar acolhedor, nas mãos que nos amparam ou nas palavras que nos encorajam.

Carecemos de presença.

Dessas que nos permitam percorrer um caminho que nos leve a encontrar um sentido e seguir com esperança.

Desejamos ser presença. 

Dessas que permitam ao outro percorrer um caminho mais feliz, com uma vida digna e um futuro melhor. 

Como diria Saint-Exupéry:

“O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Falando com as máquinas

 

Amazon-Alexa

 

Dia desses testei pela primeira vez o uso do sistema de voz para pedir orientação ao aplicativo de trânsito — parece incrível que o recurso esteja disponível há tanto tempo e eu continue a dedilhar os endereços onde pretendo chegar. É cultural. Mesmo a TV conectada que recebe comando de voz segue sendo acionada em casa pelo controle remoto. Sempre fiz assim. Nunca me senti confortável falando com uma máquina — ainda que tenha dedicado a vida a falar com um microfone.

 

Ao telefone, quando procuro o call center de algumas empresas, a máquina que me atende tenta disfarçar sua falta de humanidade. Se esforça para revelar intimidade que não existe entre nós. Faz perguntas com reticências, mas não me engana. É máquina como qualquer outra e minhas respostas saem em tom de constrangimento. Acho estranho.

 

Por outro lado, minha sobrinha americana mais nova já faz lição de casa com auxílio de uma assistente digital, para a qual faz perguntas ao deparar com uma dúvida ou pede música para acompanhá-la enquanto realiza os trabalhos escolares. Lá no país em que mora quase um quinto das casas têm assistentes de voz — logo ocuparão o cômodo das nossas casas aqui no Brasil, em grande escala, também, porém antes a maioria delas terá de falar em português.

 

As novas gerações estão aderindo muito rapidamente a esses equipamentos, talvez até em maior velocidade do que aderiram aos smartphones. Nós, migrantes digitais, também vamos nos acostumar com essa realidade. E o que para mim ainda é constrangimento ganhará ares de naturalidade.

 

Relatório da National Public Media, contou o Globo dia desses, mostra que a maior parte dos americanos usa os assistentes para ouvir música (60%), responder a uma pergunta (30%), contar uma piada (18%) —- convenhamos, que coisa mais sem graça —, falar sobre o clima (28%), ligar o rádio (13%) — esta eu gostei —, dar notícias (13%) e programar o alarme (13%).

 

Como em todos os avanços tecnológicos que impactam nossos hábitos é preciso cuidado — corremos o risco de criarmos filhos que falam mais com as máquinas do que com os pais. Ou com os amigos.

 

Aliás, já estamos fazendo isso — e o inimigo nas são as máquinas — como se percebe em reportagem da edição dominical de O Globo, na qual traduz texto da pesquisadora Rachel Simmons, publicado originalmente no Washington Post.

 

Segundo ela, estudo de uma empresa de saúde identificou que a turma mais velha do que minha sobrinha, jovens de 18 a 22 anos, forma a geração mais solitária de americanos.

 

Jovens solitários, que triste!

 

Apesar do uso constante de equipamentos eletrônicos — como celulares e assistentes digitais — , estes estão longe de serem os responsáveis pela solidão. O grande mal constatado é o excesso de tarefas na fase entre o fim do ensino médio e o período na universidade.

 

Com agenda repleta, eles e elas têm pouco tempo para o convívio — mesmo que estejam realizando trabalhos em grupo. Não conversam sobre a vida, têm de falar de compromissos.

 

Pesquisa de Calouros da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) de 2015, que inclui respostas de 150 mil estudantes em tempo integral de mais de 200 faculdades e universidades, mostrou que o número de alunos de primeiro ano que passavam 16 ou mais horas por semana com os amigos caiu pela metade em dez anos —- são apenas 18%.

 

Mesmo se a oportunidade de relaxar surge, ficam constrangidos, pois temem serem vistos como pessoas desocupadas, sem objetivo na vida. Sofrem pressão em casa, na escola, dos gestores e dos grupos sociais em que sobrevivem.

 

Se realmente decidirmos entregarmos nossos filhos mais novos à companhia de assistentes digitais, acreditando que preencheremos a lacuna de nossa ausência, é provável que os próximos estudos revelem crianças solitárias — menininhos e menininhas que deixarão de conversar amenidades, sequer saberão como olhar no olho do outro e incapazes de exercitar a generosidade.

 

Simmons escreve que “a capacidade de fazer amigos atrofia se não for usada”.

 

Precisamos de amigos para confidenciar nossas angústias e nossos filhos precisam de pais mais próximos e dispostos a conversar com eles sempre que forem “acessados” — com a mesma agilidade que as máquinas o fazem, mas com o amor que só os seres humanos são capazes de oferecer.

De vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

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quero dizer mas não consigo
quero entender mas não reconheço
a fala desenfreada
que corcoveia do avesso
nos meus ouvidos
e no meu coração

 

a vida com suas cores
aos meus olhos de repente
perde o sentido em dores
e me vejo no escuro
exalado pela falta de direção

 

então me isolo
para não contaminar
corações ainda puros
se é que ainda os há

 

no caos do meu interior
procuro consolo
e encontro tristeza e solidão
busco meu próprio colo
e choro

 

no dia seguinte decido
recuperar a alegria
reviro tudo
ponho a vida de ponta cabeça
cavoco cada canto de mim
e me perco
e imploro

 

a Deus uma chance
de reencontrar o caminho
para de novo abraçar a vida
que insiste em escapar
num esconde-esconde
sem fim

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De ilusão

Chove em São Paulo


Por Maria Lucia Solla

ilusão
quero esquecer por um tempo
quem acredito ser
quero não pensar
não ter que escolher
não ter que sofrer

quero me transformar agora
em todos em tudo
e deixar-me visitar
pela dor da perda da guerra do desamor
que revelam tanto horror

quero dar abrigo à solidão
que dividirá espaço com o amor
na mente e no coração

quero encarar tudo
com a mesma garra
todo dia
não quero mais
padecer por ninharia

quero que esse tempo de entrega
vá tomando cada vez
mais tempo do meu dia
para que um dia chegue
a tomar-me
todo o tempo

o dia em que eu contiver e for contida
por todos por tudo
adeus choramingar
à Vida
sem medo nem limite
vou me entregar

no dia em que eu vir claramente
o que hoje me horroriza quanto serpente
assumindo que tem morada em mim
desde sempre
de ontem de amanhã de agora
esse horror todo que vejo lá fora

então
a verdadeira compaixão
vai jorrar de mim
porque você
tão pecaminosamente quanto eu
tem travado contra a Vida
uma luta sem fim

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de comunicação e expressão. Escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung querendo ser tudo aquilo que já sabemos que é.