Por Pedro D’Alessio
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Teatro Municipal” de Pedro D’Alessio
Aquela agitada sessão de inauguração do, hoje, quase centenário THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO – a ser devidamente lembrada e comemorada, assim esperamos, em 2011, constitui um fato histórico que bem exemplifica a opção do paulistano pelo cultivo da “brasilidade”, com a clara intenção de, com isso, expressar sua identidade plural maior : “São Paulo não é, São Paulo são…”.
A sociedade paulistana resultou da integração de todas as raças e culturas do planeta. Em São Paulo se encontraram migrantes de todas as regiões do Brasil e imigrantes de todas as Nações do mundo. Por isso, a grande diversidade brasileira se expressa melhor em São Paulo, onde se ouviu o grito da Independência.
A cidade guarda, bem viva, a memória dos bandeirantes, que demarcaram e alargaram as fronteiras do Brasil. E, generosa, ainda recebe gente dos quatro cantos do mundo, por dezenas de gerações, há quase cinco séculos. A convivência de origens múltiplas explode na sua diversidade cultural e se identifica com as raízes da própria formação da Nação brasileira.
Em 12 de Setembro de 1911, São Paulo ganhou seu primeiro grande centro de eventos culturais, uma obra imponente e com profundo significado para afirmar a “vocação brasileira” da cidade: o Theatro Municipal.
Na época, a Comissão Oficial de Inauguração, encarregada de preparar a programação da estréia, decidiu contratar a companhia lírica do famoso barítono Titta Ruffo, que encenava “Hamlet”, de Ambroise Thomas, no teatro Colón de Buenos Aires. Tudo parecia muito adequado… O suntuoso THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO seria aberto com uma ópera inspirada em Shakespeare !!!
Porém, instalou-se uma grande celeuma, travaram-se discussões acirradas junto aos críticos, com protestos de intelectuais na imprensa e fortes pressões da Câmara Municipal : exigia-se dos organizadores que a programação da estréia contemplasse uma obra nacional !!! São Paulo não poderia inaugurar o “seu” Theatro Municipal com uma obra estrangeira…
A Comissão foi, então, obrigada a ceder diante da polêmica. E a programação foi aberta com a execução, pela orquestra, da protofonia para “O Guarani”, de Carlos Gomes. Com isso, retardou-se a programada apresentação de “Hamlet”, que nem conseguiu chegar ao seu final. Ademais, porque “a praga pegou…”. O espetáculo tinha sido contratado às pressas e os cenários não chegaram a tempo, ficando retidos no porto de Santos. A encenação de Shakespeare acabou ficando mesmo para o dia seguinte.
Era o prenúncio do temperamento “brasilianista” de São Paulo; Shakespeare fica para amanhã…
Assim se afirmava a “brasilidade paulistana”, vocação que se afirmou e intensificou até chegar à metrópole de São Paulo dos tempos atuais, capaz de oferecer aos seus visitantes a sensação mais completa de que, de fato, eles estão no Brasil.
O autor do Conte Sua História de São Paulo é Pedro D’Alessio. A sonorização é de Cláudio Antonio. Você participa, também, enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Conheça mais capítulos da nossa cidade no Blog do Milton Jung. Até lá